Gabriel Peters – UFPE | professor de sociologia

 

O novo espírito da depressão: imperativos de autorrealização e seus colapsos na modernidade tardia

A pesquisa desenvolve uma interpretação sociológica da suposta “pandemia de depressão” que assola a contemporaneidade. Sustento que os mal-estares psíquicos comumente descritos como experiências depressivas devem ser compreendidos à luz das formas de subjetividade produzidas ou, pelo menos, encorajadas pela modernidade tardia. Com base no retrato sócio-histórico do “novo espírito do capitalismo” formulado por Boltanski e Chiapello, defendo que os atributos de iniciativa, empreendedorismo e adaptabilidade tornaram-se imperativos da individualidade contemporânea não somente no mundo do trabalho, mas também em diversos outros domínios existenciais, tais como o cuidado com o corpo e as relações erótico-afetivas. Sem desconsiderar a inflação de diagnósticos psiquiátricos como parte das causas por trás da alegada pandemia de depressão na atualidade, a pesquisa parte da hipótese de que as formas muito reais de sofrimento psíquico classificadas nesses termos são a moeda reversa, por assim dizer, de demandas sistêmicas pela autorrealização individual: o colapso depressivo da iniciativa e a ausência de “projetos” substituem o “empreendedorismo de si”; a interrupção do movimento sobrepuja a adaptabilidade flexível do self a uma sociedade de mudanças aceleradas; e a experiência do isolamento existencial substitui a esperada comunicabilidade do sujeito-trabalhador contemporâneo como infatigável networker. Finalmente, vislumbrando os dilemas de uma “política da depressão” e de um “ativismo na inatividade”, a pesquisa ensaia considerações ético-políticas sobre os limites que a civilização contemporânea coloca à “ecologia psíquica” e à “economia energética” dos indivíduos nela imersos.  

 

Por uma praxiologia da loucura: um estudo em heurística da insanidade

A expressão “heurística da insanidade” designa uma estratégia metodológica que se mostrou fecunda em âmbitos de pesquisa tão variados quanto a psicanálise do século XX e a neurociência mais recente, qual seja, o estudo de experiências anômalas ou “patológicas” como caminho privilegiado para a iluminação de suas modalidades comuns e “normais”. O programa de pesquisa sobre a praxiologia da loucura – ou, mais especificamente, sobre teorias da prática e fenomenologia da esquizofrenia – transpõe esse artifício intelectual para os retratos sociológicos da ação humana. Nesse sentido, trata-se não apenas de mobilizar a praxiologia na compreensão de experiências esquizoides e esquizofrênicas, mas também de repensar criticamente as teorias da prática à luz do que essas experiências nos ensinam sobre o ser humano e seus múltiplos modos de ser-no-mundo. O esforço analítico tenta escapar ao simplismo de certa psiquiatria que só enxerga dor e déficit na psicopatologia, de um lado, mas também rejeita, de outro, visões românticas que percebem somente o que a psicopatologia possui de lucidez e inventividade, passando ao largo do que ela acarreta em sofrimento. Segundo os achados dessa pesquisa em curso, várias das transformações experienciadas em processos esquizoides e esquizofrênicos, a despeito de seus custos psíquicos, não podem ser pensadas como meros déficits funcionais (cognitivos, práticos, afetivos etc.). Em vez disso, elas têm de ser compreendidas como atitudes existenciais complexas que problematizam, em ato, uma série de postulados da teoria praxiológica da ação: por exemplo, o vínculo entre mente e mundo dá lugar à sensação de um abismo entre a própria subjetividade e a realidade externa (“kantianismo” vivido); a vivência do próprio corpo como instrumento prático de intervenção sobre a realidade dá lugar a um estranhamento radical da mente quanto à própria materialidade (“cartesianismo” vivido); a experiência tácita das palavras como veículos de transparentes de significado dá lugar a um senso agudo da arbitrariedade dos signos (“estruturalismo” vivido); e assim por diante, com dezenas de outras modalidades de experiência que a pesquisa pretende mapear.