Amor e Ouro (Parte 2), por Arlie Russell Hochschild

babá

Por Arlie Russell Hochschild
Tradução: Lucas Faial Soneghet

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Como vivem essas crianças?

Não muito bem, de acordo com um survey que o Centro de Migração Sacalabrini em Manila conduziu com mais de setecentas crianças em 1996. Comparadas com suas colegas de classe, a prole de trabalhadores migrantes fica doente com mais frequência; eles eram mais propensos a expressar raiva, confusão e apatia; e eles tinham um pior desempenho na escola. Outros estudos dessa população mostram um aumento em delinquência e suicídio infantil (Frank, 2001). Quando perguntam a essas crianças se elas também migrariam quando crescidas, deixando seus próprios filhos no cuidado de outros, todas disseram não.

Diante desses fatos, sente-se algum tipo de injustiça, ligando a privação emocional dessas crianças com a saciedade de afeto que seus pares do Primeiro Mundo vivem. No seu estudo sobre mulheres nativas que fazem trabalho doméstico, Sau-Ling Wong (1994) argumenta que o tempo e energia que essas trabalhadoras devotam às crianças de seus patrões é desviada de seus próprios filhos.

Mas é só tempo e energia que são “drenados” ou é o próprio amor? Em certo sentido, tempo e energia são recursos como minerais extraídos da terra. A babá não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. O dia dela tem um número limitado de horas. Quanto mais tempo e energia ela dá para as crianças pelas quais ela é paga para amar, menos tempo e energia ela poderá dar para suas próprias crianças. Mas o amor é ele mesmo um recurso? E se é um recurso, as crianças podem ter um “direito” a ele? Em sua sabedoria, a Declaração dos Direitos das Crianças das Nações Unidas insinua que amor, também, é como um recurso. Ela afirma que crianças tem direito a uma “atmosfera de felicidade, amor e compreensão”.

Mas se o amor é um recurso, é um recurso renovável. Pois quanto mais amamos e somos amados, somos capazes de amar mais profundamente. Então, o amor não está fixado da mesma forma que a maioria dos recursos materiais está. Ele cria mais de si mesmo. Estamos falando então de um transplante de coração global que terá consequências nas vidas de muitas pessoas por anos e anos.

Como devemos entender essa “extração” de amor do Sul e sua importação para o Norte? Nesse ponto temos alguma ajuda de Freud, que afirma que nós não “sacamos” e “investimos” sentimento, mas sim o deslocamos ou redirecionamos. O processo é inconsciente e nele nós não damos de fato um sentimento de, por exemplo, amor ou ódio, tanto quanto nós achamos um novo objeto para ele – no caso de um sentimento sexual, um objeto mais apropriado que o original, que Freud presumia ser nosso progenitor do sexo oposto. Enquanto Freud aplicou a ideia de deslocamento principalmente para relações dentro da família nuclear, aplica-la a relações como aquela da babá e do filho do patrão parece ser um esforço pequeno.

Muitos patrões descrevem o amor da babá pelos seus filhos como produto natural de sua cultura mais amável do Terceiro Mundo, com seus laços familiares ternos, vida comunitária forte e longa tradição de amor materno paciente pelas crianças. Ao contratar uma babá, muitos desses patrões implicitamente esperam importar a “cultura nativa” de um país pobre, e assim reabastecer sua própria cultura de país rico que se encontra esvaziada de cuidado. Eles importam os benefícios dos “valores familiares” do Terceiro Mundo. Como disse o diretor de uma maternidade cooperativa que entrevistei em São Francisco:

Pode ser estranho dizer isso, mas as assistentes de professores que contratamos do México e da Guatemala sabem como amar uma criança melhor do que os pais brancos de classe média. Elas eram mais relaxadas, pacientes e alegres. Elas gostam mais das crianças. Esses pais profissionais tem pouco tempo e estão ansiosos para desenvolver os talentos das crianças. Eu digo aos pais que eles podem realmente aprender a amar com as latinas e as filipinas.

Quando questionado sobre porque mulheres anglo-saxãs se relacionam com as crianças de uma maneira tão diferente do que as assistentes de professor filipinas, o diretor da maternidade especulou: “As filipinas são criadas num ambiente mais relaxado e amável. Elas não são tão ricas como nós, mas não são tão pressionadas pela falta de tempo, tão materialistas e tão ansiosos. Eles têm uma cultura mais amável e mais orientada para a família.” Uma mãe, advogada americana, expressou um ponto de vista similar:

A Carmen só gosta do meu filho. Ela não se preocupa se… ele está aprendendo o alfabeto, ou se ele vai entrar numa boa pré-escola. Ela só aproveita ele. E, na verdade, com pais ansiosos como nós, é isso que o Thomas precisa. Eu amo meu filho mais do que qualquer pessoa nesse mundo. Mas nesse momento, Carmen é o que é melhor para ele.

Babás filipinas que entrevistei na California passam uma imagem bem diferente do amor que compartilham com seus tutelados do Primeiro Mundo. O amor delas não é uma importação de uma maternidade alegre campesina, mas um amor que se desenvolve parcialmente nos litorais estadunidenses, informado por uma ideologia estadunidense de união mãe-filho e promovido por uma solidão intensa e por saudade de seus próprios filhos. Se amor é um recurso precioso, ele não é simplesmente extraído do Terceiro Mundo e implantado no Primeiro; em vez disso, ele deve sua própria existência a uma alquimia cultural peculiar que ocorre na terra para onde é importado.

Para María Gutierrez, que cuida do bebê de oito meses de dois profissionais em cargos exigentes (um advogado e uma médica, nascidos nas Filipinas e agora vivendo em San Jose, California), a solidão e as longas horas de trabalho alimentam um amor pela filha de seus patrões. Como Maria me contou:

Eu amo Ana mais do que minhas próprias crianças. Sim, mais! É estranho, eu sei. Mas eu tenho tempo pra ficar com ela. Eu sou paga. Eu estou solitária aqui. Trabalho dez horas por dia, com um dia de folga. Eu não conheço os vizinhos nesse quarteirão. Então essa criança me dá o que eu preciso.

Além disso, ela é capaz de dar um tipo diferente de atenção e acalento daquele que poderia dar a suas crianças. “Eu sou mais paciente”, ela explica, “mais relaxada. Eu coloco meus filhos em primeiro lugar. Eu os tratei assim como minha mãe me tratou.”

Eu perguntei como sua mãe a tratou e ela disse:

Minha mãe cresceu numa família campesina. Era uma vida difícil. Minha mãe não era terna comigo. Ela não me tocava ou dizia “eu te amo”. Ela não achava que tinha que fazer isso. Antes de eu nascer ela já havia perdido quatro bebês – dois em abortos espontâneos e dois morreram ainda bebês. Eu acho que ela tinha medo de me amar quando eu era bebê porque ela pensou que eu poderia morrer também. Então ela me colocou para trabalhar de ‘pequena mãe’ cuidando dos meus quatro irmãos e irmãs mais novos. Eu não tinha tempo para brincar.

Felizmente, uma mulher mais velha que morava ao lado tomou um interesse afetuoso em María, alimentando-a frequentemente e cuidando dela durante a noite quando estava doente. María se sentia mais próxima dessa mulher e dos parentes dela do que de suas tias e primas de sangue. Ela havia sido, em alguma medida, adotada informalmente – uma prática que ela diz ser comum na área rural das Filipinas e mesmo em algumas cidades durante as décadas de 1960 e 1970.

Em certo sentido, María experimentou uma infância pré-moderna, marcada por alta mortalidade infantil, trabalho infantil e uma ausência de sentimentalidade, numa cultura de forte compromisso familiar e apoio comunitário. Semelhante a França do século XV, como descrita por Philippe Ariès em Centuries of Childhood (1962), essa foi uma infância antes da romantização da criança e antes da ideologia de maternidade intensa da classe média moderna (Hays, 1996). O sentimento não era a questão; a questão era compromisso.

O compromisso de María com suas próprias crianças, que tinham doze e treze anos quando ela foi para o exterior trabalhar, traz a marca dessa criação. Através de toda a raiva e lágrimas das crianças, María manda dinheiro e faz ligações, faça chuva ou faça sol. Quanto ao sentimento, ela tem que trabalhar nele. Quando liga para casa agora, María diz:

Eu falo “eu te amo” para minha filha. A princípio soava falso. Mas depois de um tempo se tornou natural. E agora ela diz de volta. É estranho, mas eu acho que aprendi que não fazia mal dizer “eu te amo” por causa do meu tempo nos Estados Unidos.

A história de María aponta para um paradoxo. Por um lado, o Primeiro Mundo extrai amor do Terceiro Mundo. Mas o que está sendo extraído é parcialmente produzido e “montado” aqui: o lazer, o dinheiro, a ideologia da criança, a solidão intensa e o anseio pelos próprios filhos. No caso de María, uma infância pré-moderna nas Filipinas, uma ideologia pós-moderna de maternidade e infância nos Estados Unidos, e a solidão da migração se misturam para produzir o amor que ela dá aos filhos de seus patrões. Esse amor é também produto da liberdade da babá em relação à falta de tempo e à ansiedade advinda da vida escolar que os pais sentem numa cultura que não tem algo como uma rede de segurança social. Nesse sentido, o amor que María dá enquanto babá não sofre dos efeitos incapacitantes da versão estadunidense do capitalismo tardio.

Se tudo isso é verdade – se, de fato, o amor da babá é algo parcialmente produzido pelas condições nas quais é dado – será que o amor que María sente pela criança do Primeiro Mundo está sendo extraído dos seus filhos no Terceiro Mundo? Sim, porque sua presença diária foi removida e com ela a expressão diária de seu amor. Embora a babá mesma realize essa extração, tanto ela quanto sua prole sofrem uma grande perda. Como refletiu uma jovem da República Dominicana que foi deixada desde os doze anos até os quatorze: “Eu sentia, ‘será que a gente não podia fazer isso juntas?’ E agora em tenho 33 e penso que aqueles eram dois anos que nunca podemos reviver. Eles estão perdidos.” Essas separações são, de fato, a porção extraída pela globalização.

Mas, curiosamente, os empregadores do Norte sabem muito pouco sobre isso. O amor de uma babá pelo filho de seus patrões estadunidenses é uma coisa em si mesma. É único, privado – poderíamos até dizer, “fetichizado”. Marx falou sobre fetichização de coisas, não de sentimentos. Ele talvez notaria que atualmente fetichizamos um carro, por exemplo – vemos a coisa independente de seu contexto. Desconsideramos os homens que colheram a borracha, os trabalhadores na linha de produção que aparafusaram os pneus e assim por diante. Mas assim como isolamos mentalmente nossa ideia de um objeto do cenário humano no qual foi feito, também separamos inconscientemente o amor entre babá e criança da ordem global capitalista do amor a qual ele pertence.

A noção de extrair recursos do Terceiro Mundo remonta ao imperialismo em sua forma mais literal: a extração de ouro, marfim e borracha do sul pelas mãos do Norte no século XIX. Aquele imperialismo abertamente coercivo, masculino – que persiste ainda hoje – sempre correu paralelo por um imperialismo mais quieto no qual as mulheres são mais centrais. Hoje, na medida que amor e cuidado se tornam o “novo ouro”, a parte feminina da história se torna mais proeminente. Nos dois casos, seja pela morte ou deslocamento de seus pais, as crianças do Terceiro Mundo pagam o preço.

Na forma clássica de imperialismo do século XIX, o Norte pilhou os recursos naturais do Sul. Seus protagonistas eram praticamente todos homens: exploradores, reis, missionários, soldados e os homens locais que eram forçados a trabalhar sob ameaça de violência. Os estados europeus emprestaram sua legitimidade a esses empreendimentos e uma ideologia emergiu para apoia-los: “o fardo do homem branco” na Inglaterra e la mission civilisatrice na França. Ambos, é claro, enfatizaram os grandes benefícios da colonização para o colonizado e alistaram alguns dos colonizados para cooperar ativamente, e eventualmente administrar, o domínio colonial.

O imperialismo do século XIX era mais fisicamente brutal que o imperialismo de hoje, mas também era muito mais óbvio. Hoje o Norte não extrai amor do Sul pela força: não há soldados coloniais em capacetes marrons, exércitos invasores, navios armados navegando para as colônias. Em vez disso, vemos o cenário benigno no qual mulheres do Terceiro Mundo empurram carrinhos de bebê, cuidadores de idosos andando pacientemente, de braços dados, com clientes idosos nas ruas ou sentando ao lado deles em parques do Primeiro Mundo.

Hoje, a coerção funciona de outra maneira. Embora o comércio sexual e parte do serviço doméstico seja brutalmente imposto, o novo imperialismo emocional não vem, na maior parte do tempo, do cano de uma arma. Mulheres escolhem migrar para trabalho doméstico. Mas elas escolhem porque são praticamente coagidas por pressões econômicas. O gap profundo entre países ricos e pobres é em si mesmo uma forma de coerção, levando mães do Terceiro Mundo a procurarem trabalho no Primeiro Mundo por falta de opções perto de casa. Mas nos termos da predominante ideologia do mercado livre, a migração é vista como uma “escolha pessoal”. Os problemas que causa são vistos como problemas “pessoais”. Mas uma lógica global social está por trás deles e eles não são, nesse sentido, simplesmente “pessoais”.

Por essa lógica social, a migração cria não um fardo do homem branco, mas o fardo da criança não branca.[1] Precisamos de pesquisas mais cuidadosas sobre as crianças deixadas para trás se quisermos descobrir como essas crianças realmente estão. Precisamos saber mais, como essas crianças crescem e o que acontece com elas quando elas também se tornam adultas e tem filhos. A evidência anedótica sugere que filhas jovens de mulheres que deixam suas crianças ao migrar para trabalhar, também fazem o mesmo quando crescem e tem filhos.

Como devemos então responder a isso tudo? Penso em três possíveis abordagens. Primeiro, podemos dizer que mulheres em todos os lugares deveriam ficar em casa e cuidar de suas famílias. O problema com Vicky não é que ela migra, mas que ela negligencia seu papel tradicional como mãe. Uma segunda abordagem pode ser negar que o problema existe: a fuga do cuidado é um resultado inevitável da globalização, que é por si mesma boa para o mundo. A oferta de trabalho encontrou a demanda. O mercado está trabalhando e o mercado está sempre certo. Se a primeira abordagem condena a migração global, a segunda celebra.

De acordo com a terceira abordagem – que eu adoto – o cuidado infantil amoroso, pago e com horas razoáveis é algo muito bom. E a globalização traz consigo novas oportunidades, como acesso a bons salários para babás. Mas ela também introduz novas realidades emocionais dolorosas para crianças do Terceiro Mundo. Precisamos abarcar as necessidades das sociedades de Terceiro Mundo, incluindo suas crianças. Precisamos desenvolver um senso de ética global para corresponder às realidades econômicas globais emergentes. Se sairmos para comprar um novo par de tênis da Nike, queremos saber quão baixo é o salário e quão longas as horas para o trabalhador de Terceiro Mundo que o fez. Semelhantemente, se Vicky está cuidando de uma criança de dois anos a milhares de quilômetros do seu lar, também deveríamos querer saber o que está acontecendo com seus filhos.

Se tomarmos a terceira abordagem, o que nós ou outros do Primeiro Mundo deveriam fazer? Um curso de ação óbvio seria desenvolver as Filipinas e outras economias de Terceiro Mundo até o ponto que seus cidadãos possam ganhar tanto dinheiro dentro de seus países quanto fora deles. Assim mudaríamos a lógica social que subjaz a fuga do cuidado. Então as Vickys do mundo poderiam sustentar seus filhos com empregos que encontram perto de casa. Embora tal solução óbvia pareça ideal – mas não facilmente conquistada – Douglas Massey (1990), um especialista em migração, aponta para alguns problemas inesperados, pelo menos a curto prazo. Do ponto de vista de Massey, não é o subdesenvolvimento que manda migrantes como Vicky para o Primeiro Mundo, mas sim o desenvolvimento. Quanto maior a porcentagem de mulheres trabalhando em manufaturas locais, maior a chance que qualquer mulher faça uma primeira viagem não documentada para o exterior. Talvez os horizontes dessas mulheres se ampliem. Talvez eleas encontram outras que foram para o exterior. Talvez elas passem a esperar melhores trabalhos e mais bens. Qualquer que seja o motivo original, quanto mais pessoas migrarem numa comunidade, é mais provável que outras pessoas na comunidade façam o mesmo.

Se o desenvolvimento cria migração e se nós favorecermos alguma forma de desenvolvimento, nós precisamos achar respostas mais humanas para a migração que esse desenvolvimento provavelmente causará. Para as mulheres que migram para escapar de maridos abusivos, uma parte do problema seria criar solução para o problema mais próximo de casa – abrigos de violência doméstica nos países dessas mulheres, por exemplo. Outra solução poderia ser tornar mais fácil para as babás migrantes trazerem suas crianças com elas. Ou, como último recurso, empregadores poderiam ser obrigados a pagar por visitas regulares ao lar para a babá.

Uma solução mais simples, é claro, seria aumentar o valor do trabalho de cuidado, para que qualquer um que o faça ganhe mais recompensas por ele. Cuidado, nesse caso, não seriam mais um trabalho tão “passável”. E aqui está a questão: o valor do trabalho de criar uma criança – sempre baixo em relação ao valor de outros tipos de trabalho – tem, sob o impacto da globalização, caído mais ainda. Crianças são imensuravelmente importantes para seus pais, mas o trabalho de criá-las não tem tanto crédito aos olhos do mundo. Quando donas de casa da classe média criavam crianças como parte de um papel não pago e de temo integral, o trabalho envolvido era dignificado pela aura de sua “classe medianice”. Essa era uma vantagem do culto de feminilidade dos séculos XIX e XX da classe média que era, para além disso, limitante. Mas quando o trabalho não pago de criar uma criança se tornou o trabalho pago de trabalhadoras do cuidado, seu valor baixo de mercado revelou o valor permanentemente baixo do trabalho do cuidado em geral – e o abaixou mais ainda.

O valor baixo do trabalho do cuidado não resulta nem da ausência de uma demanda por ele nem de uma simplicidade ou facilidade de realiza-lo. Em vez disso, o valor declinante do cuidado das crianças resulta de uma política cultural de desigualdade. Ele pode ser comparado com o valor declinante de alimentos básicos em relação a bens manufaturados no mercado internacional. Mesmo que seja mais necessário a vida, produtos como trigo ou arroz tem preços cada vez mais baixos, enquanto bens manufaturados são melhor valorizados. Assim como o preço de mercado de produtos primários mantém o Terceiro Mundo inferior na comunidade das nações, o preço de mercado baixo do cuidado mantém o status das mulheres que o realizam – e, ultimamente, de todas as mulheres – baixo.

Um jeito excelente de aumentar o valor do cuidado é envolver os pais nele. Se homens compartilharem o cuidado dos membros da família no mundo todo, o cuidado se espalharia lateralmente em vez de ser passado para baixo numa escada dentro da classe social. Na Noruega, por exemplo, todos os homens empregados são elegíveis para licença paternidade de um ano com 90% de pagamento. Nesse aspecto, a Noruega é um modelo para o mundo. Pois, d efato, são homens que tem, na maior parte do tempo, se retirado do trabalho do cuidado, e é com eles que a “fuga do cuidado” realmente começa.

Em todas os países desenvolvidos, mulheres trabalham em empregos remunerados. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, metade das mulheres do mundo entre 15 e 64 anos de idade fazem trabalho remunerado. Entre 1960 e 1980, 69 de 88 países pesquisados mostraram uma proporção crescente de mulheres em trabalho remunerado. Desde 1950, o ritmo do aumento disparou nos Estados Unidos, permaneceu alto na Escandinávia e no Reino Unido, e moderado na França e na Alemanha. Se quisermos desenvolver sociedades com mulheres médicas, líderes políticas, professoras, motoristas de ônibus e programadoras, precisamos qualificar pessoas para dar cuidado amoroso para suas crianças. E não há razão para que alguma sociedade deixe de ter esse cuidado amoroso pago. Talvez seja verdade que Vicky Diaz seja a pessoa a prover esse cuidado – desde que seus próprios filhos venham com ela ou recebam todo cuidado que elas precisam. No fim, precisamos olhar para o Artigo 9 da Declaração Universal dos Direitos da Criança – que afirma que uma criança “deve crescer num ambiente familiar, numa atmosfera de felicidade, amor e compreensão” e “não ser separada de seus pais contra sua vontade…” O Artigo 9 estabelece um objetivo importante para a ordem mundial, para os Estados Unidos e para o feminismo. Ele diz que devemos valorizar o cuidado como nosso recurso mais precioso, notar de onde ele vem e se preocupar com para onde ele vai. Porque, nesses dias, o pessoal é global.

Referências:

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Notas:

[1] N. do T.: No original, “dark child’s burden.” Optei pela tradução “não branca”.   

Fonte:
HOCHSCHILD, Arlie Russell. Love and gold. Family, Ties and Care: Family Transformation in a Plural Modernity, p. 177, 2011.

1 comentário em “Amor e Ouro (Parte 2), por Arlie Russell Hochschild”

  1. A solução não está no capitalismo, muito menos no desenvolvimento, se a busca por “melhorias” continuar sendo a luta por migalhas. Só o fim do capitalismo traria uma melhoria da vida.

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