Esporte, civilizaçao e barbárie hoje – Notas inspiradas em Norbert Elias, por Eduardo Nazareth

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Por Eduardo Nazareth

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Os episódios esportivos ocorridos nos últimos meses de 2019 e noticiados pela imprensa trazem à discussão o tema da civilização e da barbárie e podem revelar uma dimensão importante de processo social em curso no Brasil. Por exemplo, a derrota de Colby Convington, um lutador de MMA norte-americano, que incorpora o vilão racista, de extrema-direita e pró-Trump, em 14 de dezembro, virou notícia na grande imprensa, repercutindo em sites e redes sociais progressistas. Em 2017, quando lutou e venceu o brasileiro Damien Maia em São Paulo, o lutador disse que o Brasil era um chiqueiro e que os brasileiros eram todos animais. Seu rival, Kamaru Usman, nigeriano radicado nos EUA, nocauteou-o e quebrou sua mandíbula, há poucas semanas. Em entrevista após a luta, Usman homenageou os brasileiros e todos os imigrantes que, como ele, haviam sofrido ofensas racistas de Convington e conclamou o mundo ao amor.

No dia 7 de novembro, em jogo entre Botafogo e Flamengo, no Estádio Nilton Santos, torcedores do Botafogo ameaçaram e agrediram outros torcedores que supunham ser flamenguistas infiltrados. Houve muitos casos. As cenas que circularam nas redes sociais sugerem que as agressões foram realizadas por torcedores comuns, nas arquibancadas do estádio e nos seus arredores. A carga reduzida de ingressos destinada à torcida rubro-negra (10% do total) teria acentuado a desconfiança dos botafoguenses. Algo semelhante ocorreu, no dia 1o de dezembro, na Arena Palmeiras, em partida do time alviverde também contra o Flamengo, onde dois expectadores foram abordados de modo hostil por torcedores palmeirenses que os acusavam de ser flamenguistas infiltrados. Os ameaçados não usavam uniforme do clube, eram turistas e negros, e se retiraram da arquibancada diante do medo de serem agredidos. Embora a raça não tenha sido referida nas ameaças, o caráter racista presente nas imagens salta aos olhos e chegou a ser debatido em programas esportivos. Racismo também presente em outro episódio em jogo do Atlético Mineiro no Mineirão, no qual torcedores agressivamente intimidam o segurança negro dizendo-lhe “olha a tua cor”.

Ainda sobre o tema, vale mencionar a instrutiva fala de Roger Guedes, treinador do Bahia, sobre racismo estrutural no Brasil, na entrevista após o jogo contra o Fluminense. Antes da partida, ele e Marcão, técnico tricolor, ambos negros, trocaram camisas em campanha contra o racismo e posaram para fotos. Destacaram a excepcionalidade de treinadores negros no futebol brasileiro, fato que gerou grande repercussão na imprensa esportiva.

Há alguns meses, mais precisamente, em 21 de julho, uma torcedora do Grêmio com seu filho, na área da torcida colorada, foi violentamente confrontada por torcedores do Inter e teve sua camisa tomada, com a criança assustada e aos prantos. Funcionários do estádio intervieram para evitar uma agressão física. Em se tratando de insensibilidade em relação à exteriorização de agressividade, ainda que apenas encenada, vale também a menção ao vapo, como ficou conhecido o gesto, realizado por alguns jogadores e torcedores do Flamengo, que simula decapitação. Esse gesto se popularizou e é repetido muitas vezes por torcedores.

Muitos desses eventos parecem apenas atualizar certas práticas já tradicionais relacionadas ao esporte, agressões a rivais mescladas a ofensas racistas, sexistas e homofóbicas, comuns em estádios brasileiros. Mas o que se quer ressaltar aqui é que vivemos um momento em que tais práticas chamam a atenção para processos já não tão ocultos assim. Este momento parece nos orientar no sentido da intensificação de um estado de tensão e de propensão à eclosão de conflitos abertos bastante preocupante. Vejamos outros episódios recentes.

Nesse sentido, mostra-se interessante a comemoração do título da Copa Libertadores da América, conquistada pelo Flamengo, após a disputada final contra o River Plate, no dia 23 de novembro em Lima, Peru. As efusivas comemorações foram marcadas para acontecerem na Av. Presidente Vargas, no centro da cidade do Rio de Janeiro, para o dia seguinte a conquista. A equipe desfilaria em carro aberto pela avenida. Uma genuína mobilização de setores populares irrompeu num momento de crise política e econômica que se prolonga por anos. Muito significativo o comportamento do Estado diante dessas manifestações de afeto pelo time do coração. Chamou a atenção a tensão dos agentes de segurança, o despreparo e a excessiva violência utilizada pelas forças de segurança ao final improvisado da comemoração. Policiais atropelando uns aos outros, bombas de efeito moral, gás lacrimogênio, balas de borracha, armas em punho – tudo transmitido pela tv –, contra mulheres, crianças, famílias das classes populares, assustados com a violência e o despreparo policial.

Tudo isso, apesar da (ou talvez contra a) penetração social de discussões identitárias de toda ordem, da defesa de direitos humanos, dos debates sobre desigualdade no acesso aos estádios, cada vez mais elitizadas. Essas bandeiras democráticas também se manifestaram recentemente nos estádios. Torcidas e faixas antifascistas têm surgido inclusive nas arquibancadas. No entanto, em relação a esse discurso, também presente nas redes sociais, nas universidades, na imprensa, nos movimentos sociais, vale lembrar, se ergueu um outro, autoritário, punitivista, de orientação religiosa e moralista, contra a corrupção. Discurso que penetrou o tecido social, vencendo eleições, liberando energias repressivas e violentas na sociedade.

Aquelas manifestações antifascistas nos estádios vêm sendo reprimidas por forças policiais, que vêm atuando em consonância com sinais emitidos por lideranças políticas defensoras daquelas ideologias autoritárias e punitivistas. No dia 8 de dezembro, na partida entre Botafogo e Ceará, no Estádio Nilton Santos, uma torcedora botafoguense foi obrigada a recolher uma faixa com os dizeres “Botafogo antifascismo” e teve seu nome registrado pelos policiais que a abordaram. Censura do tipo vem ocorrendo no país, nos últimos anos de efervescência política vividos no país. Durante o período da campanha eleitoral presidencial, por exemplo, decisões judiciais, atos arbitrários de policiais e de grupos de extrema-direita, em todo o país, vem resultando na retirada de faixas antifascistas de universidades no cerceamento, dizem seus defensores, à liberdade de expressão. Nesse período, o número de torcidas que se autodenominam antifascistas só aumenta. A bandeira amplia-se para outros esportes. No campeonato brasileiro de tênis de mesa, em 15 de dezembro, no Centro Paralímpico de São Paulo, o grupo Raquetadas Contra o Fascismo foi obrigado pela segurança do evento a retirar a sua faixa, a pedido de membro da Confederação Brasileira de Tênis de Mesa. A segurança alegou ter agido a partir de suposto risco de confusão razões políticas.

A propósito do tema ideológico, vale ainda a consideração de que a questão não se expressa apenas no mundo do futebol ou dos esportes no Brasil, como o próprio episódio do lutador de MMA já sugere. Na Espanha, em 15 de dezembro, em partida pelo campeonato da segunda divisão, Roman Zozulya, um jogador ucraniano do Albacete, que teria sido membro de um grupo paramilitar de extrema direita em seu país, foi chamado de “puto nazi” pela torcida do Rayo Valecano ao ritmo de “Bela ciao”, canção que simboliza a resistência italiana ao fascismo durante a Segunda Guerra Mundial. A partida foi suspensa pelo árbitro.

Tensões semelhantes foram vistas nas primeiras semanas de novembro na Ucrânia. Os jogadores brasileiros Taison e Dentinho, do Shakhtar Donetsk, em partida contra o Dínamo de Kiev, no dia 10 daquele mês, sofreram ofensas racistas da torcida adversária. Quando pegavam na bola, torcedores faziam gestos e sons que imitavam macaco, prática cada vez mais comum em estádios europeus. Taison reagiu indignado chutando a bola na torcida. O árbitro expulsou o jogador, que deixou o campo chorando, e deu continuidade à partida. O mesmo ocorreu no campeonato inglês, em Partida entre Chelsea e Totenham, em 22 de dezembro. O jogador do Chelsea, Rüdiger, foi ofendido da mesma maneira pela torcida do Totenham.

Ucrânia e Inglaterra têm vivido crises políticas nos últimos anos com o fortalecimento de uma extrema direita. A diferença de tratamento por parte das autoridades entre os casos de racismo e a ofensa a um jogador de ser um “puto nazi” tornou-se tema de debate em setores da imprensa. Questões nacionais também têm suscitado manifestações nos estádios. Na Espanha, no clássico entre Barcelona e Real Madrid, em 18 de dezembro, torcedores catalães manifestaram-se com faixas na arquibancada do estádio pedindo, “Espanha, sente e converse”. Há um forte movimento na sociedade catalã que reivindica a separação da Catalunha – região em que se localiza o time do Barcelona – da Espanha. 

Esses fatos, ocorridos nos últimos dois meses de 2019, manifestam um evidente acirramento de contradições sociais, na forma de acúmulo de energias e tensões psíquicas, que vêm elevando o nível do potencial de irrupção de conflitos. Cria-se a necessidade de extravasamento dessas energias, que assume a forma de gestos e ações enérgicas e até violentas, seja esse extravasamento ideologicamente orientado ou não, encontrando no esporte uma de suas ocasiões mais propícias para se efetivar. Por que o esporte manifesta essas tensões? Um autor em especial nos ajuda e muito a responder essa pergunta.

Elias

A obra de Norbert Elias apresenta o fenômeno esportivo como inter-relacionado a mudanças políticas e sociais estruturais no âmbito das quais teria transcorrido um processo civilizador. Esse processo teria manifestado a transformação histórica e institucional de jogos tradicionais nos esportes modernos. Elias estabelece uma estreita relação entre, por um lado, o esgotamento social diante de guerras e conflitos sangrentos, a disposição à pacificação dos costumes, o adensamento populacional, a criação de regras consensuais para a solução de diferenças políticas, nos termos da disputa parlamentar, a democracia representativa; e, por outro, a consolidação dos jogos, com regras definidas, mais “civilizadas”, nos costumes, e finalmente, a constituição e penetração dos esportes na vida moderna.

A partir do século XV, segundo Elias, após séculos de guerras entre casas nobiliárquicas, teriam ocorrido na Europa mudanças militares e políticas importantes no sentido da concentração de poderes de algumas famílias reais, que passam a controlar estados muito poderosos. Dispondo de grande força militar para assegurar soberania diante de ameaças internas e externas, e a partir do monopólio do uso da violência, esses reis passaram a dispor das condições para administrar a moeda, os tributos, populações e amplos territórios. Na Inglaterra, esse processo avançou até seu limite, desembocando numa guerra civil da baixa nobreza contra os excessos de poder desse rei absoluto. O que culminará na instituição de uma monarquia constitucional, onde os conflitos se parlamentarizaram. É nesse processo que os jogos se civilizaram e se transformaram nos esportes modernos.

Nessa dimensão política teria sido tecida uma das linhas implicadas na sociogênese do esporte. Outras linhas associadas a esse longo processo de disputa entre pequenos reinos implicaram transformações sociais igualmente importantes no plano do que Elias (1992, 1993, 1994) chamou de configurações sociais,  ou seja, mudanças no modo como os indivíduos e grupamentos sociais diversos passam a se encontrar relacionados diante da crescente aglomeração urbana, do adensamento populacional, da complexificação e diferenciação das sociedades europeias, do fortalecimento e estreitamento de laços de interdependência entre pessoas, instituições e o estado em formação.

Tais transformações políticas e sociais teriam gerado tanto controles mais estritos por parte desse Estado como em influências recíprocas cada vez mais constrangedoras entre os indivíduos e organizações. Ambos – coerção por uma força superior e adensamento e estreitamento dos laços de interdependência e constrangimentos recíprocos – gerariam forças sociais de compressão sobre as personalidades que se irradiavam de polos diversos a várias direções, concorrendo para a constituição de um padrão interiorizado e de nível progressivamente mais elevado de autocontenção dos impulsos, de repressão do corpo e dos desejos.

O aprofundamento desse processo social teria correspondido ao desenvolvimento gradual de um novo padrão de resposta emocional a estímulos externos, uma segunda natureza, parte de um novo padrão civilizacional. Os impulsos espontâneos precisavam ser contidos, adiados. Diante da experiência da guerra e da morte, surgiu, simultaneamente a emergência do estado moderno, uma espécie de repugnância crescente a eventos em que a violência se apresentasse explícita e intensamente. Eles remetiam ao risco da morte e do conflito, ideias então repulsivas. Os jogos que se investiam de violência, com ferimentos, sangue, sinais de morte de animais etc., foram adquirindo regras mais restritivas no sentido de conter os então considerados excessos horrendos de violência e agressão.

Em razão do aprofundamento de tais mudanças configuracionais e de suas consequências, as sociedades do século XIX e XX, em adiantado processo de industrialização, com aglomerações urbanas ainda mais adensadas e interdependentes, comportariam cada vez menos espaço para a liberação espontânea das tensões no cotidiano moderno, que precisam cada vez mais se exteriorizar. Energias emocionais contidas produziam mal-estar e demandavam ocasiões de extravasamento.

Nesse sentido, as regras dos jogos tornaram-se cada vez mais complexas e com nível mais elevado de organização e racionalidade. Os jogos adaptaram-se à configuração social emergente de padrões institucionais adequados a formas de exteriorização de energia e excitação menos perturbadoras e violentas. Com a ampliação e adensamento das cadeias de interdependência, as práticas esportivas ganharam um caráter de regularidade, padronização e institucionalidade, se estendendo a territórios mais amplos, até se internacionalizarem.

O mundo da vida cotidiana, com uma rotina mais estressante, apresentava uma necessidade coletiva cada vez mais premente de ocasiões nas quais aquelas energias geradas e represadas pelos eventos problemáticos do dia a dia típico de uma sociedade moderna, fossem mobilizadas e ganhassem curso seguro na vivência de experiências excitantes. Essas experiências propiciavam ocasião para que as emoções contidas e os desejos reprimidos pudessem ser de alguma forma mimetizados, revividos em novas experiências que, ainda que revestidas de outros conteúdos e sentidos diferentes daqueles em que foram gerados, dariam curso adequado de escape salutar e restaurativo àquelas energias, em momentos propícios à catarse (Elias e Dunning, 1992, p. 71 e 80).

Por meio dos ciclos tensão/excitação e alívio, próprios da atividade a que o indivíduo se pode dedicar no tempo do lazer – seja ela a atividade esportiva, ou a de assistir a filmes, shows musicais, peças de teatro etc. –, aqueles impulsos reprimidos, aquelas energias recalcadas, poderiam então se esvair em uma economia emocional própria, produzida pelas tramas apresentadas nesses espetáculos. A empatia, a identificação, os afetos gerados e a adesão pessoal obtidos nessas atividades possibilitariam a mobilização de certos sentimentos, o desembaraço pessoal dessas energias retidas nas revigorantes descargas emocionais, que caracterizam a catarse.

Desse modo, a partir da obra de Elias, o esporte é tratado pelos cientistas sociais como prática associada à civilização, a partir da relação entre a organização da sociedade e as pressões emocionais que impõem aos indivíduos. Seu surgimento histórico, como prática e como instituição, bem como sua função social, aparecem referidos à administração interiorizada das energias libidinais e dos impulsos agressivos, remetendo à problemática propriamente esportiva da configuração de formas competitivas à adequação a tal processo civilizatório: produção regulada, segura e harmônica de uma dinâmica excitante de disputa, capaz de permitir a jogadores, espectadores e torcedores vivenciarem experiências de extravasamento das tensões provocadas pela vida cotidiana moderna, mantendo-se (ou não) os impulsos violentos sob controle e dentro de níveis de tolerância social à exteriorização dos impulsos agressivos. Estabelece-se, assim, um vínculo estreito entre a necessidade emocional dos indivíduos e a configuração das sociedades na modernidade.

Conclusão

Ainda que possamos tecer críticas à permanência da tese, nos dias atuais, de tamanha violência nos costumes, as categorias utilizadas por Elias nos permitem construir hipóteses acerca de processos sociais em curso.  É nesse sentido que podemos interpretar o MMA como modalidade que passou por um processo civilizador notável em relação aos tempos do “vale tudo”. Ainda que isso seja verdade, enquanto espetáculo, verifica-se o desejo de espectadores por violência e fortes emoções. Poderíamos conectar esses fenômenos ao aumento das pressões e constrangimentos de toda ordem sobre os indivíduos. Mas não poderíamos chegar a uma ideia minimamente satisfatória sem notarmos um processo recente de dessensibilização diante do sofrimento do outro, associada à necessidade de extravasamento de energias represadas por alguma válvula de escape. Ambos os processos estão contextualizados em tempos de grande desigualdade social, de intensificação da exploração do trabalho, do individualismo e do enfraquecimento da ideia de solidariedade como princípio organizador da vida coletiva. O mercado de entretenimento que visa sempre inovar no sentido da obtenção de público, reproduz e consolida essas tendências ideológicas hegemônicas, constituindo um novo padrão às sensibilidades, dando conta, à sua maneira, da necessidade de extravasar energias, gerando, por outro lado, menor repugnância diante de eventos agonísticos mais violentos.

Diante deste quadro, importam-nos especialmente os casos mencionados no início desse texto. O primeiro deles: o tom de celebração de sites e internautas progressistas – que geralmente defendem a civilização, a igualdade e os direitos humanos, contra a desumanização, a indignidade, a tortura, a censura e a morte – se regozijando diante da fratura da mandíbula do lutador que engrossaria e representaria as hostes fascistas. A polarização ideológica como tradução da percepção de riscos sociais reais, o sentido de ameaça por parte de setores adeptos de soluções violentas para problemas sociais, parece ativar, ainda que num plano simbólico, mimetizado, o desejo de destruição do outro, demonstrando como esses constrangimentos sociais modernos parecem avançar numa direção oposta à que ele, Elias, observava.

Nesse caso, entretanto, como afirma nosso autor, os esportes oferecem a ocasião para que impulsos represados encontrem uma forma menos destrutiva de extravasamento, em momentos restaurativos de catarse. Porquanto o episódio do lutador parece ao menos sugerir um sentido político possível à vitória do nigeriano, imigrante, negro, contra o branco, fascista, imperialista – sentido esse prontamente destacado pela mídia progressista alternativa e inserido na narrativa dos tempos correntes como uma derrota humilhante e simbólica do falastrão que teve a boca calada por um soco que lhe quebrou a mandíbula, propiciando uma experiência de deleite com a própria força e potência diante da humilhação da direita, com a qual o lutador metonimicamente se vê relacionado. Demonstra-se a força do amor e solidariedade contra o ódio e a opressão. De certo modo, a experiência catártica propiciada pela trama da luta mitigaria o impulso e o desejo de destruição real do outro, meu adversário político, encarnado num lutador que enfrentou o que me representava, numa disputa regulada, arbitrada, “civilizada”.

É também nesse sentido que os fatos ocorridos nas arquibancadas de estádios brasileiros demonstram a que níveis podem chegar as disposições à exteriorização da agressividade entre pessoas comuns. Os freios ou arreios interiorizados, típicos da civilização, como argumentava Elias, foram afrouxados. A impulsividade e a irracionalidade dos atos violentos, que faz os indivíduos reunidos assumirem o caráter de horda contra torcedores supostamente rivais, por sua vez, parece mimetizar, como atitude e como prática, a indisposição para o debate, evidenciando a inclinação que vemos nos últimos anos para um alto grau de conflito que vemos na sociedade brasileira. Os episódios entre torcedores de Botafogo, Palmeiras, Internacional e Atlético Mineiro, sugerem o enfraquecimento das regras democráticas de convivência, a debilidade da parlamentarização dos conflitos, e o quão suscetível estamos à desconfiança em relação ao outro, que pode ser mais do que um rival, pode ser um inimigo infiltrado, portador de um mal que deve ser combatido sem tergiversações. A desconfiança nos faz tender à desestruturação social e à repetição da irrupção do conflito físico violento.

O recente acirramento ideológico colocou em jogo a desmoralização do político, enalteceu, de um lado, a desqualificação ou desumanização do outro, propôs e banalizou soluções violentas e implacáveis contra “o mal”, o crime e a corrupção, fortaleceu entre muitos a disposição à imposição do “certo”, do “bem”, com o qual muitos se identificaram na disputa política. Ao que pareceu corresponder, nos esportes, à identificação do eu, do nós, do nosso time, com esse certo, esse bem, e o adversário, ao mal, do qual se deve desconfiar e que deve ser destruído, eliminado, custe o que custar. É o equivalente do seguinte argumento: a morte de inocentes, a destruição de empresas e empregos, a queda da renda, a precarização das condições de trabalho é o preço que deve ser pago pela regeneração da nação. É o sacrifício necessário à purificação. Tudo isso aparece como disposições afetivas geradas por um tempo histórico.

E o Estado? E a democracia? E os diretos humanos? E a cidadania? Se o Estado ou as autoridades competentes se omitem ou se reprimem só um dos lados, retirando as faixas antifascistas, punindo manifestações políticas por democracia e direitos humanos e não coibindo agressões sexistas, homofóbicas e racistas; ou se geram ou acirram o conflito, oprimindo a população, excitando mais violência – como a desastrada dispersão de torcedores do Flamengo na bela comemoração do título de campeão da Copa Libertadores – em todos esses casos, temos um Estado que não se mostra capaz de cumprir sua missão civilizatória a contento (como Elias observou), pois provoca a sensação de desordem e medo que, em vez de pacificar, só faz aumentar o potencial disruptivo de eventos esportivos, diante do menor acúmulo extra e circunstancial de tensão.

O não reconhecimento social da legitimidade da existência do outro, da capacidade do diálogo e da política de encaminhar soluções para conflitos coletivos de maneira “civilizada”, parlamentada, com base no debate, na persuasão, sob regras consensuais da disputa democrática, mantendo-se as tensões sob níveis de equilíbrio, tudo isso, provavelmente, corresponderá nos estádios, à emergência cada vez mais frequente dos impulsos de destruição e eliminação do outro, do diferente, do rival, agora, inimigo mortal. Torcedores então se disporão a escorraçar, humilhar, a despeito do risco de se cometerem injustiças e da banalização da desumanização do outro. Não que tudo isso já não existisse, mas estamos, à moda dos esportistas, nos superando.

Referências bibliográficas:

Elias, Norbert & Dunning, Eric. (1992), A busca da excitação. Lisboa, Difel.

______. (1994), O processo civilizador. Uma história dos costumes. Rio de Janeiro, Zahar, v. 1.

______. (1993), O processo civilizador. Rio de Janeiro, Zahar, v. 2: A formação do Estado e civilização.

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