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Pequenas ofertas, grandes demandas: notinha sobre a defesa da grande teoria na sociologia de “Hardreas Rockwitz”

A despeito da alta demanda pública por teorias abrangentes da sociedade e da história, incluindo diagnósticos do mundo presente como um todo, a oferta dessas teorias por parte da sociologia tem passado por significativa diminuição

Por Gabriel Peters

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Salvo engano (meu e do Google), “Hardreas Rockwitz” não existe – a não ser como designação das ideias conjuntamente desenvolvidas por dois autores hoje situados na vanguarda da sociologia alemã: Andreas Reckwitz e Hartmut Rosa. Ainda não estávamos sequer plenamente acostumados a Axel Honneth e Hans Joas, sucessores da leva que antes trouxera Jürgen Habermas e Niklas Luhmann, e eis que dois teóricos mais jovens e (para não variar) intelectualmente ambiciosíssimos roubam a cena na Alemanha.

Os dois juntam forças em um livro publicado no ano pandêmico de 2021, com o título Spätmoderne in der Krise. Was leistet die Gesellschaftstheorie? – algo como “Moderno-tardio na crise: o que alcança [realiza/conquista] a teoria da sociedade?”. Felizmente, uma tradução anglófona da obra foi logo publicada em 2023, com o subtítulo ligeiramente modificado: Late modernity in crisis: why we need a theory of society (“Modernidade tardia em crise: por que precisamos de uma teoria da sociedade”).

É possível que o título não faça jus à originalidade das ideias que vão nesse volume. Por um lado, a crise da modernidade tardia é de tal monta que tem levado alguns à suposição de que ela já terminou, mesmo que ainda estejamos perdidos quanto aos rótulos mais adequados à configuração social do presente, como “pós-modernidade tardia”, “modernidade pós-tardia” (na expressão ensaiada pelo próprio Andreas Reckwitz [2023: 72]) ou, em compasso com os humores apocalípticos do tempo, “modernidade tardia demais”.

Ademais, quando traduzido para o inglês, o subtítulo “Por que precisamos de uma teoria da sociedade” não só dissolve e torce um pouco, como vimos acima, a pergunta contida no original alemão, mas também é menos anódino do que parece, na medida em que já alude a uma possível diferença entre “teoria da sociedade” (“Gesellschaftstheorie”) e “teoria social” (Sozialtheorie) – versão de uma distinção entre “teoria sociológica” e “teoria social” previamente formulada por Anthony Giddens, uma das influências mais profundas sobre o pensamento de Reckwitz (2023: 28; 178).    

O presente texto se vale dessa tradução para o inglês. Mesmo se deixadas de lado as dificuldades (in)compreensíveis com a língua de Goethe e Goebbels ou Heine e Hitler (troque-se uns foneminhas, e o documento de cultura vira documento de barbárie), edições anglófonas são bem mais fáceis de encontrar na Internet para comprar (e até mesmo para não comprar). No mais, o que quer que pensem Heidegger, Adorno ou Caetano Veloso sobre a filosofia, está provado que é possível sociologizar em idiomas outros que não o alemão.

Afinal, tratemos do livro. A parceria entre Reckwitz e Rosa traz seus respectivos diagnósticos da modernidade tardia (2023: 9-94; 95-157), acompanhados dos pressupostos (meta)teóricos que os alicerçam, em um diálogo implícito que vira explícito na parte final da obra: uma conversa entre os dois mediada por Martin Bauer (Ibid.: 159-200). Conforme eu escrevia notas de aula sobre o livro todo, as notas se converteram em uma resenha, mas a resenha se converteu em artigo, ao passo que o artigo, infelizmente, se converteu em um monstro com o qual não sei o que fazer. Por enquanto, resolvi extrair um pequeno pedaço dele na forma deste post, que tratará apenas das ideias que Rosa e Reckwitz apresentam a quatro mãos e duas cabeças – daí a referência ao sujeito autoral imaginário “Hardreas Rockwitz”, possível irmão de “Andrut Resa”, referência que é minha e não dos inocentes autores.    

A vingança do todo contra Lyotard; ou a condição pós-“pós-moderna”

Na sua introdução conjunta, os autores partem de um paradoxo: enquanto há uma alta demanda pública por teorias abrangentes da sociedade e da história, incluindo diagnósticos do mundo presente in toto, a oferta dessas teorias por parte da sociologia tem passado por significativa diminuição. O paradoxo pode ser reformulado nos termos da famosa crítica pós-modernista que Lyotard (2021 [1979]) dirigiu às “grandes narrativas” no final dos anos de 1970: o colapso da ingênua confiança teleológica no progresso moderno, capturado com razão por tal crítica, só fez crescer a demanda por teorias “totalizantes” das estruturas e tendências do mundo social presente, em vez de torná-las supérfluas como queria a mensagem lyotardiana. Contra a apologia pós-moderna da fragmentação epistêmica, um vasto número de habitantes da modernidade tardia reclama uma elucidação global do tipo de sociedade em que vivem e da direção histórica para a qual tal sociedade caminha.

As fontes dessa demanda pública por uma “Big Picture” são múltiplas, a começar pelas incertezas existenciais engendradas por fenômenos como a crise financeira mundial de 2008, as consequências crescentemente catastróficas da mudança climática e a ascensão de uma Internacional Fascista (o termo é meu, não dos autores, que são um tanto tímidos no trato com o que preferem chamar de “populismo de direita”).

Como raízes motivacionais de uma reflexão da sociedade sobre si própria, tais desenvolvimentos históricos são tematizados em um ambiente informacional que gera montantes de conteúdo infinitamente superiores, em número, ao que qualquer cognição individual pode processar. Mais ainda: esse tsunami de informações é atravessado por fragmentações e inconsistências que as tornam não apenas intelectualmente desafiadoras, mas também uma fonte intensa de perturbações afetivas.

A desorientação provocada por essa barafunda de informações só pode ser mitigada, escrevem os autores, por caminhos “holistas” e “integrados” de explicação. (Como se pode ver, a versão propositiva de “teoria” avançada por Rosa e Reckwitz soa, em diversos momentos, como um dicionário de “termos-gatilho” para uma sensibilidade pós-moderna.)

O objeto da sociologia está em crise…por definição

A ausência de respostas sociológicas àquela demanda pública não impede nem impedirá, continuam os autores, a emergência de umas tantas explicações abrangentes ofertadas para preencher tal lacuna. O exemplo de teorias paranoides da conspiração, tal qual o “marxismo cultural” brandido pela extrema direita global, me veio à mente ao ler tal argumento. No entanto, os autores preferem mencionar, em uma chave mais positiva, o significativo impacto internacional obtido por obras de larguíssimo escopo e ambição sintética produzidas por especialistas de outras disciplinas científicas, tratem eles da história inteira da humanidade (e.g., Yuval Harari [2020]) ou da desigualdade no capitalismo atual (e.g., Thomas Picketty [2014]). 

A sociologia só poderá adentrar esse espaço de diálogo, concluem Reckwitz e Rosa, se tiver a ousadia de se assumir como uma “ciência sistemática da sociedade em sua totalidade”, o que inclui a formulação de “modelos societais em geral”, mas também – e especialmente – o diagnóstico dos “traços e dinâmicas estruturais da modernidade” até o presente (Ibid.: 5). No mais, a atenção às crises mais amplas e profundas que perpassam a(s) sociedade(s) atual(is) não é uma dimensão dentre outras de tais diagnósticos do presente, mas a principal via heurística mediante a qual eles se desenvolvem. Desde o seu nascimento como disciplina intelectual, a sociologia é “uma ciência da crise” (Ibid.).

Tomando o mundo acadêmico anglo-saxão como referência, os autores notam que esse estilo de Zeitdiagnose tornou-se bem menos frequente, no entanto, em décadas recentes – pelo menos desde uma última safra bibliográfica, em boa medida restrita a obras dos anos de 1980 e 1990, que incluiu autores como Zygmunt Bauman, David Harvey, Anthony Giddens e Manuel Castells. O desinteresse de boa parte da comunidade sociológica pela formulação de uma teoria da sociedade seria explicável por diferentes fatores. Um deles é a acentuada tendência à especialização empírica na disciplina, cujo complemento institucional é um sistema de financiamento à pesquisa que tende a premiar artigos em periódicos bem avaliados tanto quanto (ou mais do que) livros inteiros – os quais continuam a ser, em descompasso com tal tendência, “o formato preferido” para textos de teoria (Ibid.: 6).

Em uma estranha convergência entre tendências positivistas (casu quo, a citada especialização) e influências pós-modernas, um segundo fator de refluxo da teoria remonta à orientação analítica “antiintegrativista” que as últimas despertaram, orientação resultante de uma aguda consciência quanto à imensa pluralidade de discursos, textos, paradigmas e jogos de linguagem pelos quais o mundo pode adquirir inteligibilidade. Reconhecendo o núcleo de sensatez dessa crítica, relativo à inevitável seletividade de quaisquer retratos do real, os autores insistem na necessidade e no valor de esforços integrativos de mediação e síntese entre diferentes perspectivas, ao menos como um ideal regulativo cujo abandono significaria o esfacelamento de qualquer senso do todo em uma multiplicidade de visões parciais e fragmentárias.

Finalmente, sem se tornarem autocomplacentes quanto às suas próprias ousadias intelectuais na arena teórica, Rosa e Reckwitz também são suficientemente reflexivos para notar as condições comparativamente favoráveis ao vicejar de teorias da sociedade como as suas na Alemanha. Tais condições incluem uma concepção mais fluida e permeável da relação entre sociologia e filosofia social, retraçável no mínimo à primeira geração da Escola de Frankfurt, do que aquela vigente em muitos outros cenários acadêmicos nacionais, a começar pela sua vizinhança francesa e britânica. Também conta, enfim, o espaço excepcionalmente amplo que a cultura alemã dá, em contraste com cenários como a Inglaterra, à atuação de acadêmicos em debates na esfera pública.

Após a introdução em que os autores se reúnem em um só, Reckwitz e Rosa se dividem para não mais retornarem como um híbrido, e sim na forma de participantes de um diálogo cuja qualidade de abertura mútua é notavelmente, digamos, “habermasiana” – para evocar um alvo intelectual frequente de ambos nesse livro. Como condensação de anos de trabalho, já desenvolvidos nas milhares de páginas anteriormente publicadas pelos autores, o livro escapa a um resumo detalhado. Nesse sentido, ao retornar ao livro em posts futuros, levarei a sério as concepções de ambos sobre a sociologia como ciência da crise e tratarei dos modos pelos quais Rosa e Reckwitz mapeiam as principais crises da modernidade tardia. Não pretendo ignorar as demais questões discutidas no livro, como a diferença entre “teoria social” e “teoria da sociedade” ou os fundamentos normativos da “crítica” na análise sociocientífica, mas as enfrentarei todas a partir desse ângulo da crítica da crise e da crise da crítica. 

Até lá.   

Referências

 HARARI, Yuval Noah. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021.

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

RECKWITZ, Andreas; ROSA, Hartmut. Late modernity in crisis: why we need a theory of society. Cambridge: Polity Press: 2023

 

1 comentário em “Pequenas ofertas, grandes demandas: notinha sobre a defesa da grande teoria na sociologia de “Hardreas Rockwitz”

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