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Explorando os “truques da escrita” de Howard Becker (Parte 1), por Victor Ferreira

Howard Becker revela que escrever é um desafio comum, até para acadêmicos experientes. Em "Truques da Escrita", ele desmistifica o processo, defendendo que erros, revisões e apoio mútuo são essenciais. Escrever não é mágica, mas um exercício contínuo de expressão, reescrita e colaboração.

Por Victor Ferreira (PPGSA/UFRJ)

 

Hoje iniciamos mais uma série de posts dedicados, como alguns textos anteriores aqui e ali nesse blog, à discussão sobre escrita acadêmica. A ideia é explorar e sistematizar alguns dos principais “truques” desenvolvidos e divulgados por Howard Becker em “Truques da Escrita”[i], livro publicado no Brasil pela editora Zahar em 2015. Becker (1928-2023) foi um sociólogo norte-americana de grande importância, conhecido por suas inúmeras pesquisas qualitativas em torno de temas como comportamentos desviantes (Becker, 2008a), “cultura estudantil” (Becker et al., 1976; Becker; Geer; Hughes, 1995), arte (Becker, 2008b), música (Faulkner; Becker, 2009), entre outros[ii]. Longe de ignorar a importância de Becker como “pai da teoria da rotulação” (embora ele mesmo recusasse esse título[iii]) e como figura fundamental do interacionismo simbólico, me interessam aqui nesse texto (e em outros posts que virão) os seus trabalhos mais propriamente metodológicos, como “Segredos e Truques da Pesquisa” (Becker, 2007), “Falando da sociedade” (Becker, 2009), “Evidências” (Becker, 2022) e, o tema de nossos próximos parágrafos, “Truques da Escrita” (Becker, 2015).

A versão brasileira do livro apresenta três prefácios. No primeiro deles, escrito especialmente para essa edição, Becker enfatiza que a obra em questão se propõe a ser uma “terapia diletante aos desesperados por alguma ajuda” (p. 7), destacando que a ideia principal por trás da proposta de expor certos “truques” de pesquisa é mostrar que você, pós-graduando/pesquisador, não está sozinho – todos nós que precisamos escrever textos acadêmicos, sejam eles relatórios de pesquisa, artigos, pareceres, trabalhos finais de disciplinas, e geralmente com prazos curtíssimos, enfrentamos dificuldades (muitas vezes colossais) de escrita. O problema, segundo o autor, é que quase ninguém fala disso abertamente, o que gera a situação de escrever “pensando que os outros não têm o mesmo problema que a gente” (p. 8). Becker ainda afirma que a configuração desse cenário se deve, em larga medida, ao fato de que nos acostumamos a trabalhar sozinhos, burilando nossos dados e batendo a cabeça com sinônimos de modo isolado, condição responsável por gerar a falsa impressão de que nossos colegas e orientadores não passam pelas mesmas dificuldades (afinal, eles seriam melhores, mais gabaritados, experientes…). Embora uma solução mágica não emerja automaticamente disso, Becker afirma que, caso tivéssemos consciência de que nossos pares enfrentam regularmente os mesmos desafios que os nossos em relação à escrita, continuaríamos com o problema, mas agora pelo menos saberíamos que é possível “tratá-lo” e tornar a escrita aos poucos menos sofrida.

De fato, acho que um dos trunfos de “Truques da Pesquisa” reside no ímpeto do autor de compartilhar abertamente experiências exitosas e fracassadas de sua própria lida com a pesquisa e a escrita acadêmicas. Essa “socialização das dificuldades e dos fracassos”, digamos assim, é um movimento que, inclusive, parece nadar contra a “vibe” hegemônica do meio acadêmico, constituído por seus professores e pesquisadores que parecem muitas vezes não sentir preguiça, não procrastinar, não ter dificuldades de escrever, não saber algum texto importante de sua área etc.:

“Os estudantes não veem um livro como resultado do trabalho de uma pessoa. Mesmo os estudantes de pós-graduação, que estão muito mais próximos de seus professores, raramente veem rascunhos de trabalho e textos que não estão prontos para publicação. É um mistério para eles. Quero eliminar o mistério e lhes mostrar que o trabalho que leem foi feito por pessoas que enfrentam as mesmas dificuldades”. (p. 18);

Howard Becker inicia o capítulo 1 do livro, intitulado “‘Introdução à redação’ para estudantes de pós-graduação”, contando sobre um semestre em que decidiu ofertar, pela primeira vez em sua vida, um curso de escrita acadêmica. Sem saber muito bem como fazer isso – ele sequer havia formulado um programa para a disciplina –, o sociólogo norte-americano decidiu realizar um exercício curioso na aula inicial: perguntar a cada aluno presente como eles escreviam. Becker não estava interessado em discursos “bonitos” sobre a elaboração de textos acadêmicos, mas sim nos detalhes mais “logísticos” da escrita: se as pessoas anotavam coisas em papéis, se trabalhavam em uma hora específica do dia etc. O resultado ocorreu como esperado: os alunos começaram a expor, com algum nível de embaraço, os seus “rituais mágicos” antes de escrever, como limpar a casa, anota ideias iniciais apenas em um determinado tipo de papel, tentar escrever entre horas específicas, entre outras coisas. Becker afirma que tais hábitos funcionam como rituais por meio dos quais as pessoas tentam controlar minimamente algo “imprevisível”, se esforçando para conferir-lhe certa ordem. Evidentemente, a exposição de tais comportamentos “esquisitos” gerou uma sensação de alívio generalizada entre os alunos:

“Comentei que todos estavam aliviados, e deviam estar mesmo, pois, se seus piores medos – serem loucos de pedra – eram reais, em compensação não eram mais loucos que ninguém. Era uma doença comum. […] saber que os outros têm hábitos de escrita malucos devia ser, e visivelmente era, uma boa coisa”.

Nesse exercício, Becker constatou a presença de dois medos principais nos relatos dos alunos: 1) eles temiam não conseguir organizar seus pensamentos; 2) eles tinham medo de que o conteúdo de sua escrita fosse algo “errado” e isso os fizesse passar vergonha. Uma forma de radical de evitar esses medos é… deixando de escrever – o que, evidentemente, não é uma opção para nós, pós-graduandos/pesquisadores/professores. Diante da necessidade constante de escrever, Becker nos traz a primeira dica/truque do livro:

  • Mesmo que seja um pouco constrangedor, embaraçoso, conversem com seus amigos de confiança a respeito das suas formas de trabalhar e se organizar em relação às pendências acadêmicas:

“Fiquei surpreso que as pessoas daquela turma, várias das quais se conheciam muito bem, não sabiam absolutamente nada sobre os hábitos de trabalho dos colegas e, na verdade, nunca tinham lido seus textos” (p. 26);

Realmente, qualquer pessoa que já tenha passado por alguma graduação ou pós, sobretudo em ciências humanas, sabe que é muito comum não conhecer nada sobre como amigos próximos escrevem e trabalham. Para o autor, é exatamente essa “privacidade socialmente organizada” (p. 9), um dos traços característicos do modo de organização social do mundo acadêmico, a origem de boa parte de nossos problemas de escrita. É curioso que problemas tão comuns em nosso meio – como escrever artigos de forma clara? Como passar da coleta de dados (qualitativos ou quantitativos) para a análise e, a partir daí, para a escrita de um texto conciso? – sejam enfrentados, na maior parte das vezes, individualmente. Embora tais dilemas tenham um caráter coletivo (porque generalizados entre nós), é estranho que não desenvolvamos – ou pelo menos que não circulemos adequadamente – “soluções comuns” para eles[iv]. Por essa razão, ele aconselha mais ao final do capítulo que cada um desenvolva o seu “círculo de leitores”[v] – ou seja, um grupo, composto por colegas, amigos, professores, ex-professores etc., que esteja disposto a, de tempos em tempos, ler efetivamente nossos textos. É claro que a ideia não é apenas despejar neles seus escritos, mas sim se dispor a também os ler quando necessário.

“Você só consegue mostrar seu trabalho falho se tiver aprendido […] que não sairá ferido se outros o lerem. […] você precisa de um círculo de pessoas que você sabe que reagirá adequadamente à etapa em que seu trabalho está” (p. 42);  

Geralmente, quando outras pessoas nos leem, vemos a necessidade de reescrever diversas partes do texto. Esse é um dos pontos fundamentais desse primeiro capítulo do livro – Becker reforça à exaustão que cientistas sociais (mas isso poderia valer também para outras profissões) devem se acostumar com a ideia de ter seus textos revisados. No mesmo curso, o sociólogo norte-americano realizou junto à turma exercícios coletivos de revisão de texto. Ao apagar os “excessos” da escrita acadêmica, uma aluna comentou: “Poxa, assim fica parecendo que qualquer um poderia dizer o que o sociólogo disse”. O comentário provocativo deu ensejo à seguinte questão, formulada pelo autor: o que é sociológico: o que você escreve ou a forma como você escreve? De fato, como reforça Becker, muitas vezes autores e autoras tentam tornar mais robustas as suas afirmações mobilizando o famoso “tom acadêmico e formal”[vi] e deixando de lado o verdadeiro significado de suas afirmações – que, de modo geral, e essa é a aposta de Becker, pode ser escrito em formatos mais simples e diretos.

Por fim, Becker nos traz a segunda e última grande dica desse capítulo inicial:

  • Na fase inicial de preparação do texto, devemos deixar de lado o ímpeto de elaborá-lo já com uma cara de “texto pronto”, sem eventuais “sujeiras” nele.

Que atire a primeira pedra quem nunca demorou excessivamente para começar um texto porque queria que ele saísse, logo de primeira, “perfeito”. Segundo Becker, tentar fazer desse jeito pode nos travar significativamente no momento inicial de elaboração da redação, momento no qual o mais importante é conseguir colocar ideias no papel (ou na tela). O autor comenta sobre algumas das impressões retiradas de comentários de seus alunos:

“Eles achavam que deviam elaborar tudo antes de escrever a Primeira Palavra, reunindo todas as suas impressões, ideias e dados, e resolvendo explicitamente todas as questões teóricas e empíricas importantes. Do contrário, podia sair errado. Encenavam ritualmente essa crença abstendo-se de começar a escrever enquanto não empilhassem na mesa todos os livros e anotações de que talvez viessem a precisar” (p. 39-40);

A ideia de que nossas primeiras linhas e parágrafos já devam nascer prontas para uma publicação é algo profundamente desestimulante, capaz de nos fazer desistir antes de sequer começarmos. Becker reforça, ao final do capítulo, a relevância de diferenciarmos um rascunho de um texto a ser apresentado ou publicado. Um texto publicado (em uma revista acadêmica ou em um blog, por exemplo) ou apresentado (em um evento) é resultado de uma série de revisões e reconstruções dessas primeiras linhas escritas. Contudo, só podemos publicar ou apresentar alguma coisa se nos arriscarmos a tentar escrever essas primeiras palavras, linhas e parágrafos. É clichê, e você já viu diversas vezes em redes sociais, mas, de fato, o feito é melhor que o perfeito.

Notas 

[i] Movimento similar pode ser visto nesse post do blog da professora Karina Kuschnir: https://karinakuschnir.com/2015/07/15/dez-truques-da-escrita-num-livro-so/ . Além disso, resenhas acadêmicas sobre o livro podem ser encontradas em Ésther (2016), Silva (2016), Oliveira e Oliveira (2015), entre outros.

[ii] Mais informações sobre os livros e sobre a própria carreira do autor podem ser encontradas em seu site pessoal: https://howardsbecker.com/ .

[iii] Basta conferir a entrevista de Becker concedida a Werneck (2008).

[iv] Inclusive, essa poderia ser uma proposta interessante de pesquisa: mapear quais e quantos cursos de ciências humanas no Brasil contam com disciplinas (e de que tipos, se obrigatórias ou eletivas) voltadas à escrita acadêmica.

[v] Dica parecida pode ser encontrada em Martín (2018).

[vi] Ainda no mesmo capítulo, Becker critica a utilização abusiva de substantivos abstratos e da voz passiva, destacando que tais vícios de escrita, tão presentes no mundo acadêmico das ciências sociais, se devem muitas vezes a um dilema fundamental da teoria sociológica: “quem fez as coisas que a frase afirma que foram feitas?” (p. 29). Para o autor, sociólogos mobilizam comumente a voz passiva porque várias de suas teorias realmente não deixam claro quem está fazendo o quê. Mesmo para aqueles que trabalham com grandes estruturas e sistemas, a voz passiva pode prejudicar suas construções verbais: “Suponha-se que um sistema rotula os desviantes. Dizer ‘os desviantes são rotulados’ também encobre isso” (p. 31).

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