Na semana passada, em seu discurso de posse, Donald Trump afirmou: “A partir de hoje, será a política oficial do governo dos Estados Unidos reconhecer apenas dois gêneros: masculino e feminino”. Embora o caráter transfóbico dessa declaração seja evidente, e a denúncia da transfobia indispensável, proponho ampliar a análise a partir de duas questões sociológicas:
- Em que medida podemos qualificar rigorosa e fundamentadamente essa postura como reacionária? Embora o termo seja frequentemente utilizado, muitas vezes carece de qualificação adequada.
- Como compreender a estrutura de plausibilidade que sustenta tal declaração? Ou seja, o que torna possível que esse tipo de discurso encontre aceitação e apoio em segmentos significativos da sociedade estadunidense?
Reacionário? Sim, mas como?
Uma das características centrais das sociedades modernas, conforme apontaram sociólogos clássicos como Émile Durkheim e Georg Simmel, e contemporâneos como Norbert Elias e Niklas Luhmann, é o processo de diferenciação social. Esse processo abarca, por um lado, a especialização de funções, que vai desde divisões primárias, como as baseadas em sexo e idade, até segmentações altamente técnicas e administrativas, como na medicina ou ciência. Por outro lado, envolve a interdependência social, típica de sociedades altamente diferenciadas, como a estadunidense, onde indivíduos dependem de uma rede complexa de especialistas para atender tanto a necessidades básicas quanto sofisticadas.
Na tradição de Durkheim e Elias, tal dinâmica de diferenciação está intimamente ligada à evolução de normas que promovem a dignidade e a autonomia dos indivíduos. A tese é que, quanto mais diferenciada e integrada uma sociedade, maior a tendência de prevalecerem ideais de autonomia e igualdade. Edouard Gardella, em obra recente, descreve esse fenômeno como “solidariedade individualista”, enfatizando como sociedades modernas conciliam interdependência funcional com a valorização da individualidade.
É crucial destacar que a diferenciação social não se limita ao nível funcional — exemplificado por sistemas autônomos e interdependentes como política, economia, educação e religião —, mas também ocorre no plano identitário. No passado, as sociedades modernas ocidentais frequentemente restringiram as identidades de gênero ao binarismo homem-mulher, associando-o ao sexo biológico e tratando outras identidades (trans, não-binárias etc.) como anomalias. Hoje, contudo, há um avanço significativo na valorização de uma ampla gama de expressões e identidades de gênero.
Dessa perspectiva, a administração Trump pode ser caracterizada como reacionária no sentido técnico do termo. Ao instituir um governo que desconhece e nega essa diferenciação interna da sociedade estadunidense, ele promove um retrocesso à lógica de uma sociedade menos diferenciada, na qual possibilidades além do binarismo de gênero não são reconhecidas. É como se Trump decretasse que apenas duas religiões oficiais existem – catolicismo e protestantismo evangélico, por exemplo –, ignorando a complexidade e a diversidade do panorama religioso nos Estados Unidos.
A estrutura de plausibilidade do apoio a Trump
Por que, então, esse discurso encontra ressonância? Afinal, Trump foi eleito mesmo articulando frases transfóbicas como essa, o que levanta a questão: como compreender o apoio que ele recebe de segmentos significativos da sociedade estadunidense? Proponho aqui duas hipóteses interligadas, que ajudam a lançar luz sobre esse fenômeno.
1. O efeito de histerese e a resistência à diferenciação social
A primeira hipótese, ancorada na teoria de Pierre Bourdieu, refere-se ao efeito de histerese, que descreve o descompasso entre transformações objetivas da estrutura social e a atualização do habitus dos indivíduos. Aqueles socializados em contextos menos diferenciados, sobretudo as gerações mais velhas, tendem a resistir às mudanças que desafiam as normas que moldaram suas vidas. No caso do discurso de Trump, o reconhecimento de identidades trans e não-binárias representa uma ameaça a essa visão de mundo, percebida como uma ruptura com a ordem natural das coisas.
Esse fenômeno pode ser comparado ao comportamento de uma aristocracia decadente que tenta preservar valores de uma estrutura social em colapso. Essa resistência não se dá apenas por ignorância, mas porque o próprio senso de estabilidade social dessas pessoas está atrelado à manutenção de categorias fixas de gênero.
2. A sacralização do indivíduo e a moralidade normativa
A segunda hipótese parte da observação de que as sociedades modernas tendem a sacralizar o indivíduo e seus direitos inalienáveis, como argumenta a tradição de Durkheim e Elias. No entanto, essa sacralização pode assumir formas normativas e excludentes. Para certos segmentos da sociedade estadunidense, a transição de gênero não é vista como uma expressão legítima de autonomia, mas como uma degradação moral, uma violação da sacralidade do corpo e da identidade “natural” do indivíduo. Nesse contexto, a transição de gênero é associada a um comportamento autodestrutivo, comparável a vícios ou desvios sociais.
Conclusão: Reacionarismo e Conservadorismo Moderno
Diferentemente da primeira hipótese, que sugere uma nostalgia de um passado mais homogêneo, a segunda hipótese aponta para um conservadorismo moral que opera dentro do próprio marco da modernidade. Não se trata de um simples desejo de retorno ao passado, mas de uma tentativa de reafirmar um modelo normativo do indivíduo. O que está em jogo não é apenas a resistência à diferenciação social, mas a defesa de uma visão de mundo em que o binarismo de gênero é elevado ao status de princípio moral absoluto.
Assim, o discurso de Trump não apenas rejeita a diversidade de gênero, mas encarna uma luta mais ampla pela imposição de um ideal fixo de identidade e sociedade. O que ambas as perspectivas possuem em comum é o caráter essencializado e naturalizante.
Seja na resistência à diferenciação social gerada pelo efeito de histerese, seja na tentativa de moldar a sacralização do indivíduo dentro de um arcabouço normativo e excludente, ambas as perspectivas partem de uma visão rígida da realidade social, tratando identidades e categorias como se fossem elementos fixos e imutáveis. Essa abordagem essencialista se ancora na ideia de que há uma ordem natural inquestionável, seja no campo das relações de gênero, seja na definição de papéis sociais.
O embate, portanto, não é apenas sobre gênero, mas sobre a própria estrutura da sociedade contemporânea e o alcance da autonomia individual na construção das identidades.


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