teoria social em pílulas

Por que continuo sonhando que vou reprovar por falta? Uma notinha de sociologia dos sonhos, por Gabriel Peters

Uma das chaves para interpretar os sonhos é observar como eles misturam, mediante metáforas e analogias, experiências do nosso passado e preocupações do nosso presente

Por Gabriel Peters 

 

Provas, fracassos e dois sonhos recorrentes 

De tempos em tempos, sonho que descubro, apenas no final do semestre, que estava matriculado em uma disciplina na universidade sem sequer saber disso. Logo, por não ter ido às aulas, reprovarei por falta.

Em outro sonho recorrente, tenho de entrar em cena numa peça de teatro em alguns instantes, mas me dou conta de que não sei minhas falas e não tenho tempo suficiente para treiná-las.

Detalhe: faz mais de uma década que não sou aluno de qualquer disciplina.

Outro detalhe: não possuo quase nenhuma experiência no teatro.

Por que, então, minha psique insiste em me remeter a essas duas situações?

Lahire explica

Sabia que existe uma sociologia dos sonhos? Um sociólogo francês chamado Bernard Lahire não chegou a inventá-la, mas recentemente deu a ela uma contribuição tão substancial que o homem merece ser chamado, pelo menos em relação ao tema das experiências oníricas, de “Freud da sociologia”. Se você quer um roteirinho para a aventura intelectual que é sua sociologia onírica, pode ler, na ordem, o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto e o quinto posts de uma série dedicada a ela.

Isto dito, como não consigo resistir a continuar pensando com os dedos neste canto digital, acabei adicionando umas notas extras sobre as dimensões filosóficas do babado onírico, o que (meio que) reabriu a série e me estimulou a apresentar agora um exemplar minúsculo de autoanálise lahiriana a quem (des)interessar possa.

Não faço isso para divulgar meus sonhos, claro, mas para exemplificar experimentalmente como seria uma autoanálise sociológica de sonhos no estilo lahiriano (Lahire, 2021).

Narcisismo disfarçado de contribuição impessoal ao conhecimento sociológico?

Nonada.

E ninguém solicitou psicanalices e lacanagens aqui! 😜

Descarte de lixo?

O fato de que os seres humanos possuem sonhos recorrentes é dos mais significativos não apenas para o projeto de uma sociologia dos sonhos, mas também para quaisquer abordagens que tomem as experiências oníricas como dotadas de significado. Outrora abraçada nas interpretações místicas, mágicas e religiosas do sonho em diversos cenários históricos e culturais, tal tese recebeu uma versão secularizada na psicanálise de Freud e, mais recentemente, na sociologia onírica de Lahire.

Nas décadas que andaram de um a outro, no entanto, a ideia mesma de que vivências oníricas são interpretáveis se viu sob ataque de teorias, várias delas oriundas da neurociência, que retratavam os sonhos como uma espécie de “secreção experiencial” aleatória e sem sentido, mero efeito colateral de processos neurofisiológicos ocorridos durante o sono.

Assim argumentaram Francis Crick, um dos formuladores do modelo de dupla hélice do DNA, e Graeme Mitchison, em um artigo que associa os sonhos a processos cerebrais de eliminação ou enfraquecimento de padrões de atividade neural considerados espúrios (Crick; Mitchison, 1983). A aleatoriedade experiencial acompanharia, assim, essa espécie de “descarte de lixo” informacional.

Como vimos nos posts anteriores desta série, Lahire dá as mãos a Freud ao encampar a tese de que os sonhos são, sim, experiências dotadas de significado compreensível, inclusive por meios científicos. E ele poderia ter encontrado outro aliado no neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, que se saiu com uma objeção das mais eficazes à teoria da completa aleatoriedade do sonho: se as experiências oníricas fossem simplesmente sequências fortuitas de ativações cerebrais, seria possível que certas situações, personagens e problemas reaparecessem com frequência em diferentes sonhos?

Segundo Ribeiro, não:

Dado o número colossal de neurônios e de conexões sinápticas no córtex cerebral, é impossível explicar a ocorrência de sonhos repetitivos — e portanto de padrões de ativação neural quase idênticos — por meio da ativação cortical aleatória. Em outras palavras, seria impossível ter sonhos repetitivos se a sua gênese fosse completamente fortuita” (Ribeiro, 2019, p. 34-35).

A existência de sonhos recorrentes, fartamente documentada tanto em estudos científicos quanto na experiência leiga — inclusive a minha e, possivelmente, a sua — não nos diz por si só qual é o significado dessas recorrências. Ela indica, no entanto, a fragilidade de uma (anti)interpretação puramente “aleatorista” do onírico.

O mais recente sonhado com materiais antigos

A interpretação sociológica dos sonhos proposta por Lahire é desenvolvida, em ampla medida, por um jogo ambíguo de incorporação profunda e crítica severa da psicanálise do onírico fundada por Freud. Embora rejeite diversos postulados da onirologia freudiana, a começar pelo teorema-chave da censura, Lahire preserva uma intuição central: aquilo que aparece em nossos sonhos possui relações inteligíveis com nossa trajetória biográfica e com os problemas que nos mobilizam na vida de vigília.

Bourdieu não comparece nomeadamente com tanta frequência na sociologia dos sonhos de Lahire. Porém, algumas das teses do modelo disposicionalista-contextual lahiriano traem, curiosamente, certa reaproximação a ideias bourdieusianas que o próprio Lahire havia criticado anteriormente.

É o caso do acento sobre o caráter durável das disposições adquiridas pelo agente em sua trajetória de socialização. Trata-se de uma orientação bourdieusiana que Lahire (2008, p. 377) fustigara previamente como exagerada e insuficientemente sensível às transformações disposicionais pelas quais o agente poderia passar em sua biografia, em conexão com mudanças em seus contextos sociais de ação — por exemplo, devido à migração, à conversão religiosa etc.

Naturalmente, como já mostrei em detalhe noutro post, Lahire tampouco subscreve a ênfase excessiva da psicanálise freudiana sobre as experiências da primeira infância. Ainda assim, incorpora à sua “onirologia” um achado a que chegaram diversos estudos dos sonhos sonhados pelas mesmas pessoas em diferentes momentos de suas vidas: a existência de padrões recorrentes de conteúdo e forma em experiências oníricas espraiadas por distintos períodos biográficos, mesmo quando as circunstâncias vitais dos sonhadores já se transformaram em significativa medida.

Sem antecipar conclusões que muito se beneficiariam de mais pesquisas, é plausível supor que as recorrências oníricas incidam tanto sobre as metáforas pelas quais os sonhos elaboram os problemas existenciais de quem sonha quanto sobre tais problemas propriamente ditos. Por exemplo, como questão existencial geral, a preocupação com o próprio desempenho, em conexão com o temor do fracasso e o anseio por sucesso, pode ser engatilhada por uma multiplicidade de “provas” e “testes” — em sentido amplo — encontrados pelo sonhador na vida de vigília: um exame de concurso, uma palestra diante de um auditório cheio ou a submissão de um artigo a uma revista, para dar ilustrações da vida acadêmica.

Na medida em que a psique percebe algo como um componente geral de “ansiedade de desempenho” por trás dessas diferentes instâncias concretas de preocupação, não surpreende que ela possa fazer uso de metáforas recorrentes para exprimi-lo. O problema pode ser relativamente novo; os materiais com que ele é sonhado, no entanto, bastante antigos.

Por que a reprovação por falta?

Embora a experiência de ser testado em minhas habilidades e, portanto, a possibilidade de “fracassar” em diferentes testes assumam formas variadas ao longo da vida, parece que minha psique se acostumou a remetê-las àqueles dois símbolos situacionais da reprovação e do teatro. A frequência dessas duas metaforizações é compreensível, embora não tão facilmente previsível.

Afinal, nunca tive a experiência de reprovar por falta na faculdade, ainda que ansiedades quanto ao meu desempenho tenham sido uma vivência costumeira, sobretudo diante de uma exigência perfeccionista que tendia, naquela época, a perceber como fracassos atrozes certas falhas que outros teriam acolhido como normais.

Por que, então, minha psique continua a recorrer àquele cenário experiencial, dado que faz mais de uma década que não sou aluno de qualquer disciplina?

Primeiramente, poderíamos ver nessa recorrência mais um indício daquela durabilidade de conteúdos oníricos sublinhada por Lahire, sobretudo em relação àqueles conectados à memória de fases formativas da vida.

Mas o retorno à condição mais vulnerável de aluno pode ser lido também a partir de outro procedimento expressivo pelo qual os sonhos são fabricados: a dramatização.

Sim, alguma ansiedade quanto ao meu desempenho continua a existir mesmo em situações nas quais a hierarquia institucional me beneficia, como em minha atuação cotidiana de professor que deseja dar uma boa aula a estudantes.

Mas o sonho dramatiza essa preocupação lançando-me de volta a uma circunstância na qual me encontro mais suscetível ao fracasso: tanto objetivamente, como aluno submetido à avaliação de professores; quanto subjetivamente, remetendo a um período da minha vida no qual minha dificuldade emocional de lidar com falhas e fracassos era bem maior, em contraste com a autotolerância bem maior que possuo no presente (quem aprendeu a falar em público aprendeu a falhar em público…às vezes).  

E por que o teatro?

As conexões do sonho “teatral” com minha psique não são tão óbvias, dado que não possuo quase nenhuma experiência no teatro. Elas são, ainda assim, compreensíveis a partir de certas mediações relativas à minha condição de professor.

Como uma performance simultaneamente corpórea e intelectual diante de um público, uma aula é, por um lado, suficientemente similar ao desempenho de uma peça teatral por um ator e, por outro, suficientemente diferente nas habilidades requeridas — memorização ipsis litteris de falas, simulação de uma variedade de estados emocionais etc.

A similaridade responde pelo papel analógico do teatro no sonho. A diferença, por sua vez, confere uma dose extra de intensidade às inseguranças performativas que meu sonho dramatiza para mim mesmo.

Afinal de contas, não basta que eu tenha de me apresentar diante de um público. Meu sonho me coloca diante de um público em uma situação na qual sequer possuo o recurso mais elementar para realizar satisfatoriamente a performance: não sei minhas falas.

O teatro é próximo o suficiente da aula para servir como metáfora, mas distante o suficiente para dramatizar uma insegurança ordinária.

Símbolos de mim para mim mesmo: nem dicionário dos sonhos, nem livre associação sociológica

Nada disso significa, evidentemente, que “reprovar por falta” possua um significado universal ou que o “teatro” seja necessariamente “símbolo sociológico” da ansiedade de desempenho. A sociologia disposicional dos sonhos de Lahire é bastante contrária, como vimos, à ideia de um dicionário pronto no qual determinado cenário onírico correspondesse sempre a determinado conteúdo psíquico para qualquer sonhador/a.

A pergunta propriamente sociológica é relacional e biográfica: por que esta pessoa, com esta trajetória, vivendo estes problemas no presente, mobiliza estas imagens para elaborar oniricamente aquilo que a preocupa?

É por isso que dois indivíduos tomados pela mesma ansiedade podem sonhá-la de maneiras bastante diferentes, enquanto uma mesma pessoa pode recorrer, ao longo de anos, a um conjunto surpreendentemente estável de metáforas para problemas que reaparecem sob formas novas.

Durante o sono, quando boa parte das urgências práticas que organizam nossa experiência desperta é suspensa, o encontro intrapsíquico entre passado incorporado e inquietações atuais ganha uma liberdade expressiva peculiar. Um artigo que ainda não foi aceito pode reaparecer como uma disciplina que esqueci de frequentar. Uma aula que quero dar bem pode se transformar numa peça em que entro no palco sem saber as falas.

Aparentemente, minha psique considera que a vida acadêmica já não produz ansiedade suficiente em sua forma literal e precisa recorrer à ficção para dar um pouco mais de emoção ao babado.

Conclusinha 

Lahire rejeitou o teorema freudiano do sonho como realização disfarçada de desejos reprimidos.

Infelizmente, não rejeitou a ideia de que levamos nossas neuroses conosco quando vamos dormir.

Durma-se com essa!

Referências

CRICK, Francis; MITCHISON, Graeme. “The function of dream sleep”. Nature, v. 304, n. 5922, p. 111–114, 1983.

LAHIRE, Bernard. “Esboço do programa científico de uma sociologia psicológica”. Educação e Pesquisa, v. 34, n. 2, p. 373–389, 2008.

LAHIRE, Bernard. L’interprétation sociologique des rêves. Volume 2: La part rêvée. Paris: La Découverte, 2021.

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