DEBATE: Cultura do Cancelamento – Filipe Campello e Érico Andrade

Os textos a seguir são contribuições para um debate que entrou em voga na época do Carnaval de 2020 e que foi em parte catalisado por este artigo escrito por Filipe Campello,  Professor do Departamento de Filosofia da UFPE. A discussão sobre a cultura do cancelamento contou com críticas ao artigo original de Campello feitas por Fabiana Moraes, jornalista e Professora do Núcleo de Design e Comunicação da UFPE (campus do Agreste), e por Érico Andrade, Professor do Departamento de Filosofia da UFPE. Os comentários de ambos estão neste programa de rádio.  Nos textos que vão abaixo, Érico e Filipe retornam aos temas discutidos por eles e Fabiana. Devido a motivos de pandemia, adiamos a publicação do debate; porém, antes tarde do que nunca, publicamos hoje as intervenções de Filipe Campello e Érico Andrade, que acreditamos serem relevantes para o tema. 

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Identidade e cancelamento

Por Filipe Campello[1]

Fabiana Moraes e Érico Andrade, meus colegas na Universidade Federal de Pernambuco, fizeram um instigante debate no programa e podcast Conexão UFPE sobre o que tem sido chamado de cultura do cancelamento. Dentre as várias referências e aspectos discutidos, foi citado um artigo meu sobre o tema, publicado há algumas semanas na Folha de S. Paulo. Pensei em aproveitar a oportunidade para esclarecer melhor minha posição, principalmente no sentido de estimular a discussão – algo que, como foi dito no programa, acabou perdendo espaço, talvez como efeito colateral de um cenário que inibe divergências e pluralismo de ideias.

Parece-me haver – tanto no que foi discutido ali quanto no modo como isso foi atribuído ao meu texto – uma certa confusão entre, por um lado, a questão do cancelamento e, por outro, o debate sobre pautas identitárias.

O meu artigo não pretende ser uma crítica à questão identitária. Pelo contrário, eu começo o texto defendendo o que historicamente caracterizou essas demandas, mencionando, inclusive, algumas das reinvindicações legítimas no contexto dos movimentos sociais. Tais demandas também foram por mais voz, visibilidade e participação (se quisermos resumir em uma expressão: reconhecimento) e isso, como foi bem colocado no debate entre Fabiana e Érico, pode ser entendido como formas históricas de cancelamento – mais especificamente, enquanto silenciamento.

Meu enfoque, então, volta-se a três aspectos que considero que historicamente caracterizaram os movimentos identitários: primeiramente, o deslocamento da crítica centrada na noção de indivíduo para a crítica que se torna sobretudo social ou estrutural; em segundo lugar, a importância da luta por reconhecimento de direitos; e, por fim, a noção de que nossas visões de mundo são perpassadas por um vocabulário ou uma normatividade social que é passível de mudança – ou seja, que não possuímos uma identidade rígida, mas que sempre podemos aprender a rever nossas posições.

O que proponho no artigo é que a cultura do cancelamento, na verdade, entra em curto-circuito com essas três características: No lugar de uma crítica social, passa a predominar uma lógica de cancelamento dirigida aos próprios indivíduos; ao invés de reconhecimento de direitos, o punitivismo baseado numa lógica moralista; e, ao contrário da possibilidade de aprendizado e mudança, a pressuposição de uma espécie de essencialismo atemporal.

Ou seja, tento mostrar que aquilo que havia dado estofo ao debate em torno da questão identitária, e que em larga medida eu defendo, se enfraquece quando faz uso da lógica do cancelamento, que eu critico.

Na discussão levantada no programa, falou-se ainda em desonestidade intelectual quando se critica o cancelamento vinculado a pautas identitárias, deixando de lado a prática do cancelamento pela direita.

Sinceramente, acho que sequer vale a pena gastar energia tentando mostrar como Trump ou Bolsonaro (ou bolsonaristas) são exemplos disso – silenciando quem pensa diferente e agindo na base do discurso de ódio e excludente. Essa é uma constatação que me parece ser compartilhada desde pessoas mais à esquerda até liberais que fazem jus ao nome (bolsonaristas “puro sangue” e raivosos formam um tipo de perfil que foge e qualquer variação desse espectro político).

O que causa estranheza é esse tipo de atitude estar sendo propagada por setores progressistas. A prática do cancelamento, nesses casos, acaba recaindo numa armadilha, uma vez que a lógica punitivista e extrajudicial é típica de uma postura de ultradireita que beira traços fascistas. É por isso que eu uso o termo “paradoxo”, pois ele acaba se utilizando de tudo aquilo que sempre foi objeto de crítica das políticas identitárias: uma lógica persecutória, policialesca, que relativiza ou mesmo suspende o direito de defesa ou presunção de inocência.

Sempre há, assim entendo, disputas e divergências também entre pessoas que compartilham um ou alguns traços identitários. Para usar um exemplo até trivial mencionado no debate e no meu texto: a legitimidade ou não de alguém usar uma fantasia de indígena, como na polêmica envolvendo Alessandra Negrini, não é ponto pacífico nem entre indígenas – basta ver as lideranças que a apoiaram. Um dos principais riscos na prática do cancelamento é o da régua moral: alguém que se coloca numa posição superior de definir o que se pode ou não se pode fazer, como se houvesse uma identidade homogênea entre indígenas e que fosse inequívoco e consensual entre todos eles o fato de que não se pode usar fantasia.

Apesar dos exemplos de cancelamento normalmente serem associados a pessoas com maior visibilidade na mídia ou nas redes sociais, minha preocupação é, na verdade, com o efeito que isso pode ter num plano mais amplo e sobretudo mais vulnerável. Quando meu texto foi publicado, uma crítica que ele suscitou é que eu teria dado uma ênfase excessiva ao âmbito do direito. De fato, eu deveria ter explorado no artigo também as evidentes imperfeições da esfera jurídica, por exemplo em sua seletividade ou politização. O espaço era curto, e mereceria outro texto. Concordo com Fabiana e Érico na ênfase no diálogo e ação política, e de que o conceito de democracia não está dado, mas em contínua construção. Por outro lado, entendo que mesmo as disputas políticas apontam, em última análise, para alguma forma de reconhecimento de direitos. Certamente há uma justiça seletiva, de que quem é morto pela polícia é sobretudo quem é negro e morador da periferia. Mas acho que a saída não deve ser fora do Estado do direito, senão reconhecendo seus limites e imperfeições no sentido de dirimi-los. O meu receio é que, se jogamos fora isso, há um risco enorme de recairmos num enfraquecimento institucional que acaba beneficiando discursos que defendem a criminalização dos movimentos sociais, formas de execução extrajudicial, etc.

Em suma, reconhecer a injustiça em casos como, para usar outros exemplos mencionados, mulheres estruturalmente ganharem menos do que homens, ou de ver como grupos que até pouco tempo estavam em condições de submissão podem hoje afirmar sua própria identidade não impede de questionar possíveis contradições da cultura do cancelamento. Podemos, é o que penso, defender as duas coisas. Significa, enfim, redirecionar a crítica às condições estruturais e não a indivíduos a partir de uma lógica punitivista.

Espero com isso tomar o instigante debate entre Fabiana e Érico como uma oportunidade de esclarecer melhor minha posição e entender melhor se entre nós continuam existindo, de fato, discordâncias.

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Justiça e cancelamento

Por Érico Andrade (Filósofo, psicanalista em formação e Professor na UFPE)

Em certo sentido o cancelamento sempre pautou a política brasileira. A expressão é contemporânea. No entanto, a prática é antiga e está no nosso DNA. Foram cancelados contingentes enormes da nossa população que longe de serem minorias são quantitativamente a maioria das pessoas no Brasil. O cancelamento no sentido de retirar da pessoa o direito à fala e à expressão do contraditório governou as políticas no Brasil e silenciou por décadas, dentro das próprias instituições, aquilo que não era o espelho da elite.

Não há, neste sentido preciso, como diferenciar o cancelamento e a insurgência das pautas identitárias. Ainda que a direita, especialmente bolsonaristas, recorra massivamente à tática do cancelamento nas redes sociais e bloqueie os seus adversários políticos, sem dúvida o cancelamento foi a forma como algumas pessoas e alguns movimentos sociais usaram para driblar a ineficácia e parcialidade da justiça. E aqui temos um ponto importante.

Na tentativa de denunciar, com total razão, os limites e perigos de uma espécie de cultura do cancelamento, os textos do meu colega Filipe Campello (especialmente o publicado na Folha de São Paulo e o texto publicado neste blog) apontam para a necessidade de preservar o aspecto institucional da justiça para resguardar certos direitos e assegurar que movimentos sociais não sejam, por exemplo, criminalizados. De fato, existe o risco de que a lógica punitivista individual sequestre a importância das instituições (as enfraqueça, como ele diz).

No entanto, a questão que permanece é sobre qual modelo de instituições devemos nos apoiar. Os filósofos arrolados no primeiro texto de Filipe Campello são Kant e Rawls e isso parece indicar o modelo institucional que pauta a compreensão de Campello da justiça. Uma justiça com alguma base liberal e certamente que resguarda certa dimensão procedimental estão presentes naqueles dois autores. Mas aqui temos um ponto delicado. Kant e Rawls são respectivamente acusados de racismo (sobre o racismo em Kant é possível conferir meu artigo para a Kritérion) e imperialismo por posições filosóficas que compreendem que por trás do formalismo daqueles autores está um entendimento bem definido do que se considera uma cultura ideal cujo espelho é na melhor das hipóteses etnocêntrico.

Os movimentos sociais (mais do que os indivíduos isoladamente que podem, de fato, ser arbitrários) e algumas posições filosóficas relativizam a justiça no sentido de mostrar que a democracia não está dada. Mais gravemente; é a disputa pelo que é legal e justo que está no centro das críticas dos movimentos sociais às instituições, sobretudo liberais. Desse modo, não é qualquer noção de justiça (seja institucional ou não) que deve ser preservada ou qualquer noção de estado de direito que deve ser mantida. O que algumas críticas contemporâneas alertam é que a existência de algumas instituições é um obstáculo estrutural a um projeto de sociedade mais inclusiva e diversa.

Referências bibliográficas:

Andrade, É. A opacidade do iluminismo: o racismo na filosofia moderna. KRITERION (UFMG. IMPRESSO), v. 28, p. 1-15, 2017

Notas:

[1] Filipe Campello, doutor em filosofia pela Universidade de Frankfurt (Alemanha), é professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco. Foi pesquisador visitante na New School for Social Research (Nova York).

 

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