NOTAS SOBRE A PANDEMIA: Nós nos tornamos vírus para o planeta, por Philippe Descola e Nicolas Truong

planeta1

Fonte da imagem: http://www.ufjf.br/ladem/2012/02/14/bem-vindo-ao-antropoceno/

Tradução Maria José da Silva Aquino Teisserenc

Nesta entrevista ao jornal Le Monde*, o antropólogo Philippe Descola explica que esta pandemia deve conduzir à uma “política da Terra”, entendida como uma casa comum cujo uso não seria mais exclusivo aos humanos.

Antropólogo, especialista dos Jivaro achuar, povo da Amazônia equatoriana (Les Lances du crépuscule, Plon, 1994), Philippe Descola é professor do Collège de France e titular da cadeira de antropologia da natureza.

Discípulo de Claude Lévi-Strauss, medalha de ouro do CNRS (2012) pelo conjunto de seu trabalho, Philippe Descola desenvolve uma antropologia comparativa das relações entre humanos e não-humanos que revolucionou tanto a paisagem das ciências humanas quanto a reflexão sobre os desafios ecológicos de nosso tempo. Esta antropologia é especialmente presente em obras suas como Par-delà de la nature et culture (Gallimard, 2005) et La Composition des mondes (entrevistas com Pierre Charbonnier, Flammarion, 2014).

Em que esta pandemia mundial é “um fato social total”, na perspectiva de Marcel Mauss, um dos fundadores da antropologia?

Um fato social total é uma instituição ou acontecimentos que põem em movimento uma sociedade, que revelam suas bases e seus valores, que revelam sua natureza profunda. Nesse sentido, a pandemia é um reagente que condensa, não as singularidades de uma sociedade particular, uma vez que ela é mundial, mas certos traços do sistema que rege o mundo atual, o capitalismo pós-industrial.

Quais são eles? Primeiro: a degradação e o encolhimento sem precedentes dos ambientes pouco antropizados, produzida pela pecuária extensiva, pela agricultura industrial, pela colonização interna e a extração de minerais e de energias fósseis. Esta situação levou a que espécies selvagens, reservatórios de patógenos, se encontrem em contato mais intenso com os humanos vivendo em habitats muito mais densos. Ora, as grandes pandemias são zoonoses, doenças que se propagam de espécie em espécie cuja difusão é, portanto, em grande parte dependente de perturbações ecológicas.

Segundo: a persistência gritante das desigualdades revelada pela situação de crise, no interior de cada país e entre os países, que produzem consequências muito diferentes para as pessoas dependendo da situação social e econômica na qual se encontram. A pandemia permite verificar o que constata o antropólogo David Graeber: quanto mais um trabalho é útil à sociedade menos ele é remunerado e considerado. Descobrimos de repente a importância crucial das pessoas das quais dependemos em termos de cuidados de saúde, da nutrição, da limpeza do lixo que produzimos; são elas as primeiras expostas à doença.

Terceiro: a rapidez da propagação da pandemia. Doenças infecciosas que dão a volta ao mundo não é novidade; a novidade é que elas o façam numa velocidade que chama a atenção para a forma presente da mundialização, a qual parece inteiramente regida pela mão invisível do mercado, isto é, pela regra do lucro imediato. O que salta aos olhos, especialmente com a falta de máscaras, de testes ou de medicamentos, é uma divisão internacional da produção baseada em duas omissões: a do custo ecológico do transporte de mercadorias e a da necessidade social de uma divisão local do trabalho na qual as competências estejam representadas.

Esta crise é devida à devastação do planeta ou é preciso considerar que as epidemias, bem antes do antropoceno, fazem parte da história e face a isso o homem deve ser mais humilde? 

Enquanto americanista, sou dolorosamente consciente do preço que tem pago as populações ameríndias pelo encontro com as doenças infecciosas a elas transmitidas pelos colonizadores europeus: entre os séculos XVI e XVII, em certas regiões, 90% da população desapareceu. As epidemias nos acompanham desde o início da hominização. Simplesmente o desenvolvimento do Estado-providência a partir da Europa em fins do século XIX levou seus beneficiários a esquecer que o risco e a incerteza são componentes fundamentais de nossos destinos coletivos.

Por que o capitalismo moderno se tornou, de acordo com o senhor, um tipo de “vírus do mundo”? Tudo é culpa do capitalismo, mesmo se essas pandemias não parecem desvinculadas dos mercados de animais vivos e da medicina tradicional chinesa?

Um vírus é um parasita que se replica às custas de seu hospedeiro, às vezes até o matar. É isso que o capitalismo faz com a Terra desde o início da revolução industrial, durante muito tempo sem o saber. Agora nós o sabemos, mas nós parecemos ter medo do remédio, que nós conhecemos também, a saber uma transformação de nossos modos de vida.

Sem dúvida os mercados tradicionais chineses contribuíram para o desaparecimento do pangolim ou do rinoceronte. Mas as redes de contrabando de espécies protegidas que os alimentam funcionam segundo uma lógica perfeitamente capitalista. Para não falar do capitalismo selvagem das empresas florestais chinesas ou malásias operando na Indonésia, ao lado das plantações de palmeiras para a produção de óleo e das indústrias agroalimentares.

Aqueles que não operam segundo esse modelo são as populações autóctones de Bornéo (e de outras regiões do mundo), que defendem seus territórios contra o desmatamento. O capitalismo nasceu na Europa, mas ele não é definível etnicamente. E ele continua a se propagar como uma epidemia, embora não mate diretamente aqueles que o praticam, mas as condições de vida a longo prazo de todos os habitantes da Terra. Para o planeta nós nos tornamos vírus.

Esta crise não é uma oportunidade para conceber de outra forma as relações entre a cultura e a natureza, entre os humanos e os não-humanos? Ou, ao contrário, por causa das zoonoses, não se tenta aumentar a distância entre “eles” e “nós”?

No fim do século XVIII começou a se colocar na Europa uma visão das coisas que eu chamo “naturalista”, fundada na ideia de que os humanos vivem em um mundo separado do dos não-humanos. Sob o nome de natureza, esse mundo separado pôde se tornar objeto de pesquisa científica, recurso ilimitado, reservatório de símbolos. Esta revolução mental é uma das fontes da exploração desenfreada da natureza pelo capitalismo industrial e, ao mesmo tempo, do desenvolvimento dos conhecimentos científicos. Mas ela nos fez esquecer que a cadeia da vida é formada de malhas interdependentes, em meio as quais algumas não são vivas, e que nós não podemos nos abstrair do mundo quando bem entendemos. O “nós” não faz sentido se imaginamos que a microbiota de cada um de “nós” é composta por bilhões de “eles”, ou que o CO2 que eu emito hoje afetará o clima em mil anos. Os vírus, os micro-organismos, as espécies animais e vegetais são comensais no banquete trágico da vida. É absurdo pensar que é possível sair disso, se despedir simplesmente, para viver dentro de uma bolha.

Os povos autóctones da Amazônia se fecham, se dispersam e se voltam para eles mesmos para enfrentar a epidemia. Devemos nós igualmente nos abrigar atrás de nossas fronteiras e nossas nações? É o fim, não somente da mundialização, mas também de um certo cosmopolitismo?

Se falamos de uma cosmopolítica no sentido do sociólogo Ulrich Beck, isto é, a consciência adquirida por uma grande parte da humanidade de que ela compartilha de um destino comum porque ela é exposta aos mesmos riscos, então fechar fronteiras é uma ilusão. Diminuiremos talvez o ritmo de propagação da Covid-19, mas não impediremos a eclosão de uma outra zoonose em outros lugares.

Sobretudo, não pararemos a nuvem de Tchernobyl ou a elevação do nível das águas dos mares. E se certos ameríndios da Amazônia têm a possibilidade de impedir humanos de penetrar em seus territórios, porque eles são vetores de doenças e garimpeiros, eles são, por outro lado muito mais acolhedores com os não-humanos dos quais são familiarizados. E é nesse sentido que a palavra “cosmopolítica” poderia ganhar em alcance. Não como um prolongamento do projeto kantiano de formular regras universais mediante as quais os humanos, onde quer que estejam, poderiam levar uma vida civilizada e pacífica. Mas no sentido literal, como uma política do cosmos.

Uma política da Terra entendida como uma casa comum cujo uso não é mais prerrogativa dos humanos. Isso implica uma revolução do pensamento político da mesma importância da realizada pela filosofia das Luzes e depois pelos pensadores do socialismo. Estamos vendo sinais precursores.

Em vários países deu-se uma personalidade jurídica a lugares de vida (montanhas, bacias hidrográficas, regiões), capazes de fazer valer seus interesses próprios pelo viés de mandatários cujo bem-estar depende de seu mandante. Em vários países também, inclusive na França, pequenos coletivos se separaram do movimento contínuo de apropriação da natureza e dos bens comuns que caracteriza o desenvolvimento da Europa, e do mundo, desde o fim do século XVI. Esses coletivos colocam em primeiro plano a solidariedade entre as espécies, a identificação com um meio, a preocupação com os outros e o equilíbrio dos ritmos da vida, no lugar da competição, da apropriação privada e exploração máxima das promessas da Terra. É um verdadeiro cosmopolitismo em pleno exercício.

Assiste-se a uma virada antropológica do pensamento francês com a eclosão de uma geração notadamente formada por Bruno Latour e você mesmo que não separa mais de maneira radical os humanos e os não-humanos?

Pode-se chamar isso uma virada antropológica se quiser, desde que se acrescente, paradoxalmente tratar-se de uma antropologia que está se tornando cada vez menos antropocêntrica, porque ela parou de relegar os não-humanos a uma função de meio e de reduzir suas propriedades às aspirações e aos códigos que sobre eles projetam os humanos. Um dos meios para isso é introduzir os não-humanos como atores de pleno direito na cena das análises sociológicas retirando-os de seu papel habitual de bonecos manipulados por um hábil ventríloquo.

É um exercício que contraria vários séculos de excepcionalidade humanista no curso dos quais nossos modos de pensamento tornaram inimaginável que máquinas, montanhas ou micróbios possam se tornar autorreferentes.  Foi necessário para isso tratar o não-humano como “fato social total” justamente, isto é, transformá-lo em um tipo de planeta em torno do qual gravitam múltiplos satélites. Eu chamei isso de antropologia da natureza.

Fala-se muito do “mundo de depois”, ao risco de não pensar o presente. O que seria possível e importante mudar o mais rapidamente? 

Pode-se sempre sonhar. Então, vamos lá: instauração de uma renda básica; desenvolvimento das convenções de cidadãos escolhidos através de sorteio; imposto ecológico universal proporcional à emissão de carbono; taxação dos custos ecológicos de produção e de transporte de bens e serviços; desenvolvimento de atribuição da personalidade jurídica aos ambientes vivos, etc.

*Publicado dia 21 de maio de 2020, no Jornal Le Monde.

Para citar este post

DESCOLA, Philippe. Nós nos tornamos vírus para o planeta, entrevista para o Jornal Le Monde. Blog do Sociofilo, 2020. [publicado em 29 de maio de 2020]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2020/05/29/notas-sobre-a-pandemia-nos-nos-tornamos-virus-para-o-planeta-entrevista-para-o-jornal-le-monde-por-philippe-descola-e-nicolas-truong/

 

1 comentário em “NOTAS SOBRE A PANDEMIA: Nós nos tornamos vírus para o planeta, por Philippe Descola e Nicolas Truong”

  1. Pingback: NOTAS SOBRE A PANDEMIA: Nós nos tornamos vírus para o planeta, por Philippe Descola e Nicolas Truong — Blog do Sociofilo – cacimba velha

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.