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Para virar voto (ou reduzir a intensidade da convicção bolsonarista) em dez pontos, por Diogo Corrêa

Estamos a menos de uma semana da eleição mais importante da nossa democracia após a Constituição de 1988. Vivemos uma situação crítica. Uma possível vitória do Bolsonaro nos colocará numa situação de ameaça democrática sem precedentes. Tenho acompanhado de perto e conversado com bolsonaristas, e vou dizer aqui algumas das estratégias que, para mim, têm funcionado, senão para converter o voto, ao menos para diminuir a intensidade da convicção bolsonarista dos meus interlocutores.

 

  1. A primeira coisa importante é esquecer o público bolsonarista raiz. Esse não vai mudar o voto de jeito nenhum e nem ouvir nada. Por outro lado, há uma parcela significativa que não está 100% definida e não tem de fato afinidade orgânica nenhuma com a visão de mundo bolsonarista (militarista, armamentista, autoritária, misógina, etc). Eu foco nesse perfil.
  2. A essa altura do campeonato, quem ainda está indeciso ou vai votar no Bolsonaro tem necessariamente uma forte restrição às figuras do Lula e do PT. Portanto, nunca começo a conversa defendendo Lula (“Lula aumentou o poder de compra do salário mínimo”) ou atacando ferozmente o Bolsonaro (“Bolsonaro é genocida”). Não funciona.
  3. Os argumentos antipetistas não variam ad infinitum. Eles tendem a se concentrar em quatro eixos: 1. Lula é ladrão e corrupto; 2. Lula e o PT são contra a família; 3. Lula e o PT vão fazer do Brasil um país comunista, uma Venezuela ; 4. Lula e o PT vão censurar a imprensa e vão impedir a nossa liberdade religiosa e de expressão. Para cada argumento, é legal ter ao menos um contra-argumento rápido ou vídeo que contradiga o que está sendo criticado. Volto a isso mais adiante.
  4. Começo sempre o diálogo mostrando o meu senso crítico em relação ao PT e ao Lula. Criar uma afinidade ou sintonia crítica com os interlocutores sobre o PT ou o Lula é importante. Sem isso, você não vai desarmá-los ou fazê-los escutar o que você tem a dizer. A pessoa com quem você conversa precisa perceber que você não é mais um “militante chato” que vai ficar repetindo aquilo que ele já ouviu mil vezes e não foi convencido.
  5. Afirmo, de partida, que não sou lulista ou petista. Também digo que houve, sim, corrupção nos governos petistas, mas que a corrupção foi do governo e não só do partido – e que no governo Lula estavam partidos que hoje compõem o núcleo duro da base bolsonarista. Também digo que o PT tem parcela de responsabilidade na eleição de Bolsonaro, ao ter insistido na polarização eleitoral do “nós contra eles” ao longo das eleições anteriores. Sim, pode torcer o nariz para mim, mas é importante conceder antes de convencer.
  6. Em seguida, insisto que a candidatura do Lula não é a candidatura do Lula e do PT, mas de um campo democrático. A prova disso, argumento, é que todos os principais adversários do PT, desde 1989 (exceto Collor e Aécio), declararam voto no Lula: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin, Marina Silva, Ciro Gomes, Cristovam Buarque, Henrique Meirelles e até o Amoedo do Partido Novo (poderia também falar de Luciana Genro e de Guilherme Boulos, mas quem votou nos dois já votou no Lula em 2022 desde o primeiro turno). Também falo do voto de Joaquim Barbosa, que foi relator do mensalão, condenou petistas, mas vota no Lula. Prossigo afirmando que essas pessoas que hoje votam no Lula não viraram lulistas nem petistas, mas entendem que o que está em jogo vai além do Lula e do PT e diz respeito à manutenção da democracia no Brasil.
  7. Se a principal restrição que a pessoa apresentar for a corrupção do PT, insisto: 1. O atual presidente do PL, o partido do Bolsonaro, é Valdemar Da Costa Neto, condenado pelo mensalão; 2. O Ciro Nogueira, atual chefe da Casa Civil de Bolsonaro, é do PP, partido que teve mais indiciados pela lava-jato;  e o próprio Ciro Nogueira foi investigado, na Operação Lava-Jato, por organização criminosa num esquema de desvios na Petrobras. 3. O Bolsonaro impede investigação: diferentemente do PT no governo, ele não respeitou a lista tríplice do Ministério Público para a escolha do Procurador Geral da República e interveio cinco vezes na superintendência da Polícia Federal. 4. Outro ponto que vale ser trazido à tona é o orçamento secreto: são 19 bilhões de reais coordenados pelo relator, sem rubrica e sem autoria, e já há diversos indícios de corrupção que virão à tona em breve (p.ex., cidades pequenas do Maranhão tem mais exames de HIV do que toda a cidade de São Paulo). 5. Por fim, lembro ainda do caso da rachadinha de Flávio Bolsonaro, das condecorações de milicianos, além dos 25 milhões em dinheiro vivo utilizados pela família Bolson4ro para a compra de imóveis.
  8. Quando o argumento de restrição ao PT é o comunismo, eu sei, dá preguiça. Mas as pessoas realmente acreditam. Então contra-argumento dizendo que o Lula ficou oito anos no poder (e o PT, quatorze anos) e nada, absolutamente nada foi feito nessa direção. Insisto como bancos nunca ganharam tanto dinheiro quanto no governo Lula e que a proposta do Bolsonaro de aumentar o número de ministros do STF é a que mais se aproxima dos regimes autoritários de Chavez e Maduro. 
  9. Sobre a censura, enfatizo que Lula ficou oito anos no poder e nunca censurou absolutamente nada. Se a questão da censura estiver associada à relação com ditadores, lembro do apoio de Bolsonaro a Augusto Pinochet no Chile e a Alfredo Stroessner no Paraguai.
  10. Sobre a questão de acabar com a família e as igrejas, insisto que Lula não só nunca fez isso, como, pelo contrário, criou a lei da liberdade religiosa e os evangélicos nunca prosperaram e cresceram tanto quanto no governo dele. O mesmo em relação ao aborto: nada foi feito nessa direção, já que são temas tratados pelo STF e pelo legislativo, não pelo presidente. E complemento dizendo há um ecossistema de desinformação no bolsonarismo para espalhar fake news e criar pânico moral. A depender do interlocutor, indico artigos da Letícia Cesarino e o livro do Giovanni da Empolli.

Adendo: Claro que há uma infinidade de outros contra-argumentos possíveis (o bolsonarismo, todo dia, nos “brinda” com mais razões e motivos para não votar em Bolsonaro). E vale sempre ter na manga vídeos bem feitos que contestem os argumentos contrários ao PT e ao Lula. Repito que tal esforço não necessariamente muda o voto de alguém; contudo, reafirmo que, a depender de maneira como tais informações chegam aos interlocutores, elas são sim capazes de diminuir a intensidade da convicção no voto no Bolsonaro ou ao menos ajudar a pessoa a não votar no Bolsonaro. Por fim, é importante lembrar que as pessoas que estão capturadas pela rede bolsonarista não estão sozinhas. Além de inseridas em um ecossistema informacional (paralelo), elas estão amarradas em um sistema de lealdades pessoais. Uma não mudança de voto muitas vezes tem mais a ver com não trair amigos, parentes e pares do que com um ato de convicção na figura (tosca) do Bolsonaro. Por isso, no final, sempre lembro às pessoas que o voto é secreto, que elas podem votar no dia 30 no Lula sem declararem apoio a ele e ao PT, evitando, assim, entrar em conflito com o seu ambiente social mais próximo.

Essa eleição vai ser apertada, tensa e todo esforço é pouco para conseguirmos tirar o Brasil da catástrofe que a reeleição de Bolsonaro representa. Façamos cada um a nossa parte.

Para citar este texto: CORRÊA, Diogo. Para virar voto (ou reduzir a intensidade da convicção bolsonarista) em dez pontos. Blog do Labemus, 2022. [Publicado em 24 de setembro de 2022]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2022/10/24/para-virar-voto-por-diogo-correa/

2 comentários em “Para virar voto (ou reduzir a intensidade da convicção bolsonarista) em dez pontos, por Diogo Corrêa

  1. Está excelente!!

  2. Cada dia que passa fico mais fã do Diogo!!

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