Por Gabriel Peters
Clique aqui para pdf
Por que “estilo paranoide”? Conspirações na história ≠ História como conspiração
Corriam os anos de 1960 quando o historiador estadunidense Richard Hofstadter introduziu a noção de “estilo paranoico” ou “paranoide” para tratar de um tipo de mentalidade política (1965: 3-40). Ao transpor uma terminologia psiquiátrica para o domínio político, o autor advertiu, desde logo, que não se referia a uma generalização da paranoia em sentido clínico, mas à presença de modos paranoicos de raciocínio e expressão em uma parcela da população que, em termos psiquiátricos, permanece “mais ou menos normal” (seja lá o que isso signifique [Ibid.: 4]).
A passagem da significação clínica ao sentido político torna-se ainda mais nítida quando Hofstadter contrasta o caráter individualizado da paranoia psiquiátrica ao feitio coletivo da paranoia política. Na primeira, o indivíduo afligido se vê sozinho frente a um mundo conspiratório hostil, ao passo que, na segunda, tanto os “ameaçados” quanto os “ameaçadores” são identificados a coletivos inteiros (por exemplo, comunistas perseguindo famílias cristãs). Quando vividas e defendidas como uma questão coletiva, concepções conspiratoriais do mundo parecem menos autointeressadas, assumindo mais facilmente a roupagem da correção moral – como já havíamos visto com Theodor Adorno.
A ideia de “estilo” embutida no conceito hofstadteriano é decisiva, na medida em que captura menos um conjunto particular de crenças substantivas do que um modo de chegar até elas, sustentá-las e defendê-las. Nas suas palavras, “estilo tem mais a ver com o modo como as ideias são acreditadas e advogadas do que com a verdade ou falsidade de seu conteúdo” (Ibid.: 5). Talvez a melhor ilustração desta tese se encontre na diferença, posteriormente apresentada pelo autor, entre o reconhecimento sensato da existência de conspirações na história das sociedades humanas, de um lado, e a tendência a interpretar a história inteira das sociedades humanas em termos de conspirações, de outro.
Como uma grade de interpretação do real, o estilo paranoide é profundamente influenciado pelos vieses que um psicólogo contemporâneo denominou de “padronicidade” e “agenticidade” (Shermer, 2012). Enquanto o primeiro termo designa a tendência a interpretar quaisquer ocorrências em termos de padrões, nunca de acidentes ou coincidências, o segundo abarca a propensão a tomar tais padrões como resultados planejados por algum agente ou grupo de agentes, nunca como efeitos não intencionais da combinação ou do entrechoque de diferentes agentes e forças no mundo social. Em termos negativos, a mentalidade paranoide é profundamente avessa à identificação da contingência: a existência de desenlaces sócio-históricos que, mesmo quando incluem ações intencionais na sua configuração de causas, não derivam como tais do planejamento de quaisquer atores humanos, não importa o quão poderosos.
Maniqueísmo e apocalipse: uma (a)po(ca)lí(p)tica do bem contra o mal
O estilo paranoico percebe uma vasta conspiração dirigida a prejudicar e aniquilar um coletivo identificado por certo modo de vida, frequentemente pensado como um todo de múltiplas dimensões – por exemplo, o complexo “verdadeiramente americano” que envolve propriedade privada, casamento heterossexual, família nuclear, religião cristã etc. A dimensão totalizante dessa mentalidade é captada por Hofstadter na retórica apocalíptica do líder paranoico, devotada ao “nascimento e à morte de mundos inteiros, ordens políticas inteiras, sistemas inteiros de valores humanos” (Ibid.: 29). Com efeito, embora o historiador estadunidense não cite a teoria política do tenebroso Carl Schmitt, podemos interpretar o estilo paranoide como um dispositivo de transformação de “adversários” políticos em “inimigos” com os quais nenhuma conciliação é possível, já que sua existência supostamente imporia uma escolha do tipo “ou eles ou nós”:
“o líder paranoide…não vê o conflito social como algo a ser mediado…, à maneira do político profissional. Dado que o que está em jogo é sempre um conflito entre o bem absoluto e o mal absoluto, a qualidade necessária não é uma disposição a fazer concessões, mas a vontade de lutar até o fim. (…) Dado que o inimigo é pensado como totalmente mau e totalmente indomesticável, ele deve ser totalmente eliminado – se não do mundo, pelo menos do teatro de operações ao qual o paranoide dirige sua atenção” (Ibid.: 31).
Conquanto Hofstadter haja tecido suas considerações na década de 1960, sua referência a mundos, ordens e sistemas valorativos “inteiros” lança luz sobre a retórica da “guerra cultural” que se tornaria uma estratégia crucial das direitas desde a última década do século XX (Peters, 2021; Rocha, 2021). Quando mobilizada por políticos republicanos estadunidenses como uma luta pela existência mesma da “verdadeira América”, a ideia de guerra cultural une sob um mesmo guarda-chuva pautas políticas relativas a diferentes dimensões da vida social: da defesa da propriedade privada contra o “socialismo” à rejeição religiosamente motivada do direito ao aborto ou ao casamento gay.
A contraparte dessa concepção “multidimensional” da luta política, para enfatizar um aspecto pouco discutido por Hofstadter, é um retrato também multidimensional dos inimigos. Ao reuni-los em uma mesma e sinistra conspiração, tal retrato transforma aquele plural em um inimigo singular – por exemplo, quando noções como “marxismo cultural” (Olavo de Carvalho) ou “neomarxistas pós-modernos” (Jordan Peterson) apagam diferenças internas a visões políticas de esquerda (digamos, entre leninistas à moda antiga e desconstrucionistas pós-modernos), pintando-as como uma única conspiração na qual as agendas se juntariam em cascata (p.ex., do ataque ao capitalismo na esfera econômica à suposta oposição à moralidade sexual tradicional na dimensão cultural dos costumes).
É no retrato do inimigo que a intolerância do estilo paranoide à contingência histórica atinge seu grau máximo:
“Diferentemente do resto de nós, o inimigo não é capturado nos trabalhos do vasto mecanismo da história, ele próprio uma vítima do seu passado, dos seus desejos, das suas limitações. Ele…fabrica…o mecanismo da própria história ou desvia o curso normal da história de um modo maldoso. Ele produz crises,…causa depressões, fabrica desastres e, então, goza e lucra com a miséria que ele produziu. A interpretação paranoide da história é, nesse sentido, distintamente pessoal: eventos decisivos não são tomados como parte do fluxo da história, mas como consequências da vontade de alguém”[i] (1965:32).
Imitação, projeção e pesquisa: traços do estilo paranoide
Uma das características mais curiosas do estilo paranoide em política, afirma Hofstadter, é a presença de admiração por características do inimigo, muito frequentemente tidas como dignas de imitação para a própria causa. Por exemplo, na medida em que a vasta e perversa conspiração comunista é levada adiante por inimigos persistentes, pacientes, disciplinados e inventivos, a direita precisaria desenvolver esses traços em si própria para derrotar o comunismo. Se a intelectualidade universitária é retratada como parte de uma conspiração de esquerda voltada à doutrinação da juventude, a tarefa da direita anticomunista torna-se a de superá-la intelectualmente em erudição e aparato acadêmico (Ibid.: 32). E assim por diante…
Exemplos similares aos apresentados por Hofstadter, como o de um político da extrema direita republicana que afirmava haver se inspirado nos princípios estratégicos de Mao Tsé-Tung (Ibid.: 33), abundam na contemporaneidade – de Steve Bannon definindo a si próprio como um leninista ao projeto sistemático de uma contrahegemonia antigramsciana, levado a cabo durante anos por Olavo de Carvalho, segundo princípios aprendidos na literatura marxista.
De modo en passant, bem menos sistemático do que fizera Adorno cerca de uma década antes, Hofstadter também identifica um mecanismo projetivo na tendência do estilo paranoide a retratar o inimigo como sexualmente devasso, tendência que encontra diversas exemplificações contemporâneas (p.ex., na teoria conspiratória do Qanon):
“A liberdade sexual frequentemente atribuída ao inimigo, sua falta de inibição moral, sua posse de técnicas especialmente efetivas para realizar seus desejos, dão aos expoentes do estilo paranoide uma oportunidade de projetar e expressar livremente aspectos inaceitáveis de suas próprias mentes. (…) Muito frequentemente, as fantasias dos verdadeiros crentes [sobre o comportamento dos inimigos] são fortes válvulas sadomasoquistas, vividamente expressas” (Ibid.: 34).
Se a obsessão pelo comportamento sexual já havia sido trabalhada em detalhe por outros observadores da “personalidade autoritária”, Hofstadter é mais original ao identificar o interesse intenso pela figura do “renegado” ou “ex-inimigo” como traço recorrente do estilo paranoide. Como alguém que viveu como os inimigos e entre eles antes de converter-se à causa correta, o renegado cumpre pelo menos duas funções fundamentais na política da paranoia. A primeira é o testemunho, em primeira mão, da veracidade das teorias sobre a perversidade do inimigo, testemunho ao qual o líder paranoide, quando não é um renegado ele mesmo, empresta imensa credulidade. A segunda, não menos importante, envolve uma concepção do renegado como esperança encarnada, isto é, uma prova viva da possibilidade de que o bem triunfe sobre o mal.
Tratando das figuras comuns dos ex-comunistas que, pulando quaisquer posições de centro, se transferiram da extrema esquerda para a extrema direita, sem deixar de usar sua experiência comunista como uma espécie de capital político (i.e., o conhecimento do inimigo “a partir de dentro”), Hofstadter associa esta passagem de um extremo a outro a um tipo de forma mentis autoritária e conspiratorial:
“Nos movimentos contemporâneos de extrema direita, um papel particularmente importante foi desempenhado por ex-comunistas que se moveram rapidamente…da esquerda paranoide à direita paranoide, mantendo-se, ao longo de todo o processo, aferrados à psicologia fundamentalmente maniqueísta que subjaz a ambos” (Ibid.: 35).
(Por óbvio, a passagem evidencia que, embora o foco primordial de Hofstadter se dirija à presença do estilo paranoide em movimentos de extrema direita, como o anticomunismo macartista e o nazifascismo alemão, o autor certamente não nega sua aparição frequente também em discursos e regimes de esquerda.)
Longe de se apresentar como especulação, lembra Hofstadter, o discurso paranoide é obcecado com a demonstração baseada em evidências (i.e., no que ele interpreta como evidências). A implausibilidade mesma das conclusões a que chega tal discurso leva seus defensores à elaboração de teorias e repertórios “evidenciais” altamente detalhados, os quais são produzidos e sustentados pelo que Hofstadter chama, com desprezo mal disfarçado, de “demi-intelectuais”. Tais repertórios não são inteiramente compostos de alegações falsas e/ou dúbias, mas incluem diversas asserções verdadeiras – colocadas, no entanto, em uma grade argumentativa que, em um ou mais momentos, salta do “inegável ao inacreditável” (Ibid.: 38).
Uma “patologia” da racionalidade?
Hofstadter tem razão quando escreve que, no raciocínio paranoico, “há um curioso salto em imaginação que é sempre feito em algum ponto crítico no recital de eventos” elencados como evidências (Ibid.: 37). É importante, no entanto, não supor que tais passos ou saltos errôneos em cadeias de raciocínio são raros ou exclusivos a uma parcela descompensada da população. Como vimos em um post sobre erros e criatividade no pensamento científico, até mesmo heróis da ciência moderna, como Newton e Darwin, também deram pulos que foram do “inegável” ao “inacreditável”.
Hofstadter pisa em terreno mais seguro, embora mais desconfortável, quando salienta o caráter racionalista do estilo paranoide. Longe de significar a expulsão completa da racionalidade pelo irracional, o estilo paranoide é uma espécie de “patologia” (lato sensu) do hiper-racionalismo – por exemplo, na medida em que a consistência interna da teoria paranoica, de tão prezada, se torna capaz de enquadrar quaisquer dados empíricos como confirmações de sua verdade. Nas palavras do autor:
“[A] alta pesquisa paranoide…não é nada senão coerente – na verdade, a mentalidade paranoide é muito mais coerente do que o mundo real, já que não deixa qualquer espaço para erros, falhas ou ambiguidades. Ela é, se não inteiramente racional, pelo menos intensamente racionalista” (Ibid.: 36).
O psicólogo Rob Brotherton (2015: cap.6) chega ao ponto de mostrar os aspectos em que influentes teóricos contemporâneos da conspiração seguem preceitos intelectuais não muito diferentes de estrelas do pensamento iluminista como Descartes e Kant. O primeiro só chegou ao argumento do cogito porque ousou duvidar do saber consolidado pelos “peritos” de sua época e fazer, como se diz hoje, “sua própria pesquisa”. “Fazer sua própria pesquisa”, aliás, também é um modo de responder ao “Ousa saber!” (Sapere aude) que Kant elegeu como mote do Iluminismo. Vindas de uma época em que os conhecimentos peritos não haviam se tornado tão especializados, a ponto de tornar impossível a qualquer indivíduo se capacitar intelectualmente para julgar suas pretensões de verdade, tais recomendações se tornaram potencialmente problemáticas ao nosso tempo [ii].
Mencionar provocativamente tais conexões não é pregar um retorno ao irracional, por óbvio, mas prevenir a autocomplacência racionalista com que “teorias da conspiração” são frequentemente tratadas, como se houvesse um fosso radical entre o bom senso e a mentalidade conspiratorial.
Infelizmente, as coisas não são tão simples.
Na verdade, são tão complicadas que requerem outro texto.
Volto em breve.
Notas
[i] A passagem tem ecos da clássica descrição arendtiana da propaganda totalitária: “A eficácia desse tipo de propaganda evidencia uma das principais características das massas modernas. Não acreditam em nada visível, nem na realidade da sua própria experiência; não confiam em seus olhos e ouvidos, mas apenas em sua imaginação, que pode ser seduzida por qualquer coisa ao mesmo tempo universal e congruente em si. O que convence as massas não são os fatos, mesmo que sejam fatos inventados, mas apenas a coerência com o sistema do qual esses fatos fazem parte. O que as massas se recusam a compreender é a fortuidade de que a realidade é feita. Predispõem-se a todas as ideologias porque estas explicam os fatos como simples exemplos de leis e ignoram as coincidências, inventando uma onipotência que a tudo atinge e que supostamente está na origem de todo acaso. A propaganda totalitária prospera nesse clima de fuga da realidade para a ficção, da coincidência para a coerência. A principal desvantagem da propaganda totalitária é que não pode satisfazer esse anseio das massas por um mundo completamente coerente, compreensível e previsível sem entrar em sério conflito com o bom senso” (Arendt, 1998: 400).
[ii] Isto não impede que tais sistemas de conhecimento perito, como já lembrava Giddens nos anos de 1990, organizem quase todos os setores de nossa experiência cotidiana: da água que corre em nossas torneiras aos elevadores que pegamos, passando pelas redes em que nos comunicamos. Dado que ninguém pode tornar-se perito em tudo, continuava Giddens, há uma dose inevitável de confiança, aposta ou fé em tais sistemas de conhecimento especializado. Eis somente um dos paradoxos gerados por um mundo organizado por sistemas de perícia.
Referências
ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
BROTHERTON, Rob. Suspicious minds: why we believe conspiracy theories. London: Bloomsbury Sigma, 2015.
HOFSTADTER, Richard. The paranoid style in American politics and other essays. New York: Alfred A. Knopf, 1965.
PETERS, Gabriel. Guerra cultural. In: SZWAKO, José; RATTON, José Luiz (orgs.). Dicionário dos negacionismos no Brasil. Recife: Cepe Editora, 2021. p. 217–220.
ROCHA, João Cezar de Castro. Guerra cultural e retórica do ódio: crônicas de um Brasil pós-político. Goiânia: Editora e Livraria Caminhos, 2021.
SHERMER, Michael. Cérebro e crença: de fantasmas e deuses à política e às conspirações – como o cérebro constrói nossas crenças e as transforma em verdades. São Paulo: JSN, 2012.


0 comentário em “O “estilo paranoide”: notinha sobre um conceito clássico de psicologia política, por Gabriel Peters”