Por Gabriel Peters
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A modernidade na bicicleta cada vez mais veloz: os motores estruturais da “estabilização dinâmica”
O traço fundamental das instituições engendradas pela modernidade ao longo de sua história, afirma o sociólogo alemão Hartmut Rosa em livro recente, é sua condição paradoxal de estabilidade pelo dinamismo: a manutenção mesma do seu status quo estrutural depende de uma aceleração contínua nas mudanças internas às suas estruturas, com a escalada do crescimento econômico, do desenvolvimento tecnológico e da inovação cultural.
Comecemos pelo âmbito econômico. Sem se tornar partidário de uma concepção marxista da relação base/superestrutura, Rosa afirma que o crescimento da economia, nos domínios da produção e do consumo, é essencial à funcionalidade das esferas institucionais da sociedade moderna como um todo. Elencando tais dependências societais em cascata, ele sublinha, por exemplo, que a ausência de crescimento econômico leva à perda de empregos…que leva ao fechamento de empresas…que leva à diminuição na arrecadação tributária…que leva, finalmente, à diminuição dos recursos de ação do estado, justamente em conjunturas nas quais ele é pressionado a aumentar seus gastos devido àqueles primeiros fatores (p.ex., com auxílios sociais a desempregados ou estímulos a microempreendedores). Na medida em que tal crise econômico-política produz efeitos negativos em esferas coletivas vitais como a saúde e a educação, as próprias fontes culturais que sustentam a legitimação do sistema social como um todo podem, por sua vez, entrar em crise também.
Rosa até reconhece a possibilidade de que economias nacionais possam sobreviver por períodos significativos sem crescimento econômico efetivo, mas sustenta que o imperativo de escalada é, em última instância, inerente à própria lógica capitalista, i.e., ao ciclo de transmutação do investimento em mercadoria e da mercadoria, por sua vez, em lucro. Fundamental é notar o caráter endógeno dessa pressão pelo crescimento, a qual habita a engrenagem do capitalismo independentemente de quaisquer influências exteriores (p.ex., a necessidade de produzir e consumir mais devido a um aumento populacional ou a ameaças militares de outros países).
A endogenia dessa compulsão sistêmica é mais nítida justamente nos cenários em que ela se mostra disfuncional em face de condições externas ao sistema econômico – por exemplo, “as indústrias de automóveis e aviões continuarão implacavelmente a produzir e vender mais carros e aviões” mesmo em face de uma ampla “concordância cultural e política” quanto ao seu caráter “ecologicamente prejudicial” e mesmo “autodestrutivo” (2023: 118). Para dar outra ilustração: a substituição contínua de produtos por suas versões mais atualizadas, dos aparelhos eletrônicos até os próprios aplicativos com base nos quais os aparelhos funcionam, também deriva dessa compulsão escalatória, sendo independente de motivações advindas de sua oferta (p.ex., uma suposta vontade insaciável de inovar pelos produtores) ou demanda (p.ex., uma suposta exigência insaciável de novas versões de aparelhos e aplicativos pelos consumidores).
Rosa depara com a mesma lógica de escalada em outros domínios funcionais e esferas valorativas da sociedade moderna, como a política, a ciência e a arte. Em contraste com sistemas históricos de conhecimento concentrados apenas na transmissão de saberes já possuídos, a ciência moderna é inteiramente estruturada, como já havia visto Weber em seu texto clássico sobre a vocação científica, para superar o seu avanço pregresso com conhecimentos novos e aperfeiçoados. Rosa também sustenta que é na modernidade que a arte elege a originalidade e a novidade como critérios decisivos de excelência, em contraste com parâmetros pré-modernos de perfeição formal[i] (p.ex., a imitação da natureza ou dos “grandes mestres”). Finalmente, na medida em que a sucessão de governantes pela realização de eleições periódicas é traço central das modernas democracias representativas, com tais eleições sendo amplamente orientadas por promessas de “fazer mais e melhor” do que o já feito, o sociólogo alemão conclui que “a lógica da estabilização dinâmica também encontrou seu caminho para a política” (Ibid.: 119).
A estabilidade dinâmica da modernidade, conclui Rosa, é semelhante àquela de uma bicicleta, capaz de se manter em pé apenas enquanto se move e tão mais estável no seu movimento quanto mais rápido viaja, ainda que esse mesmo aumento de velocidade também incremente seu risco de sofrer um sério acidente. A condição da bicicleta em alta velocidade fornece uma óbvia analogia com a relação entre dinamismo civilizacional e ecossistema terrestre: a intensa mobilização da energia do planeta pela civilização moderno-tardia pode levar, mais cedo ou mais tarde, a um “choque” desacelerador, com consequências dolorosas e/ou letais, advindo de uma exaustão energética da Terra.
Medo de ficar para trás e vontade de controle: os motores culturais da “estabilização dinâmica”
A constituição estrutural da modernidade é uma condição necessária, mas não suficiente, de suas tendências dinâmicas ao crescimento, à aceleração e à inovação. Como ensinaram os debates sobre estrutura e agência, mesmo as estruturas institucionais mais macroscópicas só existem historicamente se mantidas em movimento pelas ações de sujeitos humanos – sujeitos cujas motivações são, acrescenta Rosa, culturalmente moldadas. Ao passar da estrutura à cultura, tomando a última como fonte dos motores subjetivos da conduta humana em diferentes cenários sócio-históricos, o autor assevera que a relação do anthropos com o mundo transcorre mediante os polos básicos da atração e da repulsa ou, nos seus termos, do “desejo” e do “medo”. A moldagem cultural de modos de conduta se dá, nesse sentido, pela instilação de “mapas” variáveis do que é desejável e deve ser buscado, de um lado, e do que é temível e deve ser evitado, de outro.
O estofo particular de tais mapas na modernidade tardia envolve, em primeiro lugar, o temor de ser excluído – ou mais precisamente, em termos afeitos à escalada aceleratória, de ficar para trás na dinâmica da ordem social. Via diferentes mecanismos, dentre os quais se destaca a competição explícita ou implícita, os habitantes da modernidade tardia se veem lançados em uma série de “esteiras rolantes” nas quais têm de acelerar seu “passo de subida” para não serem ultrapassados por outros.
A metáfora se aplica a uma multiplicidade de domínios de vida: do trabalho às amizades, dos relacionamentos erótico-afetivos às redes sociais. Tais realidades podem se encerrar ou cair na obsolescência mais cedo ou mais tarde (normalmente mais cedo do que tarde) e, por isso, exigem um investimento constante de energia e atenção. O caráter direta ou indiretamente competitivo desses domínios é intensificado por tecnologias que tornam o “desempenho” dos indivíduos visível e comparável por meios quantitativos (p.ex., o número de acessos em um artigo acadêmico, o número de seguidores em uma rede social, o score de avaliações de um motorista ou entregador de aplicativo) e, por conseguinte, suscetível de manipulação e aperfeiçoamento (p.ex., técnicas para otimizar a aparição do artigo em buscas no Google, para adquirir seguidores ou para melhorar o score).
A despeito de suas transformações em relação à modernidade clássica, o trabalho permanece um aspecto central na autoidentidade dos indivíduos e, portanto, na sua relação com o mundo. Com efeito, na medida em que o correlato da instabilidade no emprego é a exigência de capacitação e aprendizado contínuos – exigência potencialmente “kafkiana”, como vimos com Mark Fisher -, o temor de ficar para trás é particularmente agudo na esfera laboral. Com base em sua teoria de relações “ressoantes” com o mundo, Rosa dá uma versão própria ao argumento, já ventilado por autores como Robert Castel e Pierre Bourdieu, de que os sofrimentos oriundos do desemprego não se reduzem à perda material de renda, mas afetam profundamente o senso de valor que os indivíduos mantêm diante de si e do seu entorno social.
Por mais que se baseie em distorções ideológicas, a autorrepresentação de si como “aproveitador” (freeloader) da sociedade em torno[ii], advinda do desemprego, impacta o indivíduo no próprio âmbito corpóreo-afetivo de sua maior ou menor vontade de viver. Ao comparar tais vivências de sofrimento a retratos antropológicos de certas culturas não modernas nas quais a “morte social” pode resultar em morte física, Rosa mantém implicitamente que o suicídio é o ponto extremo de um continuum em que a perda da ressonância na relação com o próprio ambiente social pode eventualmente “matar”: “por não conseguirem contribuir para a ressonância de sua sociedade, as pessoas literalmente se desperdiçam (waste away) e morrem mesmo sem serem vítimas de qualquer ataque físico”[iii] (2023: 122).
É claro, entretanto, que a teoria rosiana das motivações não se concentra exclusivamente sobre o que é evitado na modernidade tardia, mas tem de se pronunciar também sobre o que os indivíduos desejam. O principal motor cultural de atração da sociedade moderna é a promessa de tornar o mundo cada vez mais acessível e controlável. Expandir as “fatias” do mundo disponíveis a nós: eis o cerne motivacional por trás de traços da modernidade tardia que vão das tecnologias de comunicação instantânea entre pessoas distantes à acumulação de dinheiro na conta bancária, da aquisição de credenciais educacionais até – pelo menos em certos casos, supõe-se – os relacionamentos abertos na esfera erótico-afetiva.
De modo mais sistemático, Rosa enxerga essa energia motivacional tanto nos índices de “qualidade de vida” por trás da “capability approach” de Amartya Sen, inspiradora do PNUD, quanto na tipificação bourdieusiana dos capitais econômico, cultural, social e simbólico como os mais influentes na modernidade. Como um espelhamento da escalada imparável nas estruturas institucionais da modernidade tardia, a experiência dominante do “bem” pelos indivíduos, nessa configuração sócio-histórica, não é encontrada definitivamente na realização efetiva de quaisquer desejos (p.ex., um computador finalmente comprado, um diploma finalmente conquistado), mas na expansão crescente de possibilidades (p.ex., tudo que se pode acessar com o computador, todas as oportunidades abertas pelo diploma) – expansão que, por definição, pode se estender até o infinito.
O mundo descompassado: crises de dessincronização
Afinal, o que pode haver de errado “em uma formação social dirigida pelo desejo de aumentar nossa fatia do mundo e cuja estrutura institucional se reproduz no modo da estabilização dinâmica” (Ibid.: 127)? Um bocado, na verdade.
Para começar, Rosa nota a existência substantiva de enormes desigualdades nas “fatias” ou “pedaços” de mundo tornados disponíveis a diferentes indivíduos e grupos[iv]. Ele se afasta, no entanto, de um agonismo a priori segundo o qual a expansão dos setores acessíveis ao mundo seria necessariamente um jogo de soma-zero em que uns só poderiam ganhar às custas da derrota de outros. Ademais, Rosa também se aferra à generalidade de sua teoria do humano moderno ao lembrar que, no plano motivacional, tanto o bilionário investindo na exploração espacial quanto o pedreiro juntando dinheiro para comprar uma bicicleta continuariam movidos essencialmente por uma mesma motivação: a “esperança de expandir sua fatia do mundo” (Ibid.: 128).
Embora cite a teoria dos capitais de Bourdieu, os acenos de Rosa a uma teoria das brutais desigualdades que atravessam a modernidade tardia permanecem, no fim das contas, tímidos. Isto certamente não se explica, por outro lado, pela ausência de um componente crítico no seu diagnóstico do presente. Pelo contrário: Rosa conclui que a estrutura institucional e a cultura motivacional da modernidade engendram, juntas, nada menos do que “uma relação hostil…com o mundo” (Ibid.) que se espraia pelos planos macro (a biosfera terrestre), meso (os âmbitos econômico, social e político) e micro (a experiência individual).
Em uma espécie de generalização da crítica ambientalista à atitude moderna diante da natureza, o autor resume aquela relação hostil com o mundo como um impulso humano de dominar, controlar e tornar úteis quaisquer realidades que apareçam em seu domínio de existência. Em compasso mais nítido com sua própria perspectiva “cronoanalítica”, ele descreve as quatro crises fundamentais da modernidade tardia como modalidades de dessincronização:
- entre mercado financeiro e economia real de produção e consumo (o fator central no colapso econômico de 2008/2009);
- entre a necessidade de reagir politicamente a transformações em sistemas externos à política e os custos temporais de processos democrático-representativos (crise da democracia);
- entre a extração/danificação de recursos naturais e os ritmos de regeneração/recuperação da biosfera terrestre (crise ecológica);
- entre as exigências de desempenho dinâmico feitas às subjetividades moderno-tardias e os limites orgânico-psíquicos inerentes ao animal humano (crise de saúde mental).
Nos quatro pares dessa lista, o primeiro elemento designa a instância mais veloz, enquanto o segundo encampa a instância mais lenta com a qual aquele primeiro elemento se dessincroniza.
As transações velocíssimas do mercado financeiro, ao se dessincronizarem dos processos materiais comparativamente mais lentos da produção e do consumo (p.ex., a construção e o uso efetivo de casas), possibilitam patologias como a “bolha imobiliária” cuja explosão levou à debacle econômica em 2008.
A necessidade de reagir politicamente a processos externos ao sistema político, como a circulação mundial de capital financeiro ou de informações em redes sociais, entra em dessincronia com o ritmo necessariamente mais lento da democracia deliberativa, o que explicaria, segundo o autor, a crise dos sistemas democráticos refletida no “referendo do Brexit, na eleição de…Trump…e na ascensão de partidos e políticos populistas de direita…incluindo Modi na Índia” e “Bolsonaro no Brasil” (Ibid.: 132).
Rosa também interpreta as ameaças ecológicas como derivadas de dessincronização. O biocídio que destrói espécies inteiras não resulta, por exemplo, da destruição de árvores ou da pesca de peixes per se, mas do fato de que uma e outra estão sendo feitas em ritmo rápido demais para permitir que tais populações de organismos se reconstituam naturalmente. O aquecimento global derivaria de um descompasso análogo na relação entre as emissões de carbono, de um lado, e a velocidade natural com que a atmosfera terrestre seria capaz de desfazê-las ou “quebrá-las” (Ibid.: 133), de outro.
Finalmente, enquanto a maior parte dos dispositivos de otimização de competências mobilizados pelos indivíduos moderno-tardios, da cafeína à Ritalina, envolve a dinamização dos seus corpos e mentes pela aceleração e manutenção de um alto grau de energia, a proliferação de casos de depressão e burnout expõe a dessintonia entre a insaciável cobrança das energias motivacionais dos indivíduos pela modernidade tardia, de um lado, e os limites energéticos que os mesmos indivíduos encontram em suas próprias estruturas orgânico-psíquicas, de outro. A centralidade daqueles dois transtornos na “crise de saúde mental” que atravessa a etapa tardia da modernidade resulta sobretudo do fato de que, ao substituírem o dinamismo pela estase ou paralisia, eles constituem formas patológicas de dessincronização entre o indivíduo e o ritmo (tornado insuportável) do mundo.
Sociedades de (des)controle
As ideias de “modernidade tardia”, “modernidade líquida” e congêneres já veiculavam, nos trabalhos da trinca noventista Beck-Bauman-Giddens, uma conjuntura histórica na qual a modernidade é forçada, sob pressão das ameaças destrutivas que ela própria criou, a abandonar as ilusões ingênuas que antes mantivera sobre si e seus potenciais. Rosa redescreve tal processo nos termos da “culturologia” que anteriormente apresentara para tratar das energias motivacionais em que a modernidade se assenta, caracterizando suas crises atuais em termos do que poderíamos chamar de uma dinâmica perversa – no sentido analítico de iniciativas que produzem efeitos contrários àqueles que as animaram (Hirschmann, 1991).
Como ele afirma em livrinho pessimista sobre A incontrolabilidade do mundo (2020) – eu mesmo não me lembrava de ficar tão triste diante de um livro tão pequeno desde que li A metamorfose de Kafka -, os amplos e profundos esforços humanos para aumentar seu controle sobre o real, em múltiplas esferas, se deparam reiteradamente com experiências do incontrolável, as quais revertem aqueles impulsos de controlabilidade em sentimentos acutíssimos de impotência. Tal oscilação entre as experiências extremas da onipotência e da vulnerabilidade radical encontra um exemplo paradigmático na história da física atômica e de suas aplicações tecnológicas. Nessa história, a expansão do controle humano sobre a matéria e a energia, representada pela construção da bomba de fissão nuclear, rapidamente se converteu na consciência desmoralizante e aterrorizadora do potencial de autodestruição da humanidade trazido por aquele controle mesmo. O caráter paradigmático da ilustração deriva de sua aplicabilidade mais geral à relação do ser humano com a natureza em domínios tão variados quanto a engenharia genética e a inteligência artificial, nos quais cada conquista em domínio tecnológico traz consigo uma ampliação de possibilidades (auto)destrutivas.
Buscando passar do macro ao micro, Rosa também surpreende a transição frequente da sensação de onipotência para aquela do desamparo na relação dos usuários humanos com tecnologias inteligentes. O acesso a todo um universo de conteúdos e experiências propiciado pelo notebook, por exemplo, faz com que a quebra da máquina seja experimentada como uma redução drástica do mundo alcançável, frente à qual a maior parte dos usuários se dá conta de que tem pouco a fazer no momento (além de procurar assistência especializada). Na esfera experiencial, Rosa também trata de processos nos quais os indivíduos perdem sua capacidade de serem afetados pelo mundo não devido ao encolhimento do que é alcançável, mas, paradoxalmente, devido à sua expansão mesma. Sem se engajar com a literatura psicológica, o sociólogo alemão encontra aqui o que já foi chamado “o paradoxo da escolha” (Schwartz, 2004): o fato de que, pelo menos a partir de certo limiar, a ampliação das possibilidades de escolha não é vivida como gratificante, mas, ao contrário, como angustiante ou dessensibilizadora – algo que Norbert Elias já lembrava em sua “sociologização” de ideias existencialistas.
O (des)controle de si
O fenômeno do “paradoxo da escolha” é real. Porém, ao chegar às beiras de um mecanismo do tipo “tem tanta coisa disponível que tudo perde a graça”, o argumento de Rosa cheira em demasia a “first world problems”, deixando de lado tarefas mais urgentes à teoria crítica em escala global [v]. Ademais, Rosa poderia ter encontrado ilustrações bem mais contundentes do sofrimento psíquico oriundo de tentativas humanas de expansão do controle ao tratar de esforços controladores que o ser humano dirige à sua própria mente, os quais geram frequentemente o efeito irônico (sofridamente irônico) de diminuir o almejado controle. Vejamos rapidamente o exemplo da insônia.
A tentativa de domínio deliberado sobre a própria corporeidade, cujos rendimentos materiais e imateriais são inegáveis em múltiplas esferas da vida, encontra na insônia um limite paradoxal: a autonomia relativa do corpo, no tocante ao sono, em relação à vontade consciente. Como já sugere a expressão de senso comum “cair no sono”, a passagem da vigília ao dormir não apenas não pode ser conscientemente instaurada como é atrapalhada e prejudicada quando o indivíduo tenta forçá-la. Para além de fatores como a inutilidade sistêmica do tempo de sono para um “capitalismo 24/7” ou a escassez crônica de tempo oriunda de uma aceleração do ritmo da vida, a insônia na modernidade tardia é assim, com muita frequência, o penoso efeito colateral de uma postura de controle hiper-reflexivo diante da própria existência.
Na situação momentânea do indivíduo que aguarda a chegada autônoma do sono, os expedientes reflexivos que lhe auxiliaram na manutenção de um controle intencional sobre seu próprio corpo durante a vigília não somente não funcionam como se tornam entraves àquela chegada. Por exemplo, durante seu tempo de vigília, um lembrete dos artigos que o indivíduo leu sobre os riscos de certos alimentos ingeridos em excesso pôde ajudá-lo a resistir a uma tentação alimentar na hora do almoço. Em contraste, quando ele, sem conseguir dormir, olha o relógio ao lado da cama e se dá conta de que só tem cinco horas restantes para dormir antes de se levantar para o trabalho, a lembrança de um artigo científico sobre os danos da falta de sono sobre a saúde, em vez de ajudá-lo, pode gerar nele uma inquietação e uma ansiedade que atrapalham ainda mais sua transição à inconsciência e aos sonhos.
À parte as controvérsias acerca da aplicabilidade do termo “patologia”, a insônia pode ser elencada, assim, como uma dentre diversas “psicopatologias da hiper-reflexividade” (Fuchs, 2011): “processos mentais irônicos” (Wegner, 1997) nos quais o esforço pela obtenção de controle reflexivo e intencional sobre um sintoma/perturbação exacerba o próprio sintoma/perturbação. Fenômenos análogos são o “efeito rebote” de certos pensamentos, imagens e sentimentos intrusivos no transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) ou, ainda, a escalada de ansiedade que acompanha certos ataques de pânico.
Conclusão
Felizmente, Rosa não é só espinhos e pessimismo, mas também tem propostas ético-políticas construtivas baseadas no seu conceito de “ressonância” – conceito que, como a “ação comunicativa” em Habermas ou o “reconhecimento” em Honneth, não é somente uma ferramenta analítica de caracterização do animal humano, mas também um referencial normativo para a crítica de estruturas opressivas e o delineamento de alternativas emancipatórias. Por um lado, embora o diagnóstico rosiano sobre a escalada aceleratória da modernidade tardia não se filie à primeira geração da Escola de Frankfurt em suas orientações teóricas, ele assume, por vezes, tons de tal monta pessimistas que remetem mais a Adorno e Horkheimer do que aos frankfurtianos da segunda e da terceira gerações. Por outro lado, para tomar de empréstimo os termos de Ernst Bloch sobre o marxismo, os impasses oriundos da estabilização dinâmica constituem o veio “frio” do trabalho de Rosa (i.e., o exame crítico de condições opressivas e alienantes), ao passo que o seu veio “quente” se põe à cata de oportunidades de emancipação ou, nos seus termos mais cuidadosos (e palavrosos), do “esboço terapêutico e transgressivo de um horizonte alternativo” (2023: 141).
Mesmo se, ficando no plano de uma sociologia do sofrimento psíquico, eu me ativesse somente à dimensão “terapêutica” da proposta de Rosa, seria preciso passar com cuidado por suas ideias sobre o ser humano como criatura ressonante (ou “ressoante”, se se preferir). Tais ideias poderiam ser entrecruzadas, então, com uma literatura sobre patologias individuais e sociais, segundo um olhar que experimentasse concebê-las como vivências de ressonância perturbada ou mesmo perdida. Eis um caminho possível para transformar esse ensainho exploratório em um artigo acadêmico autoconfiante.
Um dia, quem sabe, se o apocalipse não chegar antes.
Notas
[i] Rosa não chega a tematizar, entretanto, os debates “pós-modernos” sobre a interrupção dessa tendência inovacionista, segundo os quais o esgotamento da vanguarda e da inovação formal que presidiram ao(s) modernismo(s) estético(s) na primeira metade do século XX teriam dado lugar, com a chegada do “pós-modernismo” como estilo artístico hegemônico na modernidade tardia, a alternativas como pastiches, colagens e tutti quanti (Jameson, 1991).
[ii] Ao usar a categoria do “freeloader”, Rosa parece pressupor a generalização, nas subjetividades moderno-tardias, da ideia de que o indivíduo só é justificado em receber apoio da sociedade caso ofereça a ela uma contribuição em troca. Mais incisivo e preciso quanto à multiplicidade de cenários sociais capitalistas seria, no entanto, situar essa noção em um continuum que certamente inclui autocategorizações e altercategorizações bem mais virulentas, como os estigmas de “fracassado”, “inútil” etc.
[iii] Uma ilustração – minha, não de Rosa – pode ser encontrada na maior vulnerabilidade das pessoas com depressão a todo um conjunto de moléstias físicas (Karp, 2016).
[iv] Um dos motivos pelos quais não traduzo “share” por “partilha” no presente texto é justamente o fato de que os “shares” de que trata Rosa não são igualmente partilhados na expansão de possibilidades que governa a modernidade tardia. Do deslocamento geográfico à moradia, do capital linguístico às conexões sociais, a expansão de setores do mundo para uns (viagens intercontinentais, casas espaçosas, comunicabilidade ampliada com estrangeiros pelo domínio da língua inglesa, amigos poderosos capazes de conceder favores, prestígio simbólico abrindo portas etc.) coexiste com a restrição severa do mundo para outros (“condenação” financeira à imobilidade, comunicabilidade restrita devido ao monolinguismo em idioma periférico, capital social mínimo, capital simbólico negativo na forma de estigmas interseccionais etc.).
[v] Veja-se um dos exemplos – primeiro-mundista de doer – de embaras des richesses escolhidos por Rosa: “estudantes que graduaram no ensino médio…têm 19000 cursos credenciados dentre os quais escolher na Alemanha; e, no entanto, à luz da abundância e dos caminhos imprevisíveis que suas vidas podem tomar em uma sociedade altamente dinâmica, eles se sentem completamente incapazes de decidir que tipo de diploma eles deveriam perseguir” (p.137).
Referências
FUCHS, Thomas. The psychopathology of hyperreflexivity. Journal of Speculative Philosophy, v.24, n.3, 2011.
HIRSCHMANN, Albert. The rhetoric of reaction. Harvard University Press, 1991.
JAMESON, Fredric. Postmodernism, or the cultural logic of late capitalism. Duke University Press, 1991.
KARP, David. Speaking of sadness. Oxford University Press, 2016.
ROSA, Hartmut. The uncontrollability of the world. Polity Press, 2020.
SCHWARTZ, Barry. The paradox of choice. Harper Perennial, 2004.
WEGNER, D.M. (1997). When the antidote is the poison: ironic mental control processes. Psychological Science, v.8, p. 148–150.


Mais uma vez, você, Gabriel vai percorrendo os horizontes do trágico com estilo elegante e perspicaz. Apenas acrescento que este movimento de aceleração dos processos sociais e técnicos se faz num tempo ficcional que não escapa da imagem do relógio cartesiano. E, claro, este tempo ficcional em algum lugar volta para o ponto zero. E entre meia noite e meio dia o mundo recomeça, sempre.
muito bom! “mas o relógio tá de mal comigo, por quê”?
– porque o(s) corpo(s)… nunca recomeçam de fato; apenas passam…
“dessincronia essencial”
excelente, como sempre!
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