“Uma bela ilustração da riqueza e da variedade da reflexão sociológica no Brasil”
Da contracapa de Elisa Reis (Professora Titular da UFRJ/Academia Brasileira de Ciências)
Nota introdutória: Alerta de spoiler: existe teoria social no Brasil sim! Na verdade, tanta teorização de qualidade, em conexão com pesquisas empíricas variadas, que ela não caberia em um único livro. Nesse sentido, como a primeira de outras iniciativas, esta obra organizada por Fabricio Neves (UnB), Diogo Corrêa (UVV) e Gabriel Peters (UFPE) reúne contribuições conceituais de importantes autoras e autores brasileiros: uma amostra nada exaustiva, mas significativa e valiosa, da teoria social que se faz no Brasil. Abaixo, o Blog do Labemus publica a introdução conjunta dos organizadores e o índice de autoras e autores que colaboram com os capítulos do livro, que está disponível para pré-venda no site da Editora Telha.
Introdução: existe teoria social no Brasil?
Por Fabrício Neves, Diogo Corrêa e Gabriel Peters
Sim, existe. E o presente livro tenciona ser ele próprio um conjunto de evidências para tal resposta afirmativa.
Desde a consolidação institucional das ciências sociais no Brasil da segunda metade do século XX, a ideia de que a reflexão teórica e a pesquisa empírica têm de se alimentar reciprocamente é quase ponto pacífico entre pesquisadoras e pesquisadores no cenário tupiniquim. Por um lado, corporificando um ideal de rigor inerente ao trabalho científico, visto como tanto mais necessário em função da sua coexistência com narrativas jornalísticas e de senso comum voltadas às mesmas realidades coletivas, cientistas sociais brasileiros (lato sensu) se mostram especialmente reticentes frente aos riscos de uma teorização desligada dos controles empíricos da pesquisa. Por outro lado, como acontece em qualquer domínio cognitivo submetido ao que Bachelard chamava “a bipolaridade dos erros”, essa louvável fuga ao achismo irresponsável pode desembocar no erro reverso: sufocar certas ousadias inerentes à busca da originalidade intelectual.
Nesta terra que não é para principiantes, o equilíbrio entre rigor e inventividade, de alcance já tão difícil em si próprio, entrecruza-se ainda a outra fonte iniludível de desafios epistêmicos: a posição periférica da academia brasileira na circulação internacional de ideias sociocientíficas. Quando combinada à sua desvantagem estrutural em relação ao trânsito e ao impacto de trabalhos científico-sociais oriundos de centros hegemônicos, como os Estados Unidos e a França, a suspeita ante o excesso de audácia teórica periga funcionar como suporte de uma tenaz divisão do trabalho intelectual entre centro e periferia: teorias gerais da vida social ou de configurações modernas são importadas para o nosso cenário periférico a partir da Euro-América (e.g., a França de Bourdieu e Latour, os Estados Unidos de Wendy Brown e Kimberlé Creenshaw, a Alemanha de Habermas e Honneth), e então aplicadas — muitas vezes com notável inteligência e criatividade, diga-se de passagem — no estudo empírico de aspectos da sociedade brasileira.
Montar uma estratégia epistêmica para lidar com essa circunstância desvantajosa não é fácil, sobretudo se, ao questionarmos a subserviente importação contínua das últimas modas teóricas parisienses, londrinas ou californianas, rejeitarmos também a bitola intelectual da alternativa oposta: uma espécie de nativismo epistemológico que simplesmente corte os laços dialógicos da academia brasileira com aqueles centros. Felizmente, seja de modo programático, seja in actu, muitos dos cientistas sociais mais influentes no Brasil se revelaram notavelmente desenvoltos na sua capacidade “antropofágica”, para tomar de empréstimo a expressão de Oswald de Andrade, de dialogar crítica e criativamente com teorias estrangeiras diversas na tentativa de elucidar múltiplas dimensões da existência social no Brasil. Ainda assim, se é facilmente compreensível o interesse de cientistas sociais brasileiros na própria conjuntura em que estão imersos, especialmente quando se trata de rastrear os desastres econômicos, sociais e biopolíticos que atravessaram o país nos últimos anos, é preciso insistir que nem toda teoria social no Brasil é somente uma teoria social do Brasil. Assim como concedemos a Parsons ou Habermas, Foucault ou Stuart Hall, Angela Davis ou Judith Butler, Patricia Hill-Collins ou Axel Honneth que, a despeito do seu enraizamento sócio-histórico, suas teorias são capazes de viajar para além de seus contextos originários de formulação, funcionando como instrumentos heurísticos de elucidação de outras realidades sociais, deveríamos fazer o mesmo, em princípio, quanto aos trabalhos de nossos colegas brasileiros — ou, aliás, argentinos, chilenos, sul-africanos, moçambicanos, indianos e assim por diante.
Como um documento, sem quaisquer pretensões de exaustividade, do estado da teorização social na paisagem tupiniquim, o presente livro reúne contribuições teórico-conceituais originais que emergiram recentemente nos trabalhos de autores e autoras das ciências sociais no Brasil. Buscando manejar de modo fecundo a articulação entre reflexão teórica e ancoragem empírica, articulação que também reflete a tensão mencionada entre tratar do Brasil e tratar do social a partir do Brasil e para além, os capítulos aqui coligidos assumem primariamente caráter conceitual/teórico, mas não descuram de trazer exemplos empíricos e propostas de aplicação. Tais conceitos e abordagens já são de uso generalizado nas pesquisas de suas criadoras e criadores, mas ainda não haviam ganho caráter abstrato e generalizante sistematizado e nem haviam sido articulados, dispersos que estavam em um sem-número de publicações. O livro se propõe, assim, não somente a organizar e agrupar, mas a oferecer um panorama conceitual e programático integrado que sirva de manual para a interpretação da sociedade contemporânea, vista pelas lentes de cientistas sociais brasileiros e brasileiras.
Com esse propósito, contatamos pesquisadores e pesquisadoras renomadas em suas respectivas áreas, com produção reconhecida pela sua originalidade, e fizemos a proposta: tomar o conceito, usado em suas pesquisas de modo mais ou menos fragmentado e disperso, em seu sentido abstrato e sistematizado, apresentando sua origem, desenvolvimento e modos de aplicação. Queríamos agregar trabalhos de nível micro e macrossociológicos, abordagens integradoras, programas de pesquisa e debates epistemológicos. Todos os capítulos são inéditos, versando sobre conceitos já existentes, porém aqui ressemantizados, ou sobre construções originais.
O livro é composto de 5 partes, com cada parte precedida de uma apresentação dos organizadores, na qual os conceitos e abordagens apresentados são discutidos comparativamente.
A primeira parte oferece ressemantizações de conceitos, algumas vezes atualizando seu significado e, em outras, oferecendo definições completamente diferentes de suas versões mais usuais. São conceitos que versam sobre dimensões amplas e fenômenos globais da sociedade contemporânea.
A segunda parte tem como pano de fundo a discussão de diferenças hierárquicas, com ênfase na diferença centro/periferia. Nessa parte, busca-se um quadro conceitual para o debate sobre modernidade periférica e dinâmicas de periferização.
Temos, então, a parte terceira, cujo interesse está em integrar capítulos que tangenciam o fenômeno da política contemporânea, principalmente levando em conta sua amplitude, das dinâmicas partidárias às políticas da natureza.
A quarta parte atenta para formas de singularização, subjetivação e relações íntimas contemporâneas, na qual são apresentados conceitos e abordagens que visam dar conta de fenômenos sociais mais circunscritos às dinâmicas microssociológicas, embora com alcance não limitado a elas.
Para finalizar, temos novas abordagens para se pensar a epistemologia das ciências sociais, com propostas de modelo para a compreensão da dinâmica evolutiva dos conceitos e teorias.
Assim posto, o livro não se constitui como um conjunto de revisões de teorias ou conceitos consagrados, mas de construções inovadoras que ainda não tinham ganho tratamento conceitual adequado, embora fossem de uso corrente em pesquisas atuais nas ciências sociais. Portanto, mais que um exame crítico dessas ciências, o livro oferece o que elas têm apresentado de inovador em termos teóricos, dispondo-se à difícil tarefa de sistematização do estado da arte conceitual nas ciências sociais brasileiras contemporâneas. Finalmente, pela multiplicidade de abordagens disciplinares aqui condensada, esperamos que a obra seja de interesse das ciências humanas em geral — das ciências sociais ao direito, da economia à administração —, mas também da leitora ou leitor que tenha interesse em saber mais da sociedade contemporânea.


Caraca. Essa é a promessa do século XXI. Doido pra ler já.