NOTAS SOBRE A PANDEMIA: Dilema do quarentener, por Marília Bueno

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Por Marília Bueno

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Há uma peculiaridade um tanto incômoda no Brasil aterrorizado pela pandemia de covid-19 que nós, que optamos pelo isolamento social, já percebemos há muito tempo: quando decidimos aderir ao recolhimento doméstico (e, que fique claro, falo dos que optaram por fazer quarentena, ou seja, que não estão obrigados, por razões externas, a sair de casa para trabalhar ou buscar alguma forma de sustento), aceitamos, de forma mais ou menos consciente, viver sob uma condição que provavelmente irá durar até que seja encontrada uma cura ou uma vacina – ou até que o Atila Iamarino venha bater à nossa porta avisando que podemos retomar nossas atividades. Essa condição irá durar tanto mais quanto menos formos capazes de controlar a propagação do vírus, e tanto menos quanto mais – excluídas as medidas públicas cabíveis – pessoas optarem pelo isolamento também. A peculiaridade incômoda à qual me refiro, então, é o fato de que uma parcela considerável da população decidiu que a pandemia não deveria ser objeto de tanta preocupação e ignorar as recomendações de autoridades sanitárias do mundo todo, ou segui-las apenas de forma a atrapalhar a própria vida o mínimo possível. E, pior ainda, parte dessas pessoas decidiu ainda que a quarentena, talvez mais do que o vírus, é um mal a ser combatido. Isso, é claro, aumenta a propagação da doença e piora as perspectivas de afrouxamento da quarentena e do tão sonhado retorno à normalidade, o que quer que isso signifique. Quanto menos pessoas fizerem isolamento, maior será a duração dele para os que o estiverem fazendo.

Acabo de criar uma versão repaginada de um cenário clássico da teoria dos jogos: a do dilema do quarentener. E o dilema do quarentener traz um agravante em relação ao conhecido dilema do prisioneiro: enquanto para o prisioneiro estão em jogo períodos de reclusão e de liberdade, no caso do quarentener estão em jogo períodos de reclusão, períodos de liberdade e dezenas de milhares de vidas. Também há mais um agravante: não se trata de um modelo teórico hipotético, mas sim do que há de mais concreto na vida de todos nós.

Àqueles que não conhecem o clássico dilema da teoria dos jogos, explico brevemente: suponhamos que dois parceiros no crime – que aqui chamarei de B e C – são presos e interrogados. Todos os outros sinais colocados na explicação serão usados a seguir para entender a tabela abaixo. Cada um é interrogado separadamente e não pode entrar em contato com o outro. E, a cada um deles, é oferecido um acordo: você (B) pode 1) confessar o crime (+) ou 2) não confessar o crime (–). Caso você confesse e C não confesse, você ficará livre (0) e C ficará preso por 10 anos (10). Caso você confesse e C também, ambos ficarão presos por cinco anos (5). No entanto, se nenhum dos dois confessar, o tempo de prisão de ambos será de dois anos (2). B (assim como C) precisa analisar as diferentes estratégias possíveis baseado em duas variáveis principais: a mais importante é sua confiança no parceiro – será que C vai aceitar o acordo ou se manter fiel à parceria? A outra variável é: considerando que a melhor escolha, uma vez que ambos já estão presos, é aquela que é melhor pra todo mundo (como ficará mais claro na tabela, enquanto todas as outras opções somam dez anos de prisão, esta opção soma apenas quatro), o quanto B está disposto a sacrificar sua liberdade em nome dessa escolha maximiza o bem para ambos? Assim, baseados nas escolhas possíveis que B e C possuem, temos os seguintes possíveis resultados:

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O dilema do prisioneiro, que a princípio parece um esquema puramente matemático de cálculos de perdas e ganhos, traz em si, no entanto, a interessante característica de ser imprevisível – justamente por envolver deliberações humanas que se baseiam nas variáveis que citei acima, entre outras ainda mais imponderáveis. Portanto, apesar de o dilema possuir resultados estritamente estabelecidos quando exposto em um quadro, ele se torna absolutamente imprevisível quando trazido para a vida real. Transfira-se isso para toda uma sociedade, em que a deliberação individual de cada um interfere nas variáveis disponíveis para milhões de outros, e você terá, de acordo com a lógica da teoria dos jogos, um cenário completamente entrópico.

Felizmente, temos na vida real uma série de outras variáveis que direcionam a situação para algumas alternativas específicas – afinal, os seres humanos, quando reunidos, também não são tão imprevisíveis assim. Talvez a mais importante dessas variáveis seja o fato de que não somos partículas num sistema termodinâmico, mas sim seres humanos que, como humanos, possuem a fabulosa capacidade de constituir mais do que uma sociedade: somos capazes de produzir uma comunidade. Com esse termo, quero ressaltar que há não apenas cooperação, mas também comunhão de valores, solidariedade, identificação mútua, enfim, uma comunidade moral em que cada indivíduo está ligado aos outros por laços das mais variadas ordens.

O dilema do quarentener, assim como o do prisioneiro, possui um eixo claro: o resultado será melhor para todos na mesma medida em que haja confiança, consideração ao bem comum e cooperação entre as partes envolvidas. Caso contrário, o resultado melhor para um acarretará um resultado pior para o outro. Lembrando que “pior para o outro”, no nosso caso, é literalmente um caso de vida ou morte. Porque, claro, quanto mais pessoas fizerem quarentena, menos risco de morte haverá para os que não fizerem. E, aliás, também para os que fizerem, já que é mais comum que mais de uma pessoa viva na mesma casa.

Mas e daí? Que ganho obtemos dessa comparação? Bem, o ganho é a possibilidade de uma reflexão sobre a atual situação do brasileiro não da perspectiva do jogo, mas da perspectiva da moral. Porque o dilema do prisioneiro também é um dilema moral. E, neste outro campo, eu o apelidei carinhosamente de dilema da kantiana. Isso porque creio termos, na nossa triste conjuntura, uma oportunidade de ouro para observar a pertinência da recomendação de Kant: “age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal” – ou, em outras palavras, aja apenas de modo que possa querer que todos ajam da mesma forma.

Na fundamentação da metafísica dos costumes, Kant defende que a moralidade consiste não nos resultados de suas ações, mas na vontade que as orienta. Porém, Kant não estava satisfeito em propor uma moral rigidamente fundamentada no dever; ele foi além: de acordo com sua doutrina, você deve se comportar, em cada uma das suas ações, como se o reino dos fins (horizonte normativo hipotético da ação moral) dependesse, única e exclusivamente, de você. Assim sendo, de acordo com a lógica de Kant, a ação moral no nosso caso consiste naquela orientada da seguinte forma: “aja como se a contenção do contágio dependesse única e exclusivamente de você, como se a saúde e potencialmente a vida de seus pais, avós, pessoas queridas e até mesmo pessoas desconhecidas – de quem você nunca ficará sabendo – estivessem nas suas mãos”. Porque no limite o que temos é isto: tal como recomenda o imperativo categórico, o fim da sua ação deve ser não um objetivo, ou mesmo uma pessoa, específicos; sua ação deve ser orientada para a humanidade como um todo.

Se formos levar a sério a proposição do imperativo categórico, significa que o ser humano é o epicentro de onde irradia qualquer norma moral, e que, portanto, a moral exige que se o tenha como fim último de ações de qualquer tipo. Como coisa sagrada que é, a humanidade – a do outro e a própria – é inviolável. Tê-la em vista como horizonte da própria conduta é reverenciar a sua própria humanidade também, e esse é um princípio que podemos querer ver ser universalizado. Isso quer dizer que, se você não pode desejar que todos furem uma fila, você não pode furá-la também. E se você, caso queira seguir qualquer recomendação baseada em estudos científicos, não deveria esperar que todos furem a quarentena, bem, você não deveria ignorá-la. É, portanto, uma doutrina que só pode ser imaginada, ao menos na prática, em consonância com o exercício radical da empatia. Ela exige, principalmente, que se abandone de uma vez por todas o ímpeto de tirar vantagem das situações em geral. Pois o reino dos fins tem aversão à ideia de vantagem. Ora, você pensa: de que adianta agir de forma moral se não há qualquer garantia de que os outros irão agir da mesma forma? E é aqui que sobrepomos o dilema da kantiana ao dilema do prisioneiro: não há garantia nenhuma. Agir moralmente é um salto de fé. Uma fé na humanidade, talvez. E, no nosso caso, também uma fé na ciência, que recomenda que fiquemos em casa não tanto para o nosso bem – e com “nosso”, me refiro àqueles que não estão no mutável e incerto “grupo de risco” – mas para o bem comum. Para que, mesmo que isso não signifique arriscar a própria vida, não nos tornemos vetores de um vírus potencialmente letal para outras pessoas. Talvez por isso Kant tenha sido tão criticado nessa parte de sua filosofia: como podemos esperar que as pessoas ajam moralmente mesmo quando a infâmia tem boas perspectivas, como colocam, por exemplo Horkheimer e Adorno? Quando pensado no contexto da ordem capitalista, essa proposição parece ser de um otimismo ainda mais ingênuo. O sentimento de empatia precisaria ser realmente muito vigoroso para colocar em xeque o uso de seres humanos como meios para fins particulares, considerando-se que a economia capitalista como um todo é, basicamente, edificada sobre esse procedimento.

No nosso caso, o que torna a situação mais complicada é um fator não previsto pela teoria dos jogos e tampouco por Kant: o fato de que, no Brasil, a comunidade, se é que podemos usar essa palavra para descrever nossa população, está encharcada de ódio. No lugar de uma identidade coletiva, fundada sobre um pacto civilizatório, unida por laços de fraternidade, temos neste momento uma identidade cindida, desagregada e marcada, do início ao fim, por ressentimento. E, como população que se odeia internamente, podemos dizer que nossos laços de fraternidade estão, pra dizer o mínimo, bastante frouxos (e, com eles, qualquer resquício de solidariedade orgânica). Não temos como representar, para nós mesmos, uma unidade de sobrevivência propriamente dita. Se eu sei que dependo do outro e que, ao mesmo tempo, a estratégia que provavelmente mais me favorece é aquela que favorece a ambos, ou seja, a cooperação, como é que poderei ponderar a respeito da melhor estratégia se sei que o meu parceiro me odeia? E, mais ainda, como pensar nessa estratégia se esse ódio é de uma profundidade tal que se torna, para ele, um elemento fundante da identidade e, consequentemente, de união com aqueles que considera seus semelhantes – ou seja, o elemento de coesão da sua unidade de sobrevivência? É claro, essas perguntas são completamente retóricas: já sabemos, independentemente disso, que a melhor estratégia é ficar em casa. Mas nem por isso elas deixam de ser objeto de reflexão. E também de autorreflexão: como posso me identificar com aquele que se recusa a me enxergar como igual? Até que ponto sou capaz de sentir empatia por quem só demonstra desprezo pelo bem comum e pela vida humana? Até onde posso respeitar a liberdade do outro se o que esse outro deseja é deletério para a comunidade como um todo? Como posso não sentir ódio por quem me odeia, por quem odeia àqueles que considero meus semelhantes? São todas questões sobre as quais temos, nas profundezas de nosso isolamento, tempo de sobra para pensar.

Kant, se tivesse entrado por um buraco de minhoca e caído na avenida Paulista numa tarde de domingo recente, ficaria de cabelo em pé. O buraco negro civilizacional que vem dragando nossas instituições e melhores sentimentos de humanidade provavelmente nos aproxima menos do reino dos fins imaginado por ele do que do cenário, composto de ruínas sobre ruínas, vislumbrado pelo anjo da história de Benjamin. Nesse amontoado de ruínas, muito antes de conseguirmos meditar sobre as questões que listei acima, parece que apenas conseguimos questionar, embotados que estamos depois de tanto cabelo em pé: “como chegamos a este ponto?”.

E, no entanto, esses sentimentos de humanidade ainda são o melhor que temos e não podemos abrir mão deles. Se o mundo em que vivíamos não existe mais, a reflexão deve ser não apenas sobre como o atual estado de coisas foi possível, mas também sobre em que tipo de mundo queremos viver quando sairmos de casa. E isso passa também por refletir sobre as normas morais que têm imperado na nossa história recente. Cabe nos perguntarmos se, com o aparato moral de que dispomos, seremos capazes de fazer reviver dos escombros uma nova sociedade ou – quem sabe? – até mesmo uma comunidade. Se seremos ou não capazes disso, só a história dirá. Enquanto isso, caso você que me lê não goste da doutrina kantiana, podemos então pensar com Bergson quando este diz que “da sociedade real em que estamos nós, nos transportamos, pelo pensamento, para a sociedade ideal, rendemos a ela nossa homenagem quando nos curvamos diante da dignidade humana em nós, quando declaramos agir por respeito a nós mesmos”.

Referências bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.

HORKHEIMER, Max & ADORNO, Theodor.  Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2011.

Para citar este post:

BUENO, Marília. Dilema do quarentener. Blog do Sociofilo, 2020. [publicado em 25 de maio de 2020]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2020/05/25/notas-sobre-a-pandemia-dilema-do-quarentener-por-marilia-bueno

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