Da disciplina e da representação para o controle e a informação

Por Patricia Ticineto Clough
Tradução: Lucas Faial Soneghet

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*O texto a seguir é uma tradução das páginas 14 a 21 do capítulo “Introduction” escrito por Patricia Ticineto Clough no livro “The Affective Turn: theorizing the social”, cuja referência completa está no final. É o quarto em uma série de traduções que englobará toda a introdução do livro.

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Seguindo a biofilosofia deleuziana, estávamos nos afastando de pensar nos corpos somente em termos do organismo humana e repensando a relação entre vida, informação e tecnologia. Nós retraçamos o cruzamento da teoria da informação da física até a biologia.[1] Isso nos permitiu pensar tanto na matéria quando no corpo humano (ligado a genética e ao DNA recombinante) como informacionais, onde informação, como Eugene Thacker escreve, “é vista como constitutiva do próprio desenvolvimento de nosso entendimento da vida no nível molecular – não a apropriação externa de uma metáfora, mas a internalização epistemológica e a autonomização técnica da informação enquanto constitutiva do DNA.”[2]

O que se pensa que o corpo é, argumentam Luciana Parisi e Tizina Terranova, é questão de uma organização historicamente específica de forças trazida à existência por investimentos capitais e discursivos. Por exemplo, Parisi e Terranova aponta para o final do século XIX e o devir do corpo enquanto organismo que não era não tanto produzido, mas “reforçado e dotado de força pela sociedade disciplinar (do capitalismo industrial) para que pudesse se tornar a definição última do que o corpo é.”[3] Seguindo Michel Foucault, Parisi e Terranova apontam para os fechamentos da sociedade civil – a família, a escola, o sindicato – enquanto locais de interpelação ideológica, bem como de aplicação de práticas sociais e culturais que constituem um regime de representação.

Transformando um organismo em um sujeito humano, esse regime de representação se centra na percepção do corpo espelhado, à distância, como um todo. O investimento no corpo enquanto organismo torna o corpo um sistema fechado puxando energia do exterior, trazendo então o corpo de volta para a homeostase e o equilíbrio, o que leva inevitavelmente a morte entrópica por calor.[4] Como Parisi e Terranova afirmaram: “O grande confinamento foi essencial a esse processo de reorganização do poder de acordo com os interesses de um capitalismo industrial emergente. Então, os fluidos que estavam circulando do lado de fora e entre corpos, são dobrados em si mesmos para serem canalizados dentro das paredes sólidas do organismo/self/sujeito.”[5]

Nesse contexto, “o corpo é abstraído e organizado para que possa ser treinado: treinado para reprodução dentro do ciclo termodinâmico de acumulação e gasto; e treinado para trabalhar.”[6] Entretanto, com a expansão posterior do capitalismo no fim do século XX e sua desorganização pressionada pela globalização, pelo ajuste estrutural e pela flexibilização, Parisi e Terranova argumentam que há uma mudança na biopolítica, um deslocamento de sociedades disciplinares para o que Deleuze chamou de “sociedades de controle.”[7] Controle é o efeito e a condição de possibilidade de um investimento na reorganização das forças materiais, da matéria corporal.

Parisi e Terranova sugerem que para entender a extensão da biopolítica na passagem da disciplina para o controle, é necessário entender a relação cambiante da informação com corpos, trabalho e energia, de um capitalismo industrial para a presente globalização do capitalismo financeiro, da elaboração da primeira e segunda leis da termodinâmica  no século XIX para a elaboração da teoria da complexidade no fim do século XX. Esse movimento na teorização da informação começa com um sistema mecânico fechado, no qual, como a segunda lei da termodinâmica postula, o aumento da entropia é inevitável enquanto processo irreversível de morte por calor. Aqui, a entropia é definida como energia que não pode mais ser posta para trabalhar ou organizada para fazer algo, pois tornou-se caótica, como micropartículas saindo da ordem, sem objetivo ou propósito. A entropia é a medida de turbulência ou desordem em um sistema fechado.

É essa ideia de entropia que passaria por mudanças com a teorização da informação de Claude Shannon no fim da década de 1940, que definiu matematicamente a informação enquanto fator correlacionado positivamente com a entropia ou o ruído.[8] Para Shannon, a informação é a medida da (im)probabilidade da mensagem passar do transmissor para o receptor através de um canal. Informação, no sentido matemático, segundo Terranova, “representa um milieu incerto e probabilístico reduzindo-o a conjuntos de alternativas que determinam mais ou menos conjuntos prováveis de possibilidades na base de uma distribuição dada,  determinada por sua vez pela relação entre canal e código.”[9] Assim, o significado é secundário a informação; a informação é primariamente uma questão de contato e conectibilidade, uma modulação da afetividade e da atenção pela modelagem ou redução do real através da exclusão de possibilidades.

Em contraste com a teorização da informação de Shannon no fim da década de 1940, a teorização da informação de Norbert Wiener mais ou menos na mesma época era mais diretamente ligada a biologia e a vida ela mesma. Wiener concebeu a informação diferentemente de Shannon. Shannon teorizou a informação como algo positivamente correlacionado com a entropia de modo que quanto mais entropia, mais improvável que a mensagem será enviada e, logo, mais informação. Wiener propôs que a informação era uma organização ou ordenamento nas diferenças indiferentes da entropia ou do ruído, e então deve ser entendida como algo que diminui a entropia. Para Wiener, a informação é organização local contra a entropia, um adiamento temporário da entropia – isto é, a vida. Mesmo enquanto a entropia aumenta no universo no todo, a informação pode prevenir temporariamente o colapso entrópico na medida em que fontes extrínsecas de ordem informacional emergem.[10] Se tomarmos a definição de informação de Shannon no ponto do envio da mensagem e a definição de Wiener no ponto da recepção da mensagem, essas definições não são tão contraditórias quanto parecem; as duas se encaixam na definição matemática de informação.

Mas quando o conceito de informação de Wiener enquanto diminuição negentrópica de entropia é colocado ao lado do conceito de Shannon, segundo quem a informação está positivamente correlacionada com a entropia, uma reteorização da informação é novamente convidada. Dessa vez, na parte final do século XX, a informação é teorizada em termos de sistemas abertos em condições longe-de-equilíbrio de metaestabilidade. Aqui, a irreversibilidade, ou a passagem do tempo, está desconectada da morte por calor ou do sistema fechado entrópico e é entendido, em vez disso, em termos do movimento da desordem para ordem e da ordem para desordem na metaestabilidade de um sistema aberto, no qual microestados são ontologicamente probabilísticos; eles estão em uma relação não determinística e não linear com a metaestabilidade que constituem. Então, pode-se entender que a diminuição negentrópica da entropia diminui a informação (ou aumenta a probabilidade do leque de microestados que compõe a metaestabilidade), ao mesmo tempo que um aumento de complexidade ou turbulência podem emergir em outro nível, aumentando assim a informação (ou a improbabilidade de qualquer microestado particular nesse nível). É isso que Ilya Prigogine e Isabelle Stengers capturam ao teorizar as estruturas dissipativas que emergem por acaso em sistemas aberto sob condições de metaestabilidade longe-do-equilíbrio e dissipam a dissipação da entropia ou temporariamente a revertem. A ordem se transforma em desordem que se transforma em ordem através de vários níveis de microestados.[11] “Ver” a matéria como informacional é reconhecer a capacidade inerente a matéria para se auto-organizar a partir da complexidade, ou para ver “a velocidade imperceptível da matéria.”[12]

É nesses termos que se torna possível pensar o corpo como sistema aberto, além da contenção do organismo e, logo, pensar nas capacidades corporais pré-individuais ou na afetividade em relação a passagem da disciplina para o controle. Em sociedades de controle, o corpo, como Parisi e Terranova argumentam, “não mais corresponde a representação carnal ou fenômeno do sujeito humano, mas antes é aberto às partículas, ondas e atratores, que o constituem como um sistema longe-do-equilíbrio.”[13] O que é percebido como o corpo “é o movimento de forças, o processo de composição de elementos diferenciais que definem a origem da vida como turbulenta em vez de derivada do colapso entrópico. Na tecnociência contemporânea, a entropia letal se torna turbulência vital.”[14] É nesses termos que a matéria corporal é concebida como produtiva infinitamente e o controle se torna uma questão de estrategizar uma reprodução otimizada.

Os corpos de uma sociedade de controle são uma composição de matéria dinâmica investida em ser, um investimento de capital e experimentação tecnocientífica. Esse investimento de corpos por controle é parte de uma reconfiguração do Estado e da economia, da nação e da sociedade civil, das esferas públicas e privadas. Como Foucault argumentou, em sociedades disciplinares, a “governamentalização do Estado” permite que o Estado estenda suas práticas disciplinares por instituições como a igreja, a escola, a prisão, a família e o sindicato, o que ele chamou de “os cercamentos da sociedade civil.”[15] A revisão do pensamento hegeliano empreendida por Foucault sobre a socialização dos trabalhadores na ideologia do Estado-nação explora o jeito que o Estado se move profundamente nas vidas dos sujeitos individuais através de disciplina, de estratégias complexas de socialização que instituições da sociedade civil empregam ao gerir indivíduos sujeitos a ordem moral. A disciplina engaja uma política de representação; ela forma parte de um regime cinemático de representação pelo qual aparatos ideológicos familiares e nacionais funcionam para constituir identidades de sujeito, e nos quais a resistência a essas identidades e a transgressão das normas institucionais que os apoiam é possível, às vezes até permitida, pela instabilidade das estratégias de disciplinamento.

O alvo do controle não é a produção de sujeitos cujos comportamentos expressam normas sociais internalizadas; antes, o controle visa a modulação sem fim de humores, capacidades, afetos e potencialidades, agrupados em códigos genéticos, números de identificação, perfis de avaliação e listas de preferência, isto é, em corpos de dado e informação (incluído o corpo humano enquanto informação e dado). O controle é uma extensão do que Foucault chamou de biopolítica, onde o corpo individual não é tanto o foco, mas sim o corpo espécie e as regularidades dos efeitos agregados de corpos individuais que instituem uma política da população. O controle é uma biopolítica que funciona no nível molecular dos corpos, no substrato informacional da matéria.

A produção de normalização não é mais simplesmente confiada a família, grupos de parentesco ou outras instituições da sociedade civil; também envolve o investimento e a regulação de uma circulação de afeto e atenção orientada para o mercado. O desejo do sujeito, não mais capturado no corpo disciplinado, passa além dos espaços fechados da casa, da escola e do sindicato, além da oposição entre normal e desviante. Como Massumi coloca: “O normativo passa por inflação rápida, enquanto mecanismos classificatórios e reguladores para cada estado de ser socialmente reconhecível são elaborados… O ‘normal’ está agora livre, deixou de ser o oposto e complemento necessário do ‘anormal’, ‘desviante’ ou ‘disfuncional’, como era sob o poder disciplinar, exceto em casos limitados.” O sentido do normativo está mudando, tornando-se mais sobre a “visibilidade coletiva e operatividade social” de um grupo, sobre suas práticas para maior auto-controle em programas autodestrutivos ou auto-elogiosos que visam modular doença e saúde, limitação e liberdade, vida e morte.[16]

Em vez de interpelação ideológica do sujeito, há a implementação de “figuras genéricas de captura afetiva”, que provem um “empuxo gravitacional em torno do qual órbitas de afeto e pensamento em competição são organizadas.” Figuras genéricas, Massumi argumenta, não indicam uma ausência de determinação, “mas a continuidade e coexistência de determinabilidades.” Uma figura pode ser determinada quando necessário, e quando é determinada, ela traz “corpos de procedimento de controle burocráticos competidores e centros de comando políico.”[17] Tudo isso desempenha seu papel na produção de valor. Para Massumi, que segue o pensamento de Deleuze sobre controle, o controle está ligado a tendência no capitalismo em direção ao que Marx chamou de subsunção real, onde o capital desloca seu domínio de acumulação para a vida ela mesma, para as capacidades corporais pré-individuais, para que o valor seja produzido através da modulação do afeto. Tudo isso é inseparável da experimentação tecnocientífica.

Sociedades de controle colocam em questão a política de representação e a identidade do sujeito, mesmo como método para alcançar representação para aqueles que não foram sujeitos de representação ou que foram traumaticamente excluídos da voz. A mudança para o controle coloca em questão a escrita autobiográfica experimental; coloca em questão a efetividade política da auto-reflexividade na produção de conhecimento. Em vez disso, invoca-se uma escrita experimental que passa de responder criticamente a disciplina para responder criticamente ao controle, bem como do privilégio do organismo como figura da vida para a consideração de capacidades corporais pré-individuais ou do afeto. A escrita experimental vai em direção a afetividade e controle através de um repensar do materialismo, da memória, dos corpos, do tempo e da repetição. A escrita experimental agrupa-se com tecnologias de informação e às vezes passa para a escrita do lado de fora, outro fluxo tecnológico, reagrupando imagens, sons, linguagens e corpos.

Pensar em termos de sociedades de controle é em si mesmo um experimento, uma resposta teórica experimental para a turbulência de uma economia global capitalista emergindo no final da década de 1960 e no início da década de 1970, perto e em torno da crise de petróleo de 1973. Houve naquela época uma intensificação da flexibilização do capital e do trabalho, ajuste estrutural ao redor do mundo e o investimento contínuo em um entendimento pós-cibernético sobre energia, informação, trabalho e tecnologia. Essas transformações políticas, econômicas e culturais pressionam uma mudança da acumulação capitalista para o domínio do afeto ou das capacidades corporais pré-individuais – para a vida ela mesma. Quer dizer, coloca-se em jogo de algo como uma acumulação primitiva visando a reorganização do valor em torno de capacidades corporais. Capacidades corporais pré-individuais tornam-se o local do investimento de capital para a realização de lucro – não somente em termos de biotecnologia, biomedicalização e genética, mas também em termos de uma educação/treinamento de auto-atualização e auto-controle tecnologicamente disperso nos níveis pré-individuais, individuais, comunais, nacionais e transnacionais.

Para citar este post:

CLOUGH, Patricia Tricineto. Da disciplina e representação para o controle e informação. (Tradução por Lucas Faial Soneghet) Blog do Labemus, 2020. [publicado em 22 de outubro de 2020]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2020/10/22/da-disciplina-e-da-representacao-para-o-controle-e-a-informacao

Referência da tradução: CLOUGH, Patricia Ticineto. Introduction. The Affective Turn: Theorizing the Social. In: The affective turn: Theorizing the social, Duke University Press, 2007, p. 14-21.

Notas:

[1] Ver N. Katherine Hayles, How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature, and Informatics (Chicago: University of Chicago Press, 1999)

[2] Eugene Thacker, Biomedia (Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004), 40.

[3] Luciana Parisi e Tiziana Terranova, “Heat-Death: Emergence and Control in Genetic Engineering and Artificial Life,” CTheory, 5, http://www.ctheory.com/article/a84.html.

[4] Nota do tradutor: O termo no original é “heat-death.” É um conceito da Física que significa um estado de distribuição uniforme de energia que, hipoteticamente, seria o destino possível do universo. É um corolário da segunda lei da termodinâmica. Ao longo do texto, esse termo será traduzido por “morte por calor”.

[5] Ibid., 4.

[6] Ibid., 5.

[7] Gilles Deleuze, “Postscript on the Societies of Control,” October 59 (1991): 3–7. Ver também Michael Hardt, “The Withering of Civil Society,” Social Text 45 (1995): 27–44.

[8] Ver Claude Elwood Shannon e Warren Weaver, The Mathematical Theory of Communication (Urbana: University of Illinois Press, 1949). Enquanto Shannon publicou sua teoria em 1948, sua obra maior foi publicada em 1949, incluindo a teoria de Shannon com um comentário de Warren Weaver.

[9] Tiziana Terranova, Network Culture: Politics for the Information Age (London: Pluto, 2004), 24.

[10] Ver Norbert Wiener, The Human Use of Human Beings (Boston: Houghton Mifflin, 1950).

[11] Ilya Prigogine e Isabelle Stingers, Order out of Chaos: Man’s New Dialogue with Nature (New York: Bantam, 1984).

[12] Terranova, Network Culture, 33.

[13] Parisi e Terranova, “Heat-Death,” 9.

[14] Ibid., 8-9.

[15] Michel Foucault, “Governmentality,” in The Foucault Effect: Studies in Governmentality; with Two Lectures by and an Interview with Michel Foucault, ed. Graham Burchell, Colin Gordon e Peter Miller (Chicago: University of Chicago Press, 1991), 87-104.

[16] Brian Massumi, “Requiem for Our Prospective Dead (Toward a Participatory Critique of Capitalist Power),” in Deleuze and Guattari: New Mappings in Politics, Philosophy, and Culture, ed. Eleanor Kaufman e Kevin Jon Heller (Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998), 57.

[17] Ibid., 54.

Virada Afetiva Disciplina Controle

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