séries Sociologia do humor

O animal que ri: notinhas de sociologia cômica (1), por Gabriel Peters

Os animais humanos riem em todas as sociedades, mas não riem das mesmas coisas nem pelos mesmos motivos. Aliás, não são os únicos animais que riem.

Arte por Mariana Cavalcanti

Texto por Gabriel Peters

O óbvio enigmático

Sincero como só um santo pode ser, Agostinho incluiu, em suas Confissões, um relato de sua perplexidade diante do tempo, fenômeno que ele percebia como simultaneamente óbvio e indefinível: “O que é…o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei” (Agostinho, 2000: 322). Uma duplicidade similar se encarna em outro aspecto universal da experiência humana: o humor. Temos uma compreensão íntima do que ele é como experiência vivida, mas esbarramos em dificuldades tremendas quando buscamos explicar por que algo é engraçado. Os obstáculos dessa empreitada não são, aliás, exclusivamente intelectuais. O anticlímax que acompanha a explicação de uma piada a quem não a entendeu deveria servir de alerta a estudiosos do cômico, que frequentemente fazem figura semelhante àquela do chato que corrige erros gramaticais em cartas de amor. Em uma chave mais mórbida, já se disse mais de uma vez que dissecar o humor é como dissecar um sapo: em ambos os casos, a pobre criatura termina sacrificada. 

Tal como a linguagem e a religião, o humor possui a dupla faceta da universalidade e da particularidade. Por um lado, tudo indica tratar-se de um universal antropológico, discernível nas mais diversas circunstâncias históricas e culturais de experiência humana. Por outro lado, as manifestações que o humor assume em contextos sociais particulares são imensamente variadas. Embora o riso exista em todas as sociedades humanas, os membros de diferentes sociedades, com toda a certeza, não riem das mesmas coisas nem nas mesmas situações. Como acontece com outros aspectos da existência do anthropos, o humor dá testemunho, assim, tanto da generalidade do humano quanto da particularidade dos humanos.

No mais, nem é necessário entrar em comparações históricas e culturais para se ter indícios dessa multiplicidade de manifestações do cômico. Qualquer sociedade contemporânea exibe uma vasta amostra de produções humorísticas que diferem tanto no seu estilo quanto no seu conteúdo. O conteúdo da comicidade pode variar das piadas mais toscas de cunho sexual ou escatológico até trocadilhos acadêmicos refinados (ou pretensamente refinados). Os estilos de humor, por seu turno, vão desde o sarcasmo cruel do dominante em relação ao dominado até as provocações carinhosas e bem-intencionadas trocadas por um casal de namoradas/es/os (carinhosas e bem-intencionadas, é claro, quando tudo vai bem). No que toca aos conteúdos assim como aos estilos de humor, deve-se ter em mente a recomendação do velho Bergson: “para entender o riso, é preciso colocá-lo em seu meio natural, que é a sociedade” (Bergson, 2007: 6). O mesmo vale, aliás, para os diversos propósitos sociais e psicológicos aos quais o humor serve: o controle social pela ridicularização dos desviantes; a transgressão social pela ridicularização dos costumes dominantes; o alívio do estresse e da ansiedade cobrados pelos contextos “sérios” da existência cotidiana; ou, ainda, a transfiguração intelectual e estética, em versão analgésica ou “anestésica” (Bergson de novo), dos absurdos da condição humana.

Homo sapiens e homo ridens

Para vários estudiosos, no mínimo desde Aristóteles em De partibus animalium, a significação antropológica do riso tornar-se-ia inquestionável, ademais, pela observação de que o ser humano seria o único dentre os animais a manifestar tal comportamento. Aristóteles estava errado. No domínio do riso como em tantos outros, os avanços na investigação etológica, assim como a análise científica da evolução dos primatas superiores, vêm relativizando os postulados de uma cisão demasiado nítida entre nós e outros bichos. 

Para começo de conversa, cachorros e gatos de estimação estão aí como exemplos de animais que, embora não riam, certamente brincam e jogam. No mais, quando se trata dos nossos colegas primatas, já observamos não apenas jogos e brincadeiras, mas também, como notou Charles Darwin em 1872, “um som reiterado…que corresponde ao nosso riso” (2009: 171). Chimpanzés, orangotangos, gorilas e bonobos geram uma forma facilmente identificável de vocalização gutural, em stacatto e com respiração arfada, acompanhando uma boca aberta e uma expressão relaxada. Quer dar concretude a essa descrição? Veja a fofura que é um bonobo rindo de cócegas por volta de 0:50:

Para além das cócegas, o riso primata emerge tipicamente em outras atividades sociais de simulação jocosa da agressividade, como em lutas e perseguições conduzidas em espírito lúdico, não “para valer”. (Por óbvio, como sucede também com seres humanos, o limiar mesmo do que é aceitável como “brincadeira”, entre “brincantes” e “brincados”, está em risco e em disputa nesses divertimentos agressivos. Em relações assimétricas de poder, o prazer de quem faz ou domina a brincadeira é frequentemente obtido às custas do sofrimento de quem é seu objeto ou alvo). Nos primatas humanos assim como nos não humanos, o humor brota, assim, como parte de uma linguagem não verbal de gestos associados a jogos e brincadeiras sociais. Isto dito, a complexificação intelectual da vida humana em sociedade carrega consigo uma complexificação correlata das próprias atividades geradoras do riso. Enquanto nossos colegas primatas estão restritos às cócegas físicas, o ser humano, graças à sua capacidade de manipulação de símbolos linguísticos, torna-se capaz de brincar com ideias e palavras de modo a produzir, na sugestiva metáfora de Darwin, “cócegas na imaginação” (2009: 171).

A atenção às continuidades e descontinuidades entre humanos e demais primatas possibilita uma via média entre posições extremas quanto à (in)especificidade do riso do homo sapiens. De um lado, o exclusivismo antropocêntrico de diversas teorias do humor desde Aristóteles pode ser relativizado, ao notarmos a presença do riso como uma manifestação orgânica própria a situações sociais de jogo e brincadeira amplamente observáveis entre primatas não humanos. De outro lado, pode-se admitir que o humor assumiu, na existência social do anthropos, uma pluralidade de formas que muito deve à singular complexidade de suas faculdades linguísticas e imaginativas. A partir de certo nível de complexidade cognitiva, é inegável que o humor de fato se apresenta como característica exclusiva do modo humano de ser no mundo: chimpanzés não riem de sátiras políticas, e minhas brincadeiras com meus gatos não incluem citações espirituosas de Millôr Fernandes. Ademais, ao contrário do que sugeriria uma leitura tosca da trajetória “sociobiológica” do ser humano, a recuperação da significação evolucionária do riso entre os predecessores do homo sapiens não deve obstar nosso senso do papel decisivo do contexto social na produção da risada humana. Muito ao contrário, o enfoque evolutivo fortalece a tese quanto ao caráter inerentemente social do humor[i]

O riso humano entre o anjo e a besta

Aquela complexificação simbólica das fontes do riso trazida pelo humano, no entanto, não apenas multiplicou as suas formas materiais e ideais, mas também seus usos e efeitos societários: o humor pode favorecer tanto o consenso como o conflito, aproximar ou separar, reforçar o status quo ou subverter suas bases ideológicas ou, ainda, fazer essas duas coisas ao mesmo tempo – por exemplo, nos casos de subversão autorizada da ordem, como a suspensão momentânea do decoro no período carnavalesco ou as piadas que o bobo da corte (e só o bobo da corte) faz com o monarca. Como reconheceu o antropofilósofo Helmuth Plessner (1970), o caminho que vai do (1) discurso ou evento cômico à (2) experiência emocional da “graça” e, daí, à (3) sua manifestação corpórea na forma do riso faz do humor uma valiosa via de acesso à condição ambivalente do homo duplex – metade anjo (espírito, mente, consciência, alma), metade besta ou fera (corpo, animal, matéria).

Salvo engano, a informação neurocientífica disponível toma a risada como um processo reflexo governado pelos setores evolucionariamente mais antigos do cérebro (o tálamo e hipotálamo), os mesmos que controlam outras respostas reflexas ou manifestações emocionais mais básicas. O famoso etologista Konrad Lorenz caracterizou o riso como um “reflexo de capitulação”, definindo-o como a culminância da intensificação de uma tensão diante da qual o organismo termina por se render. O caráter agradável da resposta emocional a estímulos humorísticos (i.e., em termos técnicos, sua “valência positiva”) constitui um dado fenomenológico óbvio que as pesquisas neurológicas explicam como ativação de uma “rede de recompensas” no sistema límbico do cérebro (que inclui o tálamo e o hipotálamo), mobilizadas tanto mais intensamente quanto mais engraçadas forem consideradas as deixas cômicas (Sherwood, 2011).

Algumas formas de riso podem resultar de mecanismos puramente físicos, como ocorre com os efeitos fisiológicos do óxido nitroso (“gás do riso”) ou de determinadas doenças neurológicas degenerativas. Para além desses casos, entretanto, o que confere à risada seu caráter antropológico enigmático é que algo tão básico quanto um reflexo físico possa se entremear intimamente com capacidades cognitivas das mais sofisticadas, tais como aquelas necessárias para se compreender uma piada engenhosa. Em termos evolucionários, escreveu Peter Berger, “o homo ridens é um enigma porque se situa na intersecção entre o que é mais e o que é menos animal a respeito dos seres humanos” (Berger, 1997: 46).

A literatura especializada a respeito do humor já registra algo próximo a um consenso em torno da existência de três linhas fundamentais de explicação do fenômeno, sumarissimamente condensadas nos termos superioridade, incongruência e alívio. Trato delas no próximo capítulo desta série.

Notas

[i] A alusão a uma “trajetória sociobiológica” não implica a adesão a uma perspectiva “evolucionista” da história humana como imbuída de qualquer telos de progresso. Tal perspectiva é estranha à teoria do próprio Darwin, cujo impacto “escandaloso” resultou, dentre outras coisas, de seu acento sobre a contingência, em contraponto a quaisquer visões sobre uma suposta necessidade imanente à evolução biológica que desaguou na espécie humana. Ainda mais importante: o qualificativo “sociobiológico” utilizado aqui é oposto, nos seus propósitos analíticos, a qualquer projeto de “sociobiologia” que reduza a lógica do social a imperativos biológicos supostamente “associais”. A tese de um caminho sociobiológico que conecta o homo sapiens aos seus antecessores evolucionários, como o homo habilis e o homo erectus, salienta, na verdade, o quanto as transformações de constituição biológica que desembocaram no ser humano, via seleção natural, são inseparáveis do caráter socialmente ambientado da vida dos primatas que o antecederam (Nelson, 2002). Clifford Geertz (1989: 45-66) já havia sublinhado quão implausível era a tese de um “ponto zero” no qual uma evolução “puramente” (sic) biológica teria desaguado no humano como um ser capaz de produzir, transmitir e adquirir cultura. A existência de fenômenos culturais entre os ancestrais evolucionários do homo sapiens desde o australopiteco, como o desenvolvimento e o uso de ferramentas técnicas e de comunicações simbólicas, desempenhou um papel causal central ao próprio surgimento evolucionário do homo sapiens. Se a pertença inequívoca de Geertz ao time da antropologia cultural pode gerar desconfiança, o fato é que uma visão similar é hoje abraçada por diversos biólogos evolucionários, como os adeptos da chamada “hipótese do cérebro social” (Nettle, 2009) que vinculam o extraordinário aumento de volume cerebral no caminho evolucionário que leva ao homo sapiens aos efeitos seletivos de ambientes sociais complexos, com suas intensas demandas de desempenho cognitivo.   

Referências

Agamben, Giorgio. The open: man and animal. Stanford, Stanford University Press, 2004.

Agostinho, Santo. Confissões. São Paulo, Nova Cultural, 2000.

Berger, Peter. Redeeming laughter: the comic dimension of human experience. New York/Berlin, Walter de Gruyter, 1997.

Bergson, Henri. O riso: ensaio sobre a significação da comicidade. São Paulo, Martins Fontes, 2007.

Darwin, Charles. A expressão das emoções no homem e nos animais. São Paulo, Companhia das Letras, 2009.

Geertz, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro, LTC, 1989.

Nettle, Daniel. “The evolution of creative writing”. In: Kaufman, James; Kaufman, Scott Barry. The psychology of creative writing. Cambridge, Cambridge University Press, 2009.

Plessner, Helmuth. Laughing and crying: a study of the limits of human behavior. Chicago: Northwestern University Press, 1970.

Sherwood, Lauralee. Fundamentals of human physiology. Cengage Learning, 2011.

1 comentário em “O animal que ri: notinhas de sociologia cômica (1), por Gabriel Peters

  1. Ótimo texto!

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Descubra mais sobre

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading