Como o capitalismo irá acabar? – Introdução, por Wolfgang Streeck

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Por Wolfgang Streeck
Tradução: Lucas Faial Soneghet

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Referência da tradução: STREECK, Wolfgang. How will capitalism end?: Essays on a failing system. Verso Books, 2016.

Capitalismo: sua morte e pós-vida

O capitalismo sempre foi uma formação social improvável, cheia de conflitos e contradições, logo permanentemente instável e em fluxo, altamente condicionada por eventos e instituições contingentes e precários que tanto a apoiam quanto restringem. A sociedade capitalista pode ser descrita taquigraficamente como uma sociedade “progressiva” no sentido dado ao termo por Adam Smith[1] e pelo Iluminismo, uma sociedade que combinou seu “progresso” com produção e acumulação contínua e ilimitada de capital produtivo,  efetuada através de uma conversão, feita pela mão invisível do mercado e a mão visível do Estado, do vício privado da ganância material em um benefício público.[2] O capitalismo promete crescimento infinito de riqueza material comodificada em um mundo finito, através de sua aliança com a ciência moderna e a tecnologia, fazendo da sociedade capitalista a primeira sociedade industrial, e através da expansão sem fim de mercados arriscados livres, leia-se contestáveis, nas abas de um Estado hegemônico de suporte com suas políticas públicas de abertura de mercado, tanto domesticamente quanto internacionalmente.[3] Enquanto uma versão da sociedade industrial, a sociedade capitalista se distingue pelo fato que seu capital produtivo coletivo é acumulado nas mãos de uma minoria de seus membros que gozam do privilégio legal, na forma da propriedade privada, de usar esse capital como quiserem, incluindo deixa-lo parado ou transferi-lo para o exterior. Uma implicação disso é que a vasta maioria dos membros de uma sociedade capitalista devem trabalhar sob direção, por mais mediada que seja, dos proprietários privados das ferramentas que precisam para prover para si mesmos, e nos termos estabelecidos por esses proprietários visando seu desejo de maximizar a taxa do aumento do seu capital. Motivar não a fazer isso – trabalhar duro e diligentemente pelo interesse dos seus proprietários – exige dispositivos astutos – incentivos e castigos dos mais diversos cujo funcionamento não é garantido – que tem que ser reinventados continuamente na medida que o progresso capitalista continuamente os torna obsoletos.

As tensões e contradições dentro da configuração econômica-política capitalista constituem uma possibilidade sempre presente de colapso estrutural e crise social. A estabilidade social e econômica sob o capitalismo moderno deve ser assegurada num contexto de implacabilidade sistêmica[4] produzida pela competição e expansão, um ato de equilíbrio difícil com resultado constantemente incerto. Seu sucesso depende, entre outras coisas, da aparição oportuna de um novo paradigma tecnológico ou do desenvolvimento de necessidades e valores sociais complementando exigências mutáveis do crescimento econômico contínuo. Por exemplo, para a grande maioria de seus membros, uma sociedade capitalista deve dar conta de converter o medo sempre presente de serem excluídos do processo produtivo, devido a reestruturação econômica ou tecnológica, em aceitação do sistema altamente desigual de riqueza e poder gerado pela economia capitalista e numa crença na legitimidade do capitalismo como ordem social. Para isso, medidas institucionais e ideológicas altamente complicadas e inevitavelmente frágeis são necessárias. O mesmo vale para conversão de trabalhadores inseguros – mantidos inseguros para se transformarem em trabalhadores obedientes – em consumidores confiantes carregando suas obrigações sociais consumistas alegremente mesmo na face da incerteza fundamental dos mercados de trabalho e do emprego.[5]

Diante da instabilidade inerente das sociedades modernas fundamentadas em e dinamicamente moldadas por uma economia capitalista, não surpreende que teorias do capitalismo, desde que o conceito foi usado primeiro no início do século XIX na Alemanha[6] e em meados do mesmo século na Inglaterra,[7] sempre foram teorias da crise. Isso é verdade não só para Marx e Engels, mas também para autores como Ricardo, Mill, Sombart, Keynes, Hilferding, Polanyi e Schumpeter, todos os quais esperaram, de uma forma ou outra, ver o fim do capitalismo ainda vivos.[8] O tipo de crise que eliminaria o capitalismo diferia de acordo com o tempo e com os antecedentes teóricos dos autores; teorias estruturalistas da morte pela superprodução ou subconsumo, ou pela tendência da taxa de lucro cair (Marx), coexistiram com previsões da saturação de necessidades e mercados (Keynes), da resistência crescente a progressiva comodificação da vida e da sociedade (Polanyi), do esgotamento de terras e trabalho novo disponível para colonização num sentido literal e figurado (Luxemburgo), de estagnação tecnológica (Kondratieff), da organização financeira-política de corporações monopolísticas suspendendo mercados liberais (Hilferding), de supressão burocrática do empreendedorismo auxiliado por uma trahison des clercs mundial (Weber, Schumpeter, Hayerl), etc, etc.[9]

Embora nenhuma dessas teorias tenha se tornado verdade como imaginado, a maioria delas também não era totalmente falsa. Na verdade, a história do capitalismo moderno pode ser escrita na forma de uma sucessão de crises que o capitalismo sobreviveu às custas de transformações profundas em suas instituições sociais e econômicas, salvando-o da bancarrota de maneiras imprevisíveis e muitas vezes não intencionais. Visto dessa forma, o fato de a ordem capitalista ainda existir pode até parecer menos impressionante do que o fato de que existiu tantas vezes à beira do colapso e precisou continuamente mudar, dependendo muitas vezes de suportes exógenos contingentes que não pode mobilizar endogenamente. O fato de que o capitalismo conseguiu até agora  sobreviver a todas as previsões de sua morte iminente, não significa necessariamente que conseguirá sobreviver para sempre; não há prova indutiva aqui e não podemos eliminar a possibilidade que, na próxima vez, qualquer cavalaria que o capitalismo precise para seu resgate, talvez não apareça.

Uma breve recapitulação da história do capitalismo moderno serve para ilustrar esse argumento.[10] O capitalismo liberal foi confrontado no século XIX por um movimento revolucionário de trabalho que precisava ser domesticado politicamente através de uma combinação complexa de cooptação e repressão, incluindo partilha democrática de poder e reforma social. No início do século XX, o capitalismo foi recrutado para servir interesses nacionais em guerras internacionais, convertendo-se então numa utilidade pública sob regimes planejadores numa nova guerra econômica, visto que a propriedade privada e a mão invisível do mercado pareciam insuficientes para prover as capacidades coletivas necessárias para que países prevalecessem em meio a hostilidades internacionais.  Depois da Primeira Guerra, a restauração de uma economia liberal-capitalista não conseguiu produzir uma ordem social viável e teve que dar lugar, em grandes partes do mundo industrial, seja ao Comunismo ou ao Fascismo, enquanto nos países centrais do que viria a se tornar “o Ocidente”, o capitalismo liberal foi gradualmente sucedido, no rescaldo da Grande Depressão, pelo capitalismo Keynesiano administrado pelo Estado. Disso emergiu o capitalismo democrático do Estado de bem-estar das três décadas do pós-guerra, o único período, se olhado retrospectivamente, no qual crescimento econômico e estabilidade social e política, alcançada pela democracia, coexistiu sob o capitalismo, pelo menos no mundo da OCDE onde este veio a ser premiado com o epíteto de “avançado”. Na década de 1970, porém, o que veio a ser chamado de “acordo pós-guerra” do capitalismo social-democrático começou a desintegrar, gradualmente e imperceptivelmente a princípio, mas cada vez mais pontuado por crises sucessivas e cada vez mais severas tanto na economia capitalista quanto nas instituições sociais e políticas enraizando-o[11], ou seja, apoiando e também contendo. Esse foi o período de crises intensas e transformação profunda quando o “capitalismo tardio”, como foi incrivelmente descrito por Werner Sombart na década de 1920,[12] deu lugar ao neoliberalismo.

Teoria da crise revival[13]

Hoje, depois da linha divisória que foi a crise financeira de 2008, reflexões críticas e crise-teóricas sobre as perspectivas do capitalismo e sua sociedade estão novamente en vogue. O capitalismo tem futuro? é o título de um livro publicado em 2013 por cinco cientistas sociais incríveis: Immanuel Wallerstein, Randall Collings, Michael Mann, Georgi Derluguian e Craig Calhoun. Aparte da introdução e da conclusão, que são de autoria coletiva, os contribuintes apresentam suas visões em capítulos separados e não poderia ser diferente, uma vez que suas visões diferem em muito. Ainda assim, todos os cinco compartilham a convicção que, como afirmam na introdução, “algo grande se aproxima no horizonte: uma crise estrutural muito maior do que a Grande Recessão recente, que pode em retrospecto parecer somente um prólogo para um período de problemas e transformações mais profundas.”[14] Porém, há discordância substantiva a respeito do que poderia estar causando essa crise e de como ela terminará – o que, com autores desse calibre, pode ser tomado como sinal das múltiplas possibilidades e incertezas inerentes na condição presente da economia política capitalista.

Para dar uma impressão de como teóricos de peso discordam ao tentar imaginar o futuro do capitalismo hoje, revisarei em detalhe as perspectivas e previsões colocadas nesse livro. Uma teoria de crise comparativamente convencional é provavelmente aquela oferecida por Wallerstein (pp. 9-35), que localiza o capitalismo contemporâneo no fundo de um ciclo de Kondratieff (Kondratieff B) sem nenhuma perspectiva de uma nova recuperação (Kondratieff A). O autor afirma que isso se deve a uma “crise estrutural” que começou na década de 1970 e seu resultado é que “capitalistas podem deixar de achar que o capitalismo é recompensador”. Duas causas mais amplas são dadas: um conjunto de tendências de longo prazo “terminando a acumulação sem fim do capital” e o fim, depois da “revolução mundial de 1968”, da “dominação da geocultura por centristas liberais” (p. 21). Tendências estruturais incluem o fim de terras virgens e a necessidade resultante de trabalho de reparo ambiental, escassez crescente de recursos e necessidade crescente de infraestrutura pública. Tudo isso, e também a pacificação de uma massa crescente de trabalhadores descontentes e desempregados, custa dinheiro. Acerca da hegemonia global, Wallerstein aponta para o que considera ser o declínio final da ordem mundial centrada nos Estados Unidos, em termos militares, econômicos e ideológicos. Custos crescentes para fazer negócios combinam-se com desordem global para tornar impossível a restauração de um sistema mundial capitalista estável. Em vez disso, Wallerstein prevê “uma estagnação cada vez mais intensa do sistema. A estagnação levará, por sua vez, a flutuações cada vez mais selvagens, e consequentemente tornará previsões de curto prazo – tanto econômicas quanto políticas – mais incertas. E isso, por sua vez, agravará… os medos da população e alienação. É um ciclo negativo” (p. 32). Para o futuro próximo Wallerstein espera um confronto político global entre defensores e oponentes da ordem capitalista, em seus termos sugestivos: entre as forças de Davos e de Porto Alegre. Sua batalha final, “pelo sistema sucessor” (p. 35) está fermentando agora. Seu resultado, segundo Wallerstein, é imprevisível, porém “podemos ter certeza que um lado ou o outro vencerá nas próximas décadas, e um novo sistema mundial (ou conjunto de sistemas mundiais) razoavelmente estável será estabelecido”.

Muito menos pessimista, ou menos otimista para aqueles que gostariam de ver o capitalismo acabar, é Craig Calhoun, que enxerga perspectivas de reforma e renovação no que ele também considera ser uma crise profunda e potencialmente final (pp. 131-61). Calhoun assume que ainda há tempo para que a intervenção política salve o capitalismo, como havia no passado, talvez com a ajuda de uma “facção suficientemente esclarecida de capitalistas” (p. 2). Mas ele também acredita que “uma economia socialista centralizada” seja possível, e mais ainda um “capitalismo de Estado no estilo chinês”: “Mercados podem existir no futuro mesmo que modos especificamente capitalistas de propriedade e finança tenham caído” (p. 3). Calhoun, muito mais que Wallerstein, é relutante quanto a previsões (para um resumo da sua visão ver pp. 158-61). Seu capítulo oferece uma lista de contradições internas e possíveis perturbações externas ameaçando a estabilidade do capitalismo, e aponta para um leque amplo de resultados alternativos. Assim como Wallerstein, Calhoun atribui significado particular ao sistema internacional, onde ele antecipa a emergência de uma pluralidade de regimes político-econômicos mais ou menos capitalistas, com problemas e armadilhas de coordenação e competição concomitantes. Mesmo que não descarte um “colapso em larga escala, mais ou menos simultâneo de mercados capitalistas… trazendo não somente perturbação econômica, mas também derrubando instituições políticas e sociais” (p. 161), Calhoun acredita na possibilidade de Estados, corporações e movimentos sociais reestabelecendo governança efetiva para uma renovação transformativa do capitalismo. Para citar,

A ordem capitalista é um sistema altamente complexo e de larga escala. Os eventos dos últimos quarenta anos perturbaram profundamente as instituições que mantiveram o capitalismo bem organizado ao longo do período pós-guerra. Esforços para repara-las ou substitui-las, bem como novas tecnologias e novos negócios ou práticas financeiras, mudarão o sistema. Mesmo uma renovação bem-sucedida do capitalismo irá transforma-lo… A questão é se a mudança será adequada para administrar riscos sistêmicos e afastar ameaças externas. E se não for, haverá devastação em larga escala antes da emergência de uma nova ordem? (p. 161)

Michael Mann é ainda mais agnóstico sobre o futuro do capitalismo (“The End May be Nigh, But for Whom?”, pp. 71-97). Mann começa lembrando seus leitores que em seu “modelo geral da sociedade humana”, ele “não entende sociedades como sistemas, mas como redes de interação múltiplas e sobrepostas, dentre as quais quatro – ideológica, econômica, militar e relações de poder político – são as mais importantes. Relações geopolíticas podem ser adicionadas a essas quatro…” Mann continua:

Possivelmente, cada uma dessas quatro ou cinco fontes de poder teria uma lógica interna ou tendência de desenvolvimento, para que seja possível, por exemplo, identificar tendências em direção ao equilíbrio, ciclos ou contradições dentro do capitalismo, da mesma forma que se poderia identificar tendências comparáveis dentro de outras fontes de poder social. (p. 72)

Interações entre as redes, pontua Mann, são frequentes, mas não sistemáticas, o que significa que “uma vez que admitimos a importância dessas interações, entramos num mundo mais complexo e incerto no qual o desenvolvimento do capitalismo, por exemplo, é influenciado também por ideologias, guerras e Estados” (p. 73). Mann adiciona ao argumento a possibilidade de um desenvolvimento desigual através do espaço geográfico e a possibilidade da interferência de comportamentos irracionais nos cálculos racionais de interesse, mesmo no interesse de sobrevivência. Para demonstrar a importância de eventos contingentes e de ciclos diferentes daqueles previstos no modelo de história Wallerstein-Kondratieff, Mann discute a Grande Depressão da década de 1930 e a Grande Recessão de 2008. Então, ele demonstra como sua abordagem fala sobre o futuro, primeiro da hegemonia dos Estados Unidos e segundo dos “mercados capitalistas”.

Sobre o primeiro, Mann (pp. 83-4) oferece a lista padrão de fraquezas estadunidenses, tanto domésticas quanto internacionais, do declínio econômico até a anomia política e um exército cada vez menos eficiente – fraquezas que “podem derrubar os Estados Unidos” embora “não possamos saber com certeza”. Mesmo que a hegemonia estadunidense acabasse, entretanto, “isso não necessariamente causaria uma crise sistêmica do capitalismo”. O que pode acontecer em vez disso é uma mudança no poder econômico “do velho Ocidente para o Resto do mundo se desenvolvendo com sucesso, incluindo a maioria da Ásia”. Isso resultaria numa partilha do poder econômico entre os Estados Unidos, a União Europeia e (alguma parte) dos BRICS, e como consequência, “o capitalismo do meio termo é provavelmente mais estatista” (p. 86). Sobre “mercados capitalistas” (pp. 86-7), Mann acredita, pace Wallerstein, que ainda há novas terras suficientes para conquistar e demanda suficiente para descobrir e inventar, para que haja crescimento extensivo e intensivo. Além disso, consertos tecnológicos podem aparecer a qualquer momento para vários problemas, e em todo caso, é para a classe trabalhadora e o socialismo revolucionário, muito mais que para o capitalismo, que “o fim está próximo”. De fato, se taxas de crescimento caíssem como alguns previram, o resultado poderia ser um capitalismo estável de crescimento lento com benefícios ecológicos consideráveis. Nesse cenário, “o futuro da esquerda é provavelmente, no máximo, uma democracia social reformista ou um liberalismo. Empregadores e trabalhadores continuarão a lutar por causa das injustiças mundanas do trabalho capitalista […] e o resultado provável será compromisso e reforma…”

Ainda assim, Mann termina numa nota consideravelmente menos sanguínea, nomeando duas grandes crises que ele considera possível, e uma delas provável – crises nas quais o capitalismo cairia, embora não fossem crises do capitalismo, ou só do capitalismo, posto que ele só pereceria como resultado da destruição de toda a civilização humana. Um cenário como esse poderia ser guerra nuclear, iniciada pela irracionalidade humana coletiva, outro poderia ser catástrofe ecológica resultante de “mudança climática crescente”. No segundo caso (pp. 93ff.), o capitalismo figura – junto com o Estado nacional e “direitos de cidadãos”, definidos como direitos a consumo ilimitado – como um dos três “triunfos do período moderno” que acabaram sendo ecologicamente insustentáveis. “Todos os três triunfos teriam que ser desafiados em favor de um futuro abstrato, o que é um pedido bem grande, talvez não conquistável.” (p. 95). Na medida que é relacionado ao capitalismo, o desastre ecológico viria de “uma cadeia causal maior que o capitalismo” (p. 97). Entretanto, “decisões de política pública importam consideravelmente”, e “a humanidade está, a princípio, livre para escolher entre cenários futuros melhores ou piores – e então, em última instância, o futuro é imprevisível” (p. 97).

A teoria de crise capitalista mais direta no livro é oferecida por Randall Collins (pp. 37-69) – uma teoria que ele corretamente caracteriza como “versão simplificada de um insight fundamental que Marx e Engels já formularam nos anos 1840” (p. 38). O insight, adaptado por Collins, diz que o capitalismo está sujeito a “fraqueza estrutural de longo prazo”, especificamente “o deslocamento tecnológico de trabalho por maquinaria” (p. 37). Collins não tem nenhuma reserva ao adotar uma abordagem estritamente estruturalista, mais estruturalista ainda do que a de Wallerstein, ou um determinismo tecnológico unidimensional. De fato, ele está convencido que “deslocamento tecnológico do trabalho” terá acabado com o capitalismo, com ou sem violência revolucionária, até a metade desse século – a princípio mais cedo do que seria destruído pela igualmente destrutiva e definitiva crise ecológica, e mais certamente do que pelas bolhas financeiras que, em comparação, são mais difíceis de prever. O estruturalismo marxista tardio de Collins é “simplificado”, entre outras coisas, porque diferente de Marx em seu teorema correspondente sobre o declínio secular da taxa de lucro, Collins deixa de contrabalançar sua previsão com uma lista de fatores compensadores,[15] pois acredita que o capitalismo estaria sem os salvadores que desaceleraram seu declínio no passado. Collins abre espaço para as influências não marxistas “weberianas” de Mann e Calhoun no transcorrer da história, mas somente como forças secundárias modificando o jeito que a tendência estrutural fundamental que impulsiona a história do capitalismo se desdobrará. A desigualdade global do desenvolvimento, dimensões de conflito que não são relativas ao capitalismo, pressões ecológicas e bélicas podem ou não acelerar a crise do mercado de trabalho capitalista e o sistema de emprego; elas não podem, porém, suspende-la ou impedi-la.

No que consiste exatamente essa crise? Embora o trabalho venha sendo gradualmente substituído pela tecnologia pelos últimos duzentos anos, com a ascensão da tecnologia de informação e, num futuro próximo, inteligência artificial, esse processo está atualmente chegando a seu apogeu, em pelo menos dois aspectos: primeiro, ele foi altamente acelerado, e segundo, após destruir a classe trabalhadora manufatureira na segunda metade do século XX, ele agora está atacando e preste a destruir a classe média também – em outras palavras, a nova pequena burguesia que é a própria portadora do estilo de vida neocapitalista e neoliberal de “trabalho duro e diversão intensa”, de carreirismo-cum-consumismo, que, como será discutido posteriormente, pode ser considerada a fundação cultural indispensável da sociedade capitalista contemporânea. O que Collins vê chegar é a apropriação rápida de trabalho de programação, administração, burocrático, administrativo e educacional por maquinaria inteligente suficiente até para desenhar e criar maquinarias novas mais avançadas. A eletronicização fará com a classe média o que a mecanização fez com a classe trabalhadora, e o fará muito mais rápido. O resultado será desemprego na ordem de 50 a 70% até o meio do século, atingindo aqueles que tinham esperança que, através de educação cara e performance de trabalho disciplinada (em troca de salários estagnados ou em queda), escapariam a ameaça da redundância existente nas classes trabalhadoras. Os benefícios, enquanto isso, irão para “uma classe capitalista diminuta de proprietários de robôs” que se tornarão imensuravelmente ricos. O problema para eles é, entretanto, que cada vez mais perceberão que seus produtos “não podem ser vendidos porque pouquíssimas pessoas têm renda suficiente para comprar. Extrapolando essa tendência”, Collins escreve, “Marx e Engels previram a queda do capitalismo e sua substituição pelo socialismo” (p. 39), e é isso que Collins também prevê.

A teoria de Collins é mais original quando ele tenta explicar porque o deslocamento tecnológico só está prestes a encerrar o capitalismo agora, quando não conseguiu faze-lo no passado. Seguindo os passos de Marx, ele lista cinco “escapes” que até então salvaram o capitalismo da autodestruição e então mostra porque não o salvarão novamente. Esses escapes incluem o crescimento de novos empregos e setores inteiros compensando pela perda de empregos causada pelo progresso tecnológico (empregabilidade em inteligência artificial será minúscula, ainda mais quando robôs começarem a desenhar e construir outros robôs); a expansão de mercados (que dessa vez serão primariamente mercados de trabalho para ocupações de classe média, unificados globalmente pela tecnologia de informação, permitindo competição global entre buscadores de emprego educados); o crescimento das finanças, tanto como fonte de renda (“especulação”) quanto como uma indústria (o que não poderia de modo algum compensar pela perda de emprego causada pela nova tecnologia e pela perda de renda causada pelo desemprego, porque a computadorização também tornará redundantes os trabalhadores de grandes segmentos da indústria financeira); funcionarismo público substituindo emprego no setor privado (improvável por causa da crise fiscal do Estado, e em todo caso exigindo em última instância “uma derrocada revolucionária do sistema de propriedade” [p. 51]); e o uso da educação como buffer para manter o trabalho fora do emprego, tornando-o uma forma de “Keynesianismo escondido” e resultando numa “inflação credencial” e “inflação de notas” (o que para Collins é a trajetória que será tomada provavelmente, embora ao fim e ao cabo se prove fútil assim como as outras, por causa da desmoralização nas instituições educacionais e problemas de financiamento, tanto público quanto privado).

Com os cinco escapes fechados, não há como a sociedade impedir o capitalismo de causar deslocamento acelerado do trabalho e a desigualdade econômica e social aguda que vem junto. Algum tipo de socialismo, Collins conclui, finalmente tomará o lugar do capitalismo. Como precisamente será isso, e o que virá após o socialismo ou com ele, Collins deixa em aberto, e ele se mantem igualmente agnóstico quando ao modo exato da transição. A mudança será revolucionária – mas se será uma revolução social violenta ou uma revolução institucional pacífica alcançada sob liderança política que dará fim ao capitalismo, isso não pode ser sabido de antemão. Taxação pesada dos super ricos para emprego público estendido e renda básica garantida para todos, com distribuição igual e racionamento estrito de horas de trabalho bem limitados por meios mais ou menos ditatoriais à la Keynes[16] – somos livres para especular, visto que o “marxismo simplificado” de Collins não gera previsões sobre qual tipo de sociedade emergirá uma vez que o capitalismo se esgotar. Só uma coisa é certa: o capitalismo acabará e mais cedo do que poderia se pensar.

A contribuição de Georgi Derluguian é quase um ponto fora da curva dentre os capítulos do livro, que dá uma fascinante descrição “de dentro” do declínio e eventual fim do Comunismo, em particular o Comunismo Soviético (pp. 99-129). O capítulo é interessante por causa de suas especulações sobre as diferenças e possíveis paralelos com um fim potencial do capitalismo. Sobre as diferenças, Derluguian acentua o fato que o Comunismo Soviético estava desde o início enraizado em “geopolíticas hostis” (p. 110) de um “sistema-mundo capitalista” (p. 111). Isso ligou seu destino inseparavelmente ao da União Soviética enquanto um Estado multinacional economicamente e estrategicamente super-estendido. Esse Estado mostrou-se insustentável a longo prazo, especialmente após o fim do despotismo estalinista. Nesse ponto, a estrutura de classe peculiar do Comunismo Soviético deu início a um compromisso social doméstico que, diferente do capitalismo estadunidense, inclui inércia política e estagnação econômica. O resultado foi um descontentamento penetrante na nova geração de elites culturais, tecnocráticas e científicas socializadas na era revolucionária do fim da década de 1960. Além disso, a centralização excessiva deixou a economia política estatal do Comunismo Soviético vulnerável ao separatismo regional e étnico, enquanto o capitalismo global ao redor proveu oponentes ressentidos e apparatchiks oportunistas com a fachada de uma ordem preferível, na qual estes poderiam se estabelecer, no fim, como oligarcas capitalistas self-made.

O capitalismo contemporâneo, obviamente, é muito menos dependente das boas fortunas geopolíticas de um único Estado imperial, embora o papel dos Estados Unidos nesse aspecto não deve ser subestimado. Mais importante, o capitalismo não está exposto a pressão de um modelo econômico-político alternativo, assumindo que a doutrina econômica islâmica irá, num futuro próximo, permanecer menos atraente ainda e precisamente para elites islâmicas (que estão profundamente integradas na economia global capitalista). Onde os dois sistemas, entretanto, vem a parecer um com o outro é na sua desordem política interna engendrada por declínio econômico e institucional. Quando a União Soviética perdeu sua “integridade de Estado”, Derluguian escreve, isso “sabotou todas as instituições modernas e, logo, desmontou a ação coletiva em praticamente qualquer nível acima da família e das redes de amigos próximos. Essa condição passou a perpetuar a si mesma” (p. 122). Uma consequência foi a reação das burocracias dominantes “com mais pânico do que violência direta” quando confrontadas pelas “mobilizações cívicas em massa como a Primavera de Praga em 1968 e a perestroika soviética no seu auge em 1989”, enquanto ao mesmo tempo “os movimentos insurgentes… não conseguiram explorar a desorganização momentânea nas fileiras das classes dominantes” (p. 129). Por razões diferentes e em circunstâncias diferentes, uma fraqueza similar na agência coletiva devido a de-institucionalização criando incerteza comparável entre defensores e desafiadores da velha ordem, pode moldar uma transição futura do capitalismo para o pós-capitalismo, colocando uns contra os outros movimentos sociais fragmentados de um lado e elites político-econômicas desorientadas do outro.

Minha própria visão constrói a partir de todos os cinco contribuintes, mas difere de cada um deles. Eu tomo a diversidade de teorias sobre o que todos concordamos ser uma crise severa do capitalismo e da sociedade capitalista como indicação que o capitalismo contemporâneo entrou num período de indeterminação profunda – um período no qual coisas inesperadas podem acontecer a qualquer momento e observadores informados podem legitimamente discordar sobre o que acontecerá, devido a relações causais que há muito tempo eram válidas, mas que vem se tornando historicamente obsoletas. Em outras palavras, interpreto a coexistência de um senso de crise compartilhado com conceitos divergentes sobre a natureza dessa crise como indicação que teorias econômicas e sociológicas tradicionais perderam muito de seu poder preditivo. Como argumentarei em mais detalhes posteriormente, vejo isso como um resultado, mas também como uma causa, de uma destruição da agência coletiva no transcorrer do desenvolvimento capitalista, afetando igualmente o povo de Davos e de Porto Alegre, como nomeados por Wallerstein, e resultando em um contexto social cercado de consequências não intencionais e não antecipadas de ações sociais deliberadas, mas cada vez mais imprevisíveis em seus efeitos.[17]

Além disso, em vez de escolher um dos vários cenários da crise e privilegia-lo sobre os outros, eu sugiro que todos, ou a maioria deles, podem ser agregados num diagnóstico de multi-morbidade no qual transtornos diferentes coexistem e, frequentemente, se reforçam mutuamente. O capitalismo, como apontado no início, sempre foi uma ordem frágil e improvável e depende de trabalho de reparo contínuo para sua sobrevivência. Hoje, entretanto, fragilidades em excesso se tornaram simultaneamente agudas enquanto muitos remédios se esgotaram ou foram destruídos. O fim do capitalismo pode ser imaginado como uma morte de mil cortes, ou uma morte advinda de uma multiplicidade de enfermidades, cada uma das quais se tornará cada vez mais intratável, exigindo tratamento ao mesmo tempo. Como ficará claro, eu não acredito que qualquer uma das forças potencialmente estabilizantes mencionadas por Mann e Calhoun, seja o pluralismo de regimes, diversidade regional e desenvolvimento desigual, reforma política ou ciclos independentes de crise, serão fortes o suficiente para neutralizar a síndrome de fraquezas acumuladas que caracterizam o capitalismo contemporâneo.  Sem oposição efetiva restando e sem modelo sucessor praticável esperando nas asas da história, a acumulação de defeitos do capitalismo, junto com sua acumulação de capital, pode ser vista, junto de Collins,[18] como uma dinâmica inteiramente endógena de autodestruição, seguindo uma lógica evolucionária moldada em sua expressão, mas não suspensa por eventos contingentes e acidentais, ao longo de uma trajetória histórica começando do capitalismo liberal, passando pelo estatal até o neoliberal, que culminou, até o presente momento, na crise financeira de 2008 e suas consequências.

Para que o declínio do capitalismo continue, é preciso dizer, nenhuma alternativa revolucionária e certamente nenhum grande plano para uma sociedade melhor substituindo o capitalismo é necessária. O capitalismo contemporâneo está desaparecendo por si mesmo, colapsando por contradições internas, resultado que pouco tem a ver com a derrota de seus inimigos – que, como dito, frequentemente resgataram o capitalismo de si mesmo forçando-o a assumir nova forma. O que vem depois do capitalismo em sua crise final, agora em curso, é, como sugiro, nem socialismo nem outra ordem social definida, mas um interregno duradouro – período prolongado de entropia social ou desordem (e precisamente por essa razão um período de incerteza e indeterminação). É um problema interessante para teoria sociológica se e como uma sociedade pode, por um período significativo de tempo, se transformar em menos que uma sociedade, uma sociedade pós-social, ou uma sociedade lite, até que talvez se recupere e novamente se torne uma sociedade no sentido pleno do termo.[19] Eu sugiro que é possível alcançar um conserto conceitual nisso se baseando liberalmente num artigo famoso de David Lockwood[20] para distinguir entre integração sistêmica e integração social, ou integração em níveis macro e micro da sociedade. Um interregno seria definido como colapso da integração sistêmica no nível macro, privando indivíduos no nível micro de estruturação institucional e apoio coletivo, e deslocando o fardo de ordenar a vida social, de prove-la com um módico de segurança e estabilidade, para os ombros dos indivíduos eles mesmos e dos arranjos sociais que eles puderem criar por conta própria. Uma sociedade em interregno, em outras palavras, seria uma sociedade de-institucionalizada ou sub-institucionalizada, uma na qual expectativas podem ser estabilizadas somente por um curto período de tempo por improvisação local, e uma que por esse mesmo motivo é essencialmente ingovernável.

O capitalismo contemporâneo, então, pareceria ser uma sociedade cuja integração sistêmica está criticamente e irremediavelmente enfraquecida, de modo que a continuação da acumulação de capital – por um período de duração incerta – se torna unicamente dependente do oportunismo de indivíduos individualizados coletivamente incapacidades, que lutam para proteger a si mesmos de acidentes iminentes e pressões estruturais em seu status social e econômico. Subgovernado e subadministrado, o mundo social do interregno pós-capitalista, nos rastros da eliminação dos Estados, governos, fronteiras, sindicatos e outras forças moderadoras efetuada pelo capitalismo neoliberal, pode a qualquer momento ser atingido por desastre; por exemplo, bolhas implodindo ou violência penetrando a partir de uma periferia colapsando em direção ao centro. Com indivíduos privados de defesas coletivas e deixados a sua própria sorte, o que resta da ordem social depende da motivação de indivíduos para cooperarem com indivíduos numa base ad hoc, dirigidos por medo e ganância e interesses básicos na sobrevivência individual. Visto que a sociedade perdeu a habilidade de dar aos seus membros proteção efetiva e modelos provados para ação social e existência social, indivíduos só podem confiar em si mesmos enquanto a ordem social depende no modo mais fraco possível de integração social, Zweckrationalität.

Como apontado no capítulo 1 desse livro, e elaborado parcialmente ao longo dessa introdução, eu ancoro essa condição numa variedade de desenvolvimentos interrelacionados, como o declínio do crescimento intensificando conflito distributivo; a desigualdade crescente que resulta disso; a possibilidade de administração macroeconômica diminuindo, como manifestado em, entre outras coisas, endividamento constantemente crescente, um suprimento de dinheiro inflado e a possibilidade sempre presente de outro colapso econômico;[21] a suspensão do motor de progresso social do capitalismo pós-guerra, da democracia e a ascendência associada da dominação oligárquica; a capacidade cada vez menor dos governos e a inabilidade sistêmica de governança para limitar a comodificação do trabalho, da natureza e do dinheiro; a onipresença da corrupção de todos os tipos, em resposta a competição intensificada em mercados de soma zero com oportunidades ilimitadas de autoenriquecimento; a erosão de infraestruturas públicas e benefícios coletivos no transcorrer da comodificação e privatização; o fracasso após 1989 da nação hospedeira do capitalismo, os Estados Unidos, na tarefa de construir e manter uma ordem global estável; etc., etc. Sugiro que estes e outros desenvolvimentos resultaram num cinismo geral governando a vida econômica, impossibilitando por muito tempo, talvez para sempre, a recuperação de legitimidade normativa do capitalismo enquanto sociedade justa que oferece oportunidades iguais para progresso individual – uma legitimidade na qual o capitalismo precisaria se apoiar em momentos críticos – e funda integração social em resignação coletiva, o único pilar remanescente da ordem, ou desordem, social capitalista.[22]

CONTINUA…

Notas:

[1] Adam Smith, An Inquiry into the Nature and Causes of Wealth of Nations, Nova Iorque: Oxford University Press, 1993 [1776].

[2] Bernard de Mandeville, The Fable of The Bees: or, Private Vices, Publick Benefits, Indianapolis, In: Liberty Fund 1988 [1714].

[3] Definições do capitalismo são abundantes e tendem a ser elaboradas e ecléticas, no sentido de consistirem em combinações diferentes de características selecionadas. Não há necessidade de explora-las em detalhe aqui. Definições diferentes enfatizam elementos diferentes da configuração capitalista, de acordo com preocupações individuais e ideologias dos escritores; elas também refletem estágios diferentes na evolução da besta, apontando para seu dinamismo histórico. Para uma amostra, ver Sombart: “O termo capitalismo designa um sistema econômico caracterizado em grande parte pela predominância do ‘capital’ (…) Um sistema econômico é um modo unitário de suprir necessidades materiais, animado por um espírito definido, regulado e organizado de acordo com um plano definido e aplicando um conhecimento tecnológico definido.” (Werner Sombart, “Capitalismo.” In: Johnson, Alvin e Edwin Seligman, eds., Encyclopedia of the Social Sciences, Vol. 3, Nova Iorque: Macmillan, 1930, p. 196); Weber: “O capitalismo está presente onde quer que a suprimento industrial das necessidades de um grupo humano é efetuada pelo método de empresa, independente de qual necessidade esteja envolvida. Especificamente, um estabelecimento capitalista racional é um que usa de contabilidade capital, ou seja, um estabelecimento que determina seu poder de rendimento pelo cálculo de acordo com métodos de contabilidade moderna e a obtenção de um equilíbrio.” (Max Weber, História Econômica Geral, New Brunwick, NJ: Transaction Publishers, 2003 [1927], p. 275); Shumpeter: “O capitalismo é aquela forma de economia de propriedade privada na qual inovação são praticadas com dinheiro emprestado, que em geral, mas não necessariamente, implica na criação de crédito.” (Joseph A. Schumpeter, Business Cycles, Vol. 1, Philadelphia, PA: Porcupine Press, 1982 [1939], p. 223); Keynes: “…a característica essencial do capitalismo [pelo que me parece] é a dependência num apelo intenso aos instintos de fazer dinheiro e amar dinheiro de indivíduos como forma motivadora principal da máquina econômica.” (John Maynard Keynes, The End of Laissez-Faire:The Collected Writings of John Maynard Keynes, Vol. 9, London: Macmillan Press Ltd., 1972 (1931], p. 293). Sobre Marx, Chiapello afirma, num artigo afiado, que ele nunca usou o conceito (Eve Chiapello, ‘Accounting and the Birth of the Notion of Capitalism’, CriticalP erspectiveso n Accounting, vol. 18, no. 3, pp. 263-96; see also Ivan Tibor Berend, ‘Capitalism’. In: Smelser, Neil and Paul Baltes, eds, International Encyclopedia of the Social and Behavioral Sciences, Vol. 3, Amstetdam:,Elsevier, 2001, pp. 1454-9; Jiirgen Kocka, Geschichte des Kapitalismus, Miinchen: Verlag C. H. Beck, 2013), embora “o sistema capitalista descrito por ele é mais ou menos o mesmo que o capitalismo de acordo com Sombart e Weber, pelo menos quando estes produziram uma definição crítica. A ironia da história é que Marx… nunca ou quase nunca menciona contabilidade, diferente de Sombart e Weber. E mesmo assim Marx certamente sabia mais sobre as práticas de contabilidade de seu tempo do que os dois sociólogos alemães que o sucederiam” (Chiapello, ‘Accounting and the Birth of the Notion pf Capitalism, p. 293). Sombart, por sua vez, afirmou que Marx, “que praticamente descobriu o fenômeno, definiu só alguns aspectos do capitalismo quando a ocasião demandava” (Sombart, “Capitalism”, p. 195).

[4] William H. Sewell Jr., ‘The Temporalities of Capitalism’~Socio-Econbmi~R eview, vol. 6, 2008.

[5] Colin Crouch, ‘Beyond the Flexibility/Security Trade-Off: Reconciling Confident Conswners with Insecure Workers’, British Journal of Industrial Relations, vol 50, no. 1, pp. 1-22.

[6] lngomar Bog, ‘Kapitalismus’. In: Albers, Willi et al., eds, Handwiirterbuch der Wirtschaftsw_issensch(aHftd WW), Stuttgart: Gustav Fischer, 1988, pp. 418-32.

[7] R. M. Hartwell e Stanley L. Engerman, ‘Capitalism’. In: Mokyr, Joel, ed., The Oxford Encyclopedia of Economic History, Vol. 1, New York: Oxford University Press 2003, pp. 319-325.

[8] Isso se reflete nas periodizações da história do capitalismo tipicamente oferecidas pelos seus teóricos. Então Sombart distingue entre capitalismo “inicial” (mercante), “alto” (industrial) e “tardio”, o último se referindo a década de 1920 e 1930. Para Hilferding, a transição que observou durante sua vida do capitalismo liberal ao organizado e do industrial ao financeiro, foi uma transição do capitalismo para outra coisa. Marx e Engels, assim como Rosa Luxemburgo depois deles, esperaram que a revolução socialista ocorresse enquanto ainda estavam vivos. Polanyi acreditou que tinha visto o fim do capitalismo, coincidente com o fim da Segunda Guerra mundial. A “Escola de Frankfurt” localizou o “capitalismo tardio” (Spätkapitalismus) na década de 1970, tomando o lugar do capitalismo liberal ou capitalismo de livre mercado após 1945. Schumpeter estava certo, já em 1918, que viria um tempo quando o “capitalismo terá feito seu trabalho e existirá uma economia saciada de capital e totalmente racionalizada por mentes empreendedoras. Só então será possível olhar para frente com calma para a desaceleração inevitável do desenvolvimento meramente econômico que é concomitante ao socialismo, pois o socialismo significa libertação da vida em relação a economia e em relação a alienação da economia. Essa hora ainda não chegou… Entretanto, ela chegará. Pouco a pouco a empresa privada perderá seu significado social através do desenvolvimento da economia e da expansão consequente da esfera de simpatia social. Os sinais disso já estão conosco…” (Joseph A. Schumpeter, ‘The Crisis of the Tax State’. In: Swedberg, Richard, ed., The Economics and Sociology of Capitalism, Princeton, NJ: Princeton University Press 1991 [1918], p. 131)

[9] Para um apanhado bom, embora tendencioso, de previsões do “fim do capitalismo”, ver Hartwell e Engerman, “Capitalismo”.

[10] Não há necessidade de entrar na discussão sem fim sobre quando o capitalismo veio para o mundo. A melhor aposta parece ser nos anos 1600, embora o capitalismo moderno, ou capitalismo como um sistema social ou uma sociedade, pode ser originado somente no seu casamento com ciência e tecnologia no início da industrialização, ou seja, no fim do século XVIII. Ver, entre outros, Kocka, Geschichte des Kapitalismus.

[11] Nota do tradutor: O termo original no inglês é “embedding”. Escolho traduzir o conceito como “enraizamento”, para capturar o sentido de algo que fixa o sistema em certas bases, dando firmeza e ao mesmo tempo limitando.

[12] Para ter uma ideia da magnitude do que ocorreu, embora gradualmente e por muito tempo imperceptivelmente, ver o modelo de Sombart da “forma de vida econômica” sob o “capitalismo tardio”: “A liberdade em relação a constrições externas característica do capitalismo pleno é superada no período do capitalismo tardio por um aumento no número de restrições, até que todo o sistema se torna regulado em vez de livre. Algumas dessas regulações são autoimpostas – a burocratização da gestão interna, a submissão a decisões coletivas de associações de comércio, conselhos de câmbio, carteis e organizações similares. Outras são prescritas pelo Estado – legislação de fábrica, seguro social, regulação de preço. Outros ainda são implementados por trabalhadores – conselhos trabalhistas, acordos de comércio. A relação entre empregador e empregado se torna pública e oficial. O status do trabalhador assalariado fica mais parecido com o do funcionário público: sua atividade é regulada por normas de caráter quase-público, a maneira do seu trabalho se aproxima de um servidor público (sem hora extra), seu salário é determinado por fatores extra-econômicos e não-comerciais. A escala cambiante do salário de antigamente é substituída por sua antítese, o salário mínimo, expressando o mesmo princípio da escala de salário dos servidores públicos; no caso de desemprego, o pagamento do trabalhador continua, e na doença ou no envelhecimento, ele recebe pensão como um funcionário público… Em geral, flexibilidade está sendo substituída por rigidez… (“Capitalismo”, p. 207). Lendo Sombart, é possível se convencer que o termo “neoliberalismo” para o período presente do desenvolvimento capitalista faz muito sentido.

[13] N. do T.: No original o subtítulo é “theory crisis redux”. O termo redux vem do latim e significa “trazido de volta”, geralmente é usado após um termo para qualifica-lo, indicando algo como uma reedição, volta ou retorno.

[14] Immanual Wallerstein, Randall Collins, Michael Mann, Georgi Drerluguian e Craig Calhoun, Does Capitalism Have a Future?, Oxford: Oxford University Press 2013, pp. 1-2.

[15] O que Marx chama entgegenwirkende Ursache em O Capital, vol. 3, no contexto da “lei da tendência de queda da taxa de lucro” (Capítulo 13 no original alemão, Karl Marx, Das Kapital. Kritik der Politischen Okonomie, Dritter Band, Berlim: Dietz Verlag, 1966 [1894]). Na verdade, Collins lida com fatores compensadores, os quais chama de “escapes”, mas para mostrar que eles não são mais eficazes. Ver abaixo.

[16] John Maynard Keynes, ‘Economic Possibilities for our Grandchildren’. In: Keynes, John Maynard, Essays in Persuasion, Nova Iorque: W.W. Norton & Co. 1963 [1930].

[17] Para uma visão diferente, mais otimista da indeterminação, ver Wallerstein et al. (Does Capitalism Have a Future?, p. 4): “Encontramos esperança… exatamente na medida em que nosso futuro é politicamente indeterminado. Crise sistêmica afrouxa e despedaça as constrições estruturais que são elas mesmas heranças de dilemas passados… A crise profunda do capitalismo pode ser uma oportunidade para reorganizar os assuntos planetários da humanidade de um jeito que promove mais justiça social e um planeta mais vivível.” Embora concorde sobre o afrouxamento das constrições estruturais, não vejo quem será o agente coletivo que seria capaz de tirar vantagem disso. Para mim, a indeterminação resulta da e reforça a pulverização da agência coletiva no transcorrer da revolução neoliberal.

[18] Entretanto, Collins sugere uma explicação monocausal, ao passo que eu imagino que o capitalismo seja destruído por um conjunto, ou síndrome, de causas mais ou menos relacionadas.

[19] Durkheimianos lançariam mão, nesse ponto, do conceito de anomia, significando uma condição menos-que-normal de deficiência de integração social (Emile Durkheim, The Division of Labor in Society, New York: The Free Press 1964 (1893]). Não comprar a crença firme de Durkheim de que tais condições “patológicas” podem ser retificadas por intervenção governamental teoricamente informada, implicaria assumir que pode haver regressão na história, não só progresso, mas também perda e por mais do que um momento intermediário insignificante – um movimento da civilização em direção a um período prolongado da barbárie, como o que, aparentemente, sucedeu o fim do Império Romano Ocidental. É claro, isso vai fundamentalmente contra a tendência do pensamento moderno, que é obrigado a ser “otimista”.

[20] David Lockwood, ‘Social Integration -and System Integration’. In: Zollschan: George K e Walter Hirsch, eds, Explorations in Social Change, London: Houghton Mifllin 1964, pp. ‘244~257.

[21] Que é um tema muito comum na imprensa de qualidade atualmente. Ver, por exemplo, Binyamin Appelbaum, “Policy Makers Skeptical on Preventing Financial Crisis: New York Times, 4 October 2015, nytimes.com, acessado da última vez em 21 de janeiro de 2016; e Paul Mason, Apocalypse Now: Has the Next Giant Financial Crash Already Begun?; Guardian, 1 November 2015, theguardian.com, acessado pela última vez em 21 de janeiro de 2016. Considerar também o relatório sobre “riscos globais” apresentada na reunião de Davos em janeiro de 2016.

[22] Como será discutido no fim dessa introdução, desintegração sistêmica e entropia social podem ser apresentadas como progresso histórico em direção a liberdade individual e uma sociedade livre. Isso é o centro do libertarismo neoliberal, que espera nada mais da sociedade do que permitir que seus membros maximizem sua utilidade no mercado, tornando redundantes a democracia política e os bens coletivos (Ayn Rand, ‘What is Capitalism?’ In: Rand, Ayn, ed., Capitalism: The Unknown Ideal, New York: The New American Library 1967 (1965], pp. u-34; Ayn Rand, Atlas Shrugged, New York: Penguin 1992 (1957]). Segundo o economista Bernard Maris (Houellebecq, Economiste, Paris: Flammarion 2014), a realidade da vida social – ou melhor: pós-social – neoliberal de acordo com as prescrições da teoria econômica não foi melhor descrita do que no trabalho do escritor Michel Houellebecq, que em seus romances explora as deformações coletivas e individuais multifacetadas que vem com o individualismo sub-socializado, incluindo a possibilidade de indivíduos vivendo por suas prescrições serem atraídos para um coletivismo regressivo-identitário (ver, por exemplo, Michel Houellebecq, Soumission, Paris: Flammarion, 2015).

Para citar este post:

STREECK, Wolfgang. Como o capitalismo irá acabar – Introdução. Blog do Sociofilo, 2020. [publicado em 16 de abril de 2020]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2020/04/16/como-o-capitalismo-ira-acabar-introducao-por-wolfgang-streeck/

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