Por Gabriel Peters
Introdução: Mark Fisher como sociólogo do sofrimento
Se você conhece esse blog, já encontrou diversos posts dedicados a uma sociologia do sofrimento psíquico na contemporaneidade, voltada às fontes sociais de transtornos como a depressão, o burnout e o TDAH. A ideia de “sociologia” pressuposta nessas investigações não designa credenciais departamentais, entretanto, mas se aplica a qualquer busca interpretativa de raízes coletivas daqueles distúrbios mentais, os mesmos que tendem a ser tratados como problemas estritamente individuais na psiquiatria biomédica, na psicologia clínica e nos meios de comunicação de massa.
Sob esse prisma, as reflexões do crítico cultural Mark Fisher (1968-2017) sobre as tribulações psíquicas oriundas do que ele chamou de “realismo capitalista”, na expressão que intitula seu livro de 2009 (aqui discutido em sua tradução brasileira [2020]), são da maior importância sociológica. Em um post anterior sobre o legado intelectual e político de Fisher, discuti alguns desafios de uma abordagem política à saúde mental no capitalismo tardio, pensada em suas relações com o cuidado individualizado. A ideia central envolvia criticar a substituição da política pela terapia individual, confrontando as fontes sistêmicas da pandemia contemporânea de sofrimento mental, sem recair na simples substituição da terapia pela política, como se as abordagens terapêuticas individualizadas pudessem ser rejeitadas como mero conformismo despolitizado – a verdade é que não podemos passar sem elas, inclusive se quisermos ter as forças motivacionais necessárias para lutar politicamente.
O principal problema em tal post talvez tenha sido, contudo, o tratamento um tanto sumário do que Fisher entende por “realismo capitalista”, o qual merecia uma discussão mais detalhada – como a que arrisco abaixo, no dia (11 de julho) em que Fisher faria 56 anos.
Mark e Marx
Como ocorre com outros autores marxistas, Fisher tem a intenção de apreender o presente em termos históricos, mantendo o pensamento em compasso com as mudanças internas ao capitalismo. Tal intenção coexiste, por outro lado, com a continuidade de orientações intelectuais remontáveis a Marx e a outros clássicos dessa tradição intelectual. Quanto à continuidade, a investigação fisheriana do realismo capitalista em suas múltiplas manifestações se guia por um princípio já presente, digamos, na discussão marxiana do fetichismo da mercadoria n’O capital [1867] ou nos diagnósticos da reificação no marxismo ocidental desde o Lukács de História e consciência de classe [1923]: revelar que as estruturas capitalistas percebidas como naturais, necessárias e inevitáveis somente aparecem como tais devido à operação de mecanismos ideológicos, os quais escondem seu caráter historicamente contingente e transformável. (Aliás, desmistificar a aparência de necessidade, naturalidade e autoevidência de certos modos de organizar e perceber o mundo social, mostrando sua contingência histórica, é um procedimento característico de autores não marxistas também influenciados por Marx, como Bourdieu e Foucault.) Isto dito, o feitio do capitalismo no final do século XX é, por óbvio, significativamente distinto daquele examinado por Marx ou Lukács. Eis por que a relação de Fisher com o marxismo é mediada por inspirações mais recentes, como aquelas de Fredric Jameson e Slavoj Zizek.
O estadunidense e o esloveno são presenças fundamentais no pensamento fisheriano não apenas no espírito – isto é, como referências teórico-críticas para pensar o capitalismo na virada para o século XXI -, mas também na letra – i.e., como exemplares de um diagnóstico de época que confere um peso central à crítica cultural, sem medo de utilizar Marx e Lacan para tratar do significado ideológico, digamos, de Kung Fu Panda. Não surpreende, então, que o núcleo do realismo capitalista como configuração ideológica se defina, segundo Fisher, por uma formulação original de Jameson ligeiramente parafraseada por Zizek: trata-se da condição em que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.
A alusão à imaginação não é acessória. O realismo capitalista não abarca somente a crença, encarnada em práticas e difusamente sentida na experiência cotidiana, de que o capitalismo é o único sistema econômico viável, mas também o cenário em que uma alternativa sistêmica a ele sequer é imaginável. Como vimos em outro post, a referência ao “fim do mundo”, longe de ser frívola, marca o horizonte de catástrofe ambiental ao qual a continuidade do status quo capitalista caminha, no mesmo passo em que sublinha o absurdo ideológico da crença segundo a qual impedir aquela catástrofe, mediante uma reorganização sistêmica da sociedade, seria uma opção menos “realista” do que manter as coisas como estão – isto é, caminhando para o colapso.
Nesse sentido, como o chamado “realismo depressivo” na psicologia, o realismo capitalista significa menos um apreço pelas coisas como são do que a corrosão de qualquer esperança de que elas possam melhorar. Não por acaso, Fisher foi um dos primeiros a aproximar a crise de saúde mental nas sociedades capitalistas contemporâneas, como aquela sinalizada pela atual pandemia de depressão, a crises ecológicas como a mudança climática: ambas são consequências sistêmicas do capitalismo cuja radicalidade é, no entanto, dissimulada pela ideologia do realismo capitalista.
Ideologia do realismo capitalista?
Realismo capitalista como ideologia: discurso, prática e experiência
O livro de Fisher rastreia o “realismo capitalista” como formação ideológica no sentido mais radical e multidimensional da expressão, o qual não se resume a representações do mundo social, mas inclui as práticas pelas quais esse mundo se reproduz historicamente e os modos pelos quais ele é experienciado como realidade inescapável. O princípio segundo o qual não haveria alternativa sistêmica ao capitalismo não é redutível, portanto, às suas formulações explícitas no discurso ideológico e nem mesmo ao plano de crenças tácitas, caso estas sejam entendidas em sentido exclusivamente cognitivista. Para além dessa dimensão, o realismo capitalista também se encarna em um sem-número de condutas práticas no cotidiano, bem como é vivenciado tal qual uma atmosfera inteira de experiência (2020: 3), imediatamente encontrada como (se fosse) realidade autoevidente. Tal especificação conceitual é importante, pois prepara o terreno para as incursões de Fisher por diferentes manifestações do realismo capitalista, incluindo aquelas que envolvem uma aparente disjunção entre discurso (lato sensu), experiência e prática.
Se o senso da inevitabilidade do capitalismo se encarna em práticas, ele pode coexistir, por exemplo, com um discurso que questione tal inevitabilidade, como em uma reunião de teóricos marxistas da reificação onde são comprados e consumidos cafés e/ou cervejas. Note-se que, no que toca à reprodução efetiva do capitalismo, colocar essa contradição entre discurso e prática na conta da hipocrisia dos participantes é dissimular ideologicamente o caráter sistêmico daquela contradição, reduzindo-as a supostas qualidades pessoais dos indivíduos envolvidos: uma negação da existência de estruturas sociais impessoais que é, ela própria, parte do repertório ideológico do realismo capitalista na sua manifestação neoliberal. Seja como for, as ilustrações fisherianas de como o realismo capitalista se imiscui em práticas, podendo coexistir com as próprias críticas à sua vigência no domínio da crença[i], seguem a trilha de Jameson ao se dirigirem principalmente à indústria cultural.
Na esteira dos argumentos jamesonianos sobre o “pós-modernismo” como “lógica cultural do capitalismo tardio” (1991), Fisher confere um peso central à capacidade que o capitalismo tem de converter em mercadoria mesmo as manifestações culturais de resistência a ele. Isto dito, o autor britânico sustenta que o sistema capitalista das duas últimas décadas do século XX intensificou e acelerou tais processos de “canibalização” (Jameson) da resistência a tal ponto que prescinde da conversão, pois a resistência já brota nele qua mercadoria. O capitalismo tardio substituiu a incorporação pela “precorporação” (Ibid.: 18): em vez de nascerem como resistência e serem comercialmente apropriadas a posteriori (p.ex., a imagem de Che Guevara), as manifestações anticapitalistas, no seu conteúdo, já emergem como produtos disponibilizados pelo sistema apto a lucrar com o seu consumo (p.ex., seriados distópicos que têm grandes corporações como seus principais vilões).
A dinâmica vale, na ilustração de Fisher, para filmes com mensagens altamente críticas ao capitalismo, como os que tratam de devastações ecológicas e perdas humanitárias provocadas pela ganância desumana de conglomerados empresariais. Ao analisar a animação Wall-E [2008] como exemplar dessa tendência, Fisher não se cinge apenas ao fato óbvio de que, ao vender ingressos, o capitalismo capitaliza em cima das críticas que o filme faz ao capitalismo. Os efeitos ideológicos e sociopsicológicos em jogo são mais profundos. Da parte dos consumidores, assistir a filmes dessa estirpe pode significar substituir uma luta efetiva contra as estruturas sistêmicas do capitalismo por um “anticapitalismo” performático ou “gestual” (Ibid.: 25), no qual o gesto de assistir ao filme delega a ele a responsabilidade política: “o filme performa nosso anticapitalismo para nós, nos autorizando assim a continuar consumindo impunemente” (Ibid.: 26). Ademais, o contraste entre o filme “anticapitalista” como esfera fantasiosa de consumo semiótico, de um lado, e a realidade cotidiana para a qual se retorna, de outro, reforça justamente a crença de que o anticapitalismo só é possível como fantasia utópica, ao passo que o capitalismo é a inescapável realidade para a qual os indivíduos têm de voltar quando as luzes do cinema acendem.
Nesta e em tantas passagens similares, o ensaio de Fisher gera um efeito paradoxal. Por um lado, ele é implacável em surpreender a presença do realismo capitalista nas mais diversas dimensões da vida social contemporânea, em especial naquelas que mais pareceriam, à primeira vista, escapar ou resistir ao seu alcance. Por outro lado, o resultado cumulativo desse modus argumentandi pode ser justamente a intensificação daquele senso mesmo de inescapabilidade frente ao capitalismo que Fisher pretende, no fim das contas, desmascarar como ideologia dominante. Eis por que, por exemplo, o tom repentinamente esperançoso do último parágrafo do livro, com sua conclusão de que podemos passar “de uma situação em que nada pode acontecer” a uma em que “tudo é possível de novo” [Ibid.: 133]), soa descompassado em relação ao detalhado inventário crítico anteriormente desenvolvido nas suas páginas. Não admira então que, ao tratarmos antes da mensagem de Fisher, tenhamos deparado com a dificuldade de desenvolver um discurso sobre as causas sistêmicas da depressão que não fosse, ele próprio, deprimente – ou, pelo menos, que não fosse única e exclusivamente deprimente.
Seja como for, desde o início do livro, a coexistência entre o mapeamento dos efeitos do realismo capitalista, de um lado, e o desmascaramento de sua pretensão ideológica a passar como realidade, de outro, depende de uma distinção lacaniana que Fisher colhe em Zizek e Alenka Zupancic: a diferença entre o Real e a realidade. Recorrendo à crítica da ideologia, as inspirações intelectuais de Fisher dão uma inflexão marxista à noção freudiana de “princípio de realidade”. A relação dos seres humanos com o que percebem como realidade empírica ou fato bruto é desde cedo, segundo Zupancic, mediada pela ideologia. A eficácia da ideologia depende precisamente de sua capacidade de não se fazer reconhecer como ideológica, aparecendo, ao invés, como um acesso não mediado às coisas como necessariamente são. Nesse raciocínio neolacaniano, o Real consiste, em contraste, em um vazio irrepresentável e traumático que toda ideologia que se pretenda passar por “realidade” procura reprimir. O vislumbre do Real só se dá, assim, nos momentos que a realidade aparente instalada pela ideologia sofre perturbações e quebras de sua “consistência” e “evidência”.
O Real em frestas (catastróficas)
Um dos estratagemas críticos contra o realismo capitalista consiste então, conclui Fisher, em perscrutar instâncias do Real escondidas por trás da realidade que o realismo capitalista apresenta como autoevidente. O ensaísta britânico menciona três dessas instâncias.
A primeira é a catástrofe ambiental que, mediante os efeitos destrutivos de fenômenos como a mudança climática e a exaustão de recursos naturais, se mostra capaz de comprometer a própria sobrevivência da espécie humana no planeta – juntamente com milhões de outras espécies, aliás. Fisher até nota que a assimilação de ameaças ecológicas ao Real, tomado como um vazio irrepresentável pela ideologia do realismo capitalista, parece estranha à primeira vista. Isto porque tais ameaças, longe de serem reprimidas, são amplamente tematizadas no discurso público e nos meios de comunicação de massa, sem falar em suas apropriações publicitárias e comerciais no chamado “capitalismo verde” (sic).
O que resta irrepresentado em tais assimilações, entretanto, é a direção verdadeiramente autodestrutiva da marcha de acumulação e exploração para a qual o capitalismo caminha. A catástrofe última é negada em favor de fantasias ideológicas como a de que os problemas ambientais de hoje e amanhã, como aliás quaisquer outros problemas, podem eventualmente “ser resolvidos pelo mercado” ou, ainda, a de que “o próprio planeta Terra não passa de uma espécie de casco, do qual o capital pode a qualquer momento se livrar, como se abandonando uma carapaça usada” (Ibid.: 36). Não surpreende que uma exploração espacial com intenção de tornar a sobrevivência da espécie humana independente da biosfera terrestre tenha surgido, previsivelmente como iniciativa de bilionários, pouco depois que Fisher escreveu essas palavras.
Cabe aqui uma digressão crítica . As credenciais marxistas radicais do ensaísta britânico transparecem, afinal, na sua sugestão de que um “capitalismo sustentável” é uma contradição em termos: “‘a necessidade constante de um mercado em expansão’ por parte do capital, seu ‘fetiche pelo crescimento’, mostra que o capitalismo, por sua própria natureza, se opõe a qualquer noção de sustentabilidade” (Ibid.). Eis um âmbito em que o radicalismo de Fisher, como o da primeira geração da Escola de Frankfurt, se arrisca a ser mais paralisante do que transformador. No desespero frente a alternativas sistêmicas, não seria melhor tentar implantar alguma forma de capitalismo sustentável, assim como as formas keynesianas de capitalismo lograram combinar-se ao estado de bem-estar social? Ou será que estou caindo em um peleguismo que é, ele próprio, mais um sintoma do realismo capitalista? Fim da digressão.
Seja como for, as outras duas instâncias pelas quais o Real vem se infiltrando na aparente solidez da realidade capitalista aparecem bem menos no discurso político, pelo menos como problemas políticos, do que o horizonte ambiental catastrófico primeiramente listado por Fisher. Ao elencar a proliferação de transtornos mentais como uma das “aporias do realismo capitalista” (Ibid.), o crítico inglês se juntou a outros pioneiros na interpretação de modalidades comuns de sofrimento psíquico na contemporaneidade, tais quais a depressão e os distúrbios de ansiedade, como efeitos sistêmicos do capitalismo – efeitos que, no entanto, raramente são percebidos como tais.
Para ele, não se trata apenas de trazer a posteriori uma visão sistêmica e, por extensão, política para vivências existentes de sofrimento individual, mas de apontar a própria inversão ideológica em função da qual o que é um problema sistêmico desde o início – a proliferação de distúrbios psíquicos nas condições do capitalismo tardio – termina enquadrado em termos forçosamente individualizantes: “o realismo capitalista insiste em tratar a saúde mental como se fosse um fato” tão “natural como o clima” quando, a bem da verdade, tanto o clima quanto a saúde/doença mental se tornaram “efeitos político-econômicos” (Ibid.: 37). A tarefa crítica central para Fisher não é, portanto, desenvolver uma perspectiva estrutural sobre sofrimentos individuais agregados, mas investigar como tais sofrimentos de fonte socioestrutural foram individualizados – no plano da representação ideológica de suas causas – e privatizados – no sentido de que seu tratamento é tomado sem mais como uma reponsabilidade individual do sofredor, em contato com instâncias mercadorizadas de atendimento personalizado (p.ex., psiquiatria).
Finalmente, a terceira das instâncias do Real evocadas por Fisher como fissuras no realismo capitalista é a burocracia. Como indica uma vasta literatura, o capitalismo neoliberal se legitimou ideologicamente como uma força desburocratizante, especialmente em oposição às hierarquias verticais de comando que caracterizavam economias planificadas como a da União Soviética, tomada como símbolo máximo de ineficiência institucional. Quando tal discurso antiburocrático é contrastado à experiência cotidiana da “maioria das pessoas que trabalham e vivem no capitalismo tardio” (ibid.: 38), entretanto, nota-se que a burocracia continua a ser uma parte muito significativa daquela experiência, ainda que tenha mudado sua forma de operação. Em vez do banimento da burocratização para um passado estalinista superado, o capitalismo tardio substitui a burocracia centralizada por uma influente burocracia descentralizada, a qual se manifesta em fenômenos tão variados quanto a proliferação de avaliações metrificadas (p.ex., pesquisas de satisfação com atendimento) e a responsabilização do próprio trabalhador individual por seu “metatrabalho” burocrático (p.ex., preenchimento de relatórios, atualização de currículos).
Capitalismo kafkiano; ou Kafkapitalismo
As considerações de Fisher sobre a burocratização da vida no capitalismo tardio, a despeito do antiburocratismo professado na propaganda neoliberal, se desdobram em inteligentes vislumbres de traços kafkianos nessa configuração social. Algo similar à “postergação indefinida” do próprio julgamento pelo sistema legal que Kafka descreveu em O processo se tornou, por exemplo, a condição instável de trabalhadores obrigados a dar provas sempre renovadas do seu próprio valor, com a educação e o treinamento se estendendo ao longo de uma vida (Ibid.: 45). As figuras kafkianas dos labirintos de diferentes instâncias burocráticas nas quais um indivíduo pode se ver preso, tendo como algozes indivíduos que também são vítimas capturadas nas malhas do mesmo sistema, também encontraram uma versão tardo-capitalista nos call centers. Vale a pena citar a longa passagem em que Fisher discute o tema, pois isso também permite transmitir um senso da voltagem inconfundível da prosa do autor, motivo pelo qual nenhum resumo substitui a leitura do texto mesmo:
“O mais próximo que a maioria de nós chega de ter uma experiência direta com o caráter descentralizado do capitalismo é durante o atendimento em um call center. Como consumidores no capitalismo tardio, habitamos cada vez mais duas realidades distintas: aquela em que os serviços funcionam normalmente, sem encrencas, e outra realidade inteiramente diferente, a do labirinto kafkiano enlouquecedor do telemarketing, um mundo sem memória, onde causa e efeito se conectam de maneiras misteriosas, insondáveis, no qual é um milagre que qualquer coisa aconteça e tende-se a perder as esperanças de retornar para o outro lado, onde as coisas parecem funcionar tranquilamente. O que melhor exemplificaria o fracasso do mundo neoliberal e suas relações públicas do que o call center? Mesmo assim, a universalidade das más experiências com o telemarketing não faz nada para desestabilizar a suposição corrente de que o capitalismo é realmente eficiente, como se os problemas com call centers não fossem as consequências sistêmicas de uma lógica do capital, na qual as organizações estão tão fixadas em obter lucros que sequer conseguem prestar o serviço.
A experiência do telemarketing destila a fenomenologia política do capitalismo tardio: o tédio e a frustração pontuados pelas relações públicas alegremente enlatadas; a repetição de detalhes aborrecedores para diferentes operadores (mal treinados e mal informados); a raiva acumulada que deve permanecer impotente porque não pode ter nenhum objeto legítimo, pois – como fica claro muito rápido para quem faz a ligação – não há ninguém que saiba o que fazer e ninguém que fará coisa alguma (mesmo que pudesse fazer). A raiva não pode ser mais que uma válvula de escape: é agressão no vazio, dirigida a alguém que é igualmente uma vítima, mas com quem é difícil estabelecer empatia. Assim como a raiva não possui nenhum objeto próprio, não terá efeito nenhum. Esta experiência de um sistema que não responde, que é impessoal, sem centro, abstrato e fragmentário, é a experiência mais próxima de um encontro com a estupidez artificial do capital em si mesmo” (Ibid.109-110).
Segundo Fisher, essa ausência de um centro conspiratorial, composto por atores concretos pessoalmente identificáveis, é um dos principais trunfos do capitalismo contra uma crítica de esquerda aos seus efeitos deletérios. Frente a esse obstáculo cognitivo, continua o autor, mesmo o reconhecimento de catástrofes econômicas, como a crise provocada pela bolha imobiliária em 2008, termina guiando analistas leigos e especializados não a uma investigação de suas raízes sistêmicas, mas aos malfeitos de agentes específicos no mercado (p.ex., Bernie Madoff) e, sobretudo, no governo (p.ex., déficits nos órgãos de fiscalização e controle). Dois mecanismos ideológicos e psíquicos estão em operação aqui:
- de um lado, uma tendência a atribuir aos governos um grau de responsabilidade moral muito maior pelo bem-estar coletivo do que aquele conferido a atores do mercado (p.ex., “repetidamente os governos conservadores e trabalhistas descobriram que quando dão poderes às empresas privadas, e essas empresas privadas vacilam feio, os eleitores culpam o governo, e não as empresas” [Ibid.: 107; trata-se de uma citação de James Meek por Fisher])
- de outro lado, uma propensão a só tornar fenômenos socioeconômicos inteligíveis pela identificação de agentes intencionais, o que torna analistas especializados e leigos incapazes de “aceitar que não haja controladores centrais, e que o mais parecido com um poder governante atual seja uma miríade de interesses nebulosos que exercem irresponsabilidade corporativa sem prestar contas” (Ibid.)
Diferentemente dos governantes no poder ou de tais ou quais empresários identificados como corruptos, o capitalismo, como estrutura impessoal, oferece um desafio ao nosso “inconsciente político” (Ibid.: 108), o qual esbarra na sua própria dificuldade de identificar um poder que não esteja atrelado a um personagem ou centro identificável.
E aqui transicionamos para os difíceis tempos pós-fisherianos: aquele tremendo desafio tornou mais fácil que uma extrema direita globalizante pudesse desviar ideologicamente o olhar de diversas vítimas do capitalismo para responsabilizar falsamente agentes (p.ex., imigrantes, “comunistas” [sic] etc.) que, diferentemente das estruturas sistêmicas capitalistas, são bem mais facilmente representáveis pelo “inconsciente político”. Fisher já preparava o terreno, assim, para a interpretação daquela dinâmica, mapeada por Wendy Brown, de formação de uma Internacional Fascista na década seguinte à publicação de Realismo capitalista.
Há mais – bem mais! – a discutir nesse livro, mas, por hoje, fica o tributo à memória de Fisher.
Volto a ele em breve.
Notas
[i] O exemplo zizekiano de Fisher não trata de críticas marxistas, como na ilustração que dei acima, mas na atitude mais “pós-moderna” do distanciamento irônico: “A ideologia capitalista em geral, sustenta Zizek, consiste precisamente em supervalorizar a crença – no sentido de atitude subjetiva interior — a despeito das crenças que exibimos e exteriorizamos em nossos comportamentos. Contanto que acreditemos (em nossos corações) que o capitalismo é mau, somos livres para continuar participando da troca capitalista” (Ibid.: 26-27).
Referências
FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Autonomia Literária, 2020.
JAMESON, Fredric. Postmodernism, or the cultural logic of late capitalism. Durnham, NC: Duke University Press, 1991.


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