NOTAS SOBRE A PANDEMIA – As virtudes do vírus, por Rocco Ronchi

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Por Rocco Ronchi
Tradução: Rodrigo Sartori Monteiro
Revisão: Marília Bueno

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É difícil resistir ao ímpeto da analogia quando se tenta dar sentido a um evento pandêmico destas proporções. Nas análises que acompanharam sua disseminação descontrolada, a covid-19 tornou-se uma espécie de metáfora generalizada, quase um precipitado simbólico da condição humana na pós-modernidade. O que aconteceu quarenta anos atrás com o HIV se repete na atualidade. A pandemia surge como um experimentum crucis, testando hipóteses que vão desde a política aos efeitos da globalização à transformação da comunicação na era da internet – atingindo os mais altos níveis de especulação metafísica. O isolamento, a desconfiança e a suspeita dos números de casos fazem do vírus ora “populista”, ora “republicanista”. As medidas de emergência impostas a nós parecem universalizar o “estado de exceção” que o presente herdou da teologia política do século XX, confirmando a tese foucaultiana de que o poder soberano na era moderna é biopolítico (um poder que está articulado na produção, gerenciamento e administração da “vida”). O caráter de anonimato do vírus remete às qualidades incorpóreas e intangíveis do capitalismo financeiro. Sua propagação veloz alude à natureza irrefletida e “viral” da comunicação online. E por último, mas não menos importante, ele simboliza nossa eterna condição humana. Caso tenhamos esquecido, o vírus está aqui para nos arrebatar de nossa posição de consumidores compulsivos e nos forçar a meditar sobre nossa natureza mortal, contingente, desejosa, ontologicamente faltante. Tais considerações são legítimas e, de fato, perfeitamente justificadas. Isso, entretanto, também é o defeito delas. Se elas fazem sentido, é precisamente por reduzir o desconhecido ao conhecido. Usam o vírus como a prova intuitiva que corresponde a uma expectativa que é teórica – para pôr em termos fenomenológicos. Para uma série de elucubrações acerca do vírus, covid-19 é antes o nome de um filme de ficção científica usado para legitimar um conhecimento prévio.

Apesar disso, se é verdade que o vírus possui as características de um evento (o que é difícil de negar), então ele também possui uma “virtude”. Eventos não são “fatos”, não se caracterizam, ao menos não exclusivamente, simplesmente por “acontecerem”. Diferentemente disso, possuem uma força, uma essência, um viço; em suma, eles produzem algo. Por esse motivo, um evento é sempre traumático – de tal modo que é possível dizer que, onde não há trauma, não há evento; onde não há trauma literalmente não aconteceu nada. O que, exatamente, os eventos fazem? Eles produzem transformações que até então nem sequer eram possíveis. Efetivamente, o evento começa apenas depois do ocorrido, quando possibilita transformações impremeditadas, e se particulariza por efetivamente gerar uma possibilidade outra. Possibilidade com o sentido de factível, exequível, apto a fazer algo, distinta da categoria abstrata de ser possível imaginar um mundo melhor. No nível pragmático, sem sucumbir à metafísica, possibilidade é apenas potência e potência nada mais é do que ação, atividade determinada. A “virtude” de um evento consiste em fornecer vias de ação que, “antes” dele, seriam impensáveis. Por conseguinte, um evento pode ser pensado a partir do futuro que ele gera (e não de seu passado), posto que transforma e traz em si uma possibilidade. O senso comum está correto quando diz que é preciso fazer da dificuldade uma oportunidade.

A covid-19 é recente demais para que possamos imaginar esse futuro outro, e o medo faz de nós testemunhas suspeitas. Entretanto, alguns sinais de mudança de paradigma geradas pelo vírus despontam; dentre elas, o desaparecimento da ideologia ligada aos muros. Sua pestilência chega num momento em que o planeta parecia concordar na crença de que a única resposta às “ameaças” impostas pela globalização consiste em erguer barreiras e reafirmar identidades. O populismo odeia livros, mas acredita dogmaticamente na primazia da cultura, entendida no sentido amplo do termo. Promove uma comunidade romântica, tradicional, saudosista. Essa comunidade, circunscrita por definição, tem como arqui-inimiga uma vaga abstração do cosmopolitismo. O que é ainda mais radicalmente alheio ao populismo é a natureza, que não passa de um recurso a ser gasto para o bem-estar da comunidade (basta pensar em Bolsonaro e devastação da Amazônia, em Trump e sua indiferença pelo aquecimento global, no ódio de Salvini pela Greta…). Populistas nunca duvidam que a humanidade é excepcional; pelo contrário, é sua profissão de fé. Eu diria mesmo que, se um populista beija a cruz, é justamente como evidência dessa excepcionalidade. Em questão de dias, com uma velocidade impressionante, o vírus nos obrigou, querendo ou não, a assumir – com ações quotidianas (lave as mãos) – os destinos da comunidade global e, mais ainda, os destinos da comunidade da humanidade com a natureza. Não foi a ação lenta e quase sempre ineficaz da educação que levou à superação do nosso preconceito culturalista e antropocêntrico. Bastou uma tosse para que de repente ficasse impossível evadir a responsabilidade que cada indivíduo tem para com todos os seres vivos, pelo simples fato de (ainda) fazer parte deste mundo, e de querer fazer parte dele.

Com a força objetiva de um trauma, o vírus mostra que o todo está sempre implícito nas partes, que “toda parte está, em certo sentido, em tudo”, e que na natureza não há regiões autônomas que possam arrogar exceção. Não há uma “natureza dentro de outra”, como Spinoza escreve, ridicularizando a pretensão de superioridade do “espírito” sobre a “matéria”. O monismo do vírus é selvagem e sua imanência, cruel. Se a cultura dessolidariza, constrói muros e rotula a diferença, se define gradações na participação da noção de humanidade, traçando limites entre “nós” e os “bárbaros”, o vírus nos conecta e nos impele a buscar soluções coletivas. Em tempos como este, ninguém imagina a possibilidade de se salvar sozinho, nem fazer isso sem envolver a natureza no processo. Muito se tem falado sobre a pandemia levar à criação de red zones, à reclusão doméstica e à militarização de territórios. Com efeito, é disso que se trata. Mas, neste caso, as muralhas de contenção têm um sentido totalmente diferente das que separam os ricos dos pobres. Um muro está se levantando para o outro, seja quem for ele ou ela. Em nossos tempos, o “vizinho”, o “próximo”, é radicalmente reduzido à dimensão de “qualquer um”. Um muro que segrega pessoas em restaurantes, substitui apertos de mão, agora impossíveis, com esse “qualquer um”. É um meio de comunicação não como um signo de exclusão. Isso é confirmado pelo fato da retórica fascista não ter sido capaz de se apropriar desses muros e utilizá-los como argumento de que sempre estiveram certos em suas propostas segregacionistas. Diante do imenso poder do vírus, tiveram que conter, ao menos temporariamente, sua arma mais poderosa.

Ainda é difícil afirmar quais efeitos o vírus terá na esfera pública. Um fato, porém, deve ser notado. O vírus parece restituir o primado que, no passado, pertenceu à política. O pensamento clássico usava uma metáfora para expressar esse primado – a imagem do comandante da nau navegando por mares tempestuosos. Os pensadores de então eram realistas: sabiam que não há um porto seguro para atracar e terminar a jornada. Navegar, eles diziam, é preciso, viver não é preciso. Essa “substância” que invade o político é da ordem do contingente, da fortuna que ameaça e arrebata o político com sua força indomável. A “virtude” política é, na prática, testar a força desse elemento, governá-lo com a astúcia (métis) e resiliência.

A política é o que é precisamente porque renuncia à ilusão “humana, demasiado humana” de que é possível apropriar-se da força dos elementos naturais, ilusão esta que, ao contrário, forma a base do sonho metafísico da humanidade “moderna”, que vê a relação com a natureza como uma guerra do espírito contra a matéria bruta. A primazia da política consiste em governar tais forças, o que não significa dominá-las. A natureza política desse governar é explicitada quando nos lembramos da fórmula cara a Platão: kata dynamin, até onde for possível para o humano. Sem dúvidas, é justamente essa hipótese moderna do domínio sobre a natureza que é ridicularizada por uma tosse em Wuhan, que faz com que seja necessário apelarmos à inteligência pragmática de um comandante de navio para governar, tanto quanto for possível, a espontaneidade deste processo que vai contra nossas intenções.    

A covid-19 também possui esta virtude: exorta a política à responsabilidade num contexto em que ela vem perdendo sua soberania para outras esferas, se tornando subordinada a elas e se limitando a um papel meramente técnico. Os gregos definiam a política como náutica, e após Wuhan a agenda estabelecida é a política, que precisa atravessar os mares revoltos do contágio viral progressivo e aparentemente incontrolável. O que há algumas semanas parecia uma reivindicação impraticável se tornou agora um lema: a política precisa ter precedência sobre a economia. É esta que deve ceder às necessidades do Príncipe, o verdadeiro incumbido do destino da tripulação.

Por fim, o vírus nos convida a refletir. Não penso, contudo, que o ponto desta reflexão seja a contingência do ser e a natureza precária das preocupações humanas. Não precisamos da covid-19 para meditarmos sobre nossa fragilidade. Essa ansiedade nunca chegou a desaparecer (a despeito do que os jornalistas continuam repetindo quando afirmam que, graças ao vírus, a humanidade estupidificada pela mídia – ou seja, por eles mesmos – “redescobre” sua insegurança ontológica).

Em vez disso, o vírus articula a existência, nossa e dos outros, como “destino”. Abruptamente nos sentimos arrebatados por algo que é onipotente e cresce silenciosamente em nossos órgãos, a despeito de nossa vontade. Estaria a liberdade comprometida com o ponto a que chegamos? A ideia de liberdade parece um tanto medíocre se confrontada com a inevitabilidade do que nos assola. Entre as virtudes do vírus, é preciso mencionar sua capacidade de produzir uma ideia mais sóbria de liberdade: a liberdade se conquista ao fazer algo do que o destino fez de nós. Ser livre é fazer o que é preciso ser feito em uma determinada situação. Isso não é mera abstração filosófica. Está materializado nos esforços de milhares de pessoas que, diariamente, se empenham com seriedade e dedicação para conter a propagação do vírus. 

*Este texto foi originalmente publicado no dia 14 de março de 2020 numa série de artigos intitulada “Coronavirus and philosophers”. Para ver a discussão na íntegra, acesse http://www.journal-psychoanalysis.eu/coronavirus-and-philosophers/

Para citar este post

RONCHI, Rocco. As virtudes do vírus. Tradução de Rodrigo Sartori. Blog do Sociofilo, 2020.  [publicado em 02 abril de 2020]. Disponível em:  https://blogdolabemus.com/2020/04/02/virtudes-do-virus-por-rocco-ronch

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