Querida, minha biblioteca me engoliu: sobre timidez erudita e presunção criativa, por Gabriel Peters

Publicado no blog “Que cazzo é esse?” em domingo, 9 de junho de 2013

 
Por Gabriel Peters
 
 

“Como todos os jovens eu decidi ser um gênio, mas felizmente o riso interveio.” (Lawrence Durrel)
 
“O mundo precisa de mais gênios humildes. Infelizmente, sobram poucos de nós.” (Oscar Levant) 


Picasso com a palavra: “Toda criança é um artista. O problema é como permanecer um artista quando se cresce”. Embora todos os nossos alertas quanto a interpretações simplórias de tal enunciado devam estar ligados, não é sensato desconsiderar o que um grande gênio tem a dizer sobre as disposições de espírito ligadas à sua arte. A bem da verdade, Picasso simplesmente oferece a autoridade de sua voz à tese bem conhecida de que a imaginação pouco censurada das crianças tende a ser sufocada conforme a cognição passa a funcionar mais e mais segundo os modos “adultos” de pensar, em particular com a ampliação de conhecimentos e a utilização do pensamento analítico. Na tradição humanística, idealistas alemães como Schiller já haviam assemelhado os impulsos criativos às brincadeiras infantis, em uma associação que também encontraria lugar na obra de Freud, para quem tanto o artista quanto a criança engendram mundos fantasiosos nos quais desejos reprimidos podem encontrar sua satisfação sublimada.
 
O que complica a questão é o fato de que a existência de um elemento de espontaneidade livre e “infantil” nas realizações criativas de alto nível não esconde que estas corporificam também, e indissoluvelmente, largas doses de trabalho disciplinado e conhecimento especializado. É óbvio que não há realização criativa excepcional na arte ou na ciência que haja brotado do nada, que não pressuponha um alto nível de familiaridade com o legado informacional de um domínio artístico ou científico relevante, o próprio legado que fornece aos criadores algumas ferramentas cognitivas e expressivas indispensáveis à feitura do seu produto original.

Ao mesmo tempo, temos uma gama de dados à mão que nos sugerem que tal familiaridade pode atingir um cume em que passa a tolher, ao invés de alimentar, a emergência de criações extraordinárias, resultando em uma sensibilidade convencional destituída do grau de flexibilidade e independência intelectual necessário à produção de obras originais. As ilustrações pertinentes podem ser colhidas tanto na arte quanto na ciência – Einstein, por exemplo, tinha contemporâneos bem mais informados do que ele sobre física teórica, para não falar na parafernália matemática que lhe estava associada, quando revolucionou a área com sua teoria da relatividade (Simonton, 2003: 213-214). Permita-me, no entanto, analisar a questão mais a fundo a partir de uma área que não é nem arte nem ciência (mas que talvez seja ambas as coisas e mais): a filosofia.

Filosofia original como mau comentário?

O filósofo argentino Julio Cabrera sublinhou que “é muito raro encontrar um único pensador importante que seja também um bom expositor de outras Filosofias”. “A leitura heideggeriana de Kant ou a nietzschiana de Spinoza”, por exemplo, “são simplesmente deficientes!” (2010, 29; 36). Interessante e enigmático, não é? Que valores são mais prezados na atividade do comentário e da exegese? A atenção minuciosa ao que o autor realmente quis dizer, a necessidade de situar eruditamente o sentido das afirmações contidas em tal ou qual trabalho no conjunto da sua obra, a vigilância contínua em relação a leituras simplificadoras e parciais das ideias que ele avançou, o controle reflexivo da intrusão de preocupações extemporâneas àquelas do filósofo analisado ou de intenções críticas relacionadas às visões pessoais do intérprete, dentre outros. Não é difícil reconhecer que tais virtudes do trabalho de comentário podem tornar-se significativos obstáculos à tessitura de teses originais.

Imaginemos uma mente filosófica esquizoide, cindida entre um pensador com arroubos de originalidade e um intérprete hiper-responsável. Toda divergência mais ou menos radical do primeiro em relação a filósofos consagrados é censurada pelo segundo como oriunda de uma leitura simplificadora, insensível à inesgotável sutileza e complexidade daquelas vacas sagradas do campo. Cada insight original que pipoca espontaneamente no tutano do pensador é vinculado pelo erudito exegeta, de modo apressado, às coisas parecidas que Platão, Aristóteles ou Heidegger podem ter dito nesse ou naquele texto. E por aí vai…Foi pensando nessas pobres almas capazes de invenções originais, mas tolhidas, ao invés de empoderadas, pelo peso opressivo de uma biblioteca que carregavam na cabeça, que Nietzsche afirmou que “muitos homens fracassam em se tornar pensadores somente porque a sua memória é demasiadamente boa”.

O tema da perda da capacidade inovadora em função da assimilação de um excesso de informações quase poderia ser convertido em uma metáfora espacial de dois tipos de mente: uma na qual as vias que permitiriam circulação exploratória por cenários desconhecidos passam a ser bloqueadas por estantes abarrotadas de livros; outra que, por outro lado, com toda certeza não está em nada parecido com um deserto, mas lançada em uma paisagem em que a mobília intelectual é apenas a suficiente para instilar, nela, a motivação e a capacidade que lhe permitem explorar, por conta própria e com mais liberdade, o espaço ao seu redor (está bem, agora parei com a metáfora). Um conjunto valioso de passagens que expressam tal contraponto foi recentemente recolhido por Eduardo Gianetti (2008: 24-28):

Acredito que algumas das maiores mentes que até hoje existiram não tenham lido nem a metade e soubessem consideravelmente menos do que alguns de nossos medíocres scholars. Creio que alguns de nossos scholars realmente medíocres poderiam ter chegado a ser homens mais grandiosos se não tivessem lido em demasia (Lichtenberg).
Os scholars que…pouco mais fazem…a não ser manusear livros, acabam por fim perdendo inteiramente a capacidade de pensar por si mesmos. Quando não manuseiam, não pensam. Eles respondem a um estímulo (um pensamento que leram) sempre que pensam – nada fazem, por fim, exceto reagir. (…) Tenho visto isso com os meus olhos: naturezas talentosas…arruinadas pelo excesso de leitura já na meia-idade (Nietzsche)

 Nutrição pela leitura e digestão reflexiva

A ameaça à inventividade intelectual advinda de um excesso de informações disciplinares aparece, de modo particularmente contundente, em discussões várias sobre a importância de se combinar a leitura à meditação autônoma. Inaugurando uma metáfora estomacal posteriormente utilizada também por Schopenhauer, Edmund Burke disse, curta e sentenciosamente, que “ler sem refletir é como comer sem digerir”. Já que existem graus variados de reflexão bem feita a acompanhar a atividade de leitura, podemos abrir espaço para a consideração de um continuum de níveis de boa e má digestão intelectual. Indivíduos rabugentos, daqueles que estão sempre espinafrando a mediocridade que os cerca, poderão avançar na metáfora estomacal e convertê-la em uma metáfora intestinal ao discutir os produtos que terminam resultando de problemas sérios na absorção de alimentos cognitivos (mas não conte comigo para fazer isso, porque esse tipo de humor não é minha praia).

Seja como for, a tese crucial aqui é que uma leitura em doses sensatas, quando acompanhada de uma inteligência diligentemente meditativa, fortalece o entendimento, ao passo que uma leitura atabalhoada e pouco reflexiva – ou, pior ainda, uma leitura que se substitui preguiçosamente à reflexão – apenas bagunçaria mais o coreto da mente, tornando o entendimento confuso. Algo similar aconteceria no tocante à inventividade intelectual, menos e menos alimentada conforme o ato do pensamento, em vez de se realizar a partir de uma propulsão predominantemente interna, se acopla invariavelmente aos estímulos reativos dados pelo contato com o fluxo de outro pensamento:

O excesso de leitura priva a mente de toda a elasticidade (…) A maneira mais segura de jamais ter um pensamento próprio é apanhar um livro toda vez que se tem um tempo livre. (…) O homem que pensa por si mesmo busca as opiniões das autoridades somente depois de ter adquirido suas próprias opiniões e meramente como confirmação delas, ao passo que o filósofo livresco começa com as autoridades e constrói suas opiniões coletando as opiniões dos outros: sua mente está para a do primeiro assim como um autômato está para um homem vivo. Uma verdade que foi apenas aprendida adere a nós somente como um membro artificial…(…)Mas uma verdade conquistada pelo próprio pensamento é como um membro natural: só ela realmente nos pertence. Isso define a diferença entre um pensador e um scholar (Arthur Schopenhauer).
 
Arthur, rabugento que era, carrega demais nas tintas. Sua contraposição entre o scholar autômato e o pensador informado, porém soberano, deveria ser lida como uma distinção ideal-típica entre polos de um contínuo. Isto porque não há apropriação de conhecimentos pela leitura sem alguma dose de pensamento independente, nem reflexão autônoma de busca das próprias opiniões que não seja, em grau substancial, reflexo de opiniões adquiridas de outros. A proposta de se buscar “as opiniões das autoridades” apenas depois de se haver formulado as próprias é, na melhor das hipóteses, válida para um sujeito intelectualmente maduro que já passou pelo trabalho inevitável de assimilação mais ou menos passiva de informações e instrumentos intelectuais alheios. Na pior das hipóteses, aquela proposta constitui uma receita seja para manifestações de originalidade simplesmente tola, seja para proezas criativamente ignorantes de reinvenção da roda, redescoberta da pólvora e navegação para velhas Américas – proezas individualmente honrosas, bem entendido, mas historicamente redundantes.

Para encontrar uma visão mais matizada do que aquela avançada por Schopenhauer, não precisamos voltar muito no tempo – apenas pouco menos de vinte séculos, retornando ao período em que brotou da pena de Sêneca o último de seus escritos conhecidos por nós: Epistulae Morales Ad Lucilum. Nas cartas em que saúda seu amigo Lucílio, o filósofo romano advoga uma alternância fecunda ou tempero recíproco entre a leitura e a escrita. A primeira funciona como um alimento da inteligência que arranca o sujeito do cenário estreito dos seus limites cognitivos, coloca-o em contato com “as descobertas já feitas” e conscientiza-o quanto às “que ainda estão por encontrar” (2002: 106-107). O insumo espiritual reunido das leituras só pode ser convertido em “corpo e unidade” organizados, no entanto, através da escrita, pela qual informações meramente coletadas na memória são mais profundamente enraizadas como instrumentos de nosso entendimento e sintetizadas entre si segundo combinações só nossas. O excesso de escrita em detrimento da leitura “enervará e esgotará” nossas forças intelectuais, privando-as do estímulo exterior necessário, enquanto o desequilíbrio inverso “as dissolverá e diluirá”. Deveríamos, em vez disso, aspirar ser como “as abelhas, que vagam de um lugar a outro e escolhem as flores mais apropriadas para elaborar o mel, e depois dispõem e adereçam em favos tudo o que recolheram” (idem). Essa gracinha de metáfora talvez patenteie, no entanto, os limites do que ela mesma afirma: certos favos já estão tão bem dispostos e adereçados que proíbem qualquer intervenção.

A delicada via média entre a autoconfiança e a autocrítica

O tolher das disposições criativas pela ingestão intelectual em excesso não ocorreria apenas pela habituação cognitiva a seguir os pensamentos lidos de outros (“engessamento” intelectual), mas também por uma via motivacional. Voltemos ao filósofo esquizoide cujas intenções de originalidade são consistentemente solapadas por sua erudição. Nele, a vontade de filosofar de próprio punho é imediatamente assoberbada pelo gigantismo intelectual dos companheiros de lida filosófica, desembocando no desespero resignado da questão: “quem sou eu(zinho) para arriscar tal coisa”?

Deparamo-nos aqui com uma das muitas instáveis dialéticas da criação: situações em que o sucesso no empreendimento criativo depende de uma combinação ambivalente de atributos que, se existindo unilateralmente ou em doses excessivamente desequilibradas, terminam por corroer a empreitada inovadora. Os atributos, no caso específico em mira, são autoconfiança e autocrítica. Hegel escreveu em algum lugar que “a confiança no poder do espírito é a primeira condição da filosofia”. Suponho que uma das lições fundamentais das filosofias de seus predecessores Descartes e Kant seja a de que a dúvida em relação ao poder do espírito constitua uma das condições primeiras da filosofia. Os três têm uma dose substancial de razão. O progresso intelectual depende, não apenas na filosofia, de uma articulação equilibrada entre autoconfiança e autocrítica, disposições vinculadas, grosso modo, às duas facetas cognitivas fundamentais na dialética da criação: a inventividade mais pessoal, de um lado, e as regras que modulam o valor daquela inventividade para os juízes relevantes em certo domínio (um campo artístico, uma disciplina científica etc.), de outro. Não é difícil observar instâncias vivas de junções desequilibradas entre essas propensões da vida intelectual nos vários estratos do microcosmo acadêmico, inclusive nas salas de aula, povoadas por hiperconfiantes que aparentemente não têm consciência da dispensabilidade de muitas de suas falas e também pelos casos (menos irritantes, embora mais tristes) das pessoas tímidas que possuem coisas relevantes a dizer, mas que raramente ou nunca o fazem por jamais estarem certas de que sua intervenção será suficientemente interessante para adquirir a dignidade de uma manifestação pública.

Tais propensões distintas poderão ser reforçadas por referências pedagógicas diversas. O mesmo Schopenhauer que denunciou o mero scholar que, diferentemente do verdadeiro pensador, passa ao largo da formulação autônoma de suas opiniões pela coleta livresca de opiniões alheias ainda tinha veneno intelectual para detonar, por outro lado, os acadêmicos que buscavam escapar ao ofício da mera erudição técnica e enveredar por pensamentos originais e profundos sem terem o fôlego cognitivo necessário à empreitada. Nas suas notas Sobre a Filosofia Universitária, o autor alemão fustiga os professores de filosofia que não se conformavam em simplesmente transmitir os ensinamentos de filósofos dignos desse nome e julgavam dever desempenhar, eles mesmos, o papel de construtores de sistemas filosóficos originais, dando ensejo a um espetáculo que ele descrevia como “insuportável” (2001: 32). De fato, muitos indivíduos que poderiam sonhar em fazer uma contribuição original sentem-se sobrepujados por outra motivação mais forte: o medo de serem atores desse espetáculo tragicômico descrito por Schopenhauer.

O que uma postura iconoclasta como a de Schopenhauer pode encorajar é uma atitude saudável de suspeição primeira diante da autoconfiança intelectual injustificada, uma consciência aguda dos riscos de um ignorante espontaneísmo invencionista, bem como da necessidade de formação disciplinada de um intelecto rigoroso, capaz de submeter a si próprio a trabalhos impiedosos de higienização. No entanto, essa orientação deixa o flanco aberto para o risco inverso. Ao denunciar, muito justamente, transbordamentos infundados de autoconfiança, talvez ela torne desamparadas algumas pessoas particularmente brilhantes, mas cuja autocrítica e autoexigência intelectual exercem sobre elas um poder paralisante. Se algumas pessoas podem produtivamente mitigar seus excessos de autoconfiança diante de tantos exemplos dos “néscios filosofantes” de que fala o misantropíssimo Schopenhauer, outras talvez precisem ser protegidas do perigo de sufocamento sob o peso das exigências de um superego intelectual descompensado. As últimas precisam ser convencidas de que certa indiferença em relação a parecer ridículo pelas coisas que se diz é, na verdade, uma pré-condição da sabedoria desde Sócrates. Pascal disse certa feita que os seres humanos se dividem em santos que se consideram pecadores e pecadores que se consideram santos. Não há dúvida de que, parafraseando Pascal, é relativamente fácil encontrar tolos que se consideram talentosos e talentosos que se consideram tolos. Por exemplo, até mesmo o gênio indiscutível Ludwig Wittgenstein teve de recorrer à consultoria intelectual de ninguém menos do que Bertrand Russel para decidir se possuía vocação filosófica ou era simplesmente um idiota. O caso de Wittgenstein teve um desenlace feliz, mas a condição humana é pródiga em casos tristes. Alguns desses compõem a face invertida do espetáculo triste denunciado por Schopenhauer:

“Uma grande quantidade de talento é perdida para o mundo pela falta de um pouco de coragem. Todo dia manda para os seus túmulos homens obscuros que apenas permaneceram obscuros porque sua timidez os impediu de fazerem um primeiro esforço.” (Sidney Smith)
 
“Ai daqueles que nunca cantam,
Mas morrem com toda a sua música dentro de si.” (Oliver Wendell Holmes). 
 
A consciência de que se vai morrer não apenas concentra a mente, como disse Samuel Johnson, mas também pode ser um poderoso solvente da timidez. Embora existam múltiplas situações em que é melhor calar, é sempre bom se ter em mente, na hora da dúvida, que “o túmulo fornecerá muito tempo para o silêncio” (Hitchens, 2006: 128). Em um pequenino e magnífico ensaio (1958), aquele mesmo Samuel Johnson discutiu com perspicácia os perigos opostos da autoconfiança insensatamente elevada e da autoconfiança insensatamente reduzida. A primeira postura lança indivíduos ao mar sem que estes estejam propriamente alertados e preparados para eventuais tempestades, enquanto a segunda pinta de saída um retrato tão amedrontador dessas tempestades que instila uma expectativa de naufrágio certo e rouba, assim, qualquer ímpeto de sair da costa.

Johnson reserva mais palavras à última condição, não porque ela seja mais perniciosa, mas porque os seus efeitos são menos visíveis. Indivíduos que se lançam a empreendimentos grandiosos sem a capacidade necessária, advinda do grau apropriado de preparação, geram eventos visíveis e registráveis quando fracassam miseravelmente. Estes eventos podem acorrer facilmente à consciência como exemplos dos desastres a que se pode levar uma avaliação inadequada das dificuldades que uma dada tarefa coloca às habilidades de uma pessoa. No entanto, a experiência das pessoas que “morrem com toda a sua música dentro de si” é bem menos visível e, muitas vezes, só pode ser inferida de precários raciocínios contrafactuais. A ignorância presunçosa será facilmente corrigida pelas circunstâncias da vida, pelos experimentos que revelarão ao autoconfiante inflado que suas expectativas quanto à facilidade na caminhada para o sucesso eram errôneas e necessitavam de correções e ajustes realistas. Mas “a timidez é uma doença da mente mais obstinada e fatal” que, ao prevenir de antemão as tentativas e experimentos, rouba do tímido a chance mesma da descoberta de que seus temores possam ser exagerados ou irracionais.

Conclusão

Alguma versão do meio-termo aristotélico parece ser o caminho a seguir nessa corda bamba que é a instável dialética da criação. Dúvidas quanto à própria capacidade são um bom sinal, desde que não paralisem. Alguém que pergunta a si próprio se é um completo imbecil não pode, por definição, ser um completo imbecil. Mais ainda: como sublinhou, com razão, o grande filósofo polonês Leszek Kolakowski, “um filósofo moderno que nunca experimentou a sensação de ser um charlatão é tão superficial que sua obra provavelmente não merece ser lida” (1990: 7). E o jornalista James Cameron talvez tivesse sido prejudicado por uma autocomplacência intelectualmente empobrecedora se não temesse ser exposto como uma fraude toda vez que se sentava diante de sua máquina de escrever. Carregando tal insegurança consigo, Cameron se tornou um dos grandes correspondentes internacionais da sua geração: narrou a independência da Índia, presenciou três explosões nucleares e entrevistou Ho Chi Minh em meio a bombardeios. Segundo acrescentou Christopher Hitchens, Cameron também nadou em todos os cinco oceanos e fez sexo em cinco continentes diferentes. Caso sirva de inspiração…

Referências

Cabrera, Julio. Diário de um filósofo no Brasil. Ijuí, Editora Unijuí, 2010.
Gianetti, Eduardo. O livro das citações. São Paulo, Martins Fontes, 2008.
Hitchens, Christopher. Cartas a um jovem contestador. São Paulo, Martins Fontes, 2006.
Johnson, Samuel. “On presumption and despondency”. In: Rasselas, poems, and selected prose. New York, Rinehart, 1958.
Kolakowski, Leszek. Horror metafísico. Campinas, Papirus, 1990.
Schopenhauer, Arthur. Sobre a filosofia universitária. São Paulo, Martins Fontes, 2001.
SênecaAprendendo a viver. São Paulo, Martins Fontes, 2002.
Simonton, Dean Keith. “Expertise, competence, and creative ability: the perplexing complexities”. In: Sternberg, Robert; Grigorienko, Elena. The psychology of abilities, competencies, and expertise. Cambridge, Cambridge University Press, 2003.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.