A Virada Afetiva: teorizando o social, por Patricia Ticineto Clough

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O Grito (1893), por Edvard Munch

Por Patricia Ticineto Clough
Tradução: Lucas Faial Soneghet

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*O texto a seguir é uma tradução das páginas 1 a 3 do capítulo “Introduction” escrito por Patricia Ticineto Clough no livro “The Affective Turn: theorizing the social”, cuja referência completa está no final. É o primeiro em uma série de traduções que englobará toda a introdução do livro.

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“Cada sistema auto-reproducente nessa produção generalizada de ordem a partir do caos combina modulações do que poderia ser chamado, de maneira geral, de dimensão ‘política’… dimensão ‘econômica’…, e contribui de uma forma que poderia ser chamada ‘cultural’… Por falta de uma palavra melhor, o cofuncionamento caótico das dimensões política, econômica e cultural poderia ser apelidado de ‘social’ – embora todas essas designações sejam bem arbitrárias no ponto que estamos.” – Brian Massumi[1]

A importância crescente do afeto como foco de análise através de vários discursos disciplinares e interdisciplinares está ocorrendo em um momento no qual a teoria crítica enfrenta os desafios analíticos advindos da guerra contínua, do trauma, da tortura, do massacre e do contra/terrorismo. Se é possível classificar esses eventos mundiais como sintomáticos de transformações políticas, econômicas e culturais em andamento, a virada para o afeto pode estar registrando uma mudança no cofuncionamento do político, econômico e cultural, ou o que Massumi apelida de social. Os ensaios coletados em A Virada Afetiva: Teorizando o Social exploram essas tendências políticas, econômicas e culturais e investigam como essas podem se tornar[2] um deslocamento no pensamento – capturado na virada ao afeto na teoria crítica.

Os ensaios coletados no A Virada Afetiva – escrito quando seus autores estavam completando trabalho de doutoramento em Sociologia, Estudos Femininos e Estudos Culturais – exploram a recente virada para o afeto na teoria crítica, especialmente a conceitualização de afeto que se inspira na linha de pensamento que vai de Gilles Deleuze e Felix Guattari até Baruch Spinoza e Henri Bergson.[3] Os ensaios engajam os insights de pensadores que estão trabalhando atualmente nessa linha de pensamento e que tratam a afetividade como um substrato de respostas corporais potenciais, geralmente respostas autonômicas, que estão em-excesso da consciência. Para esses pensadores, afeto se refere de maneira geral às capacidades corporais de afetar e ser afetado ou ao aumento ou diminuição da capacidade de um corpo de agir, se engajar, se conectar, de modo que autoafecção está ligada ao auto-sentimento de se estar vivo – isto é, “vivacidade” ou vitalidade.[4] Todavia, como Massumi argumenta, o afeto não é “presocial”. Há um refluxo de volta da experiência consciente para o afeto, que é registrado, entretanto, como afeto, de modo que “ações e contextos passados são conservados e repetidos, autonomicamente reativados, mas não efetuados; iniciados, mas não completados.”[5] O afeto é uma complexidade não-linear a partir da qual a narração de estados conscientes como emoções, são subtraídas, mas sempre com “um remanescente autonômico nunca-a-ser-consciente.”[6]

Nessa conceituação, o afeto não é teorizado somente em termos do corpo humano. O afeto é também teorizado em relação as tecnologias que nos permitem tanto “ver” o afeto quanto produzir capacidades corporais afetivas para além das constrições orgânico-fisiológicas do corpo. A experimentação tecnocientífica com o afeto não somente atravessa a oposição do orgânico e do não-orgânico; ela também insere o técnico na vitalidade sentida, a vivacidade sentida dada nas capacidades corporais pré-individuais de agir, de engajar, de conectar – de afetar e ser afetado. A virada afetiva, logo, expressa uma nova configuração de corpos, tecnologia e matéria que está instigando uma mudança no pensamento da teoria crítica. É com esse deslocamento no pensamento que os ensaios a seguir se engajam. Tomados juntamente, os ensaios exploram o movimento na teoria crítica de uma crítica da identidade do sujeito, da representação e do trauma informada pela psicanálise para um engajamento com a informação e o afeto; do privilégio do corpo orgânico para a exploração da vida não-orgânica; da pressuposição de sistemas fechados que buscam equilíbrio para o engajamento com a complexidade de sistemas abertos em condições longe-do-equilíbrio de metaestabilidade; do foco em uma econômica de produção e consumo para o foco na circulação econômica de capacidades corporais pré-individuais ou afetos no domínio do controle biopolítico. Tomados em conjunto, os ensaios sugerem que prestar atenção na virada afetiva é necessário para teorizar o social.

Isso não significa somente pensar sobre o afeto em termos das mudanças históricas nas sociedades capitalistas industriais ocidentais, mas reconhecer que política, economia e cultura sempre foram e estão presentemente sendo reconfiguradas diferentemente através de várias regiões do mundo. Esse reconhecimento vem não tanto de uma análise comparativa, mas sim de uma análise geopolítica das transformações em andamento nas relações de poder através de organizações internacionais, regiões, nações, estados, economias, esferas públicas e privadas. A Virada Afetiva aponta especialmente para como essas mudanças históricas são indicativas de processos globais cambiantes de acumulação do capital e emprego da força de trabalho por meio do uso da tecnociência para ir além das limitações do humano na experimentação com a estrutura e a organização do corpo humano, ou que é chamado de “a própria vida”.[7] A virada afetiva lança o pensamento de volta para as negações constitutivas das sociedades capitalistas industriais ocidentais, trazendo para frente os corpos fantasmáticos e os restos traumatizados de histórias apagadas. Ela também lança o pensamento para o futuro em direção a matéria corporal e biotecnologias de experimentação tecnocientífica.

A virada afetiva convida uma abordagem transdisciplinar para a teoria e o método que necessariamente convida alguma experimentação, visando capturar o cofuncionamento mutável do político, do econômico e do cultural, concebendo-o afetivamente como uma mudança no desdobramento da capacidade afetiva. Os autores dos ensaios coletados no A Virada Afetiva usaram a teoria e o método tanto para entender as mudanças que constituem o social quanto para explora-las como mudanças em nós mesmos, circulando em nossos corpos, nossas subjetividades, embora irredutíveis ao indivíduo, ao pessoal ou ao psicológico. Irredutíveis porque o deslocamento no pensamento que A Virada Afetiva elabora pode ser ele mesmo descrito como um marco de uma intensificação da auto-reflexividade (processos se voltando para si mesmos para agirem sobre si mesmos) nos sistemas de informação/comunicação, incluindo o corpo humano; nas máquinas de arquivo, incluindo todas as formas de tecnologias de mídia e de memória humana; nos fluxos de capital incluindo a circulação de valor por meio do trabalho humano e da tecnologia; e nas redes biopolíticas de disciplinamento, vigilância e controle.

Na medida que a auto-reflexividade se torna interna a esses sistemas, um traço contínuo e prontamente disponível de seu funcionamento, mais ela é realizada nos loops de retorno, que disparam com velocidades variáveis, em múltiplas direções e em múltiplas temporalidades, emergindo por acaso e fora-de-controle – o caos que, como Massumi propõe, é  a condição de possibilidade do social nesse momento. A auto-reflexividade do sistema desloca-se da busca por homeostase e equilíbrio para a busca do controle e da liberdade na complexidade em sistemas sob condições longe-do-equilíbrio.[8]

Notas:

[1] Brian Massumi, “Requiem for Our Prospective Dead (Toward a Participatory Critique of Capitalist Power)”, em Deleuze and Guattari, New Mappings in Politics, Philosophy, and Culture, ed. Eleanor Kaufman e Kevin Jon Heller (Minneaopolis: University of Minnesota Press, 1998), 59.

[2] Nota do tradutor: A autora usa o termo “rendered as”. A palavra “render” tem vários sentidos, podendo indicar a ação pela qual algo se torna alguma coisa, o ato de performar uma ação (to render a service significaria fazer um serviço), ou o ato de prover algo (to render assistance significaria dar prover assistência). Como é uma palavra muito usada pela autora e por outros pensadores da virada afetiva, vale a pena a longa nota para esclarecer suas possíveis adaptações ao longo do texto. Aqui, Clough está falando sobre o processo pelo qual tendências sociais estão sendo traduzidas, expressas ou transformadas em pensamento. Por isso, opto por traduzir “rendered as a shift in thought” como “se tornar um deslocamento no pensamento”.

[3] Todos os autores dos ensaios seguintes estudaram comigo. Eles tiveram aulas comigo e eu os orientei em suas dissertações. Eles também fizeram parte do que chamamos de “grupo do livro”, que se reuniu para preparar os ensaios para essa coleção.

[4] Estou parafraseando uma definição de afeto oferecida por Brian Massumi em suas notas sobre a tradução de Os Mil Platôs, Capitalismo e Esquizofrenia de Gilles Deleuze e Felix Guattari (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1987), xvi. Eu também estou me inspirando em Mark Hansen em seu tratamento da autoafecção, ver, “The Time of Affect, or Bearing Witness to Life,” Critical Inquiry 30 (2004), 584-626. Ver também Autoaffection: Unconscious Thought in the Age of Teletechnology (Minneaopolis: University of Minnesota Press, 2000). Embora tenha estado interessada na autoafecção há algum tempo, meu interesse anterior era na crítica d aautoafecção enquanto aquilo que permitia a presente do Sujeito idêntico a si mesmo do discurso ocidental, uma crítica ligada ao trabalho de Jacques Derrida. O repensar da autoafecção nesse trabalho e em meu trabalho com estudantes é parte do meu engajamento com a abordagem diferente do afeto na obra de Deleuze, que só começou a ter uma influência em meu pensamento no que diz respeito a Autoafecção. Além da conceitualização do afeto que estou buscando aqui, há uma série de disciplinas que tomaram uma discussão do afeto na qual o significado do afeto varia. Nos estudos literários, a discussão talvez começou com a publicação de Shame and Its Sisters: A Silvan Tomkins Reader de Eve Kosofsky Sedgwick e Adam Frank (Durham: Duke University Press, 1995). Ver também, Sianne Ngai, Ugly Feelings (Cambridge: Harvard University Press, 2005) e a abordagem de Elizabeth Wilson sobre afeto, incluindo sua revisão de abordagens neurológicas e psicológicas do afeto em Psychosomatic: Feminism and the Neurological Body (Durham: Duke University Press, 2004).

[5] Brian Massumi, Parables for the Virtual (Durham: Duke University Press, 2002), 30.

[6] Ibid, 25.

[7] Eugene Thacker argumenta a favor da manutenção de aspas em a própria vida para se proteger de qualquer concordância com a ideia que uma essência é detectável – como a vida própria. Mas visto que o termo tem sido usado por biólogos moleculares desde a década de 1950, Thacker mantém as aspas. Ver, The Global Genome (Cambridge, MIT Press, 2005), 60-61.

[8] Para uma discussão interessante sobre o social em relação a complexidade e condições longe-do-equilíbrio ver, Immanuel Wallerstein, The Uncertainties of Knowledge (Philadelphia, Temple University Press, 2004).

Para citar este texto:

CLOUGH, Patricia Tricineto. A Virada Afetiva: teorizando o social. (Tradução por Lucas Faial Soneghet) Blog do Labemus, 2020. [publicado em 16 de julho de 2020]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2020/07/16/a-virada-afetiva-teorizando-o-social-por-patricia-ticineto-clough

Referência da tradução: CLOUGH, Patricia Ticineto. Introduction. The Affective Turn: Theorizing the Social. In: The affective turn: Theorizing the social, Duke University Press, 2007, p. 1-3.

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