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Fazer justiça a alguém, por Judith Butler

Por Judith Butler

Tradução Diogo Silva Corrêa

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Tradução do artigo: Butler, Judith. “Doing Justice to Someone: Sex Reassignment and Allegories of Transsexuality.” GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies, vol. 7 no. 4, 2001, p. 621-636.

Gostaria de partir de uma questão de poder, o poder de regulação, um poder que determina, mais ou menos, o que nós somos, o que podemos ser. Não estou falando de poder apenas num sentido jurídico ou positivo, mas estou referindo-me ao funcionamento de um certo regime regulador, que informa a lei, e que também excede a lei. Quando perguntamos quais são as condições de inteligibilidade pelas quais o humano emerge, pelas quais o humano é reconhecido, pelas quais algum sujeito se torna sujeito do amor humano, estamos perguntando sobre as condições de inteligibilidade compostas de normas, de práticas, que se tornaram pressupostas, sem as quais não podemos de modo algum pensar o humano. Assim, proponho abordar a relação entre as ordens variáveis de inteligibilidade e a gênese e a dimensão passível de ser conhecida do humano. E não é apenas que existem leis que regem a nossa inteligibilidade, mas formas de saber, modos de verdade que forçosamente definem a inteligibilidade.

Isso é o que Foucault descreve como a política da verdade, uma política que diz respeito às relações de poder que circunscrevem de antemão o que vai e não vai contar como verdade, que ordenam o mundo de certas formas regulares e reguláveis, e que passamos a aceitar como o campo dado de conhecimento. Podemos compreender a importância desse ponto quando começamos a perguntar: o que conta como pessoa? O que conta como um gênero coerente? O que é que se qualifica como cidadão? Que mundo é legitimado como real? Subjetivamente, perguntamos: em quem posso me tornar num mundo em que os significados e limites do sujeito são estabelecidos de antemão para mim? Por que normas me sinto constrangido quando começo a perguntar no que me posso tornar? O que acontece quando começo a me tornar naquilo para o qual não há lugar num dado regime da verdade? Isso é o que Foucault descreve como “a desobediência do sujeito no jogo da … a política da verdade “[1].

Outra forma de colocar isso é a seguinte: o que, dada a ordem do ser contemporânea, eu posso ser? E essa forma de colocar a questão, que é a de Foucault, não aborda bem a questão do que não é – ou o que é – ocupar o lugar do não-ser dentro do campo do ser, do viver, do respirar, do tentar amar, como aquilo que não é nem totalmente negado, nem totalmente reconhecido como ser, reconhecido, poderíamos dizer, como parte do ser. Essa relação, entre inteligibilidade e o humano, é urgente; ela carrega uma certa urgência teórica, precisamente nos pontos em que o humano é encontrado nos limites da própria inteligibilidade. Gostaria de sugerir que esse interrogatório tem algo de importante a fazer com a justiça. Uma vez que a justiça não é apenas ou exclusivamente uma questão de como as pessoas são tratadas, de como as sociedades são constituídas, mas também emerge nas decisões bastante consequentes sobre o que uma pessoa é, que normas sociais devem ser honradas e expressas para que a sua condição de pessoa seja atribuída, como fazemos ou não reconhecemos outros seres animados como pessoas, dependendo se reconhecemos ou não uma determinada norma manifesta no e pelo corpo desse outro. O próprio critério pelo qual julgamos uma pessoa como sendo um ser dotado de gênero, um critério que coloca o género coerente como pressuposto de humanidade, não é apenas um critério que, justa ou injustamente, governa o reconhecimento do humano, mas um critério que informa as formas como nós nos reconhecemos ou não, no nível dos sentimentos, do desejo e do corpo, nos momentos antes do espelho, nos momentos antes da janela, nos momentos em que recorremos a psicólogos, a psiquiatras, a profissionais médicos e jurídicos para negociar o que bem se pode sentir como irreconhecível do próprio gênero e, portanto, da sua própria condição de pessoa.

Eu quero considerar o caso legal e psiquiátrico de uma pessoa que foi designada, sem dificuldade, um menino no momento do nascimento, depois foi designada novamente, dentro de alguns meses, como uma menina, e então decidiu se tornar um homem em sua adolescência. Esse é o caso John / Joan, trazido à atenção do público pela British Broadcasting Corporation no início dos anos 1990 e, recentemente, em várias revistas populares, psicológicas e médicas[2]. Basearei minha análise em um artigo coescrito por Milton Diamond, um endocrinologista, e o popular livro As Nature Made Him, de John Colapinto, jornalista da Rolling Stone, bem como no trabalho de John Money, nos comentários críticos de Anne Fausto-Sterling e Suzanne J. Kessler, em seus livros importantes e recentes, e em um relato de jornal escrito por Natalie Angier[3]. John, pseudônimo de um homem que mora em Winnipeg, nasceu com cromossomos XY. Quando ele tinha oito meses de idade, seu pênis foi acidentalmente queimado e cortado durante uma operação cirúrgica de correção de fimose, uma condição em que o prepúcio impede a micção. Esse procedimento é relativamente isento de riscos, mas o médico que o realizou em John estava usando uma máquina nova, aparentemente uma que ele não tinha usado antes, que seus colegas declararam ser desnecessária para o trabalho, e ele estava tendo problemas para fazê-la funcionar; então, ele aumentou a potência da máquina a ponto de queimar uma grande parte do pênis. Os pais de John, é claro, ficaram chocados e, de acordo com a própria descrição deles, não sabiam como proceder.

Numa noite, cerca de um ano depois, eles estavam assistindo televisão e lá encontraram Money falando sobre cirurgia transexual e intersexual e defendendo a tese de que se uma criança fosse submetida a uma cirurgia e começasse a socialização num gênero diferente daquele originalmente atribuído no nascimento, ele ou ela poderia se desenvolver normalmente, se adaptar perfeitamente bem ao novo gênero e viver uma vida feliz. Os pais escreveram para Money, que os convidou para ir a Baltimore, e então John foi visto na Universidade Johns Hopkins, momento em que Money recomendou fortemente que ele fosse criado como uma menina. Os pais concordaram e os médicos removeram os testículos de seu filho, fizeram alguns preparativos preliminares para a cirurgia para criar uma vagina, mas decidiram esperar até que Joan, a criança recém-nomeada, ficasse mais velha para completar a tarefa. Então, Joan cresceu como uma menina, foi monitorada com frequência e foi transferida periodicamente para o Instituto de Identidade de Gênero de Money, com o objetivo de promover sua adaptação à infância. E então, é relatado que, entre as idades de oito e nove anos, Joan começou a desenvolver o desejo de comprar uma metralhadora de brinquedo. E então, dizem, entre as idades de nove e onze anos, ela começou a perceber que não era uma menina. Essa constatação parece ter coincidido com seu desejo de comprar certos tipos de brinquedos: mais armas, aparentemente, e alguns caminhões. Mesmo sem pênis, Joan gostava de ficar em pé para urinar. E ela foi pega nessa posição uma vez, na escola, onde as outras meninas ameaçaram “matá-la” se ela continuasse a fazê-lo.

Nesse ponto, as equipes psiquiátricas que monitoraram intermitentemente a adaptação de Joan ofereceram a ela estrogênio, o que foi por ela recusado. Money tentou falar com Joan sobre conseguir uma vagina de verdade, mas ela também recusou; na verdade, ela saiu gritando da sala. Money a fazia ver imagens sexualmente gráficas de vaginas. Ele chegou a mostrar a Joan fotos de mulheres dando à luz, sugerindo a possibilidade dela dar à luz se adquirisse uma vagina. Em uma cena, que poderia ter inspirado o filme recente, But I’m a Cheerleader [Mas eu sou uma líder de torcida], Money também exigiu que Joan e o irmão fizessem exercícios de coito simulado um com o outro, sob comando. Posteriormente, os dois relataram terem ficado assustados e desorientados com essa demanda e não contaram aos pais na ocasião. Diz-se que Joan preferia atividades masculinas e não gostava de desenvolver seios. Todas essas alegações foram atribuídas a Joan por outro conjunto de médicos, uma equipe de psiquiatras de seu hospital local. Esses psiquiatras e outros profissionais médicos locais intervieram, acreditando que um erro na redesignação do sexo tinha sido cometido. Por fim, o caso foi reanalisado por Diamond, um pesquisador de sexos que acredita na base hormonal da identidade de gênero e que há anos lutava contra o Money. Esse novo conjunto de psiquiatras e outros médicos ofereceu a Joan a escolha de mudar de caminho, o que ela aceitou. Ela começou a viver como um menino, chamado John, aos quatorze anos. John solicitou e recebeu injeções de hormônios masculinos; ele também teve seus seios removidos. Um falo, assim chamado por Diamond, foi construído para ele entre as idades de quinze e dezesseis anos. John não ejaculava; ele sentia algum prazer sexual no falo; ele urinava de sua base. Assim, ele apenas se aproximou de algumas de suas funções esperadas e, como veremos, Diamond insere John apenas de forma ambivalente na norma.

Durante o tempo em que John era Joan, Money publicou artigos exaltando o sucesso dessa redesignação de sexo. O caso teve consequências enormes porque Joan era uma gêmea idêntica e, portanto, Money podia rastrear o desenvolvimento de ambos os irmãos enquanto controlava a composição genética. Ele insistiu que ambos estavam se desenvolvendo de maneira normal e feliz em seus respectivos gêneros. Mas suas próprias entrevistas gravadas, principalmente não publicadas, e pesquisas subsequentes colocaram sua honestidade em questão. Joan raramente ficava feliz, recusou-se a se adaptar a muitos dos chamados comportamentos femininos e ficou irritada com os interrogatórios invasivos e contínuos de Money. No entanto, os registros publicados pela Johns Hopkins afirmam que a adaptação de Joan à infância foi bem-sucedida, e certas conclusões ideológicas se seguiram imediatamente. O Instituto de Identidade de Gênero de Money, que monitorou Joan com frequência, afirmou que seu desenvolvimento bem-sucedido como uma menina “oferece evidências convincentes de que o portão de identidade de gênero está aberto no nascimento para uma criança normal, não menos do que para aquela nascida com órgãos sexuais inacabados ou que no pré-natal foi super ou subexposta ao andrógeno, e que permanece aberto pelo menos por mais ou menos um ano após o nascimento”[4]. De fato, o caso foi usado pelos meios de comunicação para provar que o que é feminino e o que é masculino pode ser alterado, que esses termos culturais não têm significado fixo ou destino dado pelo interior. Até mesmo Kate Millett citou o caso ao argumentar que a biologia não é destino. Kessler também se aliou a Money em seus ensaios em favor da tese construtivista social[5]. Posteriormente, Kessler negaria sua aliança e escreveria um dos livros mais importantes sobre as dimensões éticas e médicas da redesignação sexual, Lessons from the Intersexed [Lições dos intersexuados], que inclui uma crítica incisiva a Money.

A abordagem de Money foi recrutar transexuais homem-mulher para conversar com Joan sobre as vantagens de ser uma menina. Ela foi submetida a uma miríade de entrevistas e foi questionada repetidamente se se sentia como uma menina, quais eram seus desejos, qual era sua imagem de futuro, se incluía o casamento com um homem. Ela também foi solicitada a se despir e mostrar seus órgãos genitais aos médicos que estivessem interessados ​​no caso ou que estivessem monitorando o seu sucesso de adaptação.

Quando esse caso foi discutido na imprensa recentemente, e quando psiquiatras e outros médicos se voltaram para ele, eles o fizeram para criticar o papel que o instituto de Money desempenhou e, em particular, sua prontidão para usar o exemplo de Joan para substanciar suas próprias crenças teóricas sobre a neutralidade de gênero na primeira infância, sobre a maleabilidade do gênero, sobre o papel primordial da socialização na produção da identidade de gênero. Na verdade, isso não é exatamente tudo em que Money acredita, mas não vamos investigar essa questão aqui. Os indivíduos que criticam este caso acreditam que ele nos mostra algo muito diferente. Quando consideramos, eles argumentam, que John se sentiu profundamente inclinado a se tornar um menino e achou insuportável continuar vivendo como uma menina, temos que considerar também que John experimentou algum senso de gênero profundamente arraigado, ligado a seu conjunto original de genitais, uma verdade interna e uma necessidade que nenhuma carga de socialização poderia reverter. Essa é a visão de Colapinto e de Diamond.

Agora, portanto, o caso de Joan / John está sendo usado para fazer uma revisão e uma reversão na teoria do desenvolvimento gênero, fornecendo evidências dessa vez que vão contra a tese de Money, sustentando a noção de um núcleo essencial de gênero ligado de alguma forma irreversível à anatomia e a um sentido determinístico da biologia. Na verdade, Colapinto liga claramente a crueldade de Money para com Joan à “crueldade” da teoria da construção social, observando que a recusa de Money em identificar uma base biológica ou anatômica para a diferença de gênero no início dos anos 1970 “não foi perdida pelo então florescente movimento das mulheres, que vinha argumentando contra uma base biológica para diferenças de sexo por décadas”. Colapinto afirma que os ensaios publicados de Money “já haviam sido usados ​​como uma das principais bases do feminismo moderno”. Ele afirma que a Time se envolveu em uma apropriação igualmente equivocada dos pontos de vista de Money quando argumentou que esse caso, nas próprias palavras da revista, “fornece um forte apoio para uma importante contenção das mulheres liberacionistas: que os padrões convencionais de comportamento masculino e feminino podem ser alterados”[6].  De fato, Colapinto fala sobre o fracasso de indivíduos redesignados cirurgicamente para viver como mulheres e homens “normais” e “típicos”, argumentando que a normalidade nunca é alcançada e, portanto, assumindo o valor indiscutível da própria normalidade.

Referindo-se à refutação da teoria de Money, Natalie Angier afirma que a história de John tem “a força da alegoria”[7]. Mas que força é essa? E seria isso uma alegoria com encerramento? Angier relata que Diamond usou o caso para apresentar um argumento sobre a cirurgia intersexual e, por implicação, o sucesso relativo da cirurgia transexual. Diamond argumentou, por exemplo, que bebês intersexuados, isto é, aqueles nascidos com atributos genitais mistos ou indeterminados, geralmente têm um cromossomo Y, e que a posse do Y é uma base adequada para concluir que eles devem ser criados como meninos. Desse modo, a grande maioria dos bebês intersexuados é submetida a cirurgias que procuram designá-los no sexo feminino, pois, como Cheryl Chase aponta no artigo de Angier, é simplesmente considerado mais fácil produzir um trato vaginal provisório do que construir um falo. Diamond argumentou que a essas crianças deveria ser atribuído o sexo masculino, uma vez que a presença do cromossomo Y é motivo suficiente para a presunção de masculinidade social.

Na verdade, Chase, fundador e diretor da Sociedade Intersexo da América do Norte, expressou ceticismo sobre as recomendações de Diamond. Sua opinião, também recentemente defendida por Fausto-Sterling, é que não há razão para fazer uma designação sexual; a sociedade deve abrir espaço para os intersexuais como eles são e cessar a “correção” cirúrgica coercitiva de bebês[8]. De fato, pesquisas recentes têm mostrado que tais operações têm sido realizadas sem que os pais saibam, sem que as próprias crianças sejam verdadeiramente informadas e sem terem atingido a idade de consentimento. Mais surpreendente, de certa forma, é o estado em que seus corpos têm sido deixados, com mutilações realizadas e então paradoxalmente racionalizadas em nome de “parecer normal”. Os médicos costumam dizer aos pais que a criança não parecerá normal se não for operada; que a criança passará vergonha no vestiário, no vestiário, este local de ansiedade pré-puberdade, onde se passam desenvolvimentos de iminentes de gênero; e que seria melhor para a criança parecer normal, mesmo quando tal cirurgia pudesse privá-la da função sexual e do prazer sexual para o resto da vida.

Assim, enquanto alguns especialistas, como Money, afirmam que a ausência do falo completo justifica a defesa social da criação da criança como menina, outros, como o Diamond, argumentam que a presença do cromossomo Y é o fato mais convincente ou, o que está indexado em sentimentos persistentes de masculinidade, que ele não pode ser construído. Assim, por um lado, como a anatomia parece, a forma como ela aparece, para os outros e para mim próprio enquanto vejo outros a olharem para mim, é a base da minha identidade social como mulher ou como homem. Por outro lado, é um fator decisivo como a presença do Y estrutura tacitamente o meu sentimento e o meu auto-entendimento como pessoa sexuada. Money defende a facilidade com que um corpo feminino pode ser construído cirurgicamente, como se a feminilidade fosse sempre pouco mais do que uma construção cirúrgica, uma eliminação, um corte. Diamond defende a persistência invisível e necessária da masculinidade, que não precisa “aparecer” para poder funcionar como a característica chave da identidade de género. Quando Angier pergunta a Chase se ela concorda com as recomendações de Diamond sobre cirurgia intersexual, Chase responde: “Eles não podem conceber deixar alguém sozinho”. De fato, será a cirurgia realizada para criar um corpo “normal” – parecendo, afinal, um corpo? As mutilações e cicatrizes que permanecem dificilmente oferecem provas convincentes de que isso é obtido. Ou serão esses corpos sujeitos a maquinaria médica que os marca para toda a vida precisamente porque são “inconcebíveis”?

Outro paradoxo que emerge aqui é o lugar das máquinas afiadas, da tecnologia da faca, nos debates sobre intersexualidade e transexualidade. Se o caso John/Joan é uma alegoria, ou tem a força da alegoria, é porque parece ser o local onde convergem os debates sobre intersexualidade (John não é um intersexual) e transexualidade (John não é um transexual). Esse corpo torna-se um ponto de referência para uma narrativa que não é sobre este corpo, mas que se agarra ao corpo, por assim dizer, para inaugurar uma narrativa que interroga os limites do concebivelmente humano. O que é inconcebível é concebido uma e outra vez, através de meios narrativos, mas alguma coisa permanece fora da narrativa, um momento resistente que assinala uma inconcebilidade persistente.

Apesar das recomendações da Diamond, o movimento intersexo foi galvanizado pelo caso Joan/John; ele é agora capaz de chamar a atenção do público para a brutalidade, a coercitividade e para os danos duradouros das cirurgias indesejadas realizadas em bebês intersexo. O objetivo é tentar imaginar um mundo em que indivíduos com atributos genitais mistos ou indeterminados possam ser aceitos e amados sem terem de passar por uma transformação numa versão socialmente mais coerente ou normativa do género. Neste sentido, o movimento intersexo tem procurado perguntar por que razão a sociedade mantém o ideal do dimorfismo de género quando uma percentagem significativa de crianças é cromossomicamente variada, e existe um continuum entre masculino e feminino que sugere a arbitrariedade e falsidade do dimorfismo de género como um requisito prévio do desenvolvimento humano. Há humanos, em outras palavras, que vivem e respiram nos interstícios dessa relação binária, mostrando que ela não é exaustiva, não é necessária. Embora o movimento transexual, que é internamente diverso, tenha exigido direitos a meios cirúrgicos através dos quais o sexo pudesse ser transformado, é claro – e Chase sublinha – que existe também uma crítica séria e cada vez mais popular ao dimorfismo idealizado do género no próprio movimento transexual. Pode-se vê-lo no trabalho de Riki Anne Wilchins, cuja teoria do género abre espaço para a transexualidade como um exercício transformador, mas pode-se vê-lo mais dramaticamente no trabalho de Kate Bornstein, que argumenta que passar de feminino para masculino, ou de masculino para feminino, não é necessariamente ficar dentro do quadro binário do género, mas sim fazer da própria transformação o significado de género[9]. De certa forma, Bornstein carrega agora o legado de Simone de Beauvoir: se uma pessoa não nasce mulher, mas torna-se uma, então tornar-se é o veículo para o próprio género.

Mas porque é que, podemos perguntar, John se tornou a ocasião para uma reflexão sobre a transexualidade? Embora John venha a afirmar que prefere ser homem, não é claro se ele próprio acredita na força causal primária do cromossomo Y. Diamond encontra apoio para a sua teoria em John, mas não é claro, com base na minha leitura, que John concorda com Diamond. John claramente conhece os hormônios, ele os pediu e os tomou. Ele aprendeu, nos contextos transexuais, sobre a construção fálica, ele quer um falo, fê-lo um, e assim alegoriza uma certa transformação transexual sem precisamente exemplificá-la. Ele é, na sua própria opinião, um homem nascido homem, castrado por um estabelecimento médico, feminizado pelo mundo psiquiátrico, e depois habilitado a regressar a quem ele era. Mas para regressar a quem ele é, ele necessita – e quer – hormônios e cirurgia. Ele alegoriza a transexualidade para alcançar uma sensação de naturalidade. E essa transformação é aplaudida pelos endocrinologistas do caso, uma vez que entendem que a sua aparência agora está de acordo com uma verdade interior. Ao passo que o instituto de Money reúne transexuais para instruir Joan nos caminhos das mulheres, e em nome da normalização, os endocrinologistas prescrevem a John o protocolo de mudança de sexo da transexualidade, para que ele reassuma o seu destino genético, em nome da natureza.

E embora o instituto Money reúna transexuais para alegorizar a plena transformação de Joan numa mulher, os endocrinologistas propõem a cirurgia transexual apropriada, a fim de construir o falo que tornará John um homem mais legível. Mais importante para Money, ao que parece, são as normas que regem o género inteligível, e essas normas são aquelas que podem ser impostas à força e apropriadas comportamentalmente, em função da maleabilidade da construção do género; esse raciocínio, que faz parte da tese de Money, exige uma aplicação forçada. E a “natureza” que os endocrinologistas defendem também precisa de assistência e aumento através de meios cirúrgicos e hormonais, uma certa intervenção não natural na anatomia e na biologia sendo precisamente o que é exigido pela natureza Assim, em cada caso, a premissa primária é de certa forma refutada pelos meios através dos quais é implementada. A maleabilidade é, por assim dizer, violentamente imposta, e a naturalidade é induzida artificialmente. Há formas de argumentar em favor da construção social que nada têm a ver com o projeto de Money, mas não é esse o meu objetivo aqui. E há, sem dúvida, formas de procurar recorrer a determinantes genéticos que não conduzem ao mesmo tipo de conclusões intervencionistas a que Diamond e Sigmundson chegaram. Mas este também não é precisamente o meu ponto de vista. Para que conste, porém, consideremos que as prescrições a que estes fornecedores de microrganismos e géneros normativos chegaram de modo algum decorrem necessariamente das premissas a partir das quais eles começam, e que as premissas com as quais eles começam não têm qualquer necessidade em si. (Poder-se-ia muito bem desvincular a teoria da construção do género, por exemplo, da hipótese da normatividade do género e ter um relato muito diferente da construção social oferecida por Money; poder-se-ia admitir a influência de fatores genéticos sem assumir que são o único aspecto da natureza que se poderia consultar para compreender as características sexuadas de um humano: por que é que o cromossomo Y é considerado o determinante primário da masculinidade, exercendo os direitos de preferência sobre todo e qualquer outro fator?)

Mas o meu objetivo ao contar essa história e a sua apropriação para efeitos da teoria do género é sugerir que a história tal como a temos não fornece provas para nenhuma das teses, e sugerir que pode haver outra forma de ler esta história, que não confirma nem nega a teoria da construção social, nem afirma nem nega o essencialismo de género. De fato, o que espero sublinhar aqui é o quadro disciplinar em que Joan/John desenvolve um discurso de autorrelato e de autocompreensão, uma vez que constitui a grelha de inteligibilidade pela qual a sua própria humanidade é tanto questionada como afirmada.

Parece crucial recordar, considerando o que poderia contar como evidência para a verdade do género, que Joan/John foi intensamente monitorada por equipes psicológicas durante a infância e a adolescência, que equipes de médicos observaram o comportamento de Joan, que equipes de médicos pediram a ele e ao seu irmão para se desnudarem para que o desenvolvimento genital pudesse ser medido, que houve um médico que lhe pediu para se envolver em exercícios que simulavam um coito com o seu irmão, para ver as imagens, para conhecer e querer a chamada normalidade dos genitais sem ambiguidades. Havia um aparato de conhecimento aplicado à pessoa e ao corpo de Joan/John, que raramente, se é que o foi alguma vez, levado em considerado como parte daquilo a que John responde quando relata os seus sentimentos relativos ao seu verdadeiro gênero. O ato de autorrelato e de auto-observação têm lugar em relação a uma certa audiência, com uma certa audiência como receptora imaginada, perante uma certa audiência para a qual é produzida uma imagem de si mesmo verbal e visual. Esses são atos de discurso, podemos dizer, que são muitas vezes entregues para aqueles que têm buscado escrutinar, brutalmente, a verdade do género de Joan durante anos. Apesar de Diamond e Sigmundson – e mesmo Colapinto – estarem na posição de defender John contra as intrusões de Money, mesmo eles ainda perguntam a John como ele se sente, quem ele é, tentando apurar a verdade do seu sexo através do discurso que ele apresenta. De Joan, que foi sujeito a tal escrutínio e, o mais importante, repetidamente submetido a uma norma, um ideal normalizador transmitido por meio de uma pluralidade de olhares, uma norma aplicada ao corpo, uma questão foi continuamente colocada: isso é suficientemente feminino? Será que essa pessoa conseguiu chegar à feminilidade? Será que a feminilidade está aqui encarnada de forma errática? Será que a corporalidade está funcionando? Será? Será? Como sabemos? Que evidências podemos reunir para saber? E certamente devemos ter aqui um conhecimento. Devemos ser capazes de dizer que sabemos, e comunicar isso nos jornais profissionais, e justificar nossa decisão, nosso ato. Com efeito, a questão colocada através destes exercícios de interrogatório tem a ver com se o fato de a norma de gênero que estabelece a coerência da pessoa ter sido realizada com sucesso; por isso, as investigações e inspeções podem ser entendidas, neste sentido, não apenas como a tentativa de implementar a norma, mas como a institucionalização deste poder de implementação.

Os pediatras e psiquiatras que revisitaram o caso nos últimos anos citam a autodescrição de John para apoiar o ponto de vista deles. A narrativa de John sobre seu próprio senso de masculinidade sustenta a teoria de que John é realmente masculino e que ele era, mesmo quando era Joan, sempre homem.

John conta a seus entrevistadores o seguinte sobre si mesmo:

“Poucas coisas aconteceram desde o início. Comecei a ver o quão diferente eu me sentia e era, do que eu deveria ser. Mas eu não sabia o que isso significava. Eu pensava que era uma aberração ou algo assim… Eu me olhava e dizia que não gostava desse tipo de roupa, não gostava dos tipos de brinquedos que sempre me davam, gostava de andar com os garotos e subir em árvores e coisas assim, e as garotas não gostavam de nada disso. Eu me olhava no espelho e [via que] meus ombros [estavam] tão largos, quero dizer, não havia nada de feminino em mim. Eu era magro, mas fora isso, nada. Mas era assim que eu imaginava. [Eu imaginava que eu era um garoto], mas eu não queria admitir isso, eu não queria acabar botando minhocas na minha cabeça”[10].

Então agora você ouve como John descreve a si mesmo. E assim, se parte da minha tarefa aqui é fazer justiça não apenas ao meu tópico, mas à pessoa que estou esboçando para você, a pessoa sobre a qual tanto foi dito, a pessoa cuja autodescrição e cujas decisões se tornaram a base de tanta teorização de gênero nos últimos quatro anos, então me parece que devo ser cuidadosa ao apresentar estas palavras. Pois estas palavras podem lhe dar apenas algo da pessoa que estou tentando entender, alguma parte da instância verbal dessa pessoa, e como não posso realmente entender essa pessoa, já que não conheço essa pessoa e não tenho acesso a ela, me resta a condição de leitora de um número selecionado de palavras, palavras que não selecionei completamente, palavras que foram selecionadas para mim, gravadas a partir de entrevistas e depois escolhidas por aqueles que decidiram escrever seus artigos sobre essa pessoa para revistas como o Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine. Então poderíamos dizer que me deram fragmentos da pessoa, fragmentos linguísticos de algo chamada pessoa, e o que poderia significar fazer justiça a alguém sob estas circunstâncias? Podemos fazê-lo?

Por um lado, temos uma autodescrição, e isso tem de ser honrado. Essas são as palavras pelas quais este indivíduo se dá a si mesmo para ser compreendido. Por outro lado, temos uma descrição de um eu que se passa em uma linguagem que já está acontecendo, que já está saturada de normas, que nos predispõe à medida que procuramos falar de nós mesmos. E temos palavras que são entregues no contexto de uma entrevista, uma entrevista que faz parte do longo e intrusivo processo observacional que acompanhou a formação de John desde o início. Fazer justiça a John é, certamente, levá-lo à sua própria palavra e chamá-lo pelo nome escolhido, mas como devemos entender sua palavra e seu nome? É essa a palavra que ele cria? É essa a palavra que ele recebe? São essas as palavras que circulam antes de seu surgimento como um si mesmo que poderia ganhar uma certa autorização para iniciar uma autodescrição apenas dentro das normas desta linguagem? Então, quando se fala, fala-se uma língua que já está falando, mesmo que se fale de uma maneira que não é exatamente como já foi falada antes. Então o que e quem está falando aqui, quando John relata, “poucas coisas aconteceram desde o início “. Comecei a ver quão diferente me sentia e era, pelo que eu deveria ser”? Essa afirmação nos diz basicamente que John entende que existe uma norma, uma norma de como ele deveria ser, e que ele ficou aquém do que deveria ser. A afirmação implícita é que a norma é feminilidade, e ele falhou em estar à altura dela. E há a norma, e ela é imposta externamente, comunicada por meio de um conjunto de expectativas que outros têm, e depois há o mundo do sentir e do ser, e esses domínios são, para ele, distintos. O que ele sente não é de forma alguma produzido pela norma, e a norma é outra, em outro lugar, não fazendo parte de quem ele é, de quem ele se tornou, o que ele sente.

Mas dado o que sabemos sobre como John foi abordado, podemos, num esforço para fazer justiça a John, perguntar o que Joan viu quando Joan olhou para si mesmo, como ela sentiu como ele se sentiu, e por favor desculpe minha mistura de pronomes aqui, mas as questões estão se tornando mutáveis. Quando Joan se olhou no espelho e viu algo sem nome, esquisito, algo entre as normas, não era ela naquele momento que estava em questão como humana, não era ela o espectro do esquisito contra o qual e através do qual a norma se instalou? Qual era o problema com Joan, que as pessoas estavam sempre pedindo para vê-la nua, fazendo-lhe perguntas sobre o que ela era, como se sentia, se isso era ou não o mesmo que o que era normativamente verdadeiro? Será esse ver a si distinto da maneira como ela(e) é vista(o)? John parece entender claramente que as normas são externas a ele, mas e se as normas se tornaram o meio pelo qual ele vê, a moldura para a sua própria visão, para sua maneira de ver a si mesmo? E se a ação da norma não se encontrar apenas no ideal que ela positiva, mas no sentido da aberração e da esquisitice que ela transmite? Considere precisamente onde a norma opera quando John afirma: “Eu me olhei e disse que não gosto deste tipo de roupa”. Com quem John está falando? E em que mundo, sob que condições, não gostar desse tipo de roupa fornece provas de ser do gênero errado? Para quem isso seria verdade? E sob que condições?

John relata: “Eu não gosto dos tipos de brinquedos que sempre me deram”, e John está falando aqui como alguém que entende que tal aversão pode funcionar como uma evidência. E parece razoável supor que Joan entendeu esta distinção como evidência de distopia de gênero, para usar o termo técnico, porque ele(a) tem sido abordado repetidas vezes por aqueles que têm feito uso de todas as suas afirmações sobre sua experiência como evidência a favor ou contra um gênero verdadeiro. O fato de ele não ter gostado de certos brinquedos, certas bonecas, certos jogos, pode ser significativo em relação à questão de como e com o que ele gostava de brincar. Mas em que mundo, precisamente, tais antipatias contam como evidência clara ou inequívoca a favor ou contra ser de um dado gênero? Os pais correm regularmente para as clínicas de identidade de gênero quando seus meninos brincam com fios, ou suas meninas brincam com caminhões? Ou já deve haver uma enorme ansiedade em jogo, uma ansiedade sobre a verdade do gênero que se apodera deste ou daquele brinquedo, desta ou daquela inclinação do vestido, do tamanho do ombro, da magreza do corpo, para concluir que algo como uma clara identidade de gênero pode ou não ser construída a partir desses desejos dispersos, estas características variáveis e invariáveis do corpo, da estrutura óssea, da inclinação, das roupas?

Então, em que a minha análise implica? Será que ela nos diz se o gênero aqui é verdadeiro ou falso? Não. E isso tem implicações sobre se John deveria ter sido cirurgicamente transformado em Joan, ou se Joan deveria ter cirurgicamente transformada em John? Não, não tem. Eu não sei como julgar essa questão aqui, e não tenho certeza se cabe a mim julgar. Será que a justiça exige que eu decida? Ou a justiça exige que eu espere para decidir, que eu pratique um certo adiamento diante de uma situação em que muitos se precipitaram no julgamento? E pode ser útil, importante, até mesmo justo, considerar algumas questões antes de decidirmos, antes de verificarmos se, de fato, nos cabe decidir.

Considere, então, neste espírito, que é na maior parte das vezes a posição essencialista de gênero que deve ser expressa para que a cirurgia transexual ocorra, e que alguém que entre com um sentido de gênero como algo mutável terá mais dificuldades de convencer psiquiatras e médicos a realizar a cirurgia. Em São Francisco, os candidatos a transitarem do sexo feminino ao masculino praticam atualmente a narrativa do essencialismo de gênero que são obrigados performar antes de entrar para a consulta médica, e agora há coaches para ajudá-los, dramaturgos da transexualidade que os ajudarão a fazer o que querem sem nenhum custo. De fato, podemos dizer que Joan/John juntos passaram por duas cirurgias transexuais: a primeira baseada em um argumento hipotético sobre o que deveria ser generificado, dada a natureza ablacionada do pênis; a segunda baseada no que deveria ser o gênero, baseada nas indicações comportamentais e verbais da pessoa em questão. Em ambos os casos, foram feitas certas inferências, uma que sugeria que um corpo deve aparecer de uma certa maneira para um gênero funcionar; outra que dizia que um corpo deve sentir de uma certa maneira para um gênero funcionar. John veio claramente para desrespeitar e abominar as opiniões do primeiro grupo de médicos; ele desenvolveu, poderíamos dizer, uma crítica leiga do falo para apoiar sua resistência:

“o doutor disse: ‘vai ser difícil, você vai ser motivo de piada, vai ficar muito sozinho, não vai encontrar ninguém a menos que faça uma cirurgia vaginal e viva como uma mulher’. E eu pensei comigo mesmo, você sabe que eu não era muito velho na época, mas percebi que essas pessoas têm que ser muito superficiais se essa é a única coisa que elas pensam que eu tenho; que a única razão pela qual as pessoas se casam e têm filhos e têm uma vida produtiva é por causa do que elas têm entre as pernas… Se isso é tudo que eles pensam de mim, que eles justificam meu valor pelo que tenho entre as pernas, então devo ser um perdedor completo.[11]

Aqui John faz uma distinção entre o “eu” que ele é, a pessoa que ele é, e o valor que é conferido à sua condição de pessoa em virtude do que está ou não entre as suas pernas. Ele apostava que seria amado por algo diferente ou, pelo menos, que seu pênis não seria a razão de ser amado. Ele estava defendendo, implicitamente, algo chamado “profundidade” acima e contra a “superficialidade” dos médicos. E assim podemos dizer que, embora John tenha pedido e recebido seu novo status de homem, pedido e recebido seu novo falo, ele também é algo diferente do que ele tem agora e, embora tenha passado por essa transformação, ele recusa-se a ser reduzido à parte do corpo que adquiriu. “Se isso é tudo que eles pensam de mim”, diz ele, oferecendo uma réplica cúmplice e crítica ao trabalho da norma. Há algo aqui em mim que excede essa parte, embora eu queira essa parte, embora ela seja parte de mim. Ele não quer que seu “valor” justifique ou seja “justificado” pelo que tem entre as pernas, e isso significa que ele tem outra noção de como o valor de uma pessoa pode ser justificado. Portanto, podemos dizer que ele está vivendo seu desejo, adquirindo a anatomia que deseja para viver seu o desejo, mas que seu desejo é complexo e o seu valor é complexo.

E é por isso, sem dúvida, em resposta a muitas das perguntas que Money fez – você quer ter um pênis? Você quer se casar com uma garota? –, que John frequentemente se recusava a responder, recusava a pergunta, recusava-se a ficar no quarto com Money, recusava-se a visitar Baltimore depois de um tempo. John não trocou uma norma de gênero por outra, não exatamente. Seria tão errado dizer que ele simplesmente internalizou uma norma de gênero (de uma posição crítica) quanto seria dizer que ele falhou em viver de acordo com uma norma de gênero (de uma posição normalizadora, médica), uma vez que ele tem já estabelecido que o que justificará seu valor será a invocação de um “eu” que não se reduz à compatibilidade de sua anatomia com a norma. Ele pensa algo mais de si mesmo do que os outros pensam, não justifica totalmente seu valor recorrendo ao que tem entre as pernas e não se considera um perdedor completo. Algo excede a norma e ele reconhece a irreconhecibilidade dela; é, em certo sentido, seu distanciamento do reconhecidamente humano que opera como uma condição do discurso crítico, a fonte de seu valor, como a justificativa de seu valor. Ele diz que se o que esses médicos acreditam for verdade, ele seria um perdedor total, e ele insinua que ele não é um perdedor total, que algo nele está ganhando. Mas ele também está dizendo algo mais: ele está nos advertindo contra o próprio absolutismo da distinção, pois o seu falo não constitui a totalidade de seu valor e, portanto, há uma incomensurabilidade entre quem ele é e o que ele tem, entre o falo ele tem e o que é esperado que ele seja (e desta forma ele não é diferente de ninguém com um falo), o que significa que ele não alguém com a norma, e ainda assim ele ainda é alguém, falando, insistindo, até mesmo referindo-se a ele mesmo.

E é dessa lacuna, dessa incomensurabilidade, entre a norma que deveria inaugurar sua humanidade e a insistência falada em si mesmo que ele performa, que ele deriva seu valor, que ele fala seu valor. Não podemos precisamente dar conteúdo a essa pessoa no próprio momento em que ela fala de seu valor, o que significa que é precisamente das maneiras pelas quais ela não é totalmente reconhecível, totalmente descartável, totalmente categorizável, que sua humanidade emerge. E isso é importante, porque podemos pedir que ele entre na inteligibilidade para falar e ser conhecido, mas o que ele faz, ao invés disso, por meio de sua fala, é oferecer uma perspectiva crítica sobre as normas que conferem a própria inteligibilidade. E ele mostra, poderíamos dizer, que há um entendimento a ser obtido que ultrapassa as próprias normas da inteligibilidade. E ele consegue isso “fora”, podemos especular, recusando os interrogatórios que o assediam, invertendo os seus termos, aprendendo os caminhos pelos quais se pode escapar. E se ele se torna ininteligível para aqueles que buscam conhecer e capturar a sua identidade, isso significa que algo sobre ele é inteligível fora da estrutura da inteligibilidade aceita. Podemos ser tentados a dizer que existe algum núcleo de uma pessoa, e portanto alguma presunção de humanismo, que emerge aqui, que sobrevém aos discursos sobre a inteligibilidade sexuada e de gênero que a constrangem. Mas isso significaria que ele é denunciado por um discurso, apenas para ser levado por outro discurso, o discurso do humanismo. Ou poderíamos dizer que existe algum núcleo do sujeito que fala, que fala além do que se pode dizer, e que é essa inefabilidade que marca a fala de John, a inefabilidade do outro que não é revelado pela fala, mas deixa um portentoso fragmento de si mesmo em sua palavra, um si mesmo que vai além do próprio discurso. Mas o que eu preferiria é que consideremos cuidadosamente que, quando John invoca o “eu” dessa forma bastante esperançosa e inesperada, ele está falando sobre uma certa convicção que tem sobre sua própria amabilidade; ele diz que “eles” devem pensar que ele é um verdadeiro perdedor se a única razão pela qual alguém vai amá-lo é o que ele tem entre as pernas. “Eles” estão dizendo a ele que ele não será amado, ou que ele não será amado a menos que tome o que eles têm para ele, e que eles têm o que ele precisa para obter amor, que ele não terá amor sem o que eles têm. Mas ele se recusa a aceitar que o que eles estão oferecendo em seu discurso é amor. Ele recusa a oferta de amor, entendendo-a como um suborno, como uma sedução à sujeição. Ele será e é, diz-nos, amado por alguma outra razão, uma razão que eles não entendem, e não é uma razão que nos foi dada. É claramente uma razão além do regime de razão estabelecido pelas próprias normas da sexologia. Nós sabemos apenas que ele se sustenta por outra razão e que, nesse sentido, não sabemos mais que tipo de razão é essa, que razão pode ser; ele estabelece os limites do que eles sabem, rompendo a política da verdade, valendo-se dessa sua dessubjugação dentro dessa ordem do ser para estabelecer a possibilidade do amor além do alcance dessa norma. Ele se posiciona, com conhecimento de causa, em relação à norma, mas não cumpre seus requisitos. Ele arrisca uma certa “dessubjugação”: é ele um sujeito? Como saberemos? E, nesse sentido, o discurso de John põe em jogo a operação da própria crítica, crítica que, definida por Foucault, é justamente a dessubjugação do sujeito dentro da política da verdade. Isso não significa que John se tornou ininteligível e, portanto, sem valor para a política; em vez disso, ele emerge nos limites da inteligibilidade, oferecendo uma perspectiva sobre os modos variáveis ​​em que as normas circunscrevem o humano. É precisamente porque entendemos, sem compreender bem, que ele tem uma outra razão, que ele é, por assim dizer, outra razão, que vemos os limites do discurso da inteligibilidade que decidiria seu destino. John não ocupa exatamente um mundo novo, uma vez que ele está, mesmo dentro da sintaxe que dá origem ao seu “eu”, ainda posicionado em algum lugar entre a norma e seu fracasso. E ele não é, finalmente, nenhum dos dois; ele é o humano em seu anonimato, como aquilo que ainda não sabemos nomear ou que impõe um limite a todos os nomes. E, nesse sentido, ele é a condição anônima – e crítica – do ser humano, visto que fala a si mesmo nos limites do que pensamos que sabemos.


[1] Michel Foucault, “What Is Critique?”, traduzido por Lysa Hochroth, em “A Política da Verdade”, ed. Sylvère Lotringer e Lysa Hochroth (Nova York: Semiotext[e], 1997), 32. Este ensaio foi originalmente uma palestra proferida na Sociedade Francesa de Filosofia, em 27 de maio 1978; foi posteriormente publicado no Bulletin de la Société française de la philosophie 84, no. 2 (1990): 35-63.

[2] Para uma excelente visão geral desta controvérsia, ver Anne Fausto-Sterling, Sexing the Body: Gender Politics and the Construction of Sexuality (New York: Basic, 2000), 45–77. John/Joan não usa mais um pseudônimo, mas mantenho a referência do pseudônimo porque é a maneira predominante de se referir a esta pessoa nos tratamentos médicos e psicológicos da questão aqui.

[3] Milton Diamond e H. Keith Sigmundson, “Sex Reassignment at Birth: A Long Term

Review and Clinical Implications,” Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine 151 (1997): 298 –304; John Colapinto, As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised as a Girl (New York: HarperCollins, 2000); Colapinto, “The True Story of John Joan,” Rolling Stone, 11 December 1997, 54ff.; John Money e Richard Green, Transsexualism and Sex Reassignment (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1969); Fausto-Sterling, Sexing the Body; Suzanne J. Kessler, Lessons from the Intersexed (New Brunswick, N.J.: Rutgers University Press, 1998); Natalie Angier, “Sexual Identity Not Pliable after All, Report Says,” New York Times, 14 March 1997. Ver também o videotape Redefining Sex, publicada pela Intersex Society of North America (www.isna.org), para perspectivas relevantes sobre a ética da redesignação sexual.

[4] Money and Green, Transsexualism and Sex Reassignment, 299

[5] Kate Millett, Sexual Politics (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1970), 41–42; Kessler, Lessons from the Intersexed, 6 –7, 14–21; Kessler, “Meanings of Gender Variability,” Chrysalis 2, no. 4 (1997–98): 33–38; and Kessler, “The Medical Construction of Gender: Case Management of Intersexed Infants,” Signs 16 (1990): 3-26.

[6] Colapinto, As Nature Made Him, 69

[7] Angier, “Sexual Identity Not Pliable,” C1, C13.

[8] Ver Fausto-Sterling, Sexing the Body, 79 –114.

[9] Riki Anne Wilchins, Read My Lips: Sexual Subversion and the End of Gender (Ithaca, N.Y.: Firebrand, 1997); Kate Bornstein, Gender Outlaw: On Men, Women, and the Rest of Us (New York: Vintage, 1995).

[10] Citado em Diamond and Sigmundson, “Sex Reassignment at Birth,” 299 -300. Reticências e último par de parênteses no original.

[11] Ibid., 301. Reticências no original.

Para citar este texto: BUTLER, Judith. Fazer justiça a alguém: redesignação sexual e alegorias da transexualidade. (Tradução por Diogo Silva Corrêa). Blog do Labemus, 2021. [publicado em 02 de outubro de 2021]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2021/10/02/fazer-justica-a-alguem-por-judith-butler/

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Fazer justiça a alguém, por Judith Butler

Por Judith Butler

Tradução Diogo Silva Corrêa

Tradução do artigo: Butler, Judith. “Doing Justice to Someone: Sex Reassignment and Allegories of Transsexuality.” GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies, vol. 7 no. 4, 2001, p. 621-636.

Gostaria de partir de uma questão de poder, o poder de regulação, um poder que determina, mais ou menos, o que nós somos, o que podemos ser. Não estou falando de poder apenas num sentido jurídico ou positivo, mas estou referindo-me ao funcionamento de um certo regime regulador, que informa a lei, e que também excede a lei. Quando perguntamos quais são as condições de inteligibilidade pelas quais o humano emerge, pelas quais o humano é reconhecido, pelas quais algum sujeito se torna sujeito do amor humano, estamos perguntando sobre as condições de inteligibilidade compostas de normas, de práticas, que se tornaram pressupostas, sem as quais não podemos de modo algum pensar o humano. Assim, proponho abordar a relação entre as ordens variáveis de inteligibilidade e a gênese e a dimensão passível de ser conhecida do humano. E não é apenas que existem leis que regem a nossa inteligibilidade, mas formas de saber, modos de verdade que forçosamente definem a inteligibilidade.

Isso é o que Foucault descreve como a política da verdade, uma política que diz respeito às relações de poder que circunscrevem de antemão o que vai e não vai contar como verdade, que ordenam o mundo de certas formas regulares e reguláveis, e que passamos a aceitar como o campo dado de conhecimento. Podemos compreender a importância desse ponto quando começamos a perguntar: o que conta como pessoa? O que conta como um gênero coerente? O que é que se qualifica como cidadão? Que mundo é legitimado como real? Subjetivamente, perguntamos: em quem posso me tornar num mundo em que os significados e limites do sujeito são estabelecidos de antemão para mim? Por que normas me sinto constrangido quando começo a perguntar no que me posso tornar? O que acontece quando começo a me tornar naquilo para o qual não há lugar num dado regime da verdade? Isso é o que Foucault descreve como “a desobediência do sujeito no jogo da … a política da verdade “1[1].

Outra forma de colocar isso é a seguinte: o que, dada a ordem do ser contemporânea, eu posso ser? E essa forma de colocar a questão, que é a de Foucault, não aborda bem a questão do que não é – ou o que é – ocupar o lugar do não-ser dentro do campo do ser, do viver, do respirar, do tentar amar, como aquilo que não é nem totalmente negado, nem totalmente reconhecido como ser, reconhecido, poderíamos dizer, como parte do ser. Essa relação, entre inteligibilidade e o humano, é urgente; ela carrega uma certa urgência teórica, precisamente nos pontos em que o humano é encontrado nos limites da própria inteligibilidade. Gostaria de sugerir que esse interrogatório tem algo de importante a fazer com a justiça. Uma vez que a justiça não é apenas ou exclusivamente uma questão de como as pessoas são tratadas, de como as sociedades são constituídas, mas também emerge nas decisões bastante consequentes sobre o que uma pessoa é, que normas sociais devem ser honradas e expressas para que a sua condição de pessoa seja atribuída, como fazemos ou não reconhecemos outros seres animados como pessoas, dependendo se reconhecemos ou não uma determinada norma manifesta no e pelo corpo desse outro. O próprio critério pelo qual julgamos uma pessoa como sendo um ser dotado de gênero, um critério que coloca o género coerente como pressuposto de humanidade, não é apenas um critério que, justa ou injustamente, governa o reconhecimento do humano, mas um critério que informa as formas como nós nos reconhecemos ou não, no nível dos sentimentos, do desejo e do corpo, nos momentos antes do espelho, nos momentos antes da janela, nos momentos em que recorremos a psicólogos, a psiquiatras, a profissionais médicos e jurídicos para negociar o que bem se pode sentir como irreconhecível do próprio gênero e, portanto, da sua própria condição de pessoa.

Eu quero considerar o caso legal e psiquiátrico de uma pessoa que foi designada, sem dificuldade, um menino no momento do nascimento, depois foi designada novamente, dentro de alguns meses, como uma menina, e então decidiu se tornar um homem em sua adolescência. Esse é o caso John / Joan, trazido à atenção do público pela British Broadcasting Corporation no início dos anos 1990 e, recentemente, em várias revistas populares, psicológicas e médicas[2]. Basearei minha análise em um artigo coescrito por Milton Diamond, um endocrinologista, e o popular livro As Nature Made Him, de John Colapinto, jornalista da Rolling Stone, bem como no trabalho de John Money, nos comentários críticos de Anne Fausto-Sterling e Suzanne J. Kessler, em seus livros importantes e recentes, e em um relato de jornal escrito por Natalie Angier[3]. John, pseudônimo de um homem que mora em Winnipeg, nasceu com cromossomos XY. Quando ele tinha oito meses de idade, seu pênis foi acidentalmente queimado e cortado durante uma operação cirúrgica de correção de fimose, uma condição em que o prepúcio impede a micção. Esse procedimento é relativamente isento de riscos, mas o médico que o realizou em John estava usando uma máquina nova, aparentemente uma que ele não tinha usado antes, que seus colegas declararam ser desnecessária para o trabalho, e ele estava tendo problemas para fazê-la funcionar; então, ele aumentou a potência da máquina a ponto de queimar uma grande parte do pênis. Os pais de John, é claro, ficaram chocados e, de acordo com a própria descrição deles, não sabiam como proceder.

Numa noite, cerca de um ano depois, eles estavam assistindo televisão e lá encontraram Money falando sobre cirurgia transexual e intersexual e defendendo a tese de que se uma criança fosse submetida a uma cirurgia e começasse a socialização num gênero diferente daquele originalmente atribuído no nascimento, ele ou ela poderia se desenvolver normalmente, se adaptar perfeitamente bem ao novo gênero e viver uma vida feliz. Os pais escreveram para Money, que os convidou para ir a Baltimore, e então John foi visto na Universidade Johns Hopkins, momento em que Money recomendou fortemente que ele fosse criado como uma menina. Os pais concordaram e os médicos removeram os testículos de seu filho, fizeram alguns preparativos preliminares para a cirurgia para criar uma vagina, mas decidiram esperar até que Joan, a criança recém-nomeada, ficasse mais velha para completar a tarefa. Então, Joan cresceu como uma menina, foi monitorada com frequência e foi transferida periodicamente para o Instituto de Identidade de Gênero de Money, com o objetivo de promover sua adaptação à infância. E então, é relatado que, entre as idades de oito e nove anos, Joan começou a desenvolver o desejo de comprar uma metralhadora de brinquedo. E então, dizem, entre as idades de nove e onze anos, ela começou a perceber que não era uma menina. Essa constatação parece ter coincidido com seu desejo de comprar certos tipos de brinquedos: mais armas, aparentemente, e alguns caminhões. Mesmo sem pênis, Joan gostava de ficar em pé para urinar. E ela foi pega nessa posição uma vez, na escola, onde as outras meninas ameaçaram “matá-la” se ela continuasse a fazê-lo.

Nesse ponto, as equipes psiquiátricas que monitoraram intermitentemente a adaptação de Joan ofereceram a ela estrogênio, o que foi por ela recusado. Money tentou falar com Joan sobre conseguir uma vagina de verdade, mas ela também recusou; na verdade, ela saiu gritando da sala. Money a fazia ver imagens sexualmente gráficas de vaginas. Ele chegou a mostrar a Joan fotos de mulheres dando à luz, sugerindo a possibilidade dela dar à luz se adquirisse uma vagina. Em uma cena, que poderia ter inspirado o filme recente, But I’m a Cheerleader [Mas eu sou uma líder de torcida], Money também exigiu que Joan e o irmão fizessem exercícios de coito simulado um com o outro, sob comando. Posteriormente, os dois relataram terem ficado assustados e desorientados com essa demanda e não contaram aos pais na ocasião. Diz-se que Joan preferia atividades masculinas e não gostava de desenvolver seios. Todas essas alegações foram atribuídas a Joan por outro conjunto de médicos, uma equipe de psiquiatras de seu hospital local. Esses psiquiatras e outros profissionais médicos locais intervieram, acreditando que um erro na redesignação do sexo tinha sido cometido. Por fim, o caso foi reanalisado por Diamond, um pesquisador de sexos que acredita na base hormonal da identidade de gênero e que há anos lutava contra o Money. Esse novo conjunto de psiquiatras e outros médicos ofereceu a Joan a escolha de mudar de caminho, o que ela aceitou. Ela começou a viver como um menino, chamado John, aos quatorze anos. John solicitou e recebeu injeções de hormônios masculinos; ele também teve seus seios removidos. Um falo, assim chamado por Diamond, foi construído para ele entre as idades de quinze e dezesseis anos. John não ejaculava; ele sentia algum prazer sexual no falo; ele urinava de sua base. Assim, ele apenas se aproximou de algumas de suas funções esperadas e, como veremos, Diamond insere John apenas de forma ambivalente na norma.

Durante o tempo em que John era Joan, Money publicou artigos exaltando o sucesso dessa redesignação de sexo. O caso teve consequências enormes porque Joan era uma gêmea idêntica e, portanto, Money podia rastrear o desenvolvimento de ambos os irmãos enquanto controlava a composição genética. Ele insistiu que ambos estavam se desenvolvendo de maneira normal e feliz em seus respectivos gêneros. Mas suas próprias entrevistas gravadas, principalmente não publicadas, e pesquisas subsequentes colocaram sua honestidade em questão. Joan raramente ficava feliz, recusou-se a se adaptar a muitos dos chamados comportamentos femininos e ficou irritada com os interrogatórios invasivos e contínuos de Money. No entanto, os registros publicados pela Johns Hopkins afirmam que a adaptação de Joan à infância foi bem-sucedida, e certas conclusões ideológicas se seguiram imediatamente. O Instituto de Identidade de Gênero de Money, que monitorou Joan com frequência, afirmou que seu desenvolvimento bem-sucedido como uma menina “oferece evidências convincentes de que o portão de identidade de gênero está aberto no nascimento para uma criança normal, não menos do que para aquela nascida com órgãos sexuais inacabados ou que no pré-natal foi super ou subexposta ao andrógeno, e que permanece aberto pelo menos por mais ou menos um ano após o nascimento”[4]. De fato, o caso foi usado pelos meios de comunicação para provar que o que é feminino e o que é masculino pode ser alterado, que esses termos culturais não têm significado fixo ou destino dado pelo interior. Até mesmo Kate Millett citou o caso ao argumentar que a biologia não é destino. Kessler também se aliou a Money em seus ensaios em favor da tese construtivista social[5]. Posteriormente, Kessler negaria sua aliança e escreveria um dos livros mais importantes sobre as dimensões éticas e médicas da redesignação sexual, Lessons from the Intersexed [Lições dos intersexuados], que inclui uma crítica incisiva a Money.

A abordagem de Money foi recrutar transexuais homem-mulher para conversar com Joan sobre as vantagens de ser uma menina. Ela foi submetida a uma miríade de entrevistas e foi questionada repetidamente se se sentia como uma menina, quais eram seus desejos, qual era sua imagem de futuro, se incluía o casamento com um homem. Ela também foi solicitada a se despir e mostrar seus órgãos genitais aos médicos que estivessem interessados ​​no caso ou que estivessem monitorando o seu sucesso de adaptação.

Quando esse caso foi discutido na imprensa recentemente, e quando psiquiatras e outros médicos se voltaram para ele, eles o fizeram para criticar o papel que o instituto de Money desempenhou e, em particular, sua prontidão para usar o exemplo de Joan para substanciar suas próprias crenças teóricas sobre a neutralidade de gênero na primeira infância, sobre a maleabilidade do gênero, sobre o papel primordial da socialização na produção da identidade de gênero. Na verdade, isso não é exatamente tudo em que Money acredita, mas não vamos investigar essa questão aqui. Os indivíduos que criticam este caso acreditam que ele nos mostra algo muito diferente. Quando consideramos, eles argumentam, que John se sentiu profundamente inclinado a se tornar um menino e achou insuportável continuar vivendo como uma menina, temos que considerar também que John experimentou algum senso de gênero profundamente arraigado, ligado a seu conjunto original de genitais, uma verdade interna e uma necessidade que nenhuma carga de socialização poderia reverter. Essa é a visão de Colapinto e de Diamond.

Agora, portanto, o caso de Joan / John está sendo usado para fazer uma revisão e uma reversão na teoria do desenvolvimento gênero, fornecendo evidências dessa vez que vão contra a tese de Money, sustentando a noção de um núcleo essencial de gênero ligado de alguma forma irreversível à anatomia e a um sentido determinístico da biologia. Na verdade, Colapinto liga claramente a crueldade de Money para com Joan à “crueldade” da teoria da construção social, observando que a recusa de Money em identificar uma base biológica ou anatômica para a diferença de gênero no início dos anos 1970 “não foi perdida pelo então florescente movimento das mulheres, que vinha argumentando contra uma base biológica para diferenças de sexo por décadas”. Colapinto afirma que os ensaios publicados de Money “já haviam sido usados ​​como uma das principais bases do feminismo moderno”. Ele afirma que a Time se envolveu em uma apropriação igualmente equivocada dos pontos de vista de Money quando argumentou que esse caso, nas próprias palavras da revista, “fornece um forte apoio para uma importante contenção das mulheres liberacionistas: que os padrões convencionais de comportamento masculino e feminino podem ser alterados”[6].  De fato, Colapinto fala sobre o fracasso de indivíduos redesignados cirurgicamente para viver como mulheres e homens “normais” e “típicos”, argumentando que a normalidade nunca é alcançada e, portanto, assumindo o valor indiscutível da própria normalidade.

Referindo-se à refutação da teoria de Money, Natalie Angier afirma que a história de John tem “a força da alegoria”[7]. Mas que força é essa? E seria isso uma alegoria com encerramento? Angier relata que Diamond usou o caso para apresentar um argumento sobre a cirurgia intersexual e, por implicação, o sucesso relativo da cirurgia transexual. Diamond argumentou, por exemplo, que bebês intersexuados, isto é, aqueles nascidos com atributos genitais mistos ou indeterminados, geralmente têm um cromossomo Y, e que a posse do Y é uma base adequada para concluir que eles devem ser criados como meninos. Desse modo, a grande maioria dos bebês intersexuados é submetida a cirurgias que procuram designá-los no sexo feminino, pois, como Cheryl Chase aponta no artigo de Angier, é simplesmente considerado mais fácil produzir um trato vaginal provisório do que construir um falo. Diamond argumentou que a essas crianças deveria ser atribuído o sexo masculino, uma vez que a presença do cromossomo Y é motivo suficiente para a presunção de masculinidade social.

Na verdade, Chase, fundador e diretor da Sociedade Intersexo da América do Norte, expressou ceticismo sobre as recomendações de Diamond. Sua opinião, também recentemente defendida por Fausto-Sterling, é que não há razão para fazer uma designação sexual; a sociedade deve abrir espaço para os intersexuais como eles são e cessar a “correção” cirúrgica coercitiva de bebês[8]. De fato, pesquisas recentes têm mostrado que tais operações têm sido realizadas sem que os pais saibam, sem que as próprias crianças sejam verdadeiramente informadas e sem terem atingido a idade de consentimento. Mais surpreendente, de certa forma, é o estado em que seus corpos têm sido deixados, com mutilações realizadas e então paradoxalmente racionalizadas em nome de “parecer normal”. Os médicos costumam dizer aos pais que a criança não parecerá normal se não for operada; que a criança passará vergonha no vestiário, no vestiário, este local de ansiedade pré-puberdade, onde se passam desenvolvimentos de iminentes de gênero; e que seria melhor para a criança parecer normal, mesmo quando tal cirurgia pudesse privá-la da função sexual e do prazer sexual para o resto da vida.

Assim, enquanto alguns especialistas, como Money, afirmam que a ausência do falo completo justifica a defesa social da criação da criança como menina, outros, como o Diamond, argumentam que a presença do cromossomo Y é o fato mais convincente ou, o que está indexado em sentimentos persistentes de masculinidade, que ele não pode ser construído. Assim, por um lado, como a anatomia parece, a forma como ela aparece, para os outros e para mim próprio enquanto vejo outros a olharem para mim, é a base da minha identidade social como mulher ou como homem. Por outro lado, é um fator decisivo como a presença do Y estrutura tacitamente o meu sentimento e o meu auto-entendimento como pessoa sexuada. Money defende a facilidade com que um corpo feminino pode ser construído cirurgicamente, como se a feminilidade fosse sempre pouco mais do que uma construção cirúrgica, uma eliminação, um corte. Diamond defende a persistência invisível e necessária da masculinidade, que não precisa “aparecer” para poder funcionar como a característica chave da identidade de género. Quando Angier pergunta a Chase se ela concorda com as recomendações de Diamond sobre cirurgia intersexual, Chase responde: “Eles não podem conceber deixar alguém sozinho”. De fato, será a cirurgia realizada para criar um corpo “normal” – parecendo, afinal, um corpo? As mutilações e cicatrizes que permanecem dificilmente oferecem provas convincentes de que isso é obtido. Ou serão esses corpos sujeitos a maquinaria médica que os marca para toda a vida precisamente porque são “inconcebíveis”?

Outro paradoxo que emerge aqui é o lugar das máquinas afiadas, da tecnologia da faca, nos debates sobre intersexualidade e transexualidade. Se o caso John/Joan é uma alegoria, ou tem a força da alegoria, é porque parece ser o local onde convergem os debates sobre intersexualidade (John não é um intersexual) e transexualidade (John não é um transexual). Esse corpo torna-se um ponto de referência para uma narrativa que não é sobre este corpo, mas que se agarra ao corpo, por assim dizer, para inaugurar uma narrativa que interroga os limites do concebivelmente humano. O que é inconcebível é concebido uma e outra vez, através de meios narrativos, mas alguma coisa permanece fora da narrativa, um momento resistente que assinala uma inconcebilidade persistente.

Apesar das recomendações da Diamond, o movimento intersexo foi galvanizado pelo caso Joan/John; ele é agora capaz de chamar a atenção do público para a brutalidade, a coercitividade e para os danos duradouros das cirurgias indesejadas realizadas em bebês intersexo. O objetivo é tentar imaginar um mundo em que indivíduos com atributos genitais mistos ou indeterminados possam ser aceitos e amados sem terem de passar por uma transformação numa versão socialmente mais coerente ou normativa do género. Neste sentido, o movimento intersexo tem procurado perguntar por que razão a sociedade mantém o ideal do dimorfismo de género quando uma percentagem significativa de crianças é cromossomicamente variada, e existe um continuum entre masculino e feminino que sugere a arbitrariedade e falsidade do dimorfismo de género como um requisito prévio do desenvolvimento humano. Há humanos, em outras palavras, que vivem e respiram nos interstícios dessa relação binária, mostrando que ela não é exaustiva, não é necessária. Embora o movimento transexual, que é internamente diverso, tenha exigido direitos a meios cirúrgicos através dos quais o sexo pudesse ser transformado, é claro – e Chase sublinha – que existe também uma crítica séria e cada vez mais popular ao dimorfismo idealizado do género no próprio movimento transexual. Pode-se vê-lo no trabalho de Riki Anne Wilchins, cuja teoria do género abre espaço para a transexualidade como um exercício transformador, mas pode-se vê-lo mais dramaticamente no trabalho de Kate Bornstein, que argumenta que passar de feminino para masculino, ou de masculino para feminino, não é necessariamente ficar dentro do quadro binário do género, mas sim fazer da própria transformação o significado de género[9]. De certa forma, Bornstein carrega agora o legado de Simone de Beauvoir: se uma pessoa não nasce mulher, mas torna-se uma, então tornar-se é o veículo para o próprio género.

Mas porque é que, podemos perguntar, John se tornou a ocasião para uma reflexão sobre a transexualidade? Embora John venha a afirmar que prefere ser homem, não é claro se ele próprio acredita na força causal primária do cromossomo Y. Diamond encontra apoio para a sua teoria em John, mas não é claro, com base na minha leitura, que John concorda com Diamond. John claramente conhece os hormônios, ele os pediu e os tomou. Ele aprendeu, nos contextos transexuais, sobre a construção fálica, ele quer um falo, fê-lo um, e assim alegoriza uma certa transformação transexual sem precisamente exemplificá-la. Ele é, na sua própria opinião, um homem nascido homem, castrado por um estabelecimento médico, feminizado pelo mundo psiquiátrico, e depois habilitado a regressar a quem ele era. Mas para regressar a quem ele é, ele necessita – e quer – hormônios e cirurgia. Ele alegoriza a transexualidade para alcançar uma sensação de naturalidade. E essa transformação é aplaudida pelos endocrinologistas do caso, uma vez que entendem que a sua aparência agora está de acordo com uma verdade interior. Ao passo que o instituto de Money reúne transexuais para instruir Joan nos caminhos das mulheres, e em nome da normalização, os endocrinologistas prescrevem a John o protocolo de mudança de sexo da transexualidade, para que ele reassuma o seu destino genético, em nome da natureza.

E embora o instituto Money reúna transexuais para alegorizar a plena transformação de Joan numa mulher, os endocrinologistas propõem a cirurgia transexual apropriada, a fim de construir o falo que tornará John um homem mais legível. Mais importante para Money, ao que parece, são as normas que regem o género inteligível, e essas normas são aquelas que podem ser impostas à força e apropriadas comportamentalmente, em função da maleabilidade da construção do género; esse raciocínio, que faz parte da tese de Money, exige uma aplicação forçada. E a “natureza” que os endocrinologistas defendem também precisa de assistência e aumento através de meios cirúrgicos e hormonais, uma certa intervenção não natural na anatomia e na biologia sendo precisamente o que é exigido pela natureza Assim, em cada caso, a premissa primária é de certa forma refutada pelos meios através dos quais é implementada. A maleabilidade é, por assim dizer, violentamente imposta, e a naturalidade é induzida artificialmente. Há formas de argumentar em favor da construção social que nada têm a ver com o projeto de Money, mas não é esse o meu objetivo aqui. E há, sem dúvida, formas de procurar recorrer a determinantes genéticos que não conduzem ao mesmo tipo de conclusões intervencionistas a que Diamond e Sigmundson chegaram. Mas este também não é precisamente o meu ponto de vista. Para que conste, porém, consideremos que as prescrições a que estes fornecedores de microrganismos e géneros normativos chegaram de modo algum decorrem necessariamente das premissas a partir das quais eles começam, e que as premissas com as quais eles começam não têm qualquer necessidade em si. (Poder-se-ia muito bem desvincular a teoria da construção do género, por exemplo, da hipótese da normatividade do género e ter um relato muito diferente da construção social oferecida por Money; poder-se-ia admitir a influência de fatores genéticos sem assumir que são o único aspecto da natureza que se poderia consultar para compreender as características sexuadas de um humano: por que é que o cromossomo Y é considerado o determinante primário da masculinidade, exercendo os direitos de preferência sobre todo e qualquer outro fator?)

Mas o meu objetivo ao contar essa história e a sua apropriação para efeitos da teoria do género é sugerir que a história tal como a temos não fornece provas para nenhuma das teses, e sugerir que pode haver outra forma de ler esta história, que não confirma nem nega a teoria da construção social, nem afirma nem nega o essencialismo de género. De fato, o que espero sublinhar aqui é o quadro disciplinar em que Joan/John desenvolve um discurso de autorrelato e de autocompreensão, uma vez que constitui a grelha de inteligibilidade pela qual a sua própria humanidade é tanto questionada como afirmada.

Parece crucial recordar, considerando o que poderia contar como evidência para a verdade do género, que Joan/John foi intensamente monitorada por equipes psicológicas durante a infância e a adolescência, que equipes de médicos observaram o comportamento de Joan, que equipes de médicos pediram a ele e ao seu irmão para se desnudarem para que o desenvolvimento genital pudesse ser medido, que houve um médico que lhe pediu para se envolver em exercícios que simulavam um coito com o seu irmão, para ver as imagens, para conhecer e querer a chamada normalidade dos genitais sem ambiguidades. Havia um aparato de conhecimento aplicado à pessoa e ao corpo de Joan/John, que raramente, se é que o foi alguma vez, levado em considerado como parte daquilo a que John responde quando relata os seus sentimentos relativos ao seu verdadeiro gênero. O ato de autorrelato e de auto-observação têm lugar em relação a uma certa audiência, com uma certa audiência como receptora imaginada, perante uma certa audiência para a qual é produzida uma imagem de si mesmo verbal e visual. Esses são atos de discurso, podemos dizer, que são muitas vezes entregues para aqueles que têm buscado escrutinar, brutalmente, a verdade do género de Joan durante anos. Apesar de Diamond e Sigmundson – e mesmo Colapinto – estarem na posição de defender John contra as intrusões de Money, mesmo eles ainda perguntam a John como ele se sente, quem ele é, tentando apurar a verdade do seu sexo através do discurso que ele apresenta. De Joan, que foi sujeito a tal escrutínio e, o mais importante, repetidamente submetido a uma norma, um ideal normalizador transmitido por meio de uma pluralidade de olhares, uma norma aplicada ao corpo, uma questão foi continuamente colocada: isso é suficientemente feminino? Será que essa pessoa conseguiu chegar à feminilidade? Será que a feminilidade está aqui encarnada de forma errática? Será que a corporalidade está funcionando? Será? Será? Como sabemos? Que evidências podemos reunir para saber? E certamente devemos ter aqui um conhecimento. Devemos ser capazes de dizer que sabemos, e comunicar isso nos jornais profissionais, e justificar nossa decisão, nosso ato. Com efeito, a questão colocada através destes exercícios de interrogatório tem a ver com se o fato de a norma de gênero que estabelece a coerência da pessoa ter sido realizada com sucesso; por isso, as investigações e inspeções podem ser entendidas, neste sentido, não apenas como a tentativa de implementar a norma, mas como a institucionalização deste poder de implementação.

Os pediatras e psiquiatras que revisitaram o caso nos últimos anos citam a autodescrição de John para apoiar o ponto de vista deles. A narrativa de John sobre seu próprio senso de masculinidade sustenta a teoria de que John é realmente masculino e que ele era, mesmo quando era Joan, sempre homem.

John conta a seus entrevistadores o seguinte sobre si mesmo:

“Poucas coisas aconteceram desde o início. Comecei a ver o quão diferente eu me sentia e era, do que eu deveria ser. Mas eu não sabia o que isso significava. Eu pensava que era uma aberração ou algo assim… Eu me olhava e dizia que não gostava desse tipo de roupa, não gostava dos tipos de brinquedos que sempre me davam, gostava de andar com os garotos e subir em árvores e coisas assim, e as garotas não gostavam de nada disso. Eu me olhava no espelho e [via que] meus ombros [estavam] tão largos, quero dizer, não havia nada de feminino em mim. Eu era magro, mas fora isso, nada. Mas era assim que eu imaginava. [Eu imaginava que eu era um garoto], mas eu não queria admitir isso, eu não queria acabar botando minhocas na minha cabeça”[10].

Então agora você ouve como John descreve a si mesmo. E assim, se parte da minha tarefa aqui é fazer justiça não apenas ao meu tópico, mas à pessoa que estou esboçando para você, a pessoa sobre a qual tanto foi dito, a pessoa cuja autodescrição e cujas decisões se tornaram a base de tanta teorização de gênero nos últimos quatro anos, então me parece que devo ser cuidadosa ao apresentar estas palavras. Pois estas palavras podem lhe dar apenas algo da pessoa que estou tentando entender, alguma parte da instância verbal dessa pessoa, e como não posso realmente entender essa pessoa, já que não conheço essa pessoa e não tenho acesso a ela, me resta a condição de leitora de um número selecionado de palavras, palavras que não selecionei completamente, palavras que foram selecionadas para mim, gravadas a partir de entrevistas e depois escolhidas por aqueles que decidiram escrever seus artigos sobre essa pessoa para revistas como o Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine. Então poderíamos dizer que me deram fragmentos da pessoa, fragmentos linguísticos de algo chamada pessoa, e o que poderia significar fazer justiça a alguém sob estas circunstâncias? Podemos fazê-lo?

Por um lado, temos uma autodescrição, e isso tem de ser honrado. Essas são as palavras pelas quais este indivíduo se dá a si mesmo para ser compreendido. Por outro lado, temos uma descrição de um eu que se passa em uma linguagem que já está acontecendo, que já está saturada de normas, que nos predispõe à medida que procuramos falar de nós mesmos. E temos palavras que são entregues no contexto de uma entrevista, uma entrevista que faz parte do longo e intrusivo processo observacional que acompanhou a formação de John desde o início. Fazer justiça a John é, certamente, levá-lo à sua própria palavra e chamá-lo pelo nome escolhido, mas como devemos entender sua palavra e seu nome? É essa a palavra que ele cria? É essa a palavra que ele recebe? São essas as palavras que circulam antes de seu surgimento como um si mesmo que poderia ganhar uma certa autorização para iniciar uma autodescrição apenas dentro das normas desta linguagem? Então, quando se fala, fala-se uma língua que já está falando, mesmo que se fale de uma maneira que não é exatamente como já foi falada antes. Então o que e quem está falando aqui, quando John relata, “poucas coisas aconteceram desde o início “. Comecei a ver quão diferente me sentia e era, pelo que eu deveria ser”? Essa afirmação nos diz basicamente que John entende que existe uma norma, uma norma de como ele deveria ser, e que ele ficou aquém do que deveria ser. A afirmação implícita é que a norma é feminilidade, e ele falhou em estar à altura dela. E há a norma, e ela é imposta externamente, comunicada por meio de um conjunto de expectativas que outros têm, e depois há o mundo do sentir e do ser, e esses domínios são, para ele, distintos. O que ele sente não é de forma alguma produzido pela norma, e a norma é outra, em outro lugar, não fazendo parte de quem ele é, de quem ele se tornou, o que ele sente.

Mas dado o que sabemos sobre como John foi abordado, podemos, num esforço para fazer justiça a John, perguntar o que Joan viu quando Joan olhou para si mesmo, como ela sentiu como ele se sentiu, e por favor desculpe minha mistura de pronomes aqui, mas as questões estão se tornando mutáveis. Quando Joan se olhou no espelho e viu algo sem nome, esquisito, algo entre as normas, não era ela naquele momento que estava em questão como humana, não era ela o espectro do esquisito contra o qual e através do qual a norma se instalou? Qual era o problema com Joan, que as pessoas estavam sempre pedindo para vê-la nua, fazendo-lhe perguntas sobre o que ela era, como se sentia, se isso era ou não o mesmo que o que era normativamente verdadeiro? Será esse ver a si distinto da maneira como ela(e) é vista(o)? John parece entender claramente que as normas são externas a ele, mas e se as normas se tornaram o meio pelo qual ele vê, a moldura para a sua própria visão, para sua maneira de ver a si mesmo? E se a ação da norma não se encontrar apenas no ideal que ela positiva, mas no sentido da aberração e da esquisitice que ela transmite? Considere precisamente onde a norma opera quando John afirma: “Eu me olhei e disse que não gosto deste tipo de roupa”. Com quem John está falando? E em que mundo, sob que condições, não gostar desse tipo de roupa fornece provas de ser do gênero errado? Para quem isso seria verdade? E sob que condições?

John relata: “Eu não gosto dos tipos de brinquedos que sempre me deram”, e John está falando aqui como alguém que entende que tal aversão pode funcionar como uma evidência. E parece razoável supor que Joan entendeu esta distinção como evidência de distopia de gênero, para usar o termo técnico, porque ele(a) tem sido abordado repetidas vezes por aqueles que têm feito uso de todas as suas afirmações sobre sua experiência como evidência a favor ou contra um gênero verdadeiro. O fato de ele não ter gostado de certos brinquedos, certas bonecas, certos jogos, pode ser significativo em relação à questão de como e com o que ele gostava de brincar. Mas em que mundo, precisamente, tais antipatias contam como evidência clara ou inequívoca a favor ou contra ser de um dado gênero? Os pais correm regularmente para as clínicas de identidade de gênero quando seus meninos brincam com fios, ou suas meninas brincam com caminhões? Ou já deve haver uma enorme ansiedade em jogo, uma ansiedade sobre a verdade do gênero que se apodera deste ou daquele brinquedo, desta ou daquela inclinação do vestido, do tamanho do ombro, da magreza do corpo, para concluir que algo como uma clara identidade de gênero pode ou não ser construída a partir desses desejos dispersos, estas características variáveis e invariáveis do corpo, da estrutura óssea, da inclinação, das roupas?

Então, em que a minha análise implica? Será que ela nos diz se o gênero aqui é verdadeiro ou falso? Não. E isso tem implicações sobre se John deveria ter sido cirurgicamente transformado em Joan, ou se Joan deveria ter cirurgicamente transformada em John? Não, não tem. Eu não sei como julgar essa questão aqui, e não tenho certeza se cabe a mim julgar. Será que a justiça exige que eu decida? Ou a justiça exige que eu espere para decidir, que eu pratique um certo adiamento diante de uma situação em que muitos se precipitaram no julgamento? E pode ser útil, importante, até mesmo justo, considerar algumas questões antes de decidirmos, antes de verificarmos se, de fato, nos cabe decidir.

Considere, então, neste espírito, que é na maior parte das vezes a posição essencialista de gênero que deve ser expressa para que a cirurgia transexual ocorra, e que alguém que entre com um sentido de gênero como algo mutável terá mais dificuldades de convencer psiquiatras e médicos a realizar a cirurgia. Em São Francisco, os candidatos a transitarem do sexo feminino ao masculino praticam atualmente a narrativa do essencialismo de gênero que são obrigados performar antes de entrar para a consulta médica, e agora há coaches para ajudá-los, dramaturgos da transexualidade que os ajudarão a fazer o que querem sem nenhum custo. De fato, podemos dizer que Joan/John juntos passaram por duas cirurgias transexuais: a primeira baseada em um argumento hipotético sobre o que deveria ser generificado, dada a natureza ablacionada do pênis; a segunda baseada no que deveria ser o gênero, baseada nas indicações comportamentais e verbais da pessoa em questão. Em ambos os casos, foram feitas certas inferências, uma que sugeria que um corpo deve aparecer de uma certa maneira para um gênero funcionar; outra que dizia que um corpo deve sentir de uma certa maneira para um gênero funcionar. John veio claramente para desrespeitar e abominar as opiniões do primeiro grupo de médicos; ele desenvolveu, poderíamos dizer, uma crítica leiga do falo para apoiar sua resistência:

“o doutor disse: ‘vai ser difícil, você vai ser motivo de piada, vai ficar muito sozinho, não vai encontrar ninguém a menos que faça uma cirurgia vaginal e viva como uma mulher’. E eu pensei comigo mesmo, você sabe que eu não era muito velho na época, mas percebi que essas pessoas têm que ser muito superficiais se essa é a única coisa que elas pensam que eu tenho; que a única razão pela qual as pessoas se casam e têm filhos e têm uma vida produtiva é por causa do que elas têm entre as pernas… Se isso é tudo que eles pensam de mim, que eles justificam meu valor pelo que tenho entre as pernas, então devo ser um perdedor completo.[11]

Aqui John faz uma distinção entre o “eu” que ele é, a pessoa que ele é, e o valor que é conferido à sua condição de pessoa em virtude do que está ou não entre as suas pernas. Ele apostava que seria amado por algo diferente ou, pelo menos, que seu pênis não seria a razão de ser amado. Ele estava defendendo, implicitamente, algo chamado “profundidade” acima e contra a “superficialidade” dos médicos. E assim podemos dizer que, embora John tenha pedido e recebido seu novo status de homem, pedido e recebido seu novo falo, ele também é algo diferente do que ele tem agora e, embora tenha passado por essa transformação, ele recusa-se a ser reduzido à parte do corpo que adquiriu. “Se isso é tudo que eles pensam de mim”, diz ele, oferecendo uma réplica cúmplice e crítica ao trabalho da norma. Há algo aqui em mim que excede essa parte, embora eu queira essa parte, embora ela seja parte de mim. Ele não quer que seu “valor” justifique ou seja “justificado” pelo que tem entre as pernas, e isso significa que ele tem outra noção de como o valor de uma pessoa pode ser justificado. Portanto, podemos dizer que ele está vivendo seu desejo, adquirindo a anatomia que deseja para viver seu o desejo, mas que seu desejo é complexo e o seu valor é complexo.

E é por isso, sem dúvida, em resposta a muitas das perguntas que Money fez – você quer ter um pênis? Você quer se casar com uma garota? –, que John frequentemente se recusava a responder, recusava a pergunta, recusava-se a ficar no quarto com Money, recusava-se a visitar Baltimore depois de um tempo. John não trocou uma norma de gênero por outra, não exatamente. Seria tão errado dizer que ele simplesmente internalizou uma norma de gênero (de uma posição crítica) quanto seria dizer que ele falhou em viver de acordo com uma norma de gênero (de uma posição normalizadora, médica), uma vez que ele tem já estabelecido que o que justificará seu valor será a invocação de um “eu” que não se reduz à compatibilidade de sua anatomia com a norma. Ele pensa algo mais de si mesmo do que os outros pensam, não justifica totalmente seu valor recorrendo ao que tem entre as pernas e não se considera um perdedor completo. Algo excede a norma e ele reconhece a irreconhecibilidade dela; é, em certo sentido, seu distanciamento do reconhecidamente humano que opera como uma condição do discurso crítico, a fonte de seu valor, como a justificativa de seu valor. Ele diz que se o que esses médicos acreditam for verdade, ele seria um perdedor total, e ele insinua que ele não é um perdedor total, que algo nele está ganhando. Mas ele também está dizendo algo mais: ele está nos advertindo contra o próprio absolutismo da distinção, pois o seu falo não constitui a totalidade de seu valor e, portanto, há uma incomensurabilidade entre quem ele é e o que ele tem, entre o falo ele tem e o que é esperado que ele seja (e desta forma ele não é diferente de ninguém com um falo), o que significa que ele não alguém com a norma, e ainda assim ele ainda é alguém, falando, insistindo, até mesmo referindo-se a ele mesmo.

E é dessa lacuna, dessa incomensurabilidade, entre a norma que deveria inaugurar sua humanidade e a insistência falada em si mesmo que ele performa, que ele deriva seu valor, que ele fala seu valor. Não podemos precisamente dar conteúdo a essa pessoa no próprio momento em que ela fala de seu valor, o que significa que é precisamente das maneiras pelas quais ela não é totalmente reconhecível, totalmente descartável, totalmente categorizável, que sua humanidade emerge. E isso é importante, porque podemos pedir que ele entre na inteligibilidade para falar e ser conhecido, mas o que ele faz, ao invés disso, por meio de sua fala, é oferecer uma perspectiva crítica sobre as normas que conferem a própria inteligibilidade. E ele mostra, poderíamos dizer, que há um entendimento a ser obtido que ultrapassa as próprias normas da inteligibilidade. E ele consegue isso “fora”, podemos especular, recusando os interrogatórios que o assediam, invertendo os seus termos, aprendendo os caminhos pelos quais se pode escapar. E se ele se torna ininteligível para aqueles que buscam conhecer e capturar a sua identidade, isso significa que algo sobre ele é inteligível fora da estrutura da inteligibilidade aceita. Podemos ser tentados a dizer que existe algum núcleo de uma pessoa, e portanto alguma presunção de humanismo, que emerge aqui, que sobrevém aos discursos sobre a inteligibilidade sexuada e de gênero que a constrangem. Mas isso significaria que ele é denunciado por um discurso, apenas para ser levado por outro discurso, o discurso do humanismo. Ou poderíamos dizer que existe algum núcleo do sujeito que fala, que fala além do que se pode dizer, e que é essa inefabilidade que marca a fala de John, a inefabilidade do outro que não é revelado pela fala, mas deixa um portentoso fragmento de si mesmo em sua palavra, um si mesmo que vai além do próprio discurso. Mas o que eu preferiria é que consideremos cuidadosamente que, quando John invoca o “eu” dessa forma bastante esperançosa e inesperada, ele está falando sobre uma certa convicção que tem sobre sua própria amabilidade; ele diz que “eles” devem pensar que ele é um verdadeiro perdedor se a única razão pela qual alguém vai amá-lo é o que ele tem entre as pernas. “Eles” estão dizendo a ele que ele não será amado, ou que ele não será amado a menos que tome o que eles têm para ele, e que eles têm o que ele precisa para obter amor, que ele não terá amor sem o que eles têm. Mas ele se recusa a aceitar que o que eles estão oferecendo em seu discurso é amor. Ele recusa a oferta de amor, entendendo-a como um suborno, como uma sedução à sujeição. Ele será e é, diz-nos, amado por alguma outra razão, uma razão que eles não entendem, e não é uma razão que nos foi dada. É claramente uma razão além do regime de razão estabelecido pelas próprias normas da sexologia. Nós sabemos apenas que ele se sustenta por outra razão e que, nesse sentido, não sabemos mais que tipo de razão é essa, que razão pode ser; ele estabelece os limites do que eles sabem, rompendo a política da verdade, valendo-se dessa sua dessubjugação dentro dessa ordem do ser para estabelecer a possibilidade do amor além do alcance dessa norma. Ele se posiciona, com conhecimento de causa, em relação à norma, mas não cumpre seus requisitos. Ele arrisca uma certa “dessubjugação”: é ele um sujeito? Como saberemos? E, nesse sentido, o discurso de John põe em jogo a operação da própria crítica, crítica que, definida por Foucault, é justamente a dessubjugação do sujeito dentro da política da verdade. Isso não significa que John se tornou ininteligível e, portanto, sem valor para a política; em vez disso, ele emerge nos limites da inteligibilidade, oferecendo uma perspectiva sobre os modos variáveis ​​em que as normas circunscrevem o humano. É precisamente porque entendemos, sem compreender bem, que ele tem uma outra razão, que ele é, por assim dizer, outra razão, que vemos os limites do discurso da inteligibilidade que decidiria seu destino. John não ocupa exatamente um mundo novo, uma vez que ele está, mesmo dentro da sintaxe que dá origem ao seu “eu”, ainda posicionado em algum lugar entre a norma e seu fracasso. E ele não é, finalmente, nenhum dos dois; ele é o humano em seu anonimato, como aquilo que ainda não sabemos nomear ou que impõe um limite a todos os nomes. E, nesse sentido, ele é a condição anônima – e crítica – do ser humano, visto que fala a si mesmo nos limites do que pensamos que sabemos.


[1] Michel Foucault, “What Is Critique?”, traduzido por Lysa Hochroth, em “A Política da Verdade”, ed. Sylvère Lotringer e Lysa Hochroth (Nova York: Semiotext[e], 1997), 32. Este ensaio foi originalmente uma palestra proferida na Sociedade Francesa de Filosofia, em 27 de maio 1978; foi posteriormente publicado no Bulletin de la Société française de la philosophie 84, no. 2 (1990): 35-63.

[2] Para uma excelente visão geral desta controvérsia, ver Anne Fausto-Sterling, Sexing the Body: Gender Politics and the Construction of Sexuality (New York: Basic, 2000), 45–77. John/Joan não usa mais um pseudônimo, mas mantenho a referência do pseudônimo porque é a maneira predominante de se referir a esta pessoa nos tratamentos médicos e psicológicos da questão aqui.

[3] Milton Diamond e H. Keith Sigmundson, “Sex Reassignment at Birth: A Long Term

Review and Clinical Implications,” Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine 151 (1997): 298 –304; John Colapinto, As Nature Made Him: The Boy Who Was Raised as a Girl (New York: HarperCollins, 2000); Colapinto, “The True Story of John Joan,” Rolling Stone, 11 December 1997, 54ff.; John Money e Richard Green, Transsexualism and Sex Reassignment (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1969); Fausto-Sterling, Sexing the Body; Suzanne J. Kessler, Lessons from the Intersexed (New Brunswick, N.J.: Rutgers University Press, 1998); Natalie Angier, “Sexual Identity Not Pliable after All, Report Says,” New York Times, 14 March 1997. Ver também o videotape Redefining Sex, publicada pela Intersex Society of North America (www.isna.org), para perspectivas relevantes sobre a ética da redesignação sexual.

[4] Money and Green, Transsexualism and Sex Reassignment, 299

[5] Kate Millett, Sexual Politics (Garden City, N.Y.: Doubleday, 1970), 41–42; Kessler, Lessons from the Intersexed, 6 –7, 14–21; Kessler, “Meanings of Gender Variability,” Chrysalis 2, no. 4 (1997–98): 33–38; and Kessler, “The Medical Construction of Gender: Case Management of Intersexed Infants,” Signs 16 (1990): 3-26.

[6] Colapinto, As Nature Made Him, 69

[7] Angier, “Sexual Identity Not Pliable,” C1, C13.

[8] Ver Fausto-Sterling, Sexing the Body, 79 –114.

[9] Riki Anne Wilchins, Read My Lips: Sexual Subversion and the End of Gender (Ithaca, N.Y.: Firebrand, 1997); Kate Bornstein, Gender Outlaw: On Men, Women, and the Rest of Us (New York: Vintage, 1995).

[10] Citado em Diamond and Sigmundson, “Sex Reassignment at Birth,” 299 -300. Reticências e último par de parênteses no original.

[11] Ibid., 301. Reticências no original.

Para citar este texto: BUTLER, Judith. Fazer justiça a alguém: redesignação sexual e alegorias da transexualidade. (Tradução por Diogo Silva Corrêa). Blog do Labemus, 2021. [publicado em 02 de outubro de 2021]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2021/10/02/fazer-justica-a-alguem-por-judith-butler/

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