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Propaganda totalitária: entre progresso técnico e regressão humana, por Patrícia Santos

Patrícia da Silva Santos comenta o estudo sobre a propaganda fascista realizado por Siegfried Kracauer sob encomenda do Instituto para Pesquisa Social de Frankfurt. Quando, diante da iminência do horror nazista, quase todos estavam procurando desbravar o profundo, Kracauer voltava-se à superfície, aos indícios – como que seguindo a lógica de Hugo von Hofmannsthal segundo a qual “O profundo deve ser escondido. Onde? Na superfície”.

Propaganda totalitária: entre progresso técnico e regressão humana.

Notas sobre uma discussão de Siegfried Kracauer.

Por Patrícia da Silva Santos [1]

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Gostaria de desdobrar esse texto em torno da seguinte constatação sintomática:

Parece que todo novo progresso técnico também invoca o risco de um novo retrocesso humano, que os triunfos da humanidade sobre a natureza abrem a esta a oportunidade de triunfos imprevistos sobre a mesma humanidade; como se o crescimento das chances de felicidade estivesse inevitavelmente ligado ao das chances de desgraça. (KRACAUER, 2012 [1938], p. 59).

Esta frase poderia perfeitamente ter sido concebida com base no nosso presente histórico, quando as ideias políticas da extrema direita logram usufruir das possibilidades oferecidas pela internet para semear retrocessos humanos de maneira tal que nem os mais atentos analistas puderam intuir até cerca de dez anos atrás. Contudo, a sentença não foi suscitada por fenômenos contemporâneos. Ela faz referência à propaganda totalitária praticada na Alemanha e na Itália no período do totalitarismo e foi concebida por Siegfried Kracauer (1889-1966) em um estudo encomendado pelo Instituto para Pesquisa Social [Institut für Sozialforschung – IfS] em 1937. O arguto publicista alemão – que, por meio de textos sobre uma ampla diversidade de temas (literatura, cinema, abrigos de inverno, música, dança, arquitetura, agências de emprego, abrigos de inverno etc.), acompanhou os desdobramentos da República de Weimar sob a estratégia de observações de superfície (SANTOS, 2016) –, escolheu observar também o totalitarismo a partir de uma perspectiva não diretamente estrutural. Quando, diante da iminência horror nazista, quase todos estavam procurando desbravar o profundo, Kracauer voltava-se à superfície, aos indícios – como que seguindo a lógica de Hugo von Hofmannsthal (1986, p. 268) segundo a qual “O profundo deve ser escondido. Onde? Na superfície”.

Como todo texto, Propaganda totalitária também tem sua história. As tratativas em torno dele podem ser acompanhadas nas correspondências entre Kracauer e Theodor W. Adorno, no período de 1936 a 1938. Naquele momento, Kracauer estava exilado em Paris e sobrevivia com muitas dificuldades financeiras. Surge então a sugestão de Adorno de que o amigo propusesse a Max Horkheimer, diretor do IfS, um estudo sobre propaganda nazista – tema que já era de interesse do autor de O ornamento da massa. O instituto não teria condições assegurar-lhe uma bolsa de quatro meses para desenvolver a pesquisa, desde que em troca fosse garantida exclusividade de seus resultados. O manuscrito de 175 páginas foi finalizado em 1938, mas não agradou os membros do IfS. De posse das primeiras 106 páginas, Adorno escreveu um parecer bastante crítico para os colegas do instituto, ressaltando algumas passagens positivas. Ele argumenta que o trabalho não seria nem teórica, nem empiricamente sustentável para publicação na revista do instituto, mas destaca como originais temas como a tese da mobilidade de ideologias parciais no fascismo, a exposição do terror, as articulações sob a perspectiva de um “espelho reflexivo”, a constante reprodução das massas pelo fascismo e a crítica das oposições entre personalidade do líder e massa como mera contradição aparente.(ADORNO, 2012).

Com a justificativa de que o texto era muito longo para ser publicado na revista, Adorno fez nele modificações substantivas, reduzindo consideravelmente seu tamanho. Quando recebeu esse texto editado pelo amigo, que correspondia a um quinto da versão original, Kracauer não reconheceu nele seu próprio manuscrito e por isso recusou-se a publicá-lo daquela forma. Em uma longa carta a Adorno, ele afirma: “você não tenta de maneira escrupulosa preservar meu texto original em sua versão, ao contrário, você suplanta meu texto por meio de uma porção de ingredientes próprios” (ADORNO e KRACAUER, 2008, p. 398). Por conta desses descaminhos, Propaganda totalitária foi publicado pela primeira vez somente em 2012, no segundo volume das Obras de Kracauer editadas pela Suhrkamp.

De todo modo, penso que vale a pena revisitarmos algumas formulações presentes naquele texto original de 1938 no momento em que enfrentamos novamente as articulações entre propaganda e autoritarismo. Obviamente, a roupagem é nova, o meio técnico empregado é outro, os fenômenos autoritários certamente não são equiparáveis. Qualquer tentativa de tradução daquelas articulações para nosso presente histórico precisa estar amparada nessas e outras mediações imprescindíveis. Porém, alguns elementos destacados por Kracauer no âmbito da propaganda totalitária ressoam em versões da propaganda autoritária contemporânea. Uma vez que esta última ainda carece de reflexões mais aprofundadas, vale a pena inquirirmos traços teóricos gerais da discussão kracaueriana que possam, eventualmente, servir de mote à continuidade de nossas próprias investigações. Tal discussão apoia-se, em definitivo, em uma crítica aos descaminhos da razão, sempre sujeita aos perigos da regressão.

Nesse sentido, o texto de Kracauer acentua um nexo central para sua reflexão acerca da propaganda totalitária, que está presente na frase que abre esse texto. Trata-se da articulação entre regressão e progresso técnico. Com relação ao elemento regressivo inerente a esse tipo de propaganda, Kracauer destacava o apelo a “instintos elementares” (KRACAUER, 2012 [1938], p. 51) como estratégia de mobilização. Para ele, a propaganda totalitária se organizava contra o intelecto e a civilização, seus conteúdos teriam como objetivos livrar-se da razão. Contudo, o sucesso dessa propaganda estava justamente na capacidade de combinar esse traço “regressivo” ao emprego de meios técnicos altamente racionalizados (idem, p. 59). Munido de citações diversas de personagens como Adolf Hitler, Joseph Goebbels, Benito Mussolini, Alfred Rosenberg etc., Kracauer procura desvendar a “arte da propaganda”[2] .

A propaganda era elemento nevrálgico no regime fascista. Kracauer faz referência a uma frase de Adolf Hitler que afirmava: “Propaganda, propaganda, depende apenas da propaganda!” (idem, p. 39). Nisso, o grande objetivo seria influenciar as massas, mas não se trata de defender seus interesses. Ao contrário, a estratégia seria movimentar-se na esfera da aparência [Schein] e do reflexo [Widerschein] das forças reais da sociedade. Destarte, a propaganda coloca-se uma tarefa que, para Kracauer, é irrealizável: sem orientar-se nos interesses das massas, ela ambiciona agir sobre elas como um todo. Nas palavras do autor, “a intenção propriamente da propaganda fascista é a pseudorreintegração das massas artificialmente preparadas por ela” (idem, p. 14). Para isso, a tarefa consistiria em “liberar ideias fascinantes e passíveis de emprego propagandísticos para poder manipulá-las a bel prazer” (idem, p. 45). As promessas de satisfação dos interesses de todos os grupos sociais só podem ser sustentadas por meio desse tipo de mecanismo ilusionista. Uma das frases de Hitler mencionadas no texto consiste na fórmula “Liderar significa: poder movimentar massas” (idem, p. 46).

Outro aspecto relevante do debate kracaueriano sobre propaganda totalitária é o caráter niilista que lhe é inerente – a estetização da prática atua também nesse sentido. O autor refere-se a uma frase de Hitler, segundo a qual o principal pressuposto de toda atividade propagandística seria sua “tomada de posição fundamentalmente subjetiva em relação a toda questão trabalhada” (idem, p. 62). Também elabora a postura de Mussolini, que incluía sempre trabalhar em duas direções diferentes, ou seja, pouco importaria o fim visado. Trata-se da propaganda como fim em si mesmo, sem projetos, sem coerência; como algo que tem “o sucesso enquanto tal como único critério” (idem, p. 68). Interessante (e atual) notar que as contradições são, nessa lógica, parte constitutiva do método, que tem como “objetivo insultar a razão [Ratio] e, desse modo, fazê-la oscilar ainda mais” (idem, p. 69). Nisso, verdade e mentira tornam-se igualmente insignificantes e sua oscilação causa “vertigens” na massa, impossibilitando-a de julgar autonomamente. Também a esse esvaziamento de sentido pertencem conceitos típicos da propaganda, como nação ou povo [Volk]. Kracauer designa a ideia de povo como “cápsula sem conteúdo” (idem, p. 67) e como conceito encobridor (idem, p. 149).”.

 

Nesse ponto, vale problematizar um pouco a concepção de massa. Ao longo de mais de 1500 ensaios para o Frankfurter Zeitung e outras publicações feitas durante o período da República de Weimar, o problema se constituía como uma das maiores preocupações kracauerianas. Para o autor, rechaçar simplesmente a massa, como o faziam seus contemporâneos cultivados [Gebildete], era problemático, pois implicava, em certo sentido, um saudosismo, uma atitude reacionária diante de um mundo que inevitavelmente se desagrega e se despede de formações comunitárias. Procurei elaborar essas discussões de maneira detalhada em outro lugar (SANTOS, 2016), mas diante de um texto como Propaganda totalitária é importante ter em mente que Kracauer lidou com a questão das massas sob inúmeras perspectivas, desde as manifestações culturais como cinema, romances, companhias de dança etc., até as novas massas de trabalhadores compostas pelos empregados [Angestellten] – espécie de nova classe média, economicamente proletarizada mas com aspirações ideológicas burguesas. A partir de investigações ligadas ao “exótico do cotidiano” (KRACAUER, 2006 [1929], p. 2018), onde nem os “intelectuais radicais” se aventuravam, Kracauer formulou uma crítica às massas que as aceitava como configuração inerente ao período histórico. Assim, ele enxergava nas massas tanto potencialidades como perigos. De todo modo, “o processo conduz a atravessar por meio do ornamento da massa, não voltar dele para trás” (KRACAUER, 2009, p. 103). Em alguma medida, o conceito eminentemente irreal (por isso, niilista) de povo do totalitarismo implicava uma regressão artificial do ornamento da massa para trás.

No texto sobre a Propaganda totalitária esse problema é discutido longamente. Kracauer aponta contradições no discurso fascista de menosprezo das massas, ao mesmo tempo em que se acentua a ideia de “vontade do povo”. Também elabora as diferenças entre massas fascistas e massas revolucionárias. Em uma e outra, reconhece, por exemplo, que há um enfraquecimento da consciência. Mas no caso da massa revolucionária, haveria uma função positiva nisso, que permitiria uma oposição ao individualismo das formações capitalistas. No caso da massa fascista, a função desse enfraquecimento estaria na prática de uma espécie de hipnose, que viabilizaria a assunção das sugestões totalitárias (KRACAUER, 2012 [1938], p. 96-97). Nessas e outras discussões, é possível notar o esforço de Kracauer em se adaptar minimamente às diretrizes do instituto que o financiava e publicaria o trabalho. Nesse sentido, há muitas referências a membros do instituto, especialmente às teses de Max Horkheimer. De todo modo, a autonomia do pensamento de Kracauer sobressai nas formulações. Em relação às massas, por exemplo, ele também estabelece interlocuções com Ortega y Gasset, a quem considera um “grande pensador burguês”, enquanto Adorno o toma simplesmente como “reacionário” – divergência que figura na correspondência (ADORNO e KRACAUER, 2008, p. 397).

O texto kracaueriano também apresenta uma discussão sobre como a propaganda totalitária anseia agir na estrutura psíquica e física das pessoas: “Para as ditaduras totalitárias, tudo depende da manutenção da constituição psíquico-física na qual a falsa realidade funciona como realidade” (KRACAUER, 2012 [1938], p. 156). Para isso, tal propaganda se utiliza, por um lado, do terror e, por outro, da desindividualização das pessoas e sua transformação em massa, nos moldes acima mencionados. Um elemento interessante a destacar nessa reflexão específica, tendo em vista processos contemporâneos de propaganda da extrema direita e de disseminação de fake news, consiste na estratégia da repetição. Esse princípio contribui para conduzir as massas ao estágio infantil, no qual “elas não absorvem mais nada além do que é repetido persistentemente [pelo orador].” (idem, p. 103). O caráter regressivo da propaganda totalitária é retomado por Kracauer o tempo todo. Também pertence aos procedimentos psíquicos a atuação impulsiva, para produzir “choques virulentos” (idem, p. 15), que confundem e cerceiam a autonomia do julgamento.

De todo modo, para Kracauer, a propaganda totalitária não se desenvolve em “espaço vazio”, ela depende de condições econômicas, societárias e sociais. Nesse ponto, o autor articula a tese de que a concentração de capital no pós-guerra tanto na Alemanha como na Itália foi determinante para que esse tipo de propaganda proliferasse. Ele discute o importante papel da classe média e de seus processos de desclassificação social, retoma algumas teses do seu livro de 1929 sobre Os empregados (KRACAUER, 2006) e lida também com outras classes sociais. Além disso, defende que a crise do pós-guerra teria favorecido o desenvolvimento de uma postura contrária aos valores burgueses. “Se o desenvolvimento histórico se desenvolvesse conforme as leis da lógica, então seria evidente que as novas massas se unissem ao proletariado, ao qual elas de fato se filiavam, por conta de seu empobrecimento […]” (KRACAUER, 2012 [1938], p. 132). No entanto, não foi o que se passou e para essa contrariedade à lógica, a propaganda certamente figura como uma das grandes responsáveis.

No parágrafo final de seu texto, Kracauer argumenta:

Quando se considera o reflexo dessa propaganda: ela embaralha à sua volta às cegas tudo o que parece fixo e pregado […]. No primeiro estágio, a propaganda totalitária se torna técnica de excitação das massas como tal, não importa com quais meios. Embaixo está em cima, em cima está embaixo. (idem, p. 173)

Essa deturpação avassaladora do existente recebe hoje o pomposo nome de pós-verdade. Mais do que um fenômeno pós-moderno, contudo, esse parece ser um traço inerente ao pensamento autoritário em sociedades capitalistas. A crítica da razão e a vigilância em torno dos seus componentes regressivos deve, por isso, ser uma constante. Caso contrário, corremos o risco de sermos tragados pelo niilismo autodestrutivo – que ressurge agora com roupagem nova, como aponta, por exemplo, Wendy Brown (2019). Para malgrado dos otimistas, as promessas de felicidade e as de desgraça são, como disse Kracauer, igualmente partes constitutivas do progresso técnico.

Referências:

ADORNO, Theodor e KRACAUER, Siegfried. Briefwechsel 1923-1966. Frankfurt a. M., Suhrkamp, 2008 (organizado por Wolfgang Schopf).

ADORNO, Theodor W. Gutachten über die Arbeit “Die totalitäre Propaganda Deutschlands und Italiens”, S. 1 bis S. 106, von Siegfried Kracauer. In KRACAUER, Siegfried. Werke, vol 2.2, 2012, p. 821-824.

BENJAMIN, Walter. “Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit” [1936], in Gesammelte Schriften. Frankfurt a. M., Suhrkamp, 1991, vol 7.1, pp. 350-384.

BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo. São Paulo: Ed. Filosófica Politeia, 2019.

HOFMANNSTHAL, Hugo von. “Buch der Freunde”, in Gesammelte Werke. Frankfurt a. M., Fischer, 1986, vol. 10.

KRACAUER, Siegfried. Die Angestellten [1929]. In Werke, vol 1. Frankfurt a. M., Suhrkamp, 2006, p. 213-310.

KRACAUER, Siegfried. O Ornamento da Massa. São Paulo, Cosacnaify, 2009.

KRACAUER, Siegfried. “Exposé. Masse und Propaganda” [1936]; “Totalitäre Propaganda” [1938]. In Werke, vol 2.2, 2012, p. 17-173.

SANTOS, Patrícia da Silva. Sociologia e superfícies. Uma leitura dos escritos de Siegfried Kracauer até 1933. São Paulo: Ed. Unifesp, 2016.

Notas:


[1]      Professora Adjunta da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (UFPA).

[2]      Para Goebbels, “a propaganda é uma arte”. Segundo Kracauer, a formulação não é simplesmente metafórica. Analisando ideias de Goebbels e Hitler, o autor argumenta que “a estetização [Ästhetisieren] da propaganda objetiva a anestesiação [Anästhetisierung] das massas” (KRACAUER, 2012 [1938], p. 75). Suas articulações em torno da caracterização da propaganda como arte são similares ao que Benjamin (1991 [1936], p. 384) formularia como a “estetização da política” típica do fascismo.

Para citar este texto: SANTOS, Patrícia. Propaganda totalitária: entre progresso técnico e regressão humana. Notas sobre uma discussão de Siegfried Kracauer. Blog do Labemus, 2022. [Publicado em 02 de agosto de 2022]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2022/08/02/propaganda-totalitaria-entre-progresso-tecnico-e-regressao-humana-por-patricia-da-silva-santos /

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