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Resumo de De la Visibilité. Excellence et singularité en régime médiatique, por Nathalie Heinich

Durante muito tempo, na história da humanidade, a celebridade não foi alcançada, ou apenas excepcionalmente, por meio da visibilidade – entendida como a difusão do rosto e do nome no espaço público –, mas através da fama – entendida como a difusão do nome e das histórias associadas ao grande homem. Antes que os meios modernos de reprodução de imagens entrassem em ação há um século e meio, a visibilidade do grande homem se limitava ao seu nome e à sua biografia, a suas efígies esculpidas, pintadas ou gravadas e, eventualmente, à sua presença, para aqueles que tinham a oportunidade de atravessar o seu caminho.

Por Nathalie Heinich

Tradução Diogo Silva Corrêa

Revisão Bárbara Grillo

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Durante muito tempo, na história da humanidade, a celebridade não foi alcançada, ou apenas excepcionalmente, por meio da visibilidade – entendida como a difusão do rosto e do nome no espaço público –, mas através da fama – entendida como a difusão do nome e das histórias associadas ao grande homem. Antes que os meios modernos de reprodução de imagens entrassem em ação há um século e meio, a visibilidade do grande homem se limitava ao seu nome e à sua biografia, a suas efígies esculpidas, pintadas ou gravadas e, eventualmente, à sua presença, para aqueles que tinham a oportunidade de atravessar o seu caminho.

A invenção e a subsequente expansão em larga escala do retrato fotográfico alteraram profundamente as modalidades tradicionais do tornar-se célebre: desde então, a celebridade assumiu a forma de uma reprodução relativamente precisa de um número indefinido de características faciais. A partir de meados do século XIX, diversas multidões puderam reconhecer um indivíduo no papel, associando um rosto a um nome conhecido. Assim, comunidades de admiradores potencialmente imensas foram formadas ao mesmo tempo que objetos de admiração, que eram ainda mais singulares e valorizados por serem amplamente reconhecidos. Foi graças a esta nova visibilidade da celebridade que o “culto das estrelas” foi criado no início do século XX.

A invenção da fotografia, depois do cinema, da televisão e, enfim, da internet abriu uma nova era na história de nossa relação com o mundo, ao ampliar imensamente, no espaço e no tempo, as possibilidades de presentificação dos seres por meio da mediação de imagens altamente fiéis ao original. Essa fabricação técnica de ubiquidade em larga escala se tornou tão familiar para nós que dificilmente percebemos o seu caráter verdadeiramente espantoso, que teria surpreendido enormemente nossos ancestrais, nas inúmeras consequências que ela engendra na nossa relação com o mundo e com os outros: antes de tudo, a extraordinária assunção do valor da celebridade, que modifica profundamente a vida social tanto em sua dimensão hierárquica quanto em sua dimensão profissional, econômica, jurídica, psicológica, política ou moral.

A extensão do domínio da celebridade graças às técnicas de visibilidade não faz parte de uma continuidade linear em relação às formas tradicionais de fama: ao contrário, ela é acompanhada de uma dupla ruptura, hierárquica e axiológica, na relação mantida com o sigilo e a publicidade. À fama no tempo, que fez a posteridade dos grandes homens ir muito além de sua vida terrena, substituiu-se, em poucas gerações, a visibilidade no espaço, que fez a cobertura midiática das estrelas ir muito além do lugar de sua presença. Correlativamente, essa mudança conjunta do tempo para o espaço e do velho para o novo está associada a uma inversão hierárquica entre o baixo e o alto, o vulgar e o nobre, em termos do valor atribuído à representação pública. Longe de representar, como no passado, um declínio da dignidade, a exposição pública da própria imagem tornou-se assim, mesmo para categorias tradicionalmente resistentes a ela, uma forma de se engrandecer.

O capital de visibilidade

Um novo fenômeno, uma nova terminologia: para pensar verdadeiramente na especificidade das formas modernas de tornar-se celebridade, devemos levar a sério sua dimensão de “visibilidade”, no sentido mais literal do termo (que está presente na etimologia do próprio termo “vedette“): é o único termo apropriado, pois não estamos mais lidando com o mundo atemporal das celebridades, onde eram os nomes que contavam acima de tudo, mas com um novo mundo em que os rostos importam, se não mais, tanto quanto os nomes – mesmo que estes últimos continuem sendo indispensáveis.

Se é importante insistir, com a noção de “visibilidade”, na reprodutibilidade das imagens, é porque estas imagens, por serem reproduzidas, dão origem a uma expectativa de estar no “aqui e agora do original”, para usar a definição de “autenticidade” de Walter Benjamin. A dimensão midiatizada da reprodução técnica cria uma lacuna fundamental entre o referente e o signo, o modelo e a imagem, o real e a representação – de onde surge o desejo de ser colocado na presença do original, quando só conhecemos a cópia. Essa expectativa gera um investimento emocional considerável: o mesmo que, numa época em que a autenticidade ainda não havia se tornado “o substituto do valor cultural”, foi aplicado às aparições e, na falta disso, às relíquias – estes substitutos da presença do santo.

Chamfort definiu a celebridade como “a vantagem de ser conhecido por aqueles que você não conhece”. Tal definição abre duas noções fundamentais e inseparáveis: por um lado, o conhecimento, ou melhor, o “reconhecimento” por meio do qual se associa um nome a um rosto; por outro lado, a assimetria, em outras palavras, a desigualdade numérica entre “reconhecedores” (aqueles que reconhece) e (aqueles que são) “reconhecidos”. Com a visibilidade, a imagem multiplicada é o que faz a grandeza e exige o reconhecimento-identificação, o qual por sua vez permite, e isso quando a situação o permite, o reconhecimento-confirmação e o reconhecimento-deferência, e até mesmo reconhecimento-gratidão, quando o ídolo em pessoa dá o dom de sua presença. A especificidade das estrelas no regime midiático é a junção de todos os significados da palavra “reconhecimento”: cognitivo, interativo, hierárquico, emocional. Basta ser “reconhecido” para ser triplamente “reconhecido”, com a identificação se tornando confirmação, deferência e gratidão.

O segundo critério maior da visibilidade, após a difusão em larga escala da imagem do sujeito, é a assimetria: assimetria entre aquele que é visto e aqueles que veem, aquele que é identificado e aqueles que identificam, aquele que é reconhecido e aqueles que reconhecem, aquele cuja presença, além de suas imagens, é invocada como uma graça por aqueles que, em troca, o gratificam com sua admiração. A multiplicidade de imagens – o primeiro critério – é ecoada pela multiplicidade de sujeitos capazes de identificar estas imagens de uma única pessoa – o segundo critério. A assimetria na identificação assinala e opera uma diferença de grandeza: uma grandeza que, antes de ter a ver com propriedades pessoais, tem a ver sobretudo com o número de pessoas capazes de relacionar um nome a um rosto, de modo que a lacuna entre a multiplicidade de sujeitos que “reconhecem” e a singularidade do objeto “reconhecido” estende o elo que os une à dimensão de uma admiração coletiva. Em resumo, a desigualdade no interreconhecimento é uma das formas mais simples e mais fundamentais de desigualdade – talvez simples demais para ter sido notada?

Por que então é tão importante levar a sério essa questão aparentemente trivial e óbvia da assimetria? É porque ela cria um diferencial de recursos entre conhecidos e desconhecidos, que pode ser comparada a um verdadeiro capital. Esse capital confere a seu detentor prestígio, poder, relações e dinheiro; mas ele não é redutível a nenhuma das outras formas de capital, nem mesmo ao “capital social”, pois este último simplesmente mede a extensão e a qualidade do “conhecimento” ou das relações, não o grau de reciprocidade. Como prova de que estamos lidando com um verdadeiro “capital” no sentido literal do termo, o capital de visibilidade tem todas as características de um capital no sentido clássico (econômico) do termo: ele constitui, de fato, um recurso mensurável, acumulável, transmissível, que rende juros e é conversível.

O capital de visibilidade operou de fato uma grande transformação de hierarquia, criando uma nova categoria social. Ele surgiu no decorrer do século XX, mas ainda não foi identificado como tal. A visibilidade é transmitida como uma herança, se negocia como um dote e se usa como um apadrinhamento: ela não apenas protege a fronteira entre a categoria de pessoas famosas e comuns, mas também preserva um privilégio. Essa estreita associação entre a existência de uma categoria social de direito próprio e sua posição privilegiada nos leva a acrescentar, aos três primeiros critérios que definem o fenômeno da visibilidade – a reprodução técnica da imagem, a assimetria, a categoria social -, o critério hierárquico, que faz desta categoria uma nova elite.

Em muitos aspectos, a visibilidade aparece hoje como uma forma de aristocracia, mas não identificada como tal, apesar da onipresença de seus membros no espaço público: é, paradoxalmente, a aristocracia oculta das personalidades proeminentes. Ao associar uma posição de destaque com uma ruptura com as formas clássicas de dominação (poder, nascimento, riqueza), esta nova elite torna possível, se não resolve, pelo menos atenua a tensão entre, por um lado, a exigência de igualdade própria das sociedades democráticas e, por outro lado, a aspiração por uma ordenação das grandezas que permita operar uma divisão consensual entre os pequenos e os grandes, oferecendo aos primeiros – isto é, aos pequenos –  modelos a serem imitados ou, ao menos, admirados. Assim como a nova elite artística do século XIX, por sua imputação de marginalidade, tornou possível combinar a rejeição democrática dos valores aristocráticos com a aspiração elitista à excelência reconhecida, assim também no século XX a nova elite da visibilidade liga singularidade à popularidade em oposição tanto às formas tradicionais de excelência quanto ao valor do mérito.

A reprodutibilidade técnica em larga escala das imagens, a assimetria entre objetos e sujeitos do olhar, que cria enormes diferenças no capital da visibilidade e estabelece entre seus detentores uma categoria social específica, situada no topo de uma hierarquia cuja estrutura foi profundamente renovada pela irrupção dessa nova elite: eis os quatro critérios que definem a visibilidade na era midiática. Os autores que se interessaram por este assunto perceberam um ou outro destes critérios, mas nunca os quatro ao mesmo tempo; no entanto, é sua articulação que permite dar pleno sentido a um fenômeno tão espetacular e profundamente inovador quanto pouco observado e compreendido em todas as suas dimensões, coberto que é pelo duplo véu da familiaridade e do desprezo de classe.

Culto ou cultura de celebridade?

O culto das celebridades não seria apenas uma nova forma de religião ou um “substituto da religião”, de acordo com uma fórmula já muito utilizada, portanto, um “culto” e não apenas uma cultura? Para dar à noção de “religião” seu pleno significado sociológico, é necessário, em primeiro lugar, considerar que a religião não é uma matriz original, mas uma configuração contextual (sendo a configuração cristã apenas a forma mais familiar das sociedades ocidentais); e, em segundo lugar, que a religião é uma noção nativa e não uma ferramenta do pensamento erudito. Assim, torna-se finalmente possível falar não apenas da cultura da celebridade, mas do culto das celebridades, sem a necessidade de aspas; pois não se está no plano da metáfora, mas da literalidade de uma conduta cujas especificidades não podem ser compreendidas se reduzidas ao “religioso”.

Pode-se então dizer que existem, entre o fenômeno familiar – ainda que mal definido – de condutas qualificadas de religiosas e esse fenômeno moderno – ainda que tão familiar e mal definido quanto – que é a cultura moderna das celebridades, similitudes e diferenças mais ou menos centrais e marginais. Parece, portanto, que o aumento da visibilidade no regime midiático não é apenas consequência de uma série de inovações técnicas na reprodutibilidade da imagem, mas também decorre da propensão para construir comunidades de admiração por meio de condutas cultuadoras e culturais aplicadas a personalidades carismáticas cujas imagens são abundantemente representadas – condutas associadas, em outras configurações, ao que é chamado, na cultura ocidental, de “a religião”.

Na transformação da economia emocional de cada pessoa produzida pelos modernos meios de reprodutibilidade técnica do rosto e da voz, há continuidade com formas anteriores – e bem conhecidas – de cultos. E é provavelmente apenas o desprezo dos eruditos pela cultura popular que tem sido capaz de esconder este fato óbvio de nós, ainda que ele seja tão visível e evidente aos nossos olhos.

A distribuição do capital de visibilidade

Em que medida a visibilidade é motivada pelas próprias capacidades da pessoa concernida, é devido ao acaso ou é fabricada pelos próprios instrumentos de visibilidade, tornando-a, se assim é possível dizer, autorrealizável? No primeiro caso, a visibilidade é plenamente justificada, pois é apenas um valor agregado a um valor que a precede e a motiva (por exemplo, o talento); no segundo caso, a visibilidade não se justifica, mas é apenas por acaso (por exemplo, um acidente) e, portanto, não pode ser imputada a ninguém; No terceiro caso, ela não se justifica por nenhum ato externo anterior à visibilidade e, portanto, não tem outra causa além de si mesma (por exemplo, os apresentadores de televisão), sendo a estrela conhecida essencialmente “por sua notoriedade”, de acordo com a famosa fórmula de Daniel Boorstin. A visibilidade é então um valor que pode ser dito “endógeno” ou auto engendrado: são os meios técnicos de visibilização que, ao mesmo tempo, criam e mantêm o capital da visibilidade, por meio de um movimento circular ou, mais precisamente, espiralado.

Entre o valor acrescido a um outro valor e o valor endógeno, autoproduzido, a visibilidade de diferentes categorias de celebridades se desloca de um polo a outro, sob um eixo obviamente hierárquico, indo do mais para o menos “justificado” de acordo com as normas da moral comum – ou, em outras palavras, do mais ao menos legítimo – ao mesmo tempo que do recurso mais antigo para o mais atual. Assim, a televisão e as novas mídias produzem “chegados” de celebridades, que só se beneficiam de uma visibilidade endógena na falta de serem apoiados por valores mais sólidos.

Assim, encontramos, primeiro, a visibilidade como um valor agregado ao nascimento, com soberanos e membros das famílias reais; depois, a visibilidade como um valor agregado ao desempenho, com políticos e esportistas; depois, a visibilidade como um valor agregado ao talento, com pensadores e criadores; em seguida, a visibilidade como uma mistura de valor agregado ao talento e de valor endógeno, com cantores e atores, assim como modelos; depois, a visibilidade como uma mistura de valor agregado ao carisma e valor endógeno, com as personalidades da televisão, profissionais e amadores; finalmente, a visibilidade como valor acidental, com os heróis ou anti-heróis das notícias.

Existe uma hierarquia não falada entre as celebridades, cujo princípio é a duração. Pode-se até elaborar uma tabela de dois eixos da “hierarquia da visibilidade” cruzando, por um lado, o eixo espacial (do local ao internacional, passando pelo regional e o nacional) e, por outro, o eixo temporal (de “um dia” a “para sempre”, passando por “uma semana”, “um ano”, “uma geração”). Pois o preço da glória, para o novo mundo das “people“, reside acima de tudo em sua natureza efêmera, que faz com que a pessoa em questão passe por transformações espetaculares de sua grandeza, das quais ela pode muito bem ter dificuldade de se recuperar. É importante notar a concomitância da modernização técnica, da multiplicação de públicos, da democratização dos pretendentes à visibilidade, da desmoralização de suas qualidades, assim como do encurtamento dos laços espaciais e temporais entre celebridades e seus admiradores – todos estes fenômenos caracterizam a “peopolização” das celebridades. Essas mutações espetaculares na distribuição do capital de visibilidade, que por si só constituem uma mutação igualmente espetacular da noção de elite, estão ligadas em um nível mais geral a uma mutação histórica da excelência, incluindo suas definições e atribuições.

Economia e direito de visibilidade

A suposição de visibilidade levou à criação ou ampliação de toda uma série de profissões: fotógrafos e paparazzi, maquiadores, agentes, coaches, guarda-costas e até mesmo sósias… Também deu origem a uma verdadeira indústria, composta de turismo e de produtos derivados, centrados em celebridades, imprensa e editoriais especializados… Ela permitiu o desenvolvimento de uma economia específica: uma economia “em regime de singularidade”, onde o estrelato gera enormes lucros por meio do consumo intensivo da imagem das estrelas, a prática das promoções publicitárias, as remunerações extraordinárias atribuídas às estrelas do cinema, da música ou do esporte, os preços fabulosos alcançados por suas relíquias nas salas de leilão, ou ainda as indenizações regularmente concedidas pelos tribunais por invasão de privacidade.

Essa prática, que se desenvolveu fortemente durante pelo menos uma geração, também indica o impacto da visibilidade sobre o direito: o direito autoral, o direito de imagem e o direito à privacidade foram profundamente reformulados, em nível internacional, pelas ações promovidas por celebridades para defender os seus interesses. Assim, do mesmo modo que a visibilidade modificou a hierarquia social, gerou novas profissões e deu origem a uma economia específica, ela também contribuiu para criar, ou pelo menos transformar, as regras legais que lhe dizem respeito.

Psicofisiologia da visibilidade

A especificidade do vínculo com as celebridades vem do fato de que ele ocorre numa relação de não familiaridade, não-reciprocidade e admiração. No entanto, o vínculo com as celebridades compartilha características do vínculo com as pessoas comuns, tais como o vínculo por identificação com a pessoa admirada e o vínculo por desejo de possuir essa pessoa. Na vida cotidiana, não é considerado anormal fazer de uma pessoa um objeto de identificação, nem é anormal torná-la objeto de amor ou desejo, seja sexual ou simplesmente presencial. Consideremos, então, que no mundo regido pela visibilidade, não é surpreendente que os fãs admirem e se identifiquem com uma estrela, ou mesmo que sintam amor por ele ou ela: a única coisa que pode ser questionada é a natureza extrema das emoções experimentadas.

Ao aproximar-se de seu ídolo, mesmo que apenas por meio de seus rastros, o fã não se contenta em seguir os padrões da relação amorosa, mesmo na forma particular de um vínculo necessariamente assimétrico, não recíproco e, essencialmente, fantasmático: ao fazer isso, ele ou ela também está rompendo com o anonimato do público em geral, da multidão de outros fãs, tentando estabelecer uma relação única. Tal dualidade entre objeto e sujeito de admiração permanece, entretanto, imaginária: o sujeito sabe que não é o único a amar – mas, mesmo assim, pode iludir-se contando uma história romântica de proximidade, ou mesmo de intimidade, se não uma relação exclusiva com o objeto de sua admiração. Longe de estar sozinho com a estrela, ele está cercado por uma multidão de outros fãs, com os quais pode se identificar, compartilhando um sentimento comum por seu objeto comum. A relação não é dual, mas múltipla – de fato, ela é multiplicada quase que infinitamente. O relacionamento com o ídolo envolve outros fãs, e até mesmo coletivos de fãs, que podem ser já instituídos, como fã-clubes, ou podem ter sido formados para uma ocasião específica, como os públicos reunidos quando de uma cerimônia fúnebre, um evento ou uma apresentação.

Quanto ao encontro com uma estrela, seus efeitos podem ir de um extremo a outro na escala de graus de admiração: reforço ou confirmação de sua grandeza, normalização por sua redução ao comum, desilusão quando expectativas são frustradas ou mesmo “dissonância cognitiva” quando a aparência ou comportamento da estrela entram em contradição excessivamente forte com sua imagem pública. Mas, qualquer que seja o resultado do evento, é provável que o encontro tenha um “efeito perturbador” significativo na vida da pessoa que o viveu, dando-lhe assim uma experiência emocional específica que ele ou ela desejará compartilhar com outros. Nunca se está, definitivamente, totalmente sozinho com uma celebridade, mesmo e especialmente durante um encontro face a face.

Mas a presença em si não criaria qualquer emoção se não houvesse antes a imagem, ou melhor, as imagens que a precedem; e estas possuem uma carga emocional ainda mais poderosa porque há sempre, mesmo de forma distante, a possibilidade da presença ou de sua realidade passada. Ao mesmo tempo em que o fascínio extrai a sua fonte do vai-e-vem entre a singularidade do admirado e a multiplicidade de admiradores, ele ganha consistência no vai-e-vem entre presença e ausência, proximidade e distância: tal é o “efeito referencial”. Inacessível pessoalmente, ao mesmo tempo em que indefinidamente disponível em suas imagens: tal é, portanto, por princípio, o detentor de um capital de visibilidade.

Enfim, para aqueles detentores de um alto capital de visibilidade, esta é ao mesmo tempo um trunfo e uma desvantagem: a visibilidade pode oferecer as formas mais extremas de gratificação, bem como o descaso, e isso pode ocorrer para e com uma mesma pessoa. Admirado e observado, o homem é ao mesmo tempo, como Paul Valéry observou, “um homem vigiado e que se sente como tal”. Instrumento inigualável de sedução erótica, a celebridade é também um fator de vício e de decadência moral e social: a ambiguidade é o efeito colateral da ubiquidade.

Axiologia da visibilidade

A dimensão moral não é a menor das áreas da vida social afetadas pela visibilidade. Mas a visibilidade é tão ambivalente no nível axiológico quanto no nível psicoafetivo; ela ocupa um lugar especial na escala da “publicidade” ou da legitimidade dos valores; e, ao colocar a questão do mérito em uma sociedade democrática de forma crucial, a visibilidade nos obriga a relativizar a questão do mérito colocando-a em uma gama mais ampla de justificações de “grandeza”, se entendermos que isso significa o estado de um ser a que foi atribuído um valor positivo. Eis o que faz da visibilidade o princípio de uma grandeza “singular” num duplo sentido: baseado no princípio de excepcionalidade, a visibilidade ocupa também um lugar atípico na gramática das justificações de grandeza e, mais geralmente, no sistema de valores.

O sucesso da famosa frase de Daniel Boorstin, repetida em toda parte, sobre a circularidade da celebridade – um homem famoso sendo “uma pessoa conhecida por sua notoriedade” – é um sintoma de sua consonância com uma exigência axiológica profundamente enraizada em nossas sociedades. É precisamente essa exigência que a frase igualmente famosa de Andy Warhol sobre os “quinze minutos de fama” a ser prometida a todos sublinha e zomba; pois se todos podem se tornar famosos, mesmo que por pouco tempo, isso quer dizer que um nada – ou que nada – motiva esse acesso a uma grandeza que, pela mesma razão, deixa de sê-la. Mas é claro que a coisa é um pouco mais complexa do que a frase de Warhol sugere, e ninguém duvida que ela tenha algum valor a não ser como uma piada. Pois seria necessária uma profunda revolução axiológica para que a grandeza concedida a todos continuasse a ser grandeza e para que deixássemos de procurar explicações e, sobretudo, justificações, baseadas em valores, para qualquer diferença de status entre as pessoas.

A crítica às celebridades ainda tem um longo caminho a percorrer. E se generalizamos a questão da celebridade à questão mais geral da exposição ao olhar, é qualquer dependência da opinião de outros que é estigmatizada por parte da tradição filosófica. Nessa perspectiva, a visibilidade, não apoiada pelo mérito e manchada pela superficialidade das relações inautênticas, aparece como o oposto de um valor: um “antivalor”. Todavia, a perspectiva oposta também existe: diferentes argumentos existem para fazer apologia da exposição ao olhar dos outros, apontando a visibilidade como, antes de tudo, uma necessidade humana fundamental. Simetricamente, é a invisibilidade que aparece nesta perspectiva como um antivalor, uma violação à ética na medida em que seria prejudicial.

Em resumo, a visibilidade é axiologicamente ambivalente: ela oscila entre direito moral e privilégio indevido, e isso não só para os pensadores, mas também para as pessoas comuns. As diatribes contra a “peopolização” formam legiões, mas não impedem que milhões de leitores comprem todas as semanas as revistas que fizeram disso seu negócio; os próprios fãs oscilam entre admiração e inveja, devoção e ressentimento, desolação e júbilo quando seu ídolo cai.

A querela iconoclasta opunha aqueles que aceitam ou até veneram a imagem do ídolo, à medida que esta seria uma mediação positiva dando acesso ao divino, e aqueles que recusam ou até mesmo destroem tal imagem, na medida em que ela seria uma mediação negativa, obscurecendo a presença do divino. Por trás da contradição entre uma visibilidade aceita ou mesmo desejada e uma visibilidade recusada ou mesmo desprezada, emerge a mesma lógica, centrada no papel ambíguo atribuído à mediação, dependendo se nela se vê o que nos aproxima ou, pelo contrário, o que nos separa do objeto de admiração, de amor ou, simplesmente, de olhar. A ambivalência da mediação parece assim como homóloga à ambivalência da própria visibilidade, que é ao mesmo tempo maculada por sua falta de autenticidade (o “espetáculo”) e elogiada por sua capacidade de desvendar, de sair do segredo, de dizer tudo (loft story). Em resumo, não é a visibilidade como tal que não é autêntica e, portanto, ruim, mas sim sua mediação pela cobertura midiática.

A visibilidade possui essa particularidade de ser, ao mesmo tempo, uma qualidade eminentemente pública, dado que só existe por meio da exposição de um ser no espaço público midiatizado e um valor – quando é um – que é essencialmente privado: o vínculo com as estrelas tende a ser experimentado e praticado mais do que reivindicado. Desse ponto de vista, a visibilidade está muito próxima da beleza, que também é um valor que atrai muito mais para o lado do polo “privado” do que para o polo “público”. Encontramos assim, por seu lugar homólogo na escala entre valores públicos e privados, a proximidade entre visibilidade e beleza. A visibilidade também é um valor relacionado com a feminilidade: não apenas na medida em que permite às mulheres alcançar posições eminentes, mas também na medida em que o tipo de admiração pelas estrelas que se dá no modo positivo de amor e reconhecimento é tradicionalmente mais familiar à cultura popular e, em particular, às mulheres.

Na herança religiosa da cultura ocidental existe uma marcada dualidade entre dois princípios que tornam possível construir uma axiologia da justa retribuição: o mérito, que privilegia a tradição axiológica e política própria ao regime democrático, e a graça, que privilegia uma certa tradição religiosa. Se o primeiro é, ao mesmo tempo, negado pelas formas atuais de prestígio midiático e sempre reafirmado por suas condenações, o segundo não permanece para dar consistência moral à grandeza das pessoas famosas? Para a graça, a verdadeira graça que as pessoas simples reconhecem – aqueles que não são incomodados por racionalizações ou justificações e que preferem a admiração à crítica – só existe quando vem de uma autoridade superior, não da ação humana: que ela seja divina, para os que creem, astrológica, para os crédulos, ou aleatória, para aqueles que preferem invocar o acaso ou a sorte. Aos seus olhos, a excelência não precisa ser merecida ou discutida: ela deve simplesmente ser celebrada, venerada, adorada, em todo caso reconhecida, em um movimento coletivo de admiração que une uma comunidade diante da singularidade de um ser extraordinário. Que a grandeza possa ser dada a uns e não a outros não choca ou ofende o senso de justiça de tais pessoas: ela satisfaz necessidade deles de admirar, todos juntos, sem reservas, com fervor e prazer. E dizer a necessidade “deles”, falar “deles”, não é dividir a sociedade em duas categorias – os cultos e os simples, os racionais e os irracionais -, mas sim designar duas polaridades que todos nós habitamos e sabemos nos investir, mesmo que uma ou outra seja mais familiar para alguns de nós do que para outros. A graça, portanto, é o modo de acesso à grandeza das pessoas famosas aos olhos daqueles que, antes de tudo, têm prazer em reconhecer, em todos os sentidos da palavra (identificar e confirmar), mais do que em justificar.

Isso significa que a crítica erudita encontra um alvo perfeito: o “mundo de fama”, para usar a terminologia de Luc Boltanski e Laurent Thévenot, é, na cultura ocidental de hoje, particularmente vulnerável à crítica. A visibilidade, com os fenômenos extremos a que ela dá origem, só pode exacerbar essa desconfiança em relação ao que está sendo constantemente estigmatizado como vulgaridade, publicidade, inautenticidade, mercantilização, alienação e irracionalidade. A filosofia, o direito, a moralidade, a política e a preocupação com as diferenças hierárquicas combinam-se assim para se opor a um consumo das celebridades que nunca deixa de se desenvolver, para interpor uma barragem e fazer de uma condenação pelo mundo erudito de práticas percebidas como essencialmente populares, iconófilas e idólatras. Desta forma, a tensão milenar que tem habitado o culto dos santos desde os tempos antigos é reproduzida e modernizada pelos meios técnicos de fabricar ídolos. Pois o que mudou na relação com os “grandes singulares” entre os primeiros tempos do cristianismo e nossa entrada na era midiática é que, como Peter Brown explicou, “essas figuras protetoras são agora seres humanos”.

Um Fato Social Total

A visibilidade é tipicamente o que Marcel Mauss, em referência à dádiva, chamou de “fato social total”: ela afeta todas as áreas da vida coletiva e, portanto, só pode ser compreendida plenamente se levarmos em conta esta globalidade. Por isso tivemos que olhar para a história das técnicas, representações mentais, hierarquia, religiões, política, esporte, jornalismo, arte, profissões, economia, direito, psicologia, moralidade… É também por isso que tivemos que recorrer a toda a gama de disciplinas acadêmicas que se interessaram pelo fenômeno: filosofia, história, comunicação, direito, economia, psicologia, antropologia, ciência política, sociologia – e, dentro desta última, especializações tão diferentes como a sociologia das profissões, a sociologia da arte, a sociologia da mídia, a sociologia das religiões, a sociologia dos valores, a socio psicologia, o interacionismo e até mesmo… a sociologia geral. É por isso que não podíamos nos limitar a nossa área geográfica inicial – a França -, mas tivemos que atravessar e cruzar fronteiras, e particularmente o Oceano Atlântico, para ver como este fenômeno se desenrola entre o velho e o novo continente.

Ainda mais subterrâneo, tivemos que nos mover mentalmente de um meio social para outro: usar os recursos do mundo acadêmico para entender o mundo popular, mas também usar essa compreensão para nos distanciarmos da própria visão do mundo acadêmico, com seus preconceitos e pontos cegos. Pois a cultura da visibilidade, mesmo que penetre profundamente nos círculos da classe trabalhadora, não poupa os círculos mais privilegiados e, em particular, aqueles que têm meios para pensar sobre isso – os acadêmicos – mesmo que seus valores preferissem encorajá-los a difamá-la. O leitor terá, portanto, compreendido que o “momento axiológico” (o desejo de defender valores) não deve dificultar o “momento epistêmico” (o desejo de compreender, descrever, explicar): um não é exclusivo do outro, desde que não se tente praticá-lo ao mesmo tempo, no mesmo contexto.

Se o fenômeno da visibilidade na era midiática é tão novo quanto as técnicas que o tornaram possível, a economia hierárquica, emocional e axiológica na qual ele está inscrito enquanto a renova é muito antiga. É, portanto, a longo prazo que o fenômeno da visibilidade deve ser considerado, na medida em que ele retransmite práticas profundamente enraizadas em nossa cultura, graças, em particular, às formas religiosas que tais práticas há muito tempo assumiram. Sob o Antigo Regime, reinou o elitismo aristocrático, baseado em uma excelência sem singularidade (porque era devido à filiação familiar), mas com uma “particularidade” a que a “partícula” aristocrática se referia: a de uma excelência coletiva sustentada por uma narrativa familiar e resumida por um nome. Após a Revolução Francesa, um elitismo burguês foi estabelecido, onde a excelência era sinônimo de mérito, conformidade com as convenções e respeito ao padrão monetário. Muito rapidamente, a partir do segundo terço do século XIX, foi acrescentado um elitismo artístico, onde, pela primeira vez, a excelência foi baseada na singularidade – a do talento e da originalidade, mas também da marginalidade social. Enfim, o elitismo midiático que surgiu no século XX trouxe à tona a singularidade, mas uma singularidade que estava ainda mais dissociada da excelência porque se baseava unicamente na visibilidade.

Da excelência sem singularidade à singularidade sem excelência: é assim que oscilam as concepções de grandeza e, com elas, a economia das relações entre comunidades e as singularidades em torno das quais elas se nutrem, entre a multidão e o ser extraordinário, engrandecido por suas façanhas, sofrimentos, seu gênio ou, simplesmente, o amor coletivo que ele inspira.

Para citar este texto: HEINICH, Nathalie. Resumo De la visibilité [Da visibilidade]. (Tradução por Diogo Silva Corrêa) Blog do Labemus, 2021. [publicado em 05 de maio de 2021]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2021/05/05/resumo-de-de-la-visibilite-excellence-et-singularite-en-regime-mediatique-por-nathalie-heinich

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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