Por Gabriel Peters
Princípio 1: transforme seus seguidores em massa
Em 1951, Theodor Adorno publicou o ensaio “Teoria freudiana e o padrão da propaganda fascista” (2015: 153-189). O pequeno texto veio a lume dois anos depois do livro “Profetas do engodo” (1949), no qual Leo Löwenthal e Norbert Guterman analisaram as técnicas discursivas de “agitadores fascistas norte-americanos” (Ibid.: 153). Ainda mais relevante: as breves considerações de Adorno sobre a psicanálise do fascismo saíam um ano após o lançamento de A personalidade autoritária ([1950] 1950) – obra coletiva na qual diversos autores, Adorno incluso, mapeavam as características psíquicas que predispunham um indivíduo a aderir, em circunstâncias sócio-históricas propícias, a movimentos e regimes autoritários.
A participação de Adorno na pesquisa que ensejou esse volume coletivo foi decisiva, embora não isenta de tensões entre o “europeísmo” da sua sensibilidade dialética, de um lado, e as inclinações mais ou menos “positivistas” dos psicólogos sociais estadunidenses com os quais ele colaborou, de outro. Ademais, como vimos em post anterior, o acento que o livro como um todo põe sobre “o indivíduo potencialmente fascista” (Adorno et al. 1950: 1) dava à dimensão psíquica do autoritarismo mais autonomia do que Adorno reconhecia existir, a bem da verdade, na relação do sujeito individual com suas condições sócio-históricas circundantes na modernidade.
Neste e em outros ensaios que dedicou à personalidade autoritária (p.ex., 2020), o filósofo alemão mostrou que a pensava menos como um “potencial” psíquico autônomo do que como um efeito histórico de tendências centrais à sociedade moderna como tal, inclusive nas suas manifestações em regimes democrático-liberais. Um exemplo dessa moldagem sócio-histórica da psique era (e ainda é) a suscetibilidade, formatada na relação com a “indústria cultural” (Adorno; Horkheimer, 1985: 120-167) mesmo em sociedades formalmente democráticas, a técnicas de propaganda em geral, tais quais a manipulação de afetos eróticos ou de fantasias de poder – técnicas que podem ser empregadas tanto para vender ternos em uma democracia, digamos, quanto para arregimentar seguidores político-ideológicos de um movimento fascista.
No escrito que discutiremos hoje, Adorno defende a relevância das ideias que Freud desenvolvera em seu livro Psicologia das massas e análise do eu, publicado em 1921 (2011), para o entendimento da dimensão psicológica de “movimentos de massa fascistas”. A alusão já inclui aqueles movimentos e regimes que, liderados por figuras como Mussolini e Hitler, deixaram um rastro infernal de sofrimento, destruição e morte nos 30 anos que separaram as publicações do pai da psicanálise e do pensador frankfurtiano (i.e., entre 1921e 1951).
A obra de Freud trazia a psicanálise para o debate sobre a psicologia das “massas” ou “multidões” que já havia se tornado famoso na Europa dos anos de 1920, sobretudo na versão apresentada por Gustave Le Bon algumas décadas antes ([1895] 2019). A principal vantagem analítica de Freud em relação a essa literatura prévia sobre o tema, segundo Adorno, vinha do fato de que o psicanalista de Viena evitara a reificação da “mentalidade de massa” ao tomá-la não como uma realidade dada, mas como algo a ser explicado. Adorno nota que Freud não questionava a acurácia das descrições do comportamento de massa oferecidas por Le Bon, mas procurava apontar os mecanismos psíquicos que explicavam tal comportamento – mais especificamente, as regressões “que se realizam em cada um dos indivíduos que formam uma multidão e caem sob o seu sortilégio” (p.156).
O que resulta, afinal, desse “sortilégio” da multidão sobre seus membros individuais? Dentre os atributos da massa elencados no retrato leboniano, encontramos a dissolução do princípio de individuação entre seus membros, seu caráter altamente sugestionável frente às ordens do líder e a propensão à violência, em conexão ainda com outras formas de comportamento irracional e regressivo.
Em vez de considerar a massa como a causa primeira do comportamento dos indivíduos que a formam, portanto, Freud se perguntava sobre as forças psíquicas que possibilitam que indivíduos modernos possam atuar como uma massa imbuída das características sublinhadas por Le Bon: desindividualizada, irracional, facilmente manipulável, sempre à beira da violência e tutti quanti. O adjetivo “modernos” na caracterização daqueles indivíduos é parte do desafio explicativo de uma psicologia das massas segundo Adorno, já que a modernidade, como configuração social e institucional, condiciona historicamente os indivíduos a se portarem como racionais, autônomos e independentes – portanto, em sentido contrário à conduta de multidão.
Embora Freud tenha discutido as massas in abstracto, desconectadas de suas conexões com ideologias políticas, sua tentativa de “encontrar as forças psicológicas que resultam na transformação dos indivíduos em massa” (p.159) é diretamente pertinente, segue o argumento adorniano, à elucidação do vínculo entre líder e seguidores em um movimento fascista. Isto porque, quaisquer que sejam os demais objetivos do líder, fazer com o que seus adeptos se transmutem em uma massa, turba ou multidão é seu intento primordial:
“é…o objetivo do agitador transformar essas mesmas pessoas [i.e., os destinatários do seu discurso] em ‘turba’, isto é, multidões tendentes à ação violenta sem nenhum fim político sensato, e a criar a atmosfera do pogrom” (p.154).
Assim como Adorno deu exemplos posteriores aos anos de 1920 para ilustrar os achados de Freud, podemos realizar um exercício similar com o filósofo frankfurtiano, procurando ilustrações contemporâneas, em movimentos como o bolsonarismo e o trumpismo, dos mecanismos sociopsicológicos por ele surpreendidos na propaganda fascista. (Cabe chamar o bolsonarismo ou o trumpismo de fascistas, pelo menos nos seus discursos e estratégias[i]? Creio que sim.)
Uma ilustração? A palavra Pogrom usada por Adorno descreve bem o comportamento das respectivas turbas no 06 de janeiro norte-americano em 2021 e no 8 de janeiro brasileiro em 2023, comportamento cujo caráter regressivo se exprimiu tanto na forma de violência quanto, de modo mais pitoresco, no que toca aos marcos freudianos do desenvolvimento psicossexual. Nesse último caso, por exemplo, o 06/01 e o 08/01 envolveram, ambos, atos de defecação nos escritórios de alvos político-ideológicos da turba invasora (i.e., de Nancy Pelosi, líder do Partido Democrata nos Estados Unidos, e de Alexandre de Moraes do STF, alvejado pela Dona Fátima de Tubarão).
Para além da escatologia, como Adorno trata dos demais mecanismos de constituição de turba embutidos na propaganda fascista?
Princípio 2: substitua a discussão de questões concretas por xingamentos
“A esmagadora maioria dos pronunciamentos de todos os agitadores é direcionada ad hominem” (p. 153)
Termos como “política da lacração” e “política da trollagem” podem ser recentes, assim como as tecnologias nas quais se baseiam essas estratégias ideológicas. A análise adorniana deixa evidente, no entanto, que as estratégias em si já compunham a propaganda fascista na primeira metade do século XX. Como acontece com o que hoje sai da boca de um Donald Trump ou um Pablo Marçal, “a esmagadora maioria dos pronunciamentos de todos os agitadores” fascistas estudados por Adorno e colegas era “direcionada ad hominem”, ou seja, repleta de xingamentos, acusações difamatórias, apelidos derrogatórios e assim por diante[ii].
Nos casos relatados por Adorno, assim como em tais exemplares atuais, a profusão de ofensas e acusações substitui, em larguíssima medida, a discussão de problemas e propostas substanciais. No mais das vezes, o agitador fascista evita a discussão de questões técnicas que são, ao mesmo tempo, incrivelmente chatas e absolutamente vitais, as quais vão da legislação tributária até a métrica da produção industrial. A evitação é realizada pelo motivo bastante compreensível de que o líder fascista entende pouquíssimo de tais assuntos. Eis por que “o material de propaganda fascista…preocupa-se pouco com questões políticas concretas e tangíveis” (p.153).
No mais, os apelidos se inserem na estratégia mais ampla da persuasão pela repetição de significantes simplificadores como “comunismo”, “esquerdismo” e assim em diante, palavras encantatórias cuja infinda reiteração penetra fundo e duravelmente na mente dos seguidores:
“encontramos infinitas repetições dos mesmos slogans: a constante reiteração e escassez de ideias são ingredientes indispensáveis de toda a técnica. (…)…a rigidez mecânica do padrão é…ela mesma a expressão de certos aspectos psicológicos da mentalidade fascista” (p.155)
Dialética do apaixonamento
O laço entre o líder e a massa, escreve Adorno na esteira de Freud, é libidinal. A adesão da última ao primeiro “não se fundamenta em percepção e trabalho intelectual, mas sim em um vínculo erótico” (p.164). Em passagem citada por Adorno, Freud já escrevera que…
“…é uma sensação extremamente prazerosa para os indivíduos abandonarem-se de forma tão irrestrita às suas paixões e, assim, serem absorvidos no grupo, perdendo o sentimento de sua limitação individual” (apud. p.160)
O prazer na dissolução do próprio senso de individuação na massa fascista é similar, nesse sentido, àquele experimentado em uma multidão carnavalesca ou na comemoração de uma torcida organizada. No caso em mira, no entanto, ele deriva também, e sobretudo, da descarga dos impulsos que os membros da massa são normalmente obrigados a reprimir na vida cotidiana. Utilizando a problemática terminologia do “primitivismo” empregada por Freud, Adorno conclui que “aqueles que submergem nas massas não são seres humanos primitivos, mas apresentam atitudes primitivas contraditórias a seu comportamento racional normal” (p.161; grifos do autor).
O caráter libidinal da adesão ao líder também explica um dos aspectos que mais geram perplexidade em observadores externos ao movimento: a impermeabilidade a qualquer argumentação racional ou evidência empírica que se oponham à imagem feita da liderança – por exemplo, quando a aura de “sinceridade” e o compromisso com a “verdade” continuam a ser percebidos em um Trump, mesmo quando trumpistas são expostos a uma gigantesca lista de suas afirmações demonstravelmente mentirosas.
Princípio 3: o pequeno grande Narciso; ou “seja melhor e igual aos seus seguidores”
“A fim de permitir identificação narcísica, o próprio líder deve parecer absolutamente narcisista” (p.170)
“o próprio líder não precisa amar a ninguém mais, precisa ser de natureza dominadora, absolutamente narcísico, mas seguro de si e autônomo” (Ibid.)
É difícil não pensar em exemplares contemporâneos diante dessas passagens. Por exemplo, a autoconfiança inquebrantável de Donald Trump, a qual soa como delírio risível ou trágico para aqueles situados fora da bolha trumpista, é um componente fundamental do carisma que ele mantém entre os seus seguidores. Faz parte do seu narcisismo radical a postura de jamais dar o braço a torcer, admitir erros ou confessar alguma das tantas mentiras que ele deixa no seu rastro. O caráter não correspondido do amor das massas pelo líder narcisista também explica, ademais, a facilidade com que tal líder pode dispensar antigos aliados como lixo, traço frequente nas condutas de Trump e Bolsonaro.
A dimensão narcísica do vínculo libidinal entre o líder e a massa no fascismo introduz certas complexidades no argumento neofreudiano de Adorno. Por um lado, o líder deve ser superior ao seu seguidor em algum sentido e medida, sobretudo para que possa se apresentar como um “ideal do ego” com o qual o último quer se identificar. Uma ilustração dessa superioridade, para citar uma característica mencionada por Adorno e presente em figuras como Bolsonaro ou Trump, seria sua tendência frequente a exprimir em voz alta, para todos, aquilo que seus seguidores pensam e sentem, mas não têm (ou não tinham até então) “coragem” de expressar. O carisma do discurso abertamente ofensivo de figuras como Trump ou Bolsonaro deriva, entre outras coisas, do sentido de liberação catártica que ele propiciou a pessoas que já acalentavam tais sentimentos de modo mais ou menos contido, silencioso e ressentido – por exemplo, a ojeriza visceral de certa população em compartilhar espaços com populações até então deles alijadas, como pobres no avião, casais LGBTQIA+ nos shoppings, negros em universidades de elite, imigrantes em padarias (nos E.U.A) etc.
Por outro lado, continua Adorno, na medida em que a identificação deve abrigar um componente narcísico similar ao do apaixonamento, no sentido de permitir que o seguidor veja e ame a si mesmo no líder, este deve se manter suficientemente parecido com aquele para prover o narcisismo identificatório. A junção entre superioridade e semelhança gera a figura que Adorno descreve como o “pequeno grande homem”, misto de herói onipotente e pessoa do povo, cuja “pequenez” pode ser propagandeada por meios diversos, como as preferências alimentares (p.ex., Bolsonaro comendo pão com leite condensado) ou o modo de falar (p.ex., o sotaque “caipira” de Marçal).
Princípio 4: a mera existência da diferença ofende o narcisismo
Desde uma visão externa, a eficácia psíquico-ideológica dos pânicos morais de conteúdo LGTBQfóbico produzidos pela extrema direita é mais “compreensível” quando sua propaganda sustenta que os receptores de suas mensagens serão diretamente afetados pelas alardeadas “ameaças” – por exemplo, para lembrar uma mentira recente de Trump, a afirmação de que crianças estariam passando por cirurgias compulsórias de mudança de gênero em escolas estadunidenses.
No entanto, deixando-se de lado o que há de mentiroso nos alegados perigos, mesmo a sugestão de que o seguidor será diretamente afetado não está presente em uma pauta política e cultural como, digamos, aquela que questiona o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por que raios, perguntam então os defensores de tal direito, pessoas que não são homossexuais, as quais não serão afetadas em qualquer sentido prático pela mudança na legislação, possuem interesse em legislar sobre uma matéria que não lhes diz respeito? Uma passagem freudiana sobre o narcisismo citada por Adorno oferece uma resposta:
“Nas antipatias e aversões indisfarçadas contra estrangeiros próximos, podemos reconhecer a expressão de um amor-próprio, de um narcisismo, que se esforça por sua autoafirmação e se comporta como se a existência de um desvio perante suas formações individuais trouxesse consigo uma crítica a elas e uma exigência de sua alteração” (p.176-177; grifos meus).
Não é à toa que noções como “homofobia”, “transfobia” e similares sublinham o componente irracional do phobos: para uma parcela da população e seus representantes políticos, a mera existência de casais homossexuais, por exemplo, pode ser percebida como “uma crítica” ao seu modo de vida “e uma exigência de sua alteração” (Ibid.). Um modelo psicanalítico da mente também inclui a possibilidade de que tais ofensas narcísicas, oriundas do mero existir de “um desvio perante suas formações individuais”, não sejam admitidas nesses termos pelas pessoas que as abrigam. Frequentemente, discursos ideológicos oferecem racionalizações de tais sentimentos, substituindo enunciados como “eu rejeito a mera existência de homossexuais” por teorias que apresentam os ofendidos como efetivamente ameaçados em sua própria existência – por exemplo, as teorias segundo as quais a legalização do casamento gay seria parte de uma estratégia “marxista cultural” para destruir a família cristã não só no Brasil, mas no Ocidente como um todo.
O argumento ensaiado acima pode ser lido como uma apropriação mais livre da psicanálise. Uma ilustração mais clássica do pensamento psicanalítico, também relevante à compreensão da extrema direita global na atualidade, consiste no que Adorno chama de “dispositivo ‘se você soubesse’ dos agitadores, que promete a revelação vingativa de toda sorte de prazeres proibidos usufruídos por outros” (p.178; grifos meus). A obsessão por sexo é um dos nove traços associados à personalidade autoritária – e não é preciso ser freudiano para reconhecer que pessoas que despendem tanto tempo especulando sobre o comportamento sexual “devasso” de outros indivíduos e grupos podem possuir um “investimento libidinal” nesse comportamento, obtendo alguma “satisfação compensatória”, nessas especulações, para seus próprios desejos recalcados.
Narcisismo moral e narcisismo gnóstico
Revestida pelo espírito de denúncia da imoralidade alheia, aquela obsessão por “prazeres proibidos” provê o extra de uma satisfação narcísica, oriunda do senso da própria superioridade moral:
“O ganho narcísico fornecido pela propaganda fascista é óbvio. Ela sugere continuamente…que o seguidor, simplesmente por pertencer ao in-group, é melhor, superior e mais puro que aqueles que são excluídos” (p.176)
Dada a afetação discursiva de virtudes, sustentada por uma ênfase ainda maior sobre os vícios dos inimigos, não surpreende que o narcisismo ao qual Adorno se refere possua tal dimensão moral. No entanto, quando pensamos no apelo psicológico de certas teorias da conspiração, nas variantes menos ou mais radioativas de “terraplanismo”, é tentador supor também a existência do que podemos chamar de um narcisismo gnóstico: uma satisfação narcísica oriunda da crença de que se é um membro da minoria esclarecida quanto ao que verdadeiramente ocorre no mundo, em contraste com uma maioria enganada. O orgulho narcísico nessa condição também se acopla provavelmente a um componente existencial: a conquista de um sentido para uma vida que antes se via incerta quanto a ele (p.ex., o sentido de uma resistência heroica e esclarecida a poderosos grupos que enganariam a maior parte da humanidade).
Pequenos grandes influenciadores
Um dos desafios na interpretação de fenômenos como o bolsonarismo e o trumpismo é o contraste entre a extraordinária importância histórica desses personagens, de um lado, e suas limitações intelectuais patentemente observáveis, de outro. A parte final do texto de Adorno sobre a propaganda fascista enfrenta essa questão, obviamente não em relação a Trump e Bolsonaro, mas a figuras como Hitler e seu propagandista Goebbels: “como os agitadores fascistas, rudes e semiformados como são, obtêm o conhecimento desses mecanismos” que permitem a eles liderarem movimentos de massa? (p.180).
A primeira porção da resposta adorniana aponta as semelhanças psicológicas entre líder e liderados, com o primeiro se diferenciando dos últimos sobretudo em sua liberdade expressiva:
“O líder pode adivinhar as demandas e necessidades psicológicas daqueles suscetíveis à sua propaganda, porque os reflete psicologicamente e deles se distingue por uma capacidade de exprimir, sem inibições, o que é latente neles. (…) Os líderes são normalmente tipos de caráter oral” (p.181)
As considerações de Adorno mostram que fenômenos como a política da “trollagem”, instrumentalizada para os propósitos da extrema direita, não são tão novos como pareciam ser quando discutimos anteriormente o bolsonarismo e o trumpismo neste blog. A aptidão do líder em dar uma expressão loquaz a opiniões chauvinistas, mantidas por seus seguidores de modo mais tímido (pelo menos antes que estes se sintam encorajados pelo líder a fazerem o mesmo), já integrava o carisma dos agitadores fascistas estudados por Adorno. A identificação com a “coragem” expressiva do líder, associada à satisfação catártica de ouvir as próprias opiniões desinibidamente alardeadas por ele, apenas ganha contornos novos na atual conjuntura de ascensão da nova direita global, como a reação a um grau extra de vigilância sobre discursos chauvinistas na esfera pública (o “politicamente correto”) ou, ainda, o charme antissistema que o político troll adquire quando contrastado à hipocrisia que reinaria na política profissional das democracias liberais.
A eficácia dos mecanismos de persuasão ideológica da propaganda fascista também resulta, finalmente, de uma perícia ou “expertise” adquirida pela própria profissionalização da “agitação fascista” como um setor da indústria cultural:
“a agitação fascista tornou-se atualmente uma profissão,…um meio de vida. Ela teve muito tempo para testar a efetividade de seus vários apelos. (…) Através de um processo…que pode ser observado em todas as técnicas empregadas na cultura de massa moderna, os apelos sobreviventes foram padronizados, de forma semelhante aos slogans publicitários que provaram ser muito valiosos na promoção dos negócios” (p.182)
Conclusão: Adorno tem razão
Em sua introdução a uma edição recente d’A personalidade autoritária, o adornólogo contemporâneo Peter E. Gordon (2019) interpreta as aproximações que Adorno promove entre as técnicas de propaganda do fascismo, de um lado, e aquelas da indústria cultural em geral, de outro, como uma rejeição da tese de que haveria uma cisão radical entre fascismo e democracia liberal. A afirmação pode ter implicações problemáticas, como a de considerar o fascismo uma espécie de “mero adorno” (sic), negando o que há de conquista civilizatória genuína nas instituições da democracia liberal – até eu aprendi isso com Habermas. Isto dito, Gordon tem razão em identificar uma similaridade de mecanismos em jogo. Por exemplo, como a propaganda fascista, a publicidade “normal” procura despertar o desejo por seus produtos através de vias irracionais, tais quais a identificação afetiva (p.ex., uma propaganda de uma marca de alimentos que evoca almoços em família), os gatilhos eróticos (p.ex., em comerciais de cerveja), as fantasias de poder e sucesso (p.ex., na publicidade de um relógio caro) e assim por diante.
A continuidade entre as estratégias publicitárias do capitalismo em regimes democráticos, de um lado, e os mecanismos de persuasão da ideologia fascista, de outro, se estendem até mesmo às atuais engrenagens algorítmicas que Adorno, obviamente, não pôde testemunhar. Já discutimos o tema anteriormente: operando como ferramentas mercadológicas de “fidelização” que oferecem ao cliente o tipo de conteúdo do qual ele indica gostar, os algoritmos informacionais funcionaram, na prática, como vórtices de radicalização e bolhas de enclausuramento ideológico. A psicometria neoliberal voltada ao lucro, apressada em tipificar o cliente a partir de um número restrito de escolhas (p.ex., um ou dois vídeos de Bolsonaro ou Olavo de Carvalho no Youtube), para então poder lucrar com ofertas customizadas (p.ex., dezenas de vídeos de Bolsonaro, Olavo de Carvalho e conteúdo ideológico afim no Youtube), terminou produzindo subjetividades autoritárias ao envolvê-las em bolhas informacionais (p.ex., o usuário que não era bolsolavista quando assistiu aos primeiros vídeos, mas foi convertido “pela” plataforma).
Enfim, Adorno continua tendo razão…em muita coisa.
Notas
[i] Seguindo uma sugestão inteligente de Jason Stanley (2017), podemos distinguir entre o fascismo como um movimento político caracterizado por seus programas, discursos, estratégias etc., de um lado, e o fascismo como modalidade de estado, de outro. Embora a primeira forma de fascismo busque se realizar historicamente na segunda, nem todo movimento fascista logra produzir um estado fascista. Nesta perspectiva, por exemplo, o núcleo duro da visão de mundo bolsonarista já era fascista antes da ascensão de Bolsonaro à presidência, sem que isto signifique que o Brasil tenha se transformado efetivamente em um estado fascista durante o governo Bolsonaro, em função de uma série de fatores – por exemplo, a insuficiente cooptação do judiciário (em contraste, digamos, com o que aconteceu na Hungria de Viktor Orbán), a insuficiente “milicianização” do aparato repressivo (em contraste, digamos, com a Itália de Mussolini) e assim por diante.
[ii] Por exemplo, “Joe Biden” virou “sleepy joe” nos discursos de Trump, enquanto Marçal recorreu a “Boules”, “Tchutchuca do PCC”, “Chatábata” etc.
Referências
Adorno, T. (2015). Ensaios sobre psicologia social e psicanálise. São Paulo: Unesp.
________. (2020). Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Unesp.
Adorno, T. W., Frenkel-Brunswik, E., Levinson, D. J., & Sanford, R. N. (1950). The authoritarian personality. Harper & Row.
Adorno, T. W., Frenkel-Brunswik, E., Levinson, D. J., & Sanford, R. N. (2019). The authoritarian personality. Verso.
Adorno, T. W.; Horkheimer, M. (1985). Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar.
Freud, Sigmund. (2011). Obras completas: vol. 15. São Paulo: Companhia das Letras.
Le Bon, G. (2019). Psicologia das multidões. São Paulo: Companhia das Letras.
Lowenthal, L., & Guterman, N. (1949). Prophets of deceit: A study of the techniques of the American agitator. Harper & Brothers.
Stanley, J. (2017). How fascism works: The politics of us and them. Random House.


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