Ciência e política como vocação: o esquecido legado de Marianne Weber para a sociologia contemporânea, por Caio César Pedron

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Introdução

Conhecemos bem o legado de Maximilian Karl Emil Weber (1864-1920), considerado um dos pais da sociologia – mesmo que nunca tenha se definido como tal[1] – e teórico central nas discussões que perpassam os fenômenos religiosos, econômicos, políticos, jurídicos e até mesmo musicais. Sua obra não é referência só por aquilo que permanece, como também, por aquilo que se descobre de novidade, como nos casos da sociologia econômica, sociologia da música e até na sociologia do amor[2]; por tudo isso, Weber é aclamado como um clássico, aquele tipo singular de pensador que faz parte do cânone consagrado da sociologia, sem perder, com isso, o horizonte de possibilidades novas de aplicação para explicar os fenômenos do século XXI.

Quando imaginamos a relevância que Max Weber tinha no cenário da nascente ciência sociológica alemã, pensamos que o autor sempre foi considerado – tanto ali quanto em todos os outros destinos da produção acadêmica – uma unanimidade. Não passa pela nossa cabeça qualquer possibilidade de que sua obra poderia ter sido esquecida, deixada de lado ou até mesmo abandonada, parece que ela nasceu pronta para ser considerada sagrada escritura do individualismo metodológico ou da teoria da ação. Porém, um olhar mais aguçado para a história nos faz ver a importância de uma figura esquecida, essa que sobreviveu ao seu lado como uma espécie de “escada” para que a tragédia do grande pensador pudesse ser anunciada ao quatro cantos, o que é certo é que: não haveria tão grandioso destino sem a insaciável vontade de Marianne Weber.

Foi ela que editou, organizou e publicou o seu Opus Magnum, Economia e Sociedade, que deu sequência a publicação dos Ensaios Reunidos de Sociologia da Religião – publicados antes apenas nas páginas da Archiv , foi também graças a sua vontade que os ensaios sobre metodologia foram organizados e publicados e, não contente com esse esforço titânico, em 1926, publicou uma biografia do marido. Mas, a sua atividade intelectual e política não começa no mundo apenas após a morte de Max Weber, começa muito antes, em 1894, quando participa de aulas com o filósofo Alois Riegl e funda um escritório de apoio a mães solteiras na cidade de Freiburg.

Nas páginas que seguem[3], o que quero fazer é um resgate da história esquecida de uma das “mães” da teoria social e de sua vertente crítica, pois seus trabalhos pioneiros podem ser considerados, sim, tão fundadores quanto os de seu marido. Quero, por meio deste trabalho, apresentar as causas biográficas, históricas e sociológicas que dão a Marianne Weber o direito de ser rememorada, não por uma apego a tradição ou a história do pensamento, mas, e porque, sua contribuição continua sendo inovadora para o pensamento contemporâneo.

Para tanto, pretendo, em um primeiro momento, apresentar uma sintética biografia da autora, nela, quero explorar esse engajamento político no mundo e o seu interesse pelo conhecimento. Na segunda parte, pretendo explorar o pensamento da autora, associando-o sempre aos debates do movimento feministas e ao contexto maior no qual estava inserida a mulher, a feminista e a pesquisadora. Por fim, trato  da polêmica ideia de cultura feminina, isto porque ela nos oferece alguns apontamentos referentes a como a crítica social da autora se combinava com sua prática política, sem que a primeira fosse subsumida na segunda. Destaque para a hipótese, e somente hipótese, de que a interpretação do modelo tipológico ideal pela autora permite o uso desta abstração de um modo diferente do que era adotado por seu pares masculinos: a abstração, na autora, é posta a serviço da crítica, abrindo-se a possibilidade de oferecer respostas ao problema que apresentava.

A definição da vocação política proposta por Max Weber em “Política como vocação” trata de constituir três elementos de caráter para que um político não fosse, nem um puro interessado no pragma do poder e, muito menos, um partidário da convicção ética – que confunde a realidade que deveria ser com aquela que efetivamente era –, Weber propõe uma ética da responsabilidade que conjugaria razão e emoção (valores, razões e afetos) oferecendo uma decisão política com senso de proporção, responsabilidade e paixão. Em Marianne Weber podemos encontrar a frieza do senso de proporção a serviço de uma paixão, uma causa objetiva, que motivava a autora a lutar na arena política em favor da emancipação da tutela econômica marital, do direito de acesso aos bancos universitários, do sufrágio universal e da garantia de proteção legal as mães desamparadas. Seus escritos violavam as regras da “neutralidade axiológica”, não para fazer demagogia ou, pior, para produzir um livro com uma tese[4], eles procuravam escrutinar no direito, na filosofia e na sociedade os problemas que limitavam o horizonte de expectativa das mulheres, tomando a ação política em seu significado para o conjunto da conduta humana.

Max Weber sempre sonhou em ser político e teve que se contentar com a esfera intelectual, impondo a si mesmo um ideal heroico de crítica e resignação ao que lhe parecia inevitável, o tal processo de racionalização do ocidente e seu resultado: a fragmentação do homem moderno e da possibilidade de uma conduta de vida global. Marianne Weber, por sua vez, sonhou em ser intelectual, mas não se contentou em aceitar o papel que lhe fora imposto por aquilo que diagnosticou. A autora enfrentou o ideal de autoridade presente no direito, o modelo de feminilidade proposto pelos intelectuais e o próprio inimigo interno, o ideal da Hausfrau, em seu caráter submisso e castrador da liberdade de pensar. Se resignou apenas após a morte do marido, e dedicou o resto de sua vida[5] para que este pudesse se fazer vivo nas letras. A autora fez – tanto com relação a publicação de Max Weber quanto na sua prática política no movimento feminista e na constituinte de Baden – aquilo que, nas palavras de Max Weber, um verdadeiro político deveria fazer, pois:

<blockquote>

Fazer política significa perfurar lenta e energicamente tábuas duras, com uma combinação de paixão e senso de proporção. É certo afirmar – e toda experiência histórica confirma – que não se teria alcançado o possível se, neste mundo, não se tentasse atingir o impossível. Mas quem pode faze-lo tem de ser um líder, e não apenas isso, mas também – em um sentido muito simples da palavra – um heroi. E aqueles que  não são nem uma coisa nem outra devem se armar com aquela firmeza do coração que lhes permita suportar o fracasso de todas as esperanças. E isso deve ser feito agora, caso contrário eles não serão capazes de realizar se quer o que é possível hoje. Apenas quem souber, com certeza, que não se desesperará se o mundo, do seu ponto de vista, for estúpido ou malvado demais para aquilo que pretende lhe oferecer, quem conseguir dizer, apesar de tudo isso, “mesmo assim!”, apenas essa pessoa terá a “vocação” para a política.[6]

A vida de Marianne Weber

Marianne Schnitger nasceu em 1870 na cidade interiorana de Oerlinghausen, principado de Lippe, na Alemanha. Era filha de Anna Weber[7], a neta e uma das herdeiras de Karl Weber, com Eduard Schnitger, um médico rural de posses escassas. Consagraram a união com pouca estima por parte da família materna e Marianne nasceu após um ano de casamento; quando a menina tinha dois anos perdeu a mãe, que morrera ao dar a luz pela segunda vez. Foi criada na pobreza da família materna e logo viu o pai perder a sanidade, refém de uma doença psicológica com traços hereditários que assolaria mais dois tios[8].  Por incentivo de uma tia começou a estudar, mas só terminou a Volkschule, uma vez que a família paterna não possuía recursos para mantê-la estudando e as convenções sociais também impediam a continuidade do estudo, pois não havia porque mulheres estudarem no ensino secundário se não poderiam acessar as universidades.

A primeira chance de sair da cidade do interior foi oferecida pelo avô materno, que lhe enviou para estudar em um colégio de formação feminina em Hannover; a jovem Marianne pela primeira vez pôde conhecer os modos e o estilo de vida da sociedade burguesa, estudava línguas modernas e fazia dança como parte do currículo[9] que formava meninas para o papel da moderna Hausfrau[10]. Em 1891, Marianne foi convidada pela família de Charlottenburg para passar algumas semanas em Berlim, “agora ela ia poder saciar-se da atmosfera cultural da casa deles e dos tesouros culturais da cidade grande, o ritmo rápido da vida de Berlim ondulava por suas veias; àquilo pelo menos era viver!”[11]. Lá conhecera os filhos de Helene Weber, os dois primeiros muito bonitos; mas o mais velho “não”, pois “era corpulento, a cabeça em forma de pera tinha cicatrizes de esgrima, os cabelos cortados rentes[12]”, lábios pequenos em contraste com o nariz grande e disforme – assim era a descrição do então assessor Max Weber.

Naquele primeiro momento quem mais lhe cativara era Helene, a matriarca da família inspirava a jovem que “divinizava seu destino, sentir-lhe-ia a bondade e pureza inatingíveis, reverenciava-a e amava-a devotamente, e de bom grado deixou-se educar por ela[13]”. O amor por Helene não lhe impediu de, contra a vontade da matriarca, desposar o filho mais velho, o próprio Max sentia-se atraído por ela e – depois de perceber que sua mãe incentivava um amigo dele a cortejar a moça – lhe enviou uma carta, na qual após explicar a situação de sua relação com Emy Baumgartem e a condição para não ferir o coração dela e de seu amigo, dizia:

A gigantesca onda de paixão ergue-se alta, é escuro em volta de nós – saia comigo, minha camarada de altos princípios, desse tranquilo porto de resignação, para os altos mares, onde os homens crescem na luta das almas e o transitório é descartado. Mas lembre-se: na cabeça e no coração do marinheiro deve haver clareza quando tudo se agita debaixo dele. Precisamos não tolerar qualquer rendição fantasiosa ao humor obscuro e místico de nossas almas. Pois quando o sentimento a exaltar, você tem de controlá-lo para governar-se com sobriedade.[14]

O casamento se concretizou em 1893, no início do outono, depois alugaram uma casa e “encontraram” logo uma garota prussiana para o trabalho de serviçal[15]. A família visitava frequentemente para “ajudar” a jovem esposa, na verdade estavam avaliando se a jovem conseguiria lidar satisfatoriamente com os afazeres do lar. Foi assim até a mudança para Freiburg, mal sabia o casal o que o destino reservara a sua união. Já em Heidelberg, Marianne reorganizou e dirigiu a sucursal de uma associação nacional dedicada à educação das mulheres Frauenbildung-Frauenstudium (Estudos Femininos-Educação de Mulheres). A associação oferecia palestras sobre questões femininas e cursos sobre temas acadêmicos[16], Marianne queria oferecer para outras mulheres o ensino erudito que lhe havia sido negado quando jovem e que impossibilitaria sua formação acadêmica no futuro[17]. Nessa época, a pauta do movimento feminista burguês era colocada na suspensão do monopólio da autoridade parental e marital[18], no direito ao voto e ao acesso ao ensino universitário.

Anos mais tarde, enquanto Max Weber se recuperava e começava a escrever os primeiros trabalhos do pós-crise – Roscher e Knies e os problemas lógicos de Economia Política Histórica (1903), A Objetividade do Conhecimento na Ciência Social e na Ciência Política e, o clássico, Ética Protestante e “Espírito” do Capitalismo (1904-1905) – Marianne Weber acabara de publicar o seu primeiro livro O Socialismo de Fitche em relação à doutrina de Marx, em 1900, e colhia os frutos do engajamento político que começara em 1897, após sua mudança para Heidelberg. Nesta época a autora dividia os cuidados requeridos por Max com a agenda positiva que ia além dos cursos e seminários da Frauenbildung-Frauenstudium, adjacente a ela – e um ano depois de sua primeira publicação – constituiu um escritório de ajuda jurídica para as “socialmente destituídas de privilégios[19]” cuja direção foi ocupada por uma mulher.

A melhora relativa do marido, após sua demissão, acrescida ao recebimento de uma herança por parte de Marianne[20], que lhes livrava de vez do fardo do trabalho, permitiu que a jovem intelectual alçasse maiores voos: preparava-se para escrever o seu livro mais importante Esposa e Mãe em desenvolvimento legal[21], incentivava mulheres a exercerem cargos de chefia – o caso de Else von Richtoffen, Camilla Jellinek e Marie Baum[22] – e se uniu ao grupo liberal das feministas burguesas que iriam disputar espaço e dominar o Bund deutscher Frauenvereine, uma espécie de liga que conjugava todos os movimentos e associações femininas.

A obra de Marianne Weber

O pensamento de Marianne pode ser relacionado ao de Max quando nos aproximamos do texto “Autoridade e Autonomia no casamento[23]” originalmente produzido em 1912. Aqui podemos encontrar dois canais de conexão com a sociologia compreensiva: o primeiro é o conceito de autoridade e o segundo é a metodologia compreensiva proposta pela utilização dos tipos ideais como mediadores hipotéticos do problema teórico. Marianne Weber faz uma breve genealogia – tipológica – do desenvolvimento das relações amorosas entre os sexos e identifica, na análise histórica, o surgimento do matrimônio como uma criação cultural na qual a mulher é protegida do ímpeto arbitrário do poder patriarcal[24], são constituídas regras para o casamento e dotes que são a marca da passagem de uma situação de concubinagem para uma legitimidade mínima do extrato feminino.

O desenvolvimento histórico do matrimônio nunca questionou abertamente a autoridade conferida pelo patriarcado ao homem na relação conjugal, foi permitindo paulatinamente, apenas uma valorização das relações afetivas de uma maneira sublimada, ou seja, para além da relação sexual propriamente dita. Assim, foi possível estabelecer a base para um relacionamento amoroso sob o qual a intimidade espiritual passava a ser o principal significado do casamento[25] e, posteriormente, pelo próprio pensamento alemão, garantiu-se a autonomia moral da personalidade através do tratamento do outro com “um fim em si mesmo[26]”. “Mas o que foi negado à mulher pelo reino da ideia logo foi forçado sobre ela no reino das necessidades[27]” e a industrialização e desenvolvimento da época moderna expulsaram as mulheres de seus lares, que, assim, libertas – em suas consciências e independentes e economicamente –, poderiam requerer sua autonomia frente aos preceitos legais autoritários que ainda faziam delas uma exclusiva posse do marido.

Após apresentar esta luta cultural moderna Marianne faz a seguinte pergunta: É a autoridade ou a autonomia que deve guiar as relações entre os sexos? É claro que a autoridade patriarcal deveria ser desbancada, não poderia ser mais aceitável que os direitos universais e iguais concedidos às mulheres – em abstrato nas cartas constitucionais – fossem negligenciados na esfera matrimonial. Na submissão voluntária, o segredo da felicidade para religião, deveria ser tomada apenas como uma decisão particular de cada mulher, avaliando caso a caso[28], e não como veículo subjetivo de validação da autoridade marital.

A nova situação econômica das mulheres e a debacle das velhas instituições de formação cultural diante da modernidade criaram uma situação de instabilidade para o marido, somente aqueles que tivessem desenvolvido algum senso de autoconfiança e, também, discernimento crítico proporcionado pelo desenvolvimento intelectual, poderiam escapar da desorientação que a maioria dos esposos tradicionais compartilhavam, e Marianne Weber define muito bem essa perturbação do marido autoritário:

Ele não descansará enquanto não estiver constantemente seguro também em sua posição como mestre de sua vida interior mais pessoal. Ele sentirá a necessidade de monitorar suas leituras, suas amizades, seus interesses fora de casa. Essa tendência semiconsciente, que é, em muitos casos, meramente sugerida pela tradição, continua a fazer incontáveis maridos hoje, desconfiados de toda séria ambição por parte das mulheres para serem ativas além dos limites da casa.[29]

A descrição deste marido controlador e inseguro parece estar amparada na influência pessoal que Max Weber sênior teve sobre Helene e seus filhos, por exemplo: na demissão do tutor do filho mais novo (Karl Weber), por sua proximidade e afinidade intelectual[30] com Helene, além do já relatado incidente entre o pai e seu primogênito, o velho não permitia que sua esposa saísse sem seu consentimento e acompanhamento. Se o ódio pelo pai e pelo autoritarismo Junker fizera com que Max Weber se rebelasse da dominação patriarcal, também Marianne Weber, influenciada por suas experiências pessoais e pelas polêmicas do marido e de sua família, tirava daí exemplos e imagem para constituir a sua crítica ao patriarcado alemão.

Não é à toa que a figura da Hausfrau tenha sido selecionada na construção do objeto teórico como a principal “inimiga interna” do desenvolvimento da mulher, Marianne havia passado por um colégio de formação feminina – em detrimento do pagamento de estudos em uma escola preparatória para a universidade –, o patriarca Karl Weber havia decidido por ela, em sua autoridade, qual seria o melhor curso. O modelo de dona de casa alemã pode ser definido como aquela que “sempre se mantêm valiosa para o marido como a mãe de seus filhos e a fonte do seu conforto, mas ele raramente pensa em dividir sua vida intelectual superior com ela[31]” e a própria relação ficava limitada ao comodismo da moralidade burguesa, e a pobreza do espírito da qual Nietzsche falava.

A luta entre autoridade e autonomia ganhava contornos de complexidade, ao lado dos ideais de autoridade – próprios ao caráter prussiano – estavam os modelos de subserviência tradicionais e religiosos, como a submissão voluntária, ajustados às necessidades da dona de casa alemã, que precisava ser atual – falar as línguas modernas, dançar, apresentar um grau razoável de conhecimento e dominar a arte da domesticidade – o bem cuidar do lar –, sem que para isso tivesse a liberdade de consciência e a autonomia necessária para ser considerada como personalidade autônoma e, não mais, posse adjacente aos domínios do patriarca alemão. O ideal da dona de casa alemã é o elemento auxiliar da dominação patriarcal, a derivação substitutiva do caráter junker para a mulher, com valores próprios para a manutenção do patriarcado.

Diante dessa condição e para consolidar a autonomia moral da personalidade da mulher, Marianne propõe uma agenda de reforma dos direitos das mulheres: 1) Eliminar a autoridade de decisão geral do marido, 2) Diferente distribuição do direito parental, quando há diferença entre os pais para a melhor condução da vida do filho fica estipulado que a mãe decidirá pela menina e o pai pelo menino, 3) Garantir a esfera de independência pecuniária da mulher, onde seus deveres de apoio ao marido sejam claramente delineados.[32] Tomada às devidas proporções, as reformas da autora permitiriam uma melhora razoável na condição de vida das esposas e dos filhos que ainda permaneciam sob a tutela dos pais.

A situação na qual se encontravam as mulheres – sem as transformações necessárias – podia descambar para duas relações: a primeira é a da subserviente e infeliz Hausfrau que por consequência de acatar o amor se submetia as próprias condições de uma relação amorosa incompleta; ou, ainda, a da mulher que havia descoberto só muito tarde os dons do espírito e mesmo cultivada acabava por ficar sem forças para mudar uma relação que já começara errada[33]. Para que a esposa moderna não recaísse nos erros de suas antepassadas, ela deveria vencer o hábito da vida cotidiana através de uma relação de camaradagem para com o marido.

E assim termina sua análise do desenvolvimento dos valores na esfera matrimonial, definindo soluções e propondo alternativas para o antagonismo que determinava o modo de vida na qual ela e suas conterrâneas viviam. No nível comparativo, este texto já adota a metodologia dos tipos ideais indicando um compromisso com os desenvolvimentos metodológicos do marido. Bermigham[34] repara que a autora toma o imperativo categórico kantiano individual “encarar outro como fim em si mesmo” como imperativo estrutural da conduta dos seres humanos rumo a uma autonomia da personalidade.

Existem também diferenças entre a apropriação da metodologia compreensiva por Marianne. Por exemplo, Michel Pollack[35] via na transformação metodológica de Max Weber, que passara para a ênfase no método comparativo (cada vez mais universal) acompanhada de um descaso com qualquer prognóstico futuro ou presente– como na ética protestante, quando no final da obra tece algumas considerações, para depois afirmar que não gostaria de entrar no terreno das suposições[36] –, uma superação dos métodos da escola histórica com uma possível perda da capacidade de previsão. Marianne, nesse sentido, não perde o prognóstico de medidas reais para desentranhar do patriarcado prussiano os direitos das mulheres e esposas, apresentando junto de sua genealogia ideal-típica conceitos que podem servir como mobilizadores da crítica no presente.

Não cabe aqui discutir se há ou não há contradições na forma como Marianne Weber se apropria do modelo tipológico do marido em favor de juízos de valor, também não há espaço para uma crítica aos limites do seu modelo teórico e do reformismo burguês que não leva as últimas consequências a sua crítica. O que importa perceber é que a autora produzia durante os primeiros anos do século XX um conjunto de obras teóricas alinhadas com os problemas do movimento feminista alemão e com os temas de debate intelectual. É possível afirmar, sem reservas, que o papel de Marianne Weber no cenário alemão do entre séculos é algo como o de uma intelectual – ainda que seu título de Frau Doktor seja a extensão do privilégio outorgado ao marido – com forte participação política, esta que seria a tônica de toda vida pública da autora.

A prática política de Marianne

Falando em participação política, em 1904 um fato interessante acaba por conjugar a participação de Max Weber nos debates dos quais sua esposa participava já ativamente. Tratava-se das tensões que ocorreram em época na Liga para Proteção da Maternidade e Reforma Sexual (Bund Mutterschutz und Sexualreform) situada em Leipzig. Seu objetivo inicial seria a proteção das mães solteiras e dos filhos ilegítimos e, por isso, recebeu associados como Friedrich Naumann, Werner Sombart e o próprio Max Weber. Após a entrada de Helene Stöcker[37] o movimento deu uma guinada em direção a um projeto político libertário, a primeira doutora em filosofia da Alemanha defendia – Amparada em Friedrich Nietzsche e Ellen Key – uma “nova ética” como proposta de reavaliação de todos os valores.[38]

Esta ala radical do movimento feminista respondia a uma demanda própria de seu contexto, pois as taxas de natalidade caiam ano a ano e as taxas de morte de bebês prematuros eram as maiores[39] – comparando com Inglaterra e França – dentre os países industrializados; somado a isso, a flagrante taxa de morte de filhos ilegítimos prematuramente alcançava 33,9% destas crianças[40] e este abandono das mulheres e crianças em situação de ilegitimidade motivava o movimento para defesa da liberdade reprodutiva e dos direitos da mãe a ter reconhecimento social. Helene Stöcker e Adele Schreiber respondiam a demandas diferentes das dos movimentos ingleses; queriam através do Bund Mutterschutz garantir proteção legal aos direitos reprodutivos da mulher – inclusive o aborto –, permitir o reconhecimento social das relações livres e enfrentar o patriarcado presente no matrimônio e na prostituição, que para elas eram instituições relacionadas de controle e opressão da sexualidade feminina[41].

O movimento feminista burguês alemão foi fraturado em dois grupos, o primeiro composto por “idealistas”, do qual faziam parte Max e Marianne e toda ala direita do movimento e o segundo de “naturalistas”, grande parte deles composta por médicos e de pessoas ligadas ao cientificismo higiênico e darwiniano do período[42]. Ambos os lados concordavam, em termos gerais, com a expansão do direito das mulheres, através de uma reforma na lei conjugal, da possibilidade de flexibilização do divórcio, e, também, da necessidade da independência financeira feminina. O choque estava dado, no entanto, em uma questão prática: era possível – ou aceitável – permitir casos extraconjugais e relacionamentos eróticos para combater o mal maior prostituição?[43]

O rigorismo ético de Max era compartilhado por Marianne, embora ela fizesse – diferente do marido – algumas concessões diante de tantas pessoas em situações delituosas[44]. Em uma palestra para O Congresso Social Evangélico[45] intitulada “Questões Básicas de Ética Sexual”, a autora contrastava o puritanismo e a moralidade burguesa ao tratamento mais humano daqueles que incorreram em pecado; não deveria ser possível avaliar alguém por sua ética sexual, pois “aprendemos a reconhecer que a nobreza humana consiste de uma multiplicidade de características e modos de ação e não é necessariamente destruída se, apesar de sérios esforços, uma pessoa não alcança a altura dos ideais.[46]” A tolerância para com o problema não escondia o desconforto de toda a burguesia letrada que havia sido formada pela moralidade burguesa e pelos cânones universitários, diante dos inflamados debates entre a Federação Abolicionista[47], pela regulação e controle do estado da prostituição, e o Bund Muttershutz, com a legalização dos relacionamentos ilegítimos, que traziam suas pautas e cavavam as trincheiras para o feminismo moderno.

A influência deste debate no pensamento do casal foi razoável, enquanto Marianne escrevia em resposta direta às defensoras e defensores da “nova ética”, Max colocara em uma nota de rodapé de sua Ética Protestante as possíveis relações entre o puritanismo sexual e a ética médica, identificando na passagem entre o puritanismo e o utilitarismo – personificado em Benjamim Franklin – a chave para entender a perspectiva clínica. Se antes a ética médica se unia aos puristas sexuais para defender a castidade como meio higiênico, naquele momento:

Um zeloso adepto da prostituição higiênica – tratava-se da regulamentação de prostíbulo e das prostitutas – defendia, recentemente, a legitimidade das relações extraconjugais (que eram por ele consideradas higienicamente benéficas), utilizando como justificação poética o caso de Fausto e Margarida. Considerar Margarida como prostituta e não conseguir distinguir entre a poderosa ação das paixões humanas e as relações sexuais por razões higiênicas são fruto da posição puritana. Esta é também a posição típica do especialista, recentemente apresentada por um conhecido médico, de que uma questão que se estende tão a fundo nos mais sutis problemas da personalidade e da cultura, como é o caso da abstinência sexual, deveria ser tratada apenas pela opinião do médico. Para o puritano, o especialista era o moralista, atualmente é o médico; todavia, a competência de discutir questões específicas é a mesma nos dois casos.[48]

 A nota foi provavelmente escrita no ano de publicação da segunda parte do ensaio, 1905, quando ainda estavam quentes as disputas sobre a “nova ética”, o casal estava em choque diante da força com que este novo “modelo de conduta” se desdobrava para muitos outros movimentos, do anarquismo ao pensamento psicanalista.

No outono de 1910 a BDF realizou sua convenção em Heidelberg, pela primeira vez “a universidade e as autoridades estenderam suas saudações e a municipalidade agora reconhecia o idealismo e a necessidade da luta feminina”[49]. Esses homens passaram a ver as líderes do movimento como mulheres que lutavam para fazer da necessidade uma virtude trabalhando pela independência feminina. Apenas um ano depois, em 1911, Marianne que tanto havia trabalhado para levar a convenção para Heidelberg – seu território – fortalecendo conexões com outros movimentos de mulheres burgueses e religiosos, conseguiu, junto a seu grupo, tomar o poder da associação: com a eleição de Gertrud Baümer, a ala radical do movimento feminista burguês perdeu espaço na associação, o que resultou em um papel político de ainda mais representatividade por parte da autora.

Nos anos seguintes a autora seria feita sucessora de Frau Baümer, presidindo a BDF em 1919 e participando de inúmeras atribuições, mas seu período como política foi além de representante do movimento feminista. Marianne também foi deputada da constituinte de Baden, participando ostensivamente da criação de um novo partido, o PDA (Partido Democrático Alemão), junto deles Marie Baum e Gertrud Bäumer seriam eleitas para Assembleia Constituinte de Weimar e para o Reichstag, a primeira até 1932 e a segunda 1921[50]. No entanto, sua memória maior do período foi a derrota eleitoral de Weber – que perdeu a indicação como cabeça de chapa em uma lista de deputados em Frankfurt e não aceitou uma indicação tardia a Baden ou uma posição inferior na lista de candidatos –, em poucas palavras a autora resume sua frustração:

Isso decidiu a renúncia de Weber a toda liderança política e a uma prática política eficiente em larga escala. Pela segunda vez, seu talento de estadista foi excluído da esfera ativa, mas, desta feita, não por causas inerentes ao seu temperamento, e sim pelo servilismo das organizações políticas e pela ambição de homens medíocres. Em um momento em que todos pediam líderes, a nação não soube aproveitar Weber.[51]

Weber x Simmel ou a resposta intelectual e política de Marianne ao ideal de cultura feminina 

Georg Simmel (1858-1918) era o pioneiro do Weber-Kreis quando se tratava de descobrir novos objetos de pesquisa, por exemplo, ele foi o primeiro a tratar do fenômeno econômico sob uma perspectiva cultural, o primeiro a tratar das questões femininas e, também, o primeiro a produzir um pensamento social sobre o amor. Não é a toa, que em um texto de homenagem postuma, tenha dito Gyorgy Lukács ao seu respeito: “a sociologia da cultura, como Max Weber, Troeltsch, Sombart e outros empreenderam, só se tornou possível – por mais fortes que sejam suas divergências metodológicas com ele – no terreno que soube criar”[52].

De todo modo, no campo de estudos sobre as mulheres, Simmel deu uma contribuição bastante polissêmica e, por isso, polêmica, o que não era incomum ao seu espírito impressionista. Cunhou o conceito de cultura feminina, concebendo-o em contraposição a cultura objetiva – ou, melhor, masculina –, enquanto a primeira era subjetiva e espiritual a segunda era objetiva e material, os nossos objetos culturais do mundo moderno eram fruto da cultura tida como masculina; enquanto que, a educação do espírito humano e a transmissão dos valores civilizacionais eram, de fato, coisas da cultura feminina.

Essa participação de Simmel no debate das questões femininas não foi de todo contraproducente, seu modelo de cultura feminina e masculina provocou muita polêmica tendo ora a predileção e ora a crítica do movimento feminista burguês[53]. O seu debate com Marianne Weber, que trataremos a seguir, é importante porque revela a apropriação crítica por parte da autora da discussão de Simmel e demonstra a relevância de seu pensamento sobre as mulheres para o período. Embora Marianne tenha criticado acidamente a separação entre a cultura masculina – objetiva e diferenciada – e a feminina – subjetiva e centrada – ela retomou estes trabalhos, através da crítica, para construir um modelo normativo próprio usado em defesa da emancipação feminina.

Tomando como ponto de partida a discussão proposta por Simmel em “Cultura Feminina” (1902) podemos nos questionar: afinal, pode a mulher produzir valores supraculturais e superpessoais que possam se constituir como cultura objetiva? A pergunta é o mote da argumentação simmeliana que se coloca em resposta ao movimento feminista, em especial ao movimento que luta pelo aprimoramento do casamento – leis maritais – e pela independência econômica da mulher[54]. Para Simmel, estas pautas eram individuais, ainda que atingissem uma coletividade de mulheres para as quais estes direitos foram negados.

Para compreender melhor o argumento, vamos nos deter um pouco ao texto. A cultura objetivada historicamente que conhecemos – a arte, a ciência, a história, a técnica, o trabalho – tem um caráter adaptado às condições da capacidade de produção masculina[55], pois o processo de especialização no qual o homem separa a objetivação impessoal do trabalho de sua subjetividade[56] privada foi instituído durante os séculos por homens, e não pode ser reproduzido pelo espírito feminino, tendo em vista que sua substância é exatamente a unidade da personalidade global, o conjunto da vida interior, que contrasta definitivamente com a divisão social do trabalho masculina. Por isso é que na esfera econômica do trabalho não cabe, como queria o movimento feminista, a colocação da mulher nas mesmas funções da profissão masculina; mas sim, a monopolização das funções adequadas, estabelecendo uma nova divisão do trabalho, e Simmel nos dá um exemplo:

Algumas uniões operárias, por exemplo, os tecelões e os chapeleiros, encontraram então uma saída introduzindo uma lista padrão de salário para todas as funções parciais do trabalho fabril, mesmo os mais ínfimos. Essas funções são retribuídas em plena igualdade, quer sejam exercidas por homens, quer por mulheres. Nasceu assim quase automaticamente à divisão do trabalho em virtude da qual as mulheres monopolizaram, de certa forma, as funções adequadas a suas forças físicas e à sua habilidade, deixando aos homens as que convinham às capacidades destes.[57]

Assim, a competição entre homens e mulheres pelos mesmos trabalhos acabariam e, de quebra, as mulheres poderiam se dedicar às funções do processo produtivo que poderiam ser mais adequadas à sua natureza. Portanto, os gêneros que por ora pareciam em guerra, poderiam em uma relação de complementaridade constituir um todo de atividades múltiplas, oferecendo à humanidade uma forma social de desenvolvimento[58]. Para que esse cenário futuro se consumasse, seria antes necessário que as mulheres experimentassem a formação intelectual e de oportunidades da cultura masculina, só assim, através da confirmação de seus direitos, é que seria possível “adquirir a base, o material e a técnica necessários a suas possibilidades particulares de trabalho[59]”.

Simmel valorizava a participação das mulheres em muitos aspectos da cultura objetiva, por exemplo: nas artes, em especial na escrita do romance e menos nas artes plásticas, na ciência com a participação na medicina e nas pesquisas históricas e na matemática, ciência que por sua abstração própria tinha o poder de não revelar distinções ao portador de sua linguagem universal[60]. No entanto, todas essas ciências – à revelia da matemática, talvez – eram ensinadas e praticadas junto a homens, o que fazia com que a contribuição feminina se adequasse à objetividade masculina limitando a subjetividade própria a personalidade global feminina.

No final do texto, Simmel responde ao questionamento que fizera no início e seu argumento final e tenciona a posição que parecia conciliatória: mesmo que fosse possível admitir a produção de cultura objetiva pelas mulheres, seria necessário junto dela [da cultura] uma objeção, ou melhor, a afirmação simultânea de que “a forma da vida interior típica, que o ritmo psíquico da feminilidade são rebeldes à produção desses valores a que chamamos de cultura objetiva[61]”.  À revelia da produção feminina até então citada em concomitância com a cultura da objetividade masculina e mesmo da proposta da complementaridade entre funções masculinas e femininas, Simmel afirma a rebeldia da feminilidade diante da forma que a cultura objetiva tomou. Somente um contexto de transformações históricas extensas legitimaria a rebelião dessa subjetividade que está ancorada nas profundezas irracionais da alma e permitiria, assim, um juízo subjetivo sobre sua formação[62].

Marianne Weber domina em compreensão a teoria de Simmel, coisa rara no período[63], e apresenta em sua crítica as principais características do processo no qual os valores culturais são produzidos: sua forma requer a objetivação de estruturas exteriores conectadas à subjetividade interna através de uma conjugação entre a alma subjetiva e o produto intelectual objetivo. A mulher é, para Weber[64], simultaneamente, diferente e igual ao homem[65],

Isto é, como ser humano ela compartilha com o homem uma abundancia de talentos e habilidades que direciona ela para as mesmas tarefas e formas de atividade para as quais ele é direcionado. E, por outro lado, como mulher, tarefas especiais importantes recaem sobre ela, como resultado de sua identidade sexual, que a impedem de realizar as suas tarefas universais humanas.[66]

Para a autora a mulher não é, de maneira alguma, limitada por sua natureza para a produção das objetividades culturais, ela bem pode exercer todas essas atividades – ciência, arte, trabalho, filosofia e religião – da mesma maneira qualificada que a do homem; mas ela também é equipada – em sua natureza – para esfera de tarefas culturais especiais que não são somente responsabilidade dela, ainda que para ela tenha sido despejadas desde sempre. A proposta de Marianne se diferencia de fato da de Simmel quando ela afirma existir um meio termo, um terreno comum de experiência, que conjuga as estruturas da cultura objetiva e da cultura pessoal, combinadas neste meio termo pessoal/suprapessoal elas moldam a existência imediata.

Este meio termo tem uma característica singular, ele consegue despojar a cultura de sua característica de fim em si mesmo e, conscientemente, pressiona-a a serviço do desenvolvimento da personalidade, da existência individual e da imediaticidade da vida cotidiana[67]. A modelagem da existência imediata é mais do que o desenvolvimento e formação da alma individual através da cultura, para Marianne ela é a formação da atmosfera intelectual e moral que está no entorno, que flui entre os indivíduos e que os liga a altos relacionamentos pessoais de vários tipos, como: companheirismo, amizade, amor, casamento e família[68].

É o desenvolvimento de uma moralidade própria às tarefas da esfera cultura especial que fazem da casa, por exemplo, um lar, reconfortante e protegido – como que um balneário de recuperação para os homens fragmentados pela tragédia da cultura[69] e é também esta mesma moralidade que oferece a primeira formação para as crianças e incute nelas as “boas formas” e maneiras que perfazem o jeito correto de ser e fazer. São, por isso, determinantes para constituição de uma cultura de expressão[70], enquanto modos de comportamento e convenções de sociabilidade necessárias à experiência de viver em sociedade. O distanciamento para com Simmel é relativo, dado que ele também afirma a potência deste conjunto de tarefas especiais da cultura feminina, pois eles são notavelmente marcantes na esfera da vida privada. Afirmara ele:

Ora, houve e ainda há, em parte pelo menos, uma só e única profissão desse gênero, revestida da mais elevada significação cultural, plenamente autóctone ao mesmo tempo, no seio da natureza feminina. Falo da economia doméstica. A gestação doméstica, com sua incomensurável importância para o conjunto da vida, é a grande contribuição cultural da mulher, e a casa traz inteiramente a sua marca; suas capacidades e interesses, sua afetividade e sua intelectualidade, toda a rítmica de seu ser forneceram, até aqui, uma criação da qual só ela é capaz.[71]

Se esta cultura especial feminina é, para a autora, ligada à imediaticidade das formas de vida tal qual é o trabalho doméstico a contribuição cultura decisiva da mulher, na concepção de Simmel, então, ela é de fato diferente da cultura objetiva masculina? Dado que esta segunda traz ao mundo, objetos culturais que tem duração diferente da vida do homem e são autoreferenciados no cotidiano da existência.

 Então qual é a novidade desta esfera de tarefas culturais especiais em relação à cultura feminina de Simmel?  Definitivamente, para a autora, essas tarefas especiais que cultivam a personalidade não estão ligadas somente à subjetividade dos indivíduos, mas são conectadas à objetividade, pois são consequência objetiva das altas faculdades morais[72] – interiores – e da moralidade cotidiana que marcam o tratamento social exterior dos homens como uma cultura de expressão. É como se as tarefas especiais – com seu caráter interior/exterior total – fossem necessárias para fundamentar as bases nas quais a cultura objetiva poderia ser produzida.

Mas, a autora vai além, pois ela prepara essa concepção teórica nova com uma finalidade ainda maior: se o despertar do auto aperfeiçoamento, que só pode ocorrer pelas transmissões familiares/femininas, é “tarefa da mulher” – que tem o papel de ponte que une a cultura objetiva à cultura pessoal –, então: “o que nós chamamos de conteúdo cultural em seu mais próprio senso só pode ser adquirido no caminho a seguir através da cultura objetiva, através da penetração profunda no mundo da mente e do espírito cristalizado fora da existência imediata[73]”. É preciso que a mulher participe do processo de cultivação intelectual para assumir sua tarefa cultural superior, ou seja, para continuar provendo aos seus filhos – e a toda sociedade da cultura objetiva – uma reconciliação com sua personalidade fragmentada, é necessário que a mulher moderna desperte de sua atual situação de atraso junto ao ideal da hausfrau alemã, pois:

A moderna, mulher intelectualmente desperta certamente não precisa remover o ideal de dona de casa alemã do templo, no qual ela presta homenagens do seu próprio esforço. Obviamente, isso deve manter sua validade e poder para todas as gerações futuras. Mas nós destruímos seu poder negativo como um valor absoluto e como uma meta exclusiva de desenvolvimento para o sexo feminino, porque ele sufocou nosso desenvolvimento como seres intelectuais e espirituais e, em geral, nossos poderes humanos e característica comuns. [74]

Destruindo a negatividade do valor atribuído ao estímulo da personalidade, em seu meio privado, a mulher moderna pode tomar para si a nova substância e as novas formas de ação que ela delineou de maneira compatível com seus objetivos que são “os desdobramentos da mulher em ricos e profundos conteúdos culturais[75]”. Assim Weber legitima os novos ideais e se possível uma nova cultura feminina, reconciliada com a cultura objetiva e com um dever fundamental diante das tarefas especiais impostas pela cultura; ela é diferente e até superior[76] ao homem, pois pode e deve fazer o que ele também faz e ainda tem uma tarefa social especial que lhe pertence.

Ainda que esse novo ideal valorativo não esteja disponível para todas as mulheres, tendo em vista que a formação para o trabalho e o exercício nele por um período não pode ser útil à mulher que quer se tornar portadora da cultura – o que inviabilizaria uma classe intelectual feminina que não fosse burguesa ou aristocrática – ainda assim, o árduo trabalho intelectual está acessível às mulheres e pode garantir às portadoras de cultura objetiva o “alinhamento de sua existência com valores e validades atemporais[77]”. Portanto, a guisa de conclusão: a superação do “relativismo” das duas culturas se faz pela valorização dos conteúdos atinentes às “funções sociais femininas” questionando a suposta “incapacidade da mulher” de produzir cultura objetiva, deste modo combinando a igualdade no mundo concreto a diferença das tarefas especiais.

A síntese objetiva da proposta de Marianne Weber é teórica e política, porque requer para a efetivação daquela proposta intelectual a atividade prática no mundo: a formação intelectual, a atividade no mundo do trabalho e a liberdade econômica da mulher são condições sine qua non para que seu pensamento se concretize. A produção intelectual e o diagnóstico crítico da realidade social se conjugam a uma proposta de intervenção política no mundo, é que a autora conseguiu superar os limites que o ideal de neutralidade axiológica – como proposto por Max Weber – infligiam ao pensamento tipológico ideal, oferecendo uma saída para aqueles que, como ela, pensavam a realidade com o intuito de transforma-la.

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Notas

[1] O autor se considerava economista, dizendo isso, inclusive, na famosa conferência, “ciência como vocação”.

[2] A esse respeito, ver: PEDRON, Caio César. A Gênese Social do Contexto de Emergência da Esfera Erótica Weberiana. Dissertação (Mestrado em Sociologia) Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas, Campinas, p.210. 2019.

[3] As páginas que seguem fazem parte de minha pesquisa de mestrado, são uma espécie de bricolagem de dois capítulos da dissertação com algumas alterações. A proposta deste texto é fruto da descoberta deste legado “perdido” de Marianne Weber para a sociologia, surgiu da minha incredulidade diante do esquecimento de um personagem do nosso “campo” tão distinto e com ideias que bem poderiam servir de meio para uma atualização ou mesmo releitura.

[4] Foi assim que Weber definiu o trabalho de Sombart em “Os Judeus”.

[5] HANKE, Edith. “‘Max Weber’s Desk is now my Altar’: Marianne Weber and the intellectual heritage of her husband”. History of European ideas, v.35, n.3, 2009, setembro, pp. 349-359.

[6] WEBER, Max. A política como profissão e vocação. In: WEBER, Max. Escritos Políticos. [tradução: Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa] São Paulo: Folha de S.Paulo, 2015.p.368.

[7] Ana Weber era filha de Karl Weber, o filho primogênito e, portanto, patriarca do clã Weber-Bielefeld. Era o administrador da fábrica de linho da família, foi o responsável pela migração para Oerlinghausen. Tomado como exemplo por Weber na Ética Protestante como o modelo de industrial: moderno na forma e tradicional nos costumes.

[8]LENGERMANN, Patrícia; NIEBRUGGE, Gillian. The Women Founders. Sociology and Social Theory, 1830-1930. New York: McGraw-Hill.1998.p.194.

[9]Ibid,.p.195.

[10] Modelo que designava a dona de casa tradicional da Alemanha.

[11] WEBER, Marianne. Max Weber: uma biografia. Rio de Janeiro: Casa Jorge, 2003, p.213.a.

[12]Ibid., p.212.

[13]Ibid., p.214.

[14] WEBER, 2003, p.218.a.

[15] Na biografia Marianne relata que Bertha apegou-se ao casal até sua morte, 23 anos após sua “contratação”. (WEBER, 2003, a, p.232.)

[16] ROTH, 2003, p.XXII.

[17] Marianne não pôde cursar o ensino universitário e formar-se doutora porque lhe faltava o ensino secundário. (Ibid., p.XIV).

[18] “Mulheres submissas e filhas devotas”, com esse subtítulo Roth (2003) consegue definir com clareza como foram chamadas as mulheres – por outras mulheres! – que faziam parte do movimento feminista burguês; entretanto, ainda que a imposição não fosse o forte desse grupo de mulheres, elas possuíam pautas bastante progressistas e através de seus contatos conseguiram, no primeiro quarto do século XX, conduzir o movimento feminista alemão a vitórias substanciais como: o acesso em 1908 aos bancos universitários, a formação de mulheres para atuar na chefia de fábrica, a participação do movimento feminista – que conseguiu derrubar as barreiras do sufrágio – na reconstrução Alemã após a primeira grande guerra. Marianne Weber participou ativamente do movimento em todas as conquistas listadas acima e pensava um conjunto de propostas interessantes: a reforma na lei que dava monopólio de decisão sobre os atos das mulheres por parte dos pais e maridos e a luta por independência econômica. Ver: WEBER, Marianne. Excerpts from “Selections from Marianne Weber’s Reflections on Women and Women’s Issues” in: Lengermann, Patricia Madoo; Niebrugge, Gillian. The Women Founders: Sociology and Social Theory 1830–1930. Waveland Press. Edição do Kindle.

[19] ROTH, 2003, p.XXIII.

[20] Marianne recebeu uma soma de dinheiro que pagava sua parte do espólio do avô Karl Weber. Além disso, os recursos do espólio de Helene Weber eram administrados por Max.(WEBER, 2003, a, p.422).

[21] Ehefrau und Muter in der Rechtsentwicklung, publicado em 1907.

[22] Else von Richtoffen foi incentivada por Marianne e Max para se tornar a primeira mulher a exercer o cargo de chefia em fábricas; Camilla Jellinek foi quem assumiu o escritório de assessoria jurídica às mulheres de Heidelberg e Marie Baum, junto com Else Richtoffen, foi umas das primeiras alunas da Universidade de Heildelberg a doutorar-se e, posteriormente, assumir o cargo de professora universitária.

[23] Usei as traduções de Craig R. Bermingham e, também, de Patrícia Lengermann e Gillian Niebrugge; enquanto o primeiro nos oferece um texto mais completo, a segunda parece ser mais fiel, pelo menos é isso que Patrícia afirmou em sua crítica a tradução de Bermigham. Acusar o conhecimento da disputa não nos impede de usar as duas traduções, já que – de certa forma – se complementam. Ver: WEBER, Mariane; BERMINGHAM, Craig. Authority and Autonomy in Marriage. Sociological Theory, 21(2), 2003, 85-102, b. E, WEBER, Marianne. Excerpt from “Authority and Autonomy in Marriage. In: Lengermann, Patricia Madoo; Niebrugge, Gillian. The Women Founders: Sociology and Social Theory 1830–1930 (Página 215-220). Waveland Press. Edição do Kindle. Quanto a critica de Lengermann, ver: LENGERMANN, Patrícia Madoo; NIEBRUGGE-BRANTLEY, Gillian. (2003). Commentary on Craig R. Bermingham’s “Translation with Introduction and Commentary” of Marianne Weber’s “Authority and Autonomy in Marriage”. Sociological Theory, 21(4), 424-427.

[24] Marianne parte do desenvolvimento da sociedade ocidental – com alguns comentários sobre o judaísmo – e compreende que nela a forma de organização da dominação da mulher sempre se deu através do sistema patriarcal. Para a autora o patriarcado é: “a lei do mais forte” que atribuía direito de posse da mulher aos homens. (WEBER, 2003, b, p.86).

[25] WEBER, 2003, b, p.88.

[26] Esta discussão está presente na segunda seção da “Fundamentação da Metafisica dos Costumes”, ver: KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Guido Antônio de Almeida. São Paulo, SP: Discurso Editorial: Barcarolla, c2009.

[27] “but that which was denied the woman in the realm of the idea was soon forced upon her in the realm of realities” (WEBER, 2003, b p.90. tradução nossa.)

[28] Ibid., p.93.

[29] “He will not rest if he is not constantly secure also in his position as the master of her most personal inner life. He will feel the need to monitor her readings, her friendships, her interests outside the home. This half-unconscious tendency, which is, in many cases, merely suggested by tradition, also continues to make countless husbands today suspicious of every serious ambition on the part of women to be active beyond the limits of the house.” (WEBER, 2003, b, Ibid., p.92-93, tradução nossa)

[30] WEBER, 2003, a, p.174-175.

[31] “always remains valuable to the husband as the mother of his children and de source of his comfort, but that he would rarely think of sharing his higher intellectual life with her” (WEBER, 2003, b, p.94, tradução nossa)

[32] Ibid., p.92.

[33] No trecho podemos ver ao certo um reflexo da estimada sogra de Marianne, que era cultivada e tinha um espírito forte e autônomo, mas não conseguia se livrar da relação de dominação com o marido e isso impediu o relacionamento intimo dos dois. (WEBER, 2003, b, p.93).

[34] BERMINGHAM, Craig. Translator’s Commentary in: WEBER, Mariane; BERMINGHAM, Craig. (2003). Authority and Autonomy in Marriage. Sociological Theory, 21(2), 85-102. Retrieved from http://www.jstor.org/stable/3108620. p.97.

[35] POLLACK, 1996, b, p.110-111.

[36] Por exemplo: “Mas isto nos leva ao mundo dos julgamentos de valores e de fé com os quais não precisamos sobrecarregar esta discussão histórica.” (WEBER, 2001, p.140).

[37] Nascida em 1869 em Wuppertal, foi a primeira mulher alemã a se doutorar em filosofia, defensora das reformas da sexualidade e diretora da revista Frauen-Rundschau. Morreu nos Estados Unidos em 1943.

[38] ROTH, 2003, p.XXVII.

[39] ALLEN, Ann Taylor. “Mothers of the New Generation: Adele Schreiber, Helene Stöcker, and the Evolution of a German Idea of Motherhood, 1900-1914.” Signs, vol. 10, no. 3, 1985, pp. 418–438. JSTOR.

[40] Ibid., p.426.

[41] Ibid., p.426.

[42] ALLEN, Ann Taylor. “Feminism, Venereal Diseases, and the State in Germany, 1890-1918.” Journal of the History of Sexuality, vol. 4, no. 1, 1993, pp. 27–50. JSTOR, JSTOR, http://www.jstor.org/stable/3704178.

[43] WEBER, 2003, a.                                                                                                           

[44] Nessa época os casamentos selvagens – uniões estáveis – eram tratados como concubinato junto com as relações extraconjugais. (ROTH, 2003, p. XXVIII)

[45] Na seleção dos fatos e eventos que marcaram a vida de Weber deixei de lado, e acuso este limite, o Congresso Social Evangélico, que marcou a produção e prática do jovem intelectual e, menos, do professor maduro. Foi lá que Weber conheceu seu amigo político Friedrich Naumann e também o lugar dos seus primeiros passos políticos.

[46] Weber, 2003, p.430.a.

[47] Deutscher Zweig der internationalen abolitionistische, grupo formado em Dresden por profissionais da saúde e mulheres que lutavam pela regulamentação dos prostíbulos como forma de controle de doenças venéreas; a gonorreia e a sífilis – além da tuberculose pelas condições higiênicas e transmissivas – eram verdadeiros problemas de saúde pública da época. (ALLEN, 1993, p.28,39).

[48] Weber, 2001, p.216.

[49] WEBER, 2003, p.497.a.

[50] ROTH, Gunther. Mariane Weber e seu Círculo. In: WEBER, Marianne. Max Weber: uma biografia. Rio de Janeiro: Casa Jorge, 2003.p.xxxviii.b.

[51] WEBER, 2003, p.755.a.

[52] LUKÁCS, György. Posfácio à memória de G. Simmel (1918) in: SIMMEL, Georg. Filosofia do amor. 3. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.p.207.

[53] ROTH, 2003, p.XXI

[54] SIMMEL, Georg. “Cultura Feminina” (1902). SIMMEL, Georg. Filosofia do amor. 3. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2006.p.68.d.

[55] Ibid., p.71. 

[56] SIMMEL, 2006, p.72.d

[57] Ibid., p.75.

[58] Ibid., 86.

[59] Ibid., 87. Itálico da fonte.

[60] Ibid., p.80.

[61] SIMMEL, 2006, p.90.d.

[62] As grandes revoluções são fruto da objetivação da subjetividade feminina? Assim termina Simmel, sem uma resposta para os problemas da cultura feminina. (Ibid., p.91.).

[63] Else von Richtoffen ao comentar  o círculo de pensadores amigos de Weber, não deixa de afirmar que para ela somente Simmel estava muito acima de seu intelecto. Ver: ROTH, Guenther. EDGAR JAFFÉ E ELSE VON RICHTHOFEN À LUZ DE CARTAS RECÉM-DESCOBERTAS. Sociol. Antropol. [online]. 2011, vol.1, n.1, pp.21-49.

[64] Usarei o sobrenome da autora, o que pode causar alguma confusão, mas é importante para o processo de valorização do trabalho de Marianne Weber. Isso porque o sobrenome ficou atrelado ao “pai da sociologia” enquanto que a esposa, mesmo quando citada academicamente, era chamada por seu primeiro nome ou por nome e sobrenome, quando o correto seria ser chamada pelo sobrenome, como qualquer autor.

[65] WEBER, Marianne. The Woman special cultural tasks. In: Lengermann, Patricia Madoo; Niebrugge, Gillian. The Women Founders: Sociology and Social Theory 1830–1930 (Página 225). Waveland Press. Edição do Kindle.

[66] That is, as human being she shares with the man an abundance of talents and abilities that direct her toward the same tasks and forms of activity as they do him. And on the other hand, as woman important special tasks fall to her, as a result of her sexual identity, wich hinder the realization of her universal human tasks.(Ibid., tradução nossa).

[67] WEBER, 1998, p.225.

[68] Ibid.

[69] Em termos gerais Simmel compreende uma situação paradoxal a qual chama de tragédia da cultura onde a cultura objetiva e seu ritmo se desenvolvem a tal ponto que superam a humanidade, tornando-se autorreferente e, por isso, desconectada da vontade, das necessidades e do próprio reconhecimento humano. A tragédia é o resultado final do desenvolvimento da própria cultura, sua “legalidade interna” impede a cadeia de relações nas quais a objetivação é apenas o meio e passa a ser seu próprio fim impedindo a verdadeira cultivação. Interessa-nos aqui somente a assimilação por parte da autora da discussão de Simmel: a ação – própria às tarefas das mulheres – de moldar a existência imediata é o que dá suporte a própria manutenção da cultura tão fragmentada e distante da relação pessoal do trabalhador com sua obra.

[70] Cultura de expressão é usada como conceito para definir a educação externa da criança, a domesticidade com a qual esta aprende os comportamentos sociais necessários a toda relação que ela estabelecerá durante sua vida. Seria o componente externo desta tarefa cultural especial de formar o caráter individual. (IBID, p.226.)

[71] SIMMEL, 1996, p.85.d

[72] No sentido de Weber, a alta moralidade é transmitida pela convivência no lar, são os valores aprendidos desde pequeno que serão os guias internos – do caráter – da consciência, marcados por atitudes como respeito pela outra pessoa e atenção a ela, que moldam a conduta humana durante toda uma vida. Em suas palavras num ato de “se transpor na alma do outro”. (WEBER, apud LENGERMANN; NIEBRUGGE, 1998, p.226.)

[73] “What we term cultural content in its most proper sense can only be acquired upon the by-path through the objective culture, through deep penetration into the world of the mind and spirit that crystallizes out of immediate existence.” (Ibid., p.227, tradução nossa).

[74] The modern, intelectually awakened woman certainly does not need to remove the German ideal of the housewife from the temple in wich she pays homage to the role-models of her own striving. It obviously  should retain its validity  and power for all coming generations, as well.  But we have shattered  its negative power  as na absolute value and the exclusive developmental  goal for the  female sex, because it has stifled our development  as an intellectual and spiritual beings  and in general  our common human powers  and characterístcs.(Ibid., p.227, tradução nossa).

[75] “the unfolding of woman  in rich and deeper cultural contend”. (WEBER, 1999, p.227,a, tradução nossa).

[76] O pensamento de Marianne é um pouco diferente do pensamento feminista do período, enquanto suas colegas mais radicais defendiam a inexistência de diferenças entre homem e mulher numa espécie de igualdade biológica e cultural; Marianne assume a defesa da cultura feminina, superando, no entanto, a visão essencialista que limitava a mulher a um registro de atividades “próprias”, seu pensamento era bastante moderno, embora limitado por sua condição de mulher branca e burguesa em uma cultura ocidental. Para uma espécie de estado da arte (comparado) das diferentes “ondas” do movimento feminista e sua relação com a ideia de diferença e igualdade ver: PIERUCCI, Antônio Flávio. Amanhã, a diferença? In: PIERUCCI, Antonio Flavio. Ciladas da diferença. 2. ed. São Paulo, SP: Editora 34, 2000.pp.104-149.

[77] “constant alignment of her existence upon timeless values and validities.”(Ibid., p.228. tradução nossa).

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