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Por Gabriel Peters
Habemus nova série no Blog do Labemus: “Brasil em pílulas”!
Como acontece com a série Teoria Social em Pílulas, os posts da série “Brasil em pílulas” nascem de notas de aula. Ao converter tais notas em ensaios, busco apresentar ideias influentes sobre o Brasil de uma forma acessível, mas que também respeite, tanto quanto possível, a complexidade do assunto.
A brasileiríssima trindade
Assim como a sociologia, o pensamento social brasileiro também elegeu uma “Santíssima Trindade” de figuras clássicas. Em vez de Marx, Durkheim e Weber, os “três porquinhos” são, desta feita, os autores da chamada “geração de 30”. Entre 1933 e 1942, o trio produziu obras decisivas à interpretação do Brasil dentro e fora da academia: Gilberto Freyre (1900-1987) com Casa-Grande & Senzala [1933] e Sobrados & Mucambos [1936]; Sergio Buarque de Holanda (1902-1982) com Raízes do Brasil [1936]; e Caio Prado Junior (1907-1990) com Evolução Política do Brasil [1933] e, principalmente, Formação do Brasil contemporâneo [1942].
Há algo de simplificador em caracterizar essa trinca de autores como uma “divisora de águas” no pensamento social brasileiro. Ainda assim, elencar orientações intelectuais que os singularizam enquanto grupo, a ser contrastado com interpretações anteriores do Brasil também consideradas em bloco, ajuda a compreender o impacto conjunto desses pensadores, a despeito das diferenças entre suas respectivas abordagens.
Primeiramente, embora os três escrevessem antes da institucionalização das ciências sociais nas universidades brasileiras, eles se mostravam antenados com desenvolvimentos recentes no pensamento sociocientífico da época, como a antropologia culturalista de Franz Boas (no caso de Freyre), a sociologia compreensiva de Max Weber (no caso de Holanda) e o materialismo histórico de Karl Marx (no caso de Prado Junior).
Dado que o recurso de tais autores à ciência social se deu um tanto à margem de um sistema universitário, o qual apenas dava seus primeiros passos no Brasil, os três cultivaram uma prosa “ensaística” ou “literária” em maior ou menor grau – maior no caso de Freyre, também mais profuso em coloquialismos e na colocação desinibida de si próprio nos seus textos de interpretação do Brasil.
Tal ensaísmo valerá a eles a acusação posterior, veiculada com diferentes graus de virulência a depender do autor acusado, de “impressionismo” e insuficiente cientificidade por uma geração mais nova de críticos engajados na institucionalização das ciências sociais em terras brasileiras, como Florestan Fernandes (1920-1995) e Guerreiro Ramos (1915-1982) – eles próprios rivais entre si quanto à maneira de levar adiante esse projeto de institucionalização, como veremos em ensaios posteriores desta série.
Por uma explicação histórico-social do Brasil
O mais importante, por ora, é sublinhar que a inspiração de Freyre, Holanda e Prado em correntes das ciências sociais se traduziu, naquelas obras do período 1933-1942, em caminhos de interpretação genuinamente histórico-social do Brasil, em substituição aos esquemas explicativos do “racismo científico” (sic) e do determinismo geográfico que haviam orientado tantos intérpretes anteriores da sociedade brasileira, como um Sílvio Romero ou um Euclides da Cunha.
O contraste é tendencial, não absoluto.
Uma abordagem predominantemente histórico-social ao Brasil e suas instituições já aparecia, por exemplo, na análise dos efeitos da escravidão em O abolicionismo de Joaquim Nabuco (2022 [1883]) – um livro liberto, pelo menos em medida significativa para o seu contexto, de explicações baseadas no determinismo racial ou geográfico.
Por outro lado, alguns dos autores anteriores à geração de 30 que abraçavam tais furados esquemas explicativos na esfera teórica também foram capazes de transcendê-los, ao menos parcialmente, em suas observações históricas e etnográficas.
Foi o caso, por exemplo, quando Euclides da Cunha descobriu com espanto que o sertanejo, a quem o escritor estava intelectualmente aparelhado para retratar como “sub-raça” mestiça, era um “antes de tudo um forte” (2013: 115 [1902]). O bizarro conceito de “Hércules-Quasímodo” (Ibid.) com que o autor d’Os sertões se saiu para perfilar os sertanejos de Canudos é indicativo, por outro lado, de que o choque entre teoria e realidade vivenciado por ele gerou um resultado ambíguo, no qual a superação de seus preconceitos teóricos ficou pelo meio do caminho.
No mais, os próprios membros daquela geração de 30 certamente não se divorciaram inteiramente da herança pregressa daquelas teorias explicativas baseadas em supostos determinismos raciais e geográficos. É o caso, para dar somente um de vários exemplos, de infelizes passagens de Caio Prado Júnior sobre indígenas e negros em Formação do Brasil Contemporâneo, algumas das quais justamente espinafradas por Lélia Gonzalez (2020: 83).
O que cabe em uma formação? Passado no presente e história das estruturas
O adjetivo composto “histórico-social”, na descrição do ângulo interpretativo seguido pela tríade de pensadores, também deve ser levado a sério. Apesar de suas diferenças entre si, a começar pelos tamanhos contrastantes do enorme Casa-grande & senzala e do enxuto Raízes do Brasil, os três autores concebiam um retorno ao passado da sociedade brasileira não como um fim intelectual em si mesmo, mas como um passo necessário à elucidação do seu presente, entendido justamente como a cristalização histórica daqueles processos sociais de outrora.
Na história subsequente da “brasilogia”, esse procedimento explicativo veio a se consolidar na rica categoria de “formação”, presente no subtítulo de Casa-Grande & senzala, pressuposta na metáfora sergiobuarquiana das “raízes” e constante no título mesmo do principal livro de Caio Prado Júnior. A mesma categoria compareceria em títulos e subtítulos de obras posteriores que se tornariam clássicas elas próprias, como Formação da literatura brasileira de Antonio Candido [1959], Formação econômica do Brasil de Celso Furtado [1959] e Os donos do poder: formação do patronato político do Brasil de Raymundo Faoro [1958].
O foco sobre a relação passado-presente se conecta a outro atributo comum aos três pensadores da geração de 30: a ruptura com um modo de historiar o Brasil concentrado sobre personagens e eventos políticos e militares, abordagem substituída por uma história de longa duração que se debruça principalmente sobre estruturas socioeconômicas e padrões socioculturais.
Se o “patriarcalismo”, o “personalismo” e a “cordialidade” são exemplos desses padrões culturais, ilustrações daquelas estruturas econômicas incluem o microcosmo social da grande propriedade açucareira no Brasil colonial, a exploração do trabalho de escravizados negros e a orientação produtiva da economia brasileira para o mercado externo.
Multidimensionalidade e olhar comparativo
Também relevante, como quebra com o modelo anterior de história “acontecimental” (ou “dos eventos”) e político-militar, foi o tratamento da história do Brasil, por cada membro do trio, em uma perspectiva multidimensional, preocupada em mapear as inter-relações entre as diversas dimensões da vida social.
Um exemplo freyriano (Freyre, 2006) dessas investigações inter-relacionais está nos efeitos que a estrutura socioeconômica da colônia produziu sobre o catolicismo, vindo de Portugal, em terras brasileiras – por exemplo, na sua complacência em matéria de costumes sexuais, devida à subordinação das capelas às casas-grandes e, por conseguinte, aos desejos do senhor (não o dos céus, mas o pecaminoso do engenho).
Uma ilustração holandiana (Holanda, 1995) está no processo em que formas culturais de sociabilidade, como a primazia de relações pessoais baseadas no afeto (personalismo cordial ou cordialidade personalista), penetraram no próprio aparato jurídico-político do estado brasileiro, subvertendo os princípios que supostamente o regulavam em sua matriz europeia (p.ex., a racionalidade isenta de afetos e o tratamento impessoal baseado no cálculo racional e/ou na lei).
Finalmente, uma exemplificação caiopradiana (Prado Júnior, 2011) está na tese de que a base econômica orientada “para fora”, espécie de prejuízo de nascença do Brasil colônia, continuava a obstar, muito após a conquista de nossa independência política formal, nossas chances de desenvolvimento autônomo e independente.
(Não se preocupe. Trataremos em detalhe de todas essas ideias nos textos subsequentes dessa série.)
Os estudos da geração de 1930 eram parte do que Freyre chamou de uma “ansiedade de introspecção social” quanto às fontes da identidade nacional brasileira (Candido [1967] 1995), vigente no mínimo desde a década anterior – como testemunha o modernismo paulista nos anos de 1920. Não surpreende, assim, que aqueles estudos compartilhassem, finalmente, uma orientação comparativa: a intenção de discernir a singularidade do Brasil mediante sua comparação com cenários sócio-históricos discrepantes.
É o caso, para dar outro exemplo freyriano, dos supostos contrastes entre a miscigenação racial no Brasil e os interditos puristas que a impediam nos Estados Unidos.
A metodologia de comparação e contraste também informa a distinção ideal-típica de Sérgio Buarque entre os “aventureiros” ibéricos que colonizaram o Brasil, de um lado, e os “trabalhadores” que colonizaram outras porções do continente americano, de outro.
E essa própria diferenciação sergiobuarquiana é uma espécie de versão, na linguagem de uma psicologia cultural, da distinção econômico-estrutural que Caio Prado traça entre “colônias de exploração” e “colônias de povoamento”.
Nos próximos posts, passaremos pelos trabalhos desses “três porquinhos”, antes de nos encaminharmos a intérpretes posteriores dessa entidade chamada “Brasil”.
Até lá.
Referências
CANDIDO, Antonio. “O significado de Raízes do Brasil”. In: HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p.9-21.
CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Global, 2006.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. RIOS, Flávia; LIMA, Márcia. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do Brasil. 26ª Ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Porto Alegre: L&PM, 2022.
PRADO JÚNIOR, Caio. Formação do Brasil contemporâneo: colônia. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.


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