RESENHA: Nas ruínas do Neoliberalismo, por Camila Galetti

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Referência para resenha: BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente. São Paulo. Editora Politéia, 2019.

Por Camila Galetti[1]

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Publicado em 2019 em língua inglesa, traduzido para o português no mesmo ano, In the Ruins of Neoliberalism (Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente), de Wendy Brown, teórica política e professora na Universidade da Califórnia, elucida o esfacelamento do tecido social e a ascensão de uma ultradireita que tem como objetivo deslegitimar a democracia e tudo que está imbricado nela.

São diversos aspectos que poderiam ser ilustrados na obra de Brown, ainda mais pelo fato de estarmos vivenciando na política brasileira, a presença ostensiva da agenda e do discurso da ultradireita. Sabemos que esse contexto é resultado de um longo trabalho realizado por think tanks[2], atuantes nos anos 1980 e 1990 e consolidados nos anos 2000, e por instituições como a Atlas Network, a Foundation For Economic Freedom e o Cato Institute[3], instituições civis que integram a “militância libertariana” internacional e que têm como objetivo formar novos quadros políticos com viés ultraliberal.

Construindo uma narrativa que parte da análise da influência de Friedrich Hayek e Milton Friedman e do conceito de moralidade tradicional – dialogando com a obra de Melinda Cooper, Family values (2016) –, Brown apresenta um panorama de como o terreno foi preparado para a ascensão do que ela chama de ‘forças antidemocráticas’ nos Estados Unidos de forma violenta, atacando a lei, a cultura, a política e principalmente a subjetividade política.

Durante todo livro, a influência de Michel Foucault se faz presente, bem como as lacunas que a autora encontra nas análises foucaultianas sobre o neoliberalismo ou, como chamaria o próprio Foucault, a “reprogramação do liberalismo”. Wendy Brown pontua, na parte introdutória do livro, o quanto “o entusiasmo popular com os regimes autocráticos, nacionalistas e em alguns casos neofascistas, abastecidos pela disseminação de mitos e pela demagogia, afasta-se tão radicalmente dos ideais neoliberais” (BROWN, 2019, p.18).

A autora também tenta equacionar a teoria marxista em suas análises, o que ela já havia feito em outro livro, Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth (2015), onde se debruçou nos processos de fenecimento da democracia. Na aludida obra, Brown deixa explícita a intenção de trazer certas “dimensões da análise de Marx do capitalismo à apreciação foucaultiana da razão neoliberal para gerar uma rica explicação da desdemocratização neoliberal” (BROWN, 2015, p. 77). Em seu livro mais recente, a que esta resenha é dedicada, ela deixa claro que a sua intenção é pensar para além dos argumentos de Undoing the Demos, no qual ela caracterizava a racionalidade neoliberal, que é capaz de criar um mundo, como uma racionalidade direcionada exclusivamente para o fim de “economicizar” (economize) todos os aspectos da existência, das instituições democráticas à subjetividade (BROWN, 2019, p.16).

O livro de Brown está dividido em cinco capítulos. Nos três primeiros, a estadunidense destrincha o processo de desmantelamento do tecido social a partir da implementação das prescrições de Hayek, Friedman e dos ordoliberais, bem como as reconfigurações da nação tendo como fio condutor a partir da família e da empresa privada.

Na segunda parte, que compreende os capítulos quatro e cinco, Brown traz exemplos de como os cristãos de matriz protestante têm se expressado na jurisprudência neoliberal dos Estados Unidos, assim como exemplos de casos em que suas pautas rivalizam diretamente com pautas LGBTTs. Ela nos conta a história de um casal de homens homossexuais que se deparou com um confeiteiro que se negou a fazer o bolo de casamento deles, e dos desdobramentos de todo esse processo na esfera jurídica jurisprudencial.

Já no quinto e último capítulo, a autora concentra-se em discutir conceitos caros ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche, como o niilismo, a dessublimação e o ressentimento, na tentativa de analisar os indivíduos que compõem ou se identificam com a ultradireita, que possuem discursos conservadores e que comumente estão atrelados à masculinidade, branca, ferida.

Apesar de analisar o contexto norte-americano durante as eleições de Donald Trump em 2016, do quanto a figura dele surgiu de certa forma como resposta a todas as ascensões de pautas progressistas e que reivindicam padrões mínimos de justiça social e respeito aos direitos humanos, o que a autora apresenta nos dá subsídios para pensar a atual conjuntura na América Latina e em alguns países da Europa, tais como França, Áustria, Holanda e Alemanha – países estes que são governados por líderes atrelados à extrema direita ou, ao menos, onde houve uma ascensão de lideranças política desse viés.

Os pilares que sustentam as ascensões neoconservadoras encontram-se na moralidade, na antidemocracia, nos desmontes da solidariedade social e orientam-se por lógicas neofascistas, neoconservadoras, racistas e masculinistas.

O desafio de Brown em seu livro é compreender como um dos maiores projetistas do neoliberalismo, o economista austríaco Hayek, pensava e idealizava os indivíduos dentro das chaves de moralidade e de liberdade, e como essa influência se manifesta atualmente. Com a leitura do livro, pode-se afirmar que os tempos atuais são tempos neohayekianos – ou apenas uma espécie de bricolagem das ideias que ele defendia por congregar elementos de conservadorismo que destoam dos preceitos defendidos por Hayek.

Embora tenha se detido de forma exacerbada na compreensão de como Hayek e Milton Friedman têm sido mobilizados pela ultradireita, prendendo-se nos ideários de ambos, nem por isso o trabalho de Wendy Brown diminui em relevância; afinal, não se pode negar a paternidade da ultradireita exercida por esses autores – o que vislumbramos hoje, principalmente, quando olhamos para o mercado e a sua moralidade.

A discussão da moralidade é pontuada por Brown desde o início do livro como um fator preponderante para a compreensão de como se consolidou o neoconservadorismo nos Estados Unidos. A autora se preocupa em mapear como se dá a moralidade tradicional e para quais finalidades ela serve. Uma de suas funções é de a luta e a pauta pelo combate às desigualdades como, por exemplo, assegurar a liberdade reprodutiva das mulheres ou desmantelar a iconografia pública que celebra um passado escravocrata (p. 24).

Sem dúvida, a família e a religião são os fios condutores dos discursos e percepções da moral pretendida pelos neoconservadores. O núcleo familiar torna-se uma arma potente na tentativa de destruir quaisquer valores que supostamente rivalizem com os seus. De acordo com essa lógica, a família funciona como rede de proteção, reservatório de disciplina e estrutura de autoridade (BROWN, 2019, p.114). Ela é vista como um possível entrave aos excessos da democracia e das minorias. Assim, fica claro que um dos focos desse neoconservadorismo é a destruição de qualquer coisa que faça alusão à justiça social.

Na análise que Brown nos propõe da realidade norte-americana, evangélicos estão na linha de frente da consolidação do neoconservadorismo, principalmente com sua defesa da influência do âmbito privado na moralidade pública, onde todas as saídas e justificativas estão atreladas à moral cristã – uma espécie de teocracia sem de fato sê-lo. Suas práticas, baseadas na religião, organizam legitimamente a vida comercial, pública e social (BROWN, 2019, p.154). Segundo a autora, a moralidade em questão aqui é ressentida, manifesta frustrações e a tentativa da retomada do que um dia esteve em vigência, e é pautada – como já foi mencionado – pela chave da religiosidade. Para ela, o ressentimento é um tipo de afeto. E os afetos estão sendo retomados para se pensar a conjuntura política e social nos últimos anos por diversos intelectuais, tais como Vladimir Safatle, Fréderic Lordon, Eva Illouz, etc., principalmente a partir do ódio e do amparo/desamparo, na tentativa de compreensão da ascensão da ultradireita e dos ataques que a democracia vem sofrendo nas últimas décadas.

Jacques Rancière, em seu livro O ódio à democracia (2014), apontou que não há nada de novo e revelador no sentimento antidemocrático, ao ressaltar as contradições do Estado democrático. Segundo o pensador francês, o ódio à democracia, no atual contexto, tem se apresentado como o ódio ao povo e seus costumes – à sociedade que busca a igualdade, o respeito às diferenças e o direito das minorias –, e não às instituições que dizem encarnar o poder do povo. O sentimento de ódio, segundo Rancière, pode ser bom quando mobiliza os indivíduos apáticos da sociedade democrática para que venham defender os valores da civilização. Já na obra de Brown, outros fatores do ressentimento são enfatizados. Ela não parte da mesma perspectiva de Rancière e, apesar de não se aprofundar no tema de como os afetos estão atrelados ao neoconservadorismo e à ascensão da ultradireita, a autora se propõe a discutir os afetos pela chave do ressentimento quando pensa a branquitude e a masculinidade.

Nesse sentido, o ressentimento é o que mobiliza os indivíduos. Para que seja possível a compreensão de tal conceito, fica evidente o quanto Nietzsche é fundamental. Embora ele não inaugure na filosofia a palavra “ressentimento”, o filósofo alemão é o primeiro que se propõe a pensá-lo de forma ampla e abrangente, congregando num mesmo conceito as ideias de fraqueza fisiológica, de indigestão psíquica e de problema social. Na proposta de análise de Brown, tudo se passe como se o ressentimento – pela ótica nietzschiana – fosse a verdadeira motivação dos indivíduos que se sentem destronados pela esquerda, por fatores produzidos pela democracia, pela ascensão da visibilidade de mulheres na luta por equidade de gênero, por serem confrontados ao exporem opiniões machistas, homofóbicas ou racistas. Em outros termos, o ressentimento se expressa na tentativa de fazer a mulher voltar para a cozinha, o negro para a condição de escravo e o homossexual para o armário.

O populismo de direita hoje, segundo Brown, nasce do ressentimento de classe ou de outros tipos de ressentimento, como é o caso da raiva do masculinismo branco destronado (BROWN, 2019, p.217). Ainda sobre a influência de Nietzsche na obra da norte-americana, ela aparece quando a autora analisa a paixão e o prazer que estão envolvidos em trollar, encerrar, acabar com alguém ou com grupos, o que Nietzsche chamou de destruição da vontade simplesmente para sentir seu poder quando a afirmação do mundo não está disponível (p. 209).

Essa dessublimação permite que o que antes poderia ser encarado como vergonhoso de se dizer, expressar, hoje torne-se permitido, pois há um aval para que seja dito, externalizado, e a moralidade ressentida se manifesta justamente nesse movimento. Um exemplo evidente sobre esse aspecto são as repercussões das polêmicas em que se envolvem lideranças de direita e conservadoras. A impressão que fica é a de que tais polêmicas são minimizadas quando os atores são de grupos neoconservadores. Esses elementos ficam evidentes quando Brown elucida o caso polêmico em que Trump teria se envolvido em casos de agressão a postulantes a Miss Universo nos Estados Unidos, inclusive menores de idade (BROWN, p. 212). A moralidade, nesse contexto, fica desvalorizada.

Para Wendy Brown, a moralidade proposta e praticada por esses grupos neoconservadores, tem como finalidade instaurar uma cultura antidemocrática a fim de que desapareçam os espaços de igualdade, equidade, cuidado cívico que a democracia exige e reivindica, se distanciando assim da conceitualização de moral proposta pelos precursores do neoliberalismo – Hayek e Friedman. O divórcio com estes é nítido quando observamos as características do neoliberalismo e neoconservadorismo praticado nos Estados Unidos ou até mesmo em outros países, como o Brasil. Podemos até afirmar que, na realidade brasileira, Jair Bolsonaro tem como modelo Donald Trump, a quem exalta e em quem se espelha ao mesmo tempo.

Por fim, a questão que sobressai entre as análises da teórica política no livro é a tentativa de desvelar como a economia política molda a subjetividade, num cenário de pós-financeirização e crise, baseado em lógicas mercantis de empreendimento equacionado com a moralidade e com o ressentimento.

As lentes teórico-metodológicas propostas por Brown não nos permitem pensar em possíveis saídas para a ascensão da política antidemocrática no Ocidente, o que talvez possa ser considerado uma falha no fim de sua obra, mais precisamente quando volta a ressaltar o quanto “a nação, a família, a propriedade e as tradições que reproduzem privilégios raciais e de gênero” (p.228) e são produtos de resquícios afetivos ativados. Apesar de sabermos que o cenário de crise econômica, política, cultural nos Estados Unidos é uma realidade, Brown não sinaliza possíveis respostas ou estratégias de destronamento do neoliberalismo para enfrentarmos a complexidade dessa crise, bem como a “antidemocracia” instaurada. No entanto, apesar de não apresentar respostas e alternativas concretas, a obra de Wendy Brown nos dá condições para pensar de forma rica, eloquente e elaborada a atual conjuntura e o neoconservadorismo, o que torna a sua leitura necessária, gerando mais inquietações sobre um tema que a obra está longe de ter esgotado.

Referências bibliográficas:

BROWN, Wendy. Undoing the Demos: Neoliberalism’s Stealth Revolution. New York: Zone Books, 2015.

_____________. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no ocidente. São Paulo. Editora Politéia, 2019.

RANCIÉRE, Jacques. O ódio à democracia, São Paulo, Editora Boitempo, 2014.

Notas:

[1] Mestra e Doutoranda em Sociologia pela Universidade de Brasília (UnB).

[2]Instituições de pesquisa e/ou divulgação de ideias que procuram informar e influenciar instâncias governamentais e a opinião pública no que tange à adoção de determinadas políticas públicas.

[3] A cientista política Camila Rocha em sua tese defendida em 2019 na Universidade de São Paulo, intitulada de “Menos Marx, mais Mises: Uma gênese da nova direita brasileira (2006-2018)”, apresenta como se dá a atuação dessas instituições norteamericanas articuladas com mais de quatrocentos think tanks de direita na América Latina.

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