NOTAS SOBRE A PANDEMIA: Soberanos do Tempo (Parte 1)

 

*Dando seguimento a série Notas sobre a Pandemia, o Blog do Labemus traz agora um conjunto de textos escrito pelo sociólogo Renato Miguel do Carmo (Instituto Universitário de Lisboa – Iscte) e pelo filósofo André Barata (Universidade da Beira Interior – UBI). Sob o título Soberanos do Tempo, os esses textos foram publicados primeiramente no Jornal Económico, em Portugal. Neles os autores apresentam reflexões sobre diferentes aspectos das dimensões sociais, econômicas e existenciais da pandemia do COVID-19. Tendo o tempo como eixo estruturante das suas considerações, Carmo e Barata exploram os domínios da família, do trabalho, da cultura, da ética e da moral, sem perder de vista os problemas empíricos que atravessam as nossas vidas e alimentam as nossas preocupações face a um presente inesperado e a um futuro incerto. Em dois posts distintos, o Blog do Labemus trará alguns dos textos de Soberanos do Tempo ao público brasileiro, nos quais serão encontradas discussões sobre o estado, as alterações e as mudanças que estão neste momento em curso em todo o mundo.

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Soberanos do tempo (1)

André Barata (Universidade da Beira Interior – UBI) 
Renato Miguel do Carmo (Instituto Universitário de Lisboa – ISCTE)

Neste tempo de paragem de emergência, propomos uma série de reflexões sobre o tempo vivido nas suas dimensões sociais, económicas e existenciais. Trata-se de um trabalho em progresso, necessariamente efémero e sem qualquer outra ambição que não seja a de aprofundar o questionamento crítico sobre o momento de crise que estamos a atravessar.

Num texto desastroso, publicado há mais de um mês, o filósofo italiano Giorgio Agamben queixava-se, já então, de uma resposta desproporcionada à Covid-19, e que corresponderia, no essencial, a uma oportunidade para introduzir na sociedade italiana a lógica do estado de exceção e assim o ir normalizando. Como sabemos agora, a resposta pode ter sido errada e incompetente de muitas maneiras, mas desproporcionada não.

Obviamente, lida hoje, a tomada de posição de Agamben, se levada a sério quando publicada, teria desmobilizado esforços de contenção e conduzido a uma situação ainda mais desnorteada. Desastrosa, portanto.

Poderia ser o caso que Agamben estivesse mal informado, e poderia, sobretudo, ser o caso de que, bem informado, se tivesse fiado excessivamente no conhecimento de que dispunha para logo tirar as suas conclusões filosóficas. Por cá foi assim com projeções matemáticas e de economistas. Esta falta de epistemologia defensiva não é certamente indiferente às condições aceleradas em que vivemos e em que acaba a pensar-se também demasiado depressa.

Mas num ponto Agamben tinha e continua a ter razão: o estado de exceção confirma a tendência, que deve preocupar, para sermos reduzidos a vida biológica, para fazer deslizar a vida para sobrevivência absoluta.

Se juntarmos a isso a chamada de atenção que Byung-Chul Han faz para a capacidade de conter o vírus demonstrada pela “biopolítica digital”, de controlo governamental de big data, como sucedeu, tanto quanto se sabe, na China, há um risco efetivo de normalização da exceção. Esta, que seria por princípio rara e altamente provisória, pode tender a permanecer como um regime de baixa intensidade, capaz de governar as nossas vidas num sentido de vida reduzido à sua dimensão biológica.

Mas, de novo, não é claro, pelo menos definitivamente claro, como deve ser lida, na sua expressão maioritária, a exceção que estamos a viver. A reação social e política a que temos assistido não tem aceitado que o fantasma do caos económico e social pós-pandemia perturbe o enfrentamento da pandemia. Não tem aceitado o primado da economia sobre o respeito da vida de cada um, não importa a idade ou a condição. E, verdadeiramente, não tem feito das prerrogativas do estado de exceção o essencial da sua ação nesta crise.

Pelo contrário, é mais o sentido de comunidade, naturalmente sob um imprescindível concerto governamental, que nos tem regulado, até ver de forma não desestruturada. O que não dispensa algum tipo de monitorização recíproca e de apoio continuado dos poderes públicos. Mas, por difíceis que sejam estes dias de confinamento domiciliário, parece não ser a normalização da exceção o que está em curso.

A subordinação da necessidade económica à exigência ética de salvar as vidas, não importa o seu potencial produtivo – leia-se idade –, não é o único aspeto a sublinhar na resposta à pandemia. Além disso, é preciso perceber que a paragem forçada da sociedade é feita, no fundamental, em nome da proteção dos mais velhos, num exercício de solidariedade intergeracional global, que é das famílias em primeiro lugar, mas é também das instituições políticas.

Neste sentido preciso, a vida tem sabido dizer não à lógica da sobrevivência, e a humanidade até agora tem recusado a sua redução à biologia. Mas estamos cientes de que a suspensão do quotidiano habitual, muitas vezes de mera sobrevivência – ironicamente em nome da sobrevivência dos que amamos – é um compasso de tempo em que sustemos a respiração. Até que ponto a podemos suster?

De novo como ironia, ou como consciência de paradoxo, a precariedade maior deslocou-se para esta suspensão em que todos estamos coletivamente empenhados. Suspendemos a vida que levávamos para sobreviver, decidimos a precariedade coletiva extrema de suspender toda a precariedade.

Mas esta suspensão do tempo corre o risco de ocultar quase totalitariamente imensas invisibilidades que se tornaram ainda mais opacas e que não cessam de acontecer: a invisibilidade do despedimento ilegal, ou da não renovação do contrato, a invisibilidade da violência doméstica ou do descuido no cuidado ao outro… A suspensão prende-nos a todos, mas uma parte de nós está já a ficar para trás. Não sabemos quantos e em que condições, contudo não é difícil imaginar que serão muitas pessoas.

Uma outra invisibilidade disseminada vislumbra-se, por exemplo, nas pequenas saídas à rua e no modo como o transeunte é evitado pelo desviar do trajeto, mas, também, do olhar e do reconhecimento da sua presença. O outro estranho passou a ser uma ameaça potencial por receio de eventual contágio. Com o prolongamento do período de quarentena a invisibilidade do medo pode tornar-se corrosiva e comprometer drasticamente o sentido de comunidade.

Para impedir que estas invisibilidades nos dominem, a solidariedade que sustentamos como se sustivéssemos a respiração, uns longe dos outros, mas, em cada gesto nosso, com a mente nos outros, tem de ser modelo e valor para que esta não expluda em desigualdades e opressão social. Veremos até que ponto a propensão para a solidariedade pode ser o motor de um questionamento e de um sentido de ação para o futuro que nos aguarda.

Soberanos do tempo (2)

 Renato Miguel do Carmo (Instituto Universitário de Lisboa – ISCTE) 
André Barata (Universidade da Beira Interior – UBI)

O sociólogo Hartmut Rosa publicou em 2013 um livro sobre a aceleração social referindo que se tratava da categoria dominante na modernidade tardia. A pressão da velocidade não só tomou conta de todas as esferas da sociedade e da economia como é por seu intermédio que organizamos a vida profissional e social. Aceleramos para produzir mais, de maneira a estabelecer mais contactos e ligações (offline e online), a aceder a mais informação, a estar sempre actualizado até à enésima notícia.

Aceleramos para acompanhar o momento imediato e até tentamos correr ainda mais para antecipar em breves segundos um acesso exclusivo, e a ilusão de uma soberania. A aceleração alimenta-se da competição e esta, por sua vez, promove-a. Este ciclo imparável tornou-se o motor da produtividade económica e do individualismo nas sociedades contemporâneas. Corremos desenfreadamente, mas estamos por nossa conta e risco.

Aceleramos, acelerámos tanto… que em muitos casos perdemos o fio condutor de tanto corrupio. Segundo o filósofo Byung-Chul Han, deixámos de ter um sentido da orientação, de projecto que enquadre e dê sentido a tanta velocidade. Essa é a tese principal do seu livro “O Aroma do Tempo”, publicado originariamente em 2009. Muito do nosso quotidiano alimentava-se de uma vertigem sem razão de ser, sem outro motivo que permanecer no regime acelerado, deambulando de um lado para o outro a responder a um sem número de exigências profissionais e de solicitações familiares e pessoais. Fomos de tal modo impelidos a correr desalmadamente que perdemos, simultaneamente, o controlo sobre o próprio tempo.

A ligação entre o trajecto passado e a construção de futuro desligou-se porque até certo ponto esfumou-se o sentido do rumo, condenando-nos ao império do presente. De certo modo, a aceleração desincrustou o tempo da nossa alçada enquanto indivíduos e transformou-o numa entidade externa de que não somos soberanos, a que, pelo contrário, cedemos o controlo e a soberania das nossas vidas. O tempo acelerado e fragmentado é, na verdade, um tempo que se desligou da humanidade e na experiência de cada um.

E é bom notar que estes fenómenos têm vindo a ser notados. Antes de Hartmut Rosa, já Paul Virilio, ainda nos anos 70, escrevia “Dromologia”, um estudo da velocidade nas nossas sociedades, que se ligava à substituição do real pelo virtual, e antes de Byung-Chul Han, já Richard Sennett, falava em “A Corrosão do Carácter” (1998), do impacto do capitalismo de curto prazo sobre os indivíduos e a sua capacidade de organizar um projecto de vida.

Aprendemos a sobreviver na velocidade e no, entanto, subitamente, de um momento para outro, somos coagidos a travar quase instantaneamente e a conter o tempo no confinamento do lar. Suspendemos o tempo e ocupámo-lo por uma espera forçada e incerta, que pode prolongar-se por meses. A delonga e a incerteza tomaram conta do quotidiano.  Esta temporalidade da paragem forçada e por tempo incerto era uma característica dominante de situações mais ou menos inesperadas como o desemprego, uma doença prolongada, o luto pelo falecimento de uma pessoa próxima.

Numa investigação recente, caracterizou-se a experiência social do desempregado como uma suspensão onde o tempo se afundava numa duração vazia e sem rumo definido. Para muitos desempregados o tempo flui por si e sem razão de ser.  O quotidiano vazio é adverso e rude, confinando a existência ao constrangimento do espaço doméstico onde não se tem nada ou muito pouco que fazer. A paragem forçada torna o tempo de tal modo excessivo que quase se perde a noção daquilo que se pode fazer com ele. Na paragem forçada, a abundância súbita do tempo torna dolorosamente evidente como é, na verdade, um tempo desligado das pessoas que o vivem.

Contudo, no tempo de emergência em que se vive actualmente, a paragem forçada está longe de significar um quotidiano vazio. Pelo contrário, como uma nova forma de horror ao vazio, o quotidiano é preenchido com teletrabalho e múltiplas actividades, e em que, forçosamente, todas confluem e se concentram no reduto do lar. O tempo de teletrabalho entremeado com tarefas domésticas e educativas estende-se ao limite das capacidades psicológicas: desde que acordamos até à noite em que já não conseguimos resistir ao último bocejo. Paramos no espaço, deixámos fisicamente de correr e continuamos a acelerar só que para lugar nenhum.

A aceleração sedentarizou-se na delonga da espera. Não cessámos de viver a angústia de apanhar o fluxo do tempo, mas agora prostrados no sofá e com um ecrã à frente. A sociedade do cansaço, como Byung-Chul Han descreveu, reencontrou-se dentro da casa de cada um, ainda mais obsessivamente, e mais atomizada.

Na verdade, não se produziu qualquer fissura no tempo do quotidiano, extenuado e preenchido até à exaustão, mas sem nos movermos. Todos os ritmos, de trabalho, lazer, doméstico, prazer concentram-se numa mesma morada, apenas a passos uns dos outros. A paragem confinada, por força do isolamento, condensa e reforça ainda mais a vivência da aceleração sem qualquer rumo ou propósito. Ela provoca uma espécie de híper-compressão do espaço-tempo.

Esta noção de compressão foi lançada por David Harvey, no final dos anos de 1980, para definir a condição pós-moderna assente no aumento exponencial da velocidade de circulação e de interconexão. Paradoxalmente, no actual contexto é a paragem e a clausura social que induzem uma compressão espácio-temporal acentuada e radical.  O resultado é uma experiência tão empobrecedora e confinada do tempo como a que, forçadamente, o confinamento físico confere ao espaço. Este duplo confinamento é como se à prisão domiciliária acrescentássemos uma prisão temporal.

Por outro lado, para quem continua a trabalhar lá fora, na rua, na produção, nas lojas e na distribuição que nos garantem a provisão de bens, nos serviços públicos de saúde e também de educação, na recolha do lixo, na entrega do correio, o risco sempre presente e eminente de ser contagiado coexiste com uma normalidade perturbada. Cavam-se assimetrias no mundo do trabalho ainda difíceis de perscrutar.

Desde logo, o aprofundamento das vulnerabilidades decorrentes do desemprego que atingiu as pessoas já descartadas das suas actividades profissionais.  Mas também esta nova desigualdade de emergência entre expostos e confinados, para todos forçada, mas vivida pelos primeiros com o risco acrescido que a necessidade do salário ou de cumprimento de função essencial à sociedade implica, para eles e para as suas famílias, mesmo se confinadas. A alternativa a não expor familiares ao risco é não o levar para casa escolhendo a auto-segregação, outro distanciamento físico e outro distanciamento social.

Como referiu recentemente David Harvey, a suspensão do tempo está, por ora, a vincar ainda mais as desigualdades laborais, que em certa medida são desigualdades de classe. São assimetrias e arritmias temporais em que suspensão e aceleração se cruzam num xadrez de matizes vividas quotidianamente. Apesar da grande paragem, muitos de nós, a sociedade em geral, continua a acelerar extenuadamente e sem uma orientação que dê sentido à vida que leva.

Soberanos do Tempo (3)

André Barata (Universidade da Beira Interior – UBI) 
Renato Miguel do Carmo (Instituto Universitário de Lisboa ISCTE-IUL) 

Toda a experiência do tempo está em sobressalto desde que entrámos, grande parte da população, em dever de recolhimento. Interrompem-se ritmos. Sustêm-se outros – até poder, dentro da capacidade da economia e da sociedade susterem a respiração.

Mas também cada pessoa, os mais novos que depressa se adaptam a um novo mundo, de vida desmaterializada, mediada por plataformas, redes sociais, consolas, e os mais velhos que pelo contrário resistem a abdicar do seu mundo, a deixar de cheirar o ar da rua, a ponto de se exporem ao risco. Como se uma angústia da vida com sentido prevalecesse sobre a racionalidade e o que ela manda fazer. Mas é como os ossos partidos: nas crianças curam depressa, mas nos velhos há uma resistência à cura que se instala nos corpos e no espírito.

Depois, há os que não são demasiado novos nem velhos e que, por isso, se sentem responsáveis em estar à altura da emergência, sem perder dela o controlo. Confinados, todos os ritmos apertam-se como se, ironicamente, estivessem à pinha numa carruagem de metro em hora de ponta.

O trabalho, o lazer, as tarefas da casa, a compreensão do que está a acontecer, a vontade de participar. Na verdade, até se intensificam, empurram-se, a ver se cabe mais um, não se sabe se a debelar o horror ao vazio ou se obstinados em provar alguma coisa. Como se procurássemos demonstrar coletivamente, mas cada um dentro da sua casa, que conseguimos fazer sobreviver o tempo que lá fora entrou em modo de suspensão.

Este contraste, um tempo parado, às moscas, e um tempo desenfreado, à pinha, um em tensa luta para suster o outro, como numa luta de vida e de morte, que dá a impressão de catástrofe iminente – até quando aguentamos suster a respiração? – dá que pensar.

Que significa ao certo esse tempo suspenso? A filósofa espanhola Maria Zambrano falava da relação entre o tempo e o sonho de forma bastante insólita. Dizia que “em sonhos não existe tempo; quando sonhamos não temos tempo. Ao acordar devolvem-nos o tempo”. Ora, seguindo a sua linha de pensamento, é como se o tempo suspenso lá fora, no planeta todo a braços com uma pandemia, fosse o de um sonho e que estivesse em causa devolvermo-nos o tempo acordando. Mas escreve também que o “tempo no sonho é sem poros, é um tempo compacto onde não podemos entrar”. Mas, então não será exactamente o contrário?

Não será este tempo à pinha, com horror ao vazio, em que nos obstinamos, precisamente o lugar de um tempo que não acontece, uma imobilidade de sonho? Um tempo sem fissuras não é um tempo nosso, que nos seja devolvido. Nele, e de novo Zambrano, “somos externos ao que nos sucede; a consciência não intervém, pelo contrário, separada, assiste.” Não será nesse outro tempo, suspenso, que ele esteja a pedir para acontecer e a interpelar-nos?

Estas perguntas não são vontade de paradoxo, mas de sentido. O paradoxo real é outro: sofrermos já menos pelos constrangimentos de calamidade da saúde do que, por antecipação e na maneira como nos obstinamos já, pelo pós-pandemia que nos aguarda, a pancada dura das consequências económicas que nos antevemos, de um brutal e brutalizador “tudo volte ao que era, custe o que custar, ou esperem pelo pior”.

A respiração sustida, até ao pesadelo, já vai desenhando a regra do jogo seguinte: a pior crise económica de sempre, 2009 ao pé disto uma brincadeira, a hecatombe.

Esta crise não pode só ser suportada sem que nada por ela seja posto em causa. Este tempo contínuo, sem fissuras, que agora se julga elástico, obrigando-nos a suster a respiração, para não quebrar, tem de ser questionado. Esta cadeia causal de contínuo presente a que pode chamar-se “presentismo” (ainda que esta expressão tenha outros sentidos em filosofia e em história), não se relaciona com o passado e com o futuro a não ser sob a forma de uma sequência causal de um presente anterior para um presente posterior, somente presentes em sucessão cronológica.

Passado e futuro sem outro significado do que o de causas e efeitos. Aliás, a maneira como vivemos aceleradamente o tempo é só uma maneira de nos fazer abrir mais os olhos para o presente e de não os desviar nunca para o resto do horizonte temporal. O presentismo é a proibição de nos perdermos no tempo, nele viajarmos.

Se a temporalidade é a maneira como nós, individualmente e comunitariamente, vivemos o tempo e se há tantas maneiras de o viver como culturas, se a temporalidade é uma cultura do tempo, então é tempo de questionar esta cadeia contínua de presentes, sem fissuras, correr imperturbável, que nem acontecimentos nem o próprio tempo vivido, pelo passado e pelo futuro, perturbam.

Porque neste momento aquilo por que nos debatemos, e mal, é para que nem uma pandemia que nos confina em casa o perturbe, este tempo sonho que é pesadelo. Somos reféns do monstro que o sonho da razão produz. Goya só não disse que se tratava da razão económica. E foi ainda Goya que pintou aquele impressionante Saturno a devorar os filhos, o titã que, antes, os Gregos chamavam Cronos. Precisamente para os gregos, o tempo não era só sucessão cronológica como agora, nesta pobreza de experiência que é o tempo acelerado. Para eles, era também o acontecimento do instante oportuno para algo se dar. Por isso, distinguiam entre Cronos e Kayros, como entre medida e acontecimento.

A religião cristã tomou os mesmos conceitos para distinguir o tempo terreno do tempo de deus. Mas poderia ser também o tempo físico, ou até o tempo da economia, em contraste com o tempo do sentido. E posta assim a diferença, esta pandemia que nos sustém devia ser o Kayros que restaura os direitos da humanidade ao próprio Kayros pondo cobro à hegemonia do Cronos económico.

Por outras palavras, é preciso jogar nesta crise uma questão de sentido. Mesmo se toda a emergência, especialmente a económica e pós-pandémica, nos empurre a desconvocar a sua urgência. E o que vale para a nossa cultura de tempo vale para tudo o mais no que os filósofos alemães chamavam Lebenswelt, mundo da vida.

Lutamos contra uma pandemia não para eliminar o gozo enorme dos espanhóis em passar os fins de tardes nas suas “plazas” e dos italianos em reunir todas as gerações da família à volta de uma mesa ao jantar e, por cá, daquele norte que não consegue cumprimentar ninguém sem tocar nas pessoas. Isto é o que queremos conservar como uma resistência da cultura. Não pode acontecer resignarmo-nos à lógica darwiniana da sobrevivência do mais adaptado que a compulsão da emergência pode induzir.

A vantagem da cultura é ser mais criativa do que quaisquer genes, e mais inventiva do que qualquer vírus. Porque a vantagem da cultura é ser o modo de existirmos sem termos de nos exprimir em termos de vantagens.

No Bangladesh a epidemia não alastra apesar da pobreza e de uma demografia imensa, talvez porque a cultura é a de as pessoas não se tocarem quando se cumprimentam. E talvez na China tenha importado pouco não ser uma democracia liberal e tenha importado muito ser uma cultura em que é mais o comportamento colectivo a formar o individual do que o contrário.

Talvez se sobreestime a política e se subestime modos de vida partilhados culturalmente nesta pandemia. E é importante perceber que estes não devem estar ao alcance das escolhas políticas. Porque culturalmente ninguém escolhe deixar de ser o que é. Continuamo-nos transformando-nos, e certamente fazendo escolhas, mas impregnando o passado com as exigências do presente e as esperanças do futuro. Aqui, não há vantagens nem darwinismo; há coexistência e desafios, por difíceis que sejam. Isso é viver e não sobreviver.

A coexistência é relacional. Segundo Erving Goffman, a ordem da interação social define-se como aquilo que surge unicamente em situações, nas quais duas pessoas ou mais se encontram fisicamente em resposta de um e de outro. Não podemos abdicar desta reciprocidade que só acontece em face-a-face. O domínio do virtual e das redes sociais ajuda-nos a desafogar parcialmente da clausura, mas não nos liberta do isolamento social.

Só a reconquista da copresença voluntária e sem fronteiras pré-fabricadas, em resposta de um e de outro, nos permitirá construir cultura e reinventarmo-nos em plenitude. Vivemos tempos em que testamos a humanidade, a sua resistência a ser reduzida à condição biológica e à sua administração.  Sobretudo, num tempo de emergência que tende a fundir biologia e economia num único contínuo. Romper com a inevitabilidade de Cronos passa por reencontrar o contexto particular do momento vivido no cruzamento irrepetível do tempo e do espaço.

O momento como império de singularidades, incapaz de ser reproduzido na bidimensionalidade das plataformas digitais. O direito à experiência do aqui-e-agora, irreplicável e indomável, é uma reivindicação do tempo que nos interpela e para o qual queremos e vamos poder despertar.

Referência dos originais:

Soberanos do Tempo (1). Jornal Económico, 28 de março de 2020. Disponível em: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/soberanos-do-tempo-1-567480

Soberanos do Tempo (2). Jornal Económico, 04 de abril de 2020. Disponível em: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/soberanos-do-tempo-2-571410

Soberanos do Tempo (3). Jornal Económico, 11 de abril de 2020. Disponível em: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/soberanos-do-tempo-3-573966

 

 

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