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Um texto esquecido: o caso de “A psicofísica do trabalho industrial” de Max Weber, por Bruna Bolda

Embora não esteja entre os textos mais lidos de Max Weber, "A psicofísica do trabalho industrial" lança luz sobre suas ideias fundamentais quanto à relação entre natureza e cultura

Por Bruna Bolda (UFSC)

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Introdução

Os limites entre as vulgarmente intituladas “Ciências Humanas” e “Ciências Naturais” já ocupa, há alguns séculos, os interesses dos cientistas. Desde o Positivismusstreit o debate sobre a posição dos valores do pesquisador na investigação científica está posto sobre o tabuleiro sociológico (Adorno, 2014). À Escola de Frankfurt se endereça uma posição de conhecimento crítico e engajado e à Popper e Albert, uma visão naturalística, e, portanto, “mais distanciada”. Porém, hoje, a tradicional questão dos valores do pesquisador (problema epistemológico) parece ter sofrido uma guinada em direção aos valores racionais e emoções quase-irracionais dos próprios investigados (problema do objeto), como se vê, por exemplo, com o fortalecimento da Sociologia das Emoções (Hochschild, 1979) – ou mesmo às relações intrincadas entre a psiquê dos pesquisadores e dos investigados ou de todos juntos no mesmo barco, se é que se pode delimitar o que são os “investigadores” e os “investigados” (Ellis, 2009).  Trata-se de uma investida nos valores como objeto de análise e não mais, somente, como meio de investigação.

Neste momento em que a teoria social se volta aos indivíduos e seus processos subjetivos, além dos valores, também a saúde mental e as emoções se configuram como um eixo temático importante[1], especialmente entre as gerações mais jovens. Aqui, há de se “desenterrar” um texto de Weber que coloca em diálogo a psicologia (experimental e patológica), a fisiologia, e a Sociologia: a conhecida, mas esquecida e pouco estudada no Brasil, Psicofísica do trabalho industrial (de 1908). Afinal, isso deixa ainda mais latente a importância do hodierno clássico que, além de refletir sobre os valores para a pesquisa sociológica, como já é bem conhecido do público brasileiro a partir da problemática tradução da “neutralidade axiológica”[2], também os investigou do ponto de vista do pesquisado, juntamente dos seus aspectos impulsivos, emocionais e físicos.

Ao fazer isso, Weber demonstrou que há um ponto de discussão entre as Ciências Humanas e as Ciências Naturais que não reside somente e estritamente no elemento epistemológico. Também as Ciências Humanas podem se ocupar da análise dos elementos físicos, mas desde que o façam do ponto de vista da produção de significado cultural. O físico-corpóreo e o natural-instintivo são elementos basilares do social, no sentido de sua condição de possibilidade. Mas, evidentemente, sua Sociologia não se reduz a uma análise física, mas, pode-se dizer sem rodeios ou muitos floreios, a uma abordagem cultural da psicofísica, conforme veremos doravante.

  1. Contexto do objeto de pesquisa: o trabalho industrial

Weber possui um conjunto de textos sobre o trabalho industrial, disponíveis no volume 11 da MWG I:

  1. Pesquisas sobre a seleção e adaptação (escolha profissional e destino profissional) dos trabalhadores da grande indústria fechada [Erhebungen über Auslese und Anpassung (Berufswahl und Berufsschicksal) der Arbeiterschaft der geschlossenen Großindustrie];
  2. Seu famoso A psicofísica do trabalho industrial [Zur Psychophysik der industriellen Arbeit];
  3. Um texto de 1909 sobre a metodologia de enquetes psicossociais [Zur Methodik sozialpsychologischer Enqueten und ihrer Bearbeitung];
  4. Carta trocada com editores sobre Mari Bernays e os trabalhadores de M. Gladbacher [Marie Bernays und die M. Gladbacher Arbeiterschaft];
  5. Sua contribuição na Conferência Anual da Verein, em 10 de outubro de 1911, intitulada Probleme der Arbeiterpsychologie.

A sua Psicofísica do trabalho industrial deve ser entendida, nesse contexto, inserida dentro de um escopo mais amplo: a instrução de trabalho intitulada Erhebungen über Auslese und Anpassung (Berufswahl und Berufsschicksal) der Arbeiterschaft der geschlossenen Großindustrie, encomendada para a Verein für Sozialpolitik. Dessa instrução de trabalho fazia parte, além a Psicofísica (1º relatório), também a pesquisa Zur Methodik sozialpsychologischer Enqueten und ihrer Bearbeitung (2º relatório). Foram com esses estudos bastante heterodoxos para um economista, aliás, que Max Weber iniciou sua carreira de pesquisador “empírico”.

A Verein foi uma associação fundada por Julius von Eckardt, com o intuito de investigar os efeitos da industrialização sobre os trabalhadores a partir de pesquisas quantitativas. Nela estavam envolvidas diversas figuras preocupadas com a economia nacional e os problemas associados à recente industrialização da Alemanha, desde economistas de formação, os próprios empresários das indústrias e até mesmo políticos de atuação. É curioso notar que empresários tenham participado por pouco tempo na instituição visto que logo perceberam o interesse crítico-reformativo dos padrões liberais do Estado Alemão, especialmente a partir da gestão de Gustav Schmoller na associação, e, não menos curioso, que os seus participantes restantes tenham ficado conhecidos como “socialistas de cátedra” (Schluchter; Frommer, 1995). Havia, portanto, um “racha” interno sobre como conduzir a pesquisa: adotar uma postura crítica anterior sobre as condições de trabalho ou não?

Especificamente o texto da Psicofísica do trabalho industrial[3], pesquisa empreendido para o Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik [4], deveria responder à seguinte questão central: o trabalho de longo tempo levou a um aumento de erros e à diminuição da produção? Quais seriam, portanto, as relações entre desempenho laboral versus salário versus horas de trabalho? Aos colaboradores da pesquisa, aliás, foi solicitado que dessem especial atenção às seguintes perguntas: i) a carga horária de trabalho impacta sobre a vida física e psicológica dos trabalhadores?; ii) a carga horária tem relação com a qualidade do trabalho?; iii) durante o trabalho de longa duração há aumento de erros e diminuição relativa da produção?; iv) como são explicadas, portanto, as diferenças de desempenho? (Schluchter; Frommer, 1995, 1995, p. 33-34)

Weber tinha a impressão, de antemão, que, por um lado, os trabalhadores aumentavam o desempenho com vistas ao aumento do salário (por aumento de rendimento), porém, os impactos psicológicos e físicos poderiam se tornar tanto dificultadores quanto facilitadores da performance. Como se pode notar, esse estudo da Psicofísica ainda está bastante influenciado por seu ensaio anterior, A ética protestante e o espírito capitalista (com a primeira versão publicada em 1904), especialmente no que concerne ao potencial da ação humana no desempenho laboral. Por exemplo, n’A ética Weber dialoga com Lujo Brentano sobre a relação entre tempo de labor, remuneração e produtividade, chegando à conclusão de que o aumento dos salários e a redução do tempo de trabalho levaram a uma intensificação do trabalho, e não necessariamente ao aumento da produtividade.

Mas, ao desenvolver seu estudo sobre a psicofísica do trabalho industrial Weber intentou verificar as motivações subjetivas dos trabalhadores com a finalidade de compreender o trabalho enquanto um fenômeno sócio-cultural. E a nascente indústria alemã não estava descolada do cenário moderno. Ao contrário, comprovava-o. Todavia, para empreender uma pesquisa como essa, era necessário entrar em acordo com os seus colegas de associação sobre qual caminho metodológico adotar, do ponto de vista do próprio pesquisador. No final das contas, o seu objeto de análise ainda estava envolto em um contexto de discussão epistemológico, conforme veremos doravante.

  1. Contexto metodológico: o problema dos valores

À primeira vista, os textos sobre a psicofísica de Weber parecem apartados do resto de sua obra, visto o caráter excessivamente técnico. Em meio a tantos termos do universo industrial, e a tantas tabelas de rendimento, carga horária e movimento, parece que o leitor se perde em um mar afundo antissociológico. Mas é necessário notar que Weber incluiu seus escritos da psicofísica em um corpus metodológico mais amplo: o de seus trabalhos sobre o método da sua nascente Sociologia Compreensiva. Tanto a participação de Weber na Verein für Sozialpolitik, quando produziu seus estudos sobre a psicofísica, quanto na Deutschen Gesellschaft für Soziologie, instituição por ele fundada para fundamentar a nascente Sociologia, a preocupação consistia em desenvolver um arcabouço técnico para o desenvolvimento de pesquisas sobre o social.

Dentro da Verein havia uma cisão quanto às visões sobre valores e objetividade. De um lado estavam os mais velhos, como Karl Bücher, Gustav Cohn, Johannes Conrad, Hans Delbrück, Georg Friedrich Knapp, Wilhelm Lexis e Adolph Wagner, que defendiam a impossibilidade de se dissociar completamente os valores e a ciência. De outro estavam os mais jovens, tais como Max e Alfred Weber, Werner Sombart, Ferdinand Tönnies, Robert Wilbrandt e Gerhart von Schulze-Gaevernitz, que propunham uma cisão mais clara entre os valores pessoais e o desenvolvimento da pesquisa científica. Em certa medida, essa cisão demarcava um embate anterior entre, de lado, Friedrich Naumann, e, de outro, Gustav Schmoller, e já prospectava o famoso debate sobre os juízos de valor que aconteceu em janeiro de 1914 na Deutschen (Schluchter; Frommer, 1995).

Os fundadores da Deutschen, parte remanescente da geração mais jovem da Verein, unidos em torno do interesse em criar um arcabouço teórico e conceitual para a nascente Sociologia que dispensasse um posicionamento ético-político preliminar, empreenderam alguns trabalhos coletivos. Ainda que se pudesse encontrar diferentes perspectivas internas[5], a posição de Weber era esta: as ciências naturais aderem especificamente ao estatuto da explicação causal, visto que elas não se ocupam com fenômenos relacionados a valores; as ciências culturais, por outro lado, estão em uma dualidade já que aderem ao mesmo tempo ao estatuto causal-explicativo e ao estatuto compreensivo.

De ponto de vista metodológico, portanto, a sua Psicofísica traz à tona o problema das relações psicológicas e a produção do conhecimento científico válido. Ou, dito de outra forma: se as leis sociológicas têm fundamentos psicológicos ou não – algo que não se descola de seus trabalhos anteriores, como seu estudo sobre Roscher e Knies. Mas, aqui, há algo de intimamente inovador se comparado aos seus outros textos: ele não somente reivindica as ciências culturais como compreensivas e explicativas, em contraposição às ciências naturais que somente postulam o princípio generalizante, mas pretende integrá-las. Isso é, mostrar em que medida o princípio generalizante de ambas as ciências se complementa.

Se as ciências naturais e biológicas, generalizantes, se ocupam com os impactos corpóreos da aceleração da produção industrial, as ciências do espírito, individualizantes, se ocupam com os efeitos emocionais disso, a Sociologia, ao mesmo temo individualizante e generalizante, tem que dar conta de ambos os postulados. Nesse ponto, por exemplo, a análise sociológica seria capaz de lidar com as lacunas da generalizante psicologia experimental que recuava à biologia para explicar os fatores psicológicos do trabalho industrial, bem como da economia de caráter individualizante que recorria ao espírito individual para entender o trabalho industrial como um fenômeno histórico único. O que faria a Sociologia, portanto, neste entremeio? Uniria uma análise empírica dos dados dessa individualidade histórica (como, no caso da Psicofísica, dos dados da tecelagem de Oerlinghausen) à explicação das causas gerais deste fenômeno (como a era moderno-econômica em que se vive).

  1. Os aspectos formais do texto

A sua proposta compreensivo-explicativa também se traduziu na estruturação do texto, que, em uma parte, se dedica aos termos da indústria sobre rendimento produtivo, e, em outra, se volta às questões psicológicas desse trabalho. Em sua forma, o texto se organiza em três grandes eixos temáticos, dentre os quais[6]:

i) A discussão teórico-conceitual sobre: fadiga e recreação; prática (mecanização, ritmização, soma e aproveitamento dos efeitos póstumos do estímulo, deslocamento de rendimento; capacidade de prática e solidez da prática; prática concomitante e prática prévia); relação entre fadiga e prática (considerando outros componentes da curva de trabalho, tais como a instigação; impulso volitivo; habituação); a habituação na perturbação do trabalho e na combinação de trabalho (tais como as diferenças na curva de trabalho em caso de rendimento simples e rendimento combinado; mudança de trabalho); interrupção do trabalho (como o efeito de pausas).

ii) Reflexão sobre questões metodológicas: a metodologia de Kraepelin e a utilidade de seus conceitos; as discussões higiênicas sobre os efeitos do trabalho profissional industrial; a questão do método de levantamentos exatos sobre a psicofísica do trabalho profissional industrial.

iii) Análise de dados a partir dos livros das indústrias e dos questionários aplicados: demonstração comparativa das flutuações no desempenho do trabalho industrial dentro da jornada de trabalho, entre os dias úteis e entre os períodos maiores (como os impactos dos ciclos econômicos e suas visões de mundo “travadoras”; os impactos do estado civil sobre o desempenho no trabalho; influência do salário no desempenho; indicações do tempo-relógio sobre a flutuação de desempenho; análise do desempenho individual do trabalho e seu desenvolvimento, tais como o trabalho puramente manual e o trabalho com máquina).

  1. Os aspectos substantivos do texto: uma Sociologia Psico e Física

Para isso, Weber teve de se despir das amarras do homo economicus e adentrar em outras literaturas. Os trabalhadores, enquanto sujeitos estritamente racionais, não eram encontrados tal e qual na indústria alemã, visto que as suas respostas ao modelo de trabalho repetitivo eram quase automatizadas, afetando o organismo fisiológico não-racional.  É nas contribuições da psicofísica que alguns economistas, assim como Weber, encontraram respostas sobre aspectos subjetivos e objetivos do trabalho industrial (Schluchter, 2000). Weber estava interessado, assim, especificamente em usar alguns elementos da psicologia especializada para a sua análise mais ampla da modernidade enquanto um fenômeno histórico-cultural. Mas ele o fez a partir de um exame crítico do fenômeno nascente da industrialização alemã que, com seus baixos salários, conforme mostravam os dados, despertava um pequeno estímulo psicológico ao trabalho.

Mas a psicologia alemã, especialmente aquela desenvolvida no século XIX, tinha íntima proximidade com os padrões das ciências naturais. Além de uma metodologia semelhante (como o método experimental desenvolvido por Kraepelin, que defendia uma comparação dos resultados experimentais dos indivíduos “normais” e os supostamente “perturbados”, inclusive com a administração de psicoativos diversos – algo eticamente controverso, aliás), esses estudos também colocavam um grande peso causal sobre a determinação biológica dos indivíduos. O próprio conceito de psicofísica (cunhado por Gustav Theodor Fechner) deixava claro o impacto da dimensão biológica sobre a psíquica, pois entendia que tudo o que é percebido por uma introspeção, ainda que seja subjetivo, possui uma relação objetiva com o orgânico. Desse modo, são as mudanças físicas que levariam a mudanças psíquicas (Schluchter, 2000).

Fechner, aliás, exerceu grande influência sobre as gerações posteriores de psicólogos, dentre os quais estão Emil Kraepelin e Wilhelm Wundt, autores com os quais Weber travou diálogo (crítico) direto tanto na Psicofísica quanto em Roscher e Knies. Sua crítica consiste no fato de que a psicologia em geral, e a psicologia naturalística em particular, não é o fundamento das ciências culturais. Se trata de uma área autônoma, com seus próprios problemas teórico-epistemológicos. Afinal, Weber (MWG I/12, p. 151-165) se manteve cético sobre qualquer determinação biológica (como a da herança genética) sobre a ação social – como se pode ver na sua palestra sobre a teoria social biológica de Alfred Ploetz, quando ele chega a fazer uma crítica muito incisiva às teorias deterministas que encontram na hereditariedade predisposições de comportamentos sociais. Ele adverte para a cautela em tratar qualquer comportamento psíquico ou físico como determinado pela hereditariedade, no sentido biológico. Afinal, muitos comportamentos são transmitidos de maneira inconsciente pela tradição ou pela imitação, por exemplo, e, portanto, são fenômenos culturais por excelência.

Assim, o interesse de Weber por Kraepelin serviu especificamente para aliar sua análise do desempenho laboral registrado nos livros salariais das empresas de tecelagem analisadas à abordagem psicológica experimental, mas jamais para instrumentalizar o princípio naturalístico. Isso comprovou, inclusive, a sua tese inicial de que uma interpretação exclusivamente psicológica ou física para o trabalho industrial seria insuficiente[7]. Também o elemento normativo e o elemento racional, por exemplo, são profundamente influentes sobre o trabalho industrial. Weber bem sabia que mudanças ou no processo de trabalho (como a inclusão de máquinas) ou na jornada de trabalho influíam sobre o aparato psicofísico do trabalhador, como, por exemplo, a sua capacidade de rendimento. A capacidade de rendimento, para seguir neste exemplo, também pode ser influenciada pela alimentação ou pela educação. Por isso, ao se analisar o trabalho, deve-se levar em conta não somente os elementos psicofísicos, mas também os culturais e econômicos, tais como: fadiga e recreação, prática, perturbações, interrupções, questões relacionadas ao tempo e espaço (como o clima), idade, estado civil, entre outros.

Ao desvendar a correlação entre as condições psicofísicas do trabalho industrial moderno e o ethos econômico, Weber nos coloca uma reflexão ainda muito atual: que as exigências físicas de um trabalho exaustivo têm impactos mentais e vice-versa. De algum modo, as exigências de produtividade colocam sobre o indivíduo um peso físico e psíquico que inibem um rendimento continuamente crescente. E aqui está uma correlação entre o racional e o irracional muito profunda. Ainda que o objetivo econômico seja racional, o organismo humano responde por vias afetivas, e, logo, mais próximas de um impulso irracional. Algo que Kraepelin, em certa medida, já havia mostrado: uma espécie de habituação que, mesmo sem ser governada por regras explícitas, acontece sem grandes cálculos mentais, mas à custa de grandes esforços físicos.

Weber (MWG I/11, p. 165, tradução nossa) afirma que “é necessário considerar as ‘qualidades fisiológicas fundamentais’ da personalidade como determinantes para o decurso do desempenho psicofísico, as quais determinam a forma como o indivíduo ‘processa’ os ‘estímulos’ aos quais ‘reage’”[8]. Ele afirma, portanto, que as qualidades fisiológicas determinam o modo como o indivíduo reage (e não o modo como ele processa significados), demonstrando, assim, que a fisiologia está ainda no reino “natural”. Essa fisiologia própria ao indivíduo é decisiva para o seu rendimento físico e psicológico no trabalho.

O corpo humano é capaz de realizar movimentos (externos, puramente musculares) em determinados períodos do tempo, sejam eles conscientes ou inconscientes. Porém, quando realizados repetida e continuamente, podem levar a uma fadiga objetiva (muscular) e a um cansaço subjetivo (psíquico), fazendo com que, logo, haja a uma diminuição do rendimento do trabalho. Afinal, diversas partes do corpo são envolvidas nessa atuação (laboral): desde órgãos, órgão nervoso central até a musculatura, agem, todos, em conjunto (MWG I/11). Quando se age, se mobiliza a competência psicofísica geral, isso é, de todo o organismo e o sistema nervoso central. Isso demonstra que as atividades internas e externas estão imbricadas e que são interdependentes na ação social.

Mas há ações em que, de tão repetidas, acabam por diminuir excessivamente o papel do sistema nervoso central, fazendo com que os impulsos volitivos sejam quase inexistentes. A frequente repetição de um rendimento laboral, por exemplo, leva o trabalhador a gradativamente realizá-lo sem consciência, ainda que ele seja um movimento mais rápido e uniforme, adquirido a partir da repetição. A ritimização do trabalho gera movimentos muito parecidos com reações, levando a uma “mecanicanização” [Mechanisierung] e “automatização” [Automatisierung] dos movimentos (MWG I/11, p. 177), pois ela elimina movimentos que gastam excessiva energia e diminui a utilização (ao mínimo possível) de órgãos. Na vida cotidiana, aliás, muitas de nossas ações seguem esse princípio, levando a um certo alívio do sistema nervoso central. A ação que será chamada por Weber (MWG I/23) de “tradicional” é justamente essa em que se mobiliza pouco as vontades subjetivas e se age de maneira impulsiva e repetida, com pouco processamento psicológico.

Interessa à sua Sociologia, aqui, não o modo como os indivíduos movem seus músculos ou quantas peças eles produzem por dia. Weber entende que o físico e o psicológico são elementos fundamentais para que o indivíduo aja, coloque algo em curso. Porém, deve a Sociologia compreender esses processos psicológicos por seus motivos. Weber (MWG I/11) indaga: se um trabalhador decide aumentar seu rendimento no trabalho, aprimorando seus movimentos na produção, quais são os motivos para isso? Aumentar seus ganhos materiais? Ser reconhecido pela empresa e seus colegas de trabalho? Agradar a alguma pessoa? Vê-se, com isso, que o físico e o psicológico funcionam como meios da ação do indivíduo, a qual está motivada por algo. Como Weber (MWG I/23, nota 7) vai esclarecer em Conceitos Sociológicos Fundamentais, essa motivação constitui, para o observador, a razão, o fundamento da ação, e, para o agente, sua conexão de sentido.                                 

Sobre isso, há um interessante exemplo formulado por Weber (MWG I/7, p. 542), que, não obstante, remonta ao exemplo de Stammler, para esclarecer a relação entre a “natureza”, entendida como o fundamento psíquico e físico, e a “cultura”. Duas pessoas que jamais tiveram qualquer tipo de interação social (como um europeu e um africano que saíram pela primeira vez de seus países) realizaram uma troca de objetos um com o outro. O movimento físico (muscular) – “externo” ou “externalizado”, por assim dizer – para um dar o objeto ao outro, implica em uma certa “entidade” ou “ser” [Wesen] anterior: o sentido [Sinn]. Senão seriam como eventos soltos, perdidos na realidade. Weber afirma “pois esta ‘entidade’ consiste no sentido que ambos atribuem aos seus comportamentos externos” [Denn dies ‘Wesen’ bestehe ja in dem ‘Sinn’, den beide diesem ihrem aussern Verhalten beilegen]. Ou seja: só há uma atividade social de fato quando esses agentes atribuem aos seus comportamentos algum significado, que, nesse caso, é o da troca.

Sob outro ângulo, também Wolfgang Schluchter (2011-2012) propôs um experimento mental para diferenciar essas noções. Quando desrespeitamos uma lei natural (como, por exemplo, a lei de queda livre ou da gravidade), ainda assim nós não conseguimos quebrá-la. Se eu acreditar que posso voar e decido pular da varanda, invariavelmente, irei ao chão. Aqui a consequência da ação (cair) está diretamente ligada a ela (pular da varanda). Algo diferente acontece com uma dada “regra cultural”. Se decidimos realizar um assalto, mesmo que a norma legal seja “não roubar”, neste caso a ação e a sua consequência não estarão necessariamente atreladas. Se o assaltante não for descoberto, as consequências legais previstas não poderão ser aplicadas a ele. Isso nos mostra que o modelo de funcionamento do mundo natural e do mundo cultural são distintos. Não há plena previsibilidade, muito menos imutabilidade, dos fenômenos culturais porque eles dependem da intencionalidade e do poder criativo da ação social das pessoas.

Se, em algum momento, a abordagem dada por Weber possa parecer próxima daquela formulada por Wilhelm Wundt, visto que Wundt divide a vida humana em processos físicos sobredeterminados por processos conscientes (tese conhecida como síntese criativa), Weber dele se afasta quando mostra que os juízos de valor são constituintes indispensáveis dos fenômenos culturais, pois, sem eles, tudo se reduziria à lógica causal-explicativa da mente. O mundo social é muito mais complexo do que um modelo unicausal, e os estados físicos, mentais e culturais, ao menos para a abordagem de Weber, não podem ser esquecidos. Pode-se dizer, aliás, que em Weber o organismo físico e biológico é amplamente dominado e moldado culturalmente. Se somos animais, e respondemos a estímulos físicos, o modo como fazemos isso é uma criação inteiramente criativa. Uma criatividade cultural. 

Se muitos teóricos recaíram sobre as sedutoras armadilhas do sucesso da teoria evolucionista de Darwin, que ditada um pouco o espírito acadêmico do tempo, como se pode ver com a teoria social orgânica do início do século XX (Ploetz, 1904-1944), Weber parece ter encontrado uma solução interessante para o problema que não vai em direção a uma interpretação monista, mas a uma teoria da ação que confere ao indivíduo fortes potenciais criativos. E, curiosamente, no seu estudo sobre a relação psicológica e física do trabalho industrial Weber delineia os caminhos para uma teoria sociológica pautada na ação do indivíduo: um indivíduo ao mesmo tempo racional e irracional. Um dia, quem sabe, esse texto de Weber pode ser redescoberto como uma grande luz sobre as correlações entre as ciências físicas e sociais, naturais e humanas. Nem sempre muito perto, mas nunca muito distantes.

Notas 

[1] Como se você nos inúmeros relatórios do Ministério da Saúde, e, especialmente, aquele produzido por Fleitlch-bilyk et al (2004).

[2] No original: Wertfreiheit. Em Língua Portuguesa, em tradução livre: liberdade de valores.

[3] Doravante, Psicofísica.

[4] Na revista Archiv havia uma seção de revisão de literatura (chamada à época da publicação da Psicofísica de Kritische Literatur-Übersichten) na qual se informava os leitores sobre tendências teóricas de algumas áreas do conhecimento. A psicofísica do trabalho industrial de Weber foi publicada nessa seção, no volume 9 da revista (MWG I/11)

[5] Pode se dizer que, internamente, havia três posições: i) a de economistas históricos mais próximos a Schmoller; ii) a de economistas-sociólogos mais próximos a Weber; e iii) a de economistas mais liberais que propunham uma cisão mais clara entre valores e ciência.

[6] Aqui, estamos utilizando as traduções dos termos adotadas pela única edição da Psicofísica disponível em Língua Portuguesa (Weber, 2010), conforme se vê sem seu índice.

[7] Weber (MWG I/11) tece críticas formais a Kraepelin, como a quantidade de pessoas envolvidas nos experimentos (que são poucas, para quaisquer generalizações da natureza das que ele faz). Mas ele também desenvolve críticas substantivas, tais como a consideração de processos psíquicos como fenômenos causais.

[8] “Es sei demgegenüber nötig, als entscheidend für den Ablauf psychophysischer Leistungen die ‘physiologischen Grundqualitäten’ der Persönlichkeit anzusehen, welche die Art und Weise entscheiden, wie der Einzelne die ‘Reize’, aufweiche er ‘reagiert’, in sich ‘verarbeitet’” (MWG I/11, p. 165).

Referências

ADORNO, Theodor (Org.). A disputa do positivismo na Sociologia Alemã. São Paulo: Ícone, 2014.

ELLIS, Carolyn. Revision: Autoethnographic reflections of life and work. Walnut Creek, CA: Left Coast Press, 2009.

FLEITLCH-BILYK, Bacy; ANDRADE, Ênio Roberto de; SCIVOLETTO, Sandra. A saúde mental do jovem brasileiro. São Paulo: Edições Inteligentes, 2004. 175 p.

HOCHSCHILD, Arlie Russel. Emotion work, feeling rules and social structure. American Journal of Sociology, v. 85, n. 3, p. 551-575, 1979.

PLOETZ, Alfred (Ed.). Archiv für Rassen- und Gesellschafts-Biologie: einschließlich Rassen- und Gesellschafts-Hygiene. Em colaboração com H. Friedmann, A. Nordenholz e Ludwig Plate. Alemanha: Fischer Verlag, 1904-1944.

SCHLUCHTER, Wolfgang; FROMMER, Sabine. Einleitung. In: WEBER, Max. Zur Psychophysik der industriellen Arbeit. Schriften und Reden 1908-1912. Organizado por Wolfgang Schluchter, em conjunto com Sabine Frommer. Tübingen: Mohr Siebeck, 1995.

SCHLUCHTER, Wolfgang. Psychophysicsand culture. In: TURNER, Stephen. The Cambridge companion to Weber. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

SCHLUCHTER, Wolfgang. Natur und Kultur: Über die  spannungsreiche Beziehung zwischen den Naturund Kulturwissenschaften. In: Auszug aus dem Jahresbericht “Marsilius-Kolleg 2011/2012”. Heidelberg: Marsilius-Kolleg. 2011-2012. p. 108-127.

[MWG I/7] WEBER, Max. Zur Logik und Methodik der Sozialwissenschaften. Schriften 1900–1907. Organizado por Gerhard Wagner, em conjunto com Claudius Härpfer, Tom Kaden, Kai Müller e Angelika Zahn. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018.

[MWG I/11] WEBER, Max. Zur Psychophysik der industriellen Arbeit. Schriften und Reden 1908-1912. Organizado por Wolfgang Schluchter, em conjunto com Sabine Frommer. Tübingen: Mohr Siebeck, 1995.

[MWG I/12] WEBER, Max. Die Begriffe Rasse und Gesellschaft: Diskussionsbeitrage zum Vortrag von Alfred Ploetz auf dem Ersten Deutschen Soziologentag am 21. und 22. Oktober 1910 in Frankfurt am Main. In: WEBER, Max. Verstehende Soziologie und Werturteilsfreiheit. Schriften und reden (1908-1917). Organizado por Johannes Weiss e Sabine Frommer. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018.

[MWG I/23] WEBER, Max. Wirtschaft und Gesellschaft: Soziologie (1919–1920). Organizado por Knut Borchardt, Edith Hanke e Wolfgang Schluchter Tübingen: Mohr Siebeck, 2013.

WEBER, Max. A psicofísica do trabalho industrial. Tradução de Maria Cristina Lopes. Rio de Janeiro: Fundação Getulio Vargas, 2010.

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