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Droga de realidade: Alain Ehrenberg e a sociedade do dopping, por Gabriel Peters

O funcionamento sistêmico do capitalismo depende de um modelo de subjetividade ativa e "empreendedora", subjetividade que o próprio sistema se esforça por produzir por meios que vão da autoajuda até os psicofármacos

Por Gabriel Peters

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Empreendedorismo tardio

Dentre os diversos livros do sociólogo francês Alain Ehrenberg, nenhum é mais influente, imagino, do que La fatigue d’être soi: Dépression et Société (“A fadiga de ser si: depressão e sociedade”, ainda não traduzido para o português). Publicado em 1998, o livro é pioneiro em sua tentativa de elucidação sociológica da depressão tanto como experiência psíquica quanto como conceito psiquiátrico. Ehrenberg pensa o sofrimento depressivo à luz de um modelo de individualidade ativa e empreendedora ao qual todos nós somos, em maior ou menor grau, exortados a corresponder na sociedade contemporânea. Um dos veios mais fascinantes do livro consiste na sua demonstração de como, ao longo da segunda metade do século XX, o diagnóstico da depressão passa a dar menos ênfase à tristeza e ao mal-estar, ao passo que ganham centralidade sintomas relacionados à letargia, à inação e à incapacidade do indivíduo em “funcionar” adequadamente em domínios como o trabalho e os relacionamentos interpessoais. De maneira correlata, o tratamento clínico de quadros depressivos, potencializado pelo desenvolvimento de psicotrópicos (p.ex., a fluoxetina) desde o final dos anos de 1980, também passa a ser orientado menos para restituir ao indivíduo sua “felicidade” do que para “refuncionalizá-lo”; isto é, para recuperar nele aquela capacidade de “funcionamento” cotidiano. “O Prozac não é a pílula da felicidade”, conclui o autor, “mas a droga da iniciativa” (Ehrenberg, 2010: 188).  

Ehrenberg não é um marxista como Mark Fisher (2009), outro autor que se ocupou das fontes sistêmicas da depressão no capitalismo tardio; nem um foucaultiano como Nikolas Rose (1999; 2003), dedicado ao estudo da “governamentalidade neoliberal” como um conjunto de dispositivos heterogêneos pelos quais o capitalismo engendra formas de subjetividade que lhes sejam funcionais (p.ex., dispositivos que vão de planilhas de administração do tempo até, nos dias que correm, as ferramentas de avaliação dos aplicativos de entrega). Mergulhado em um contexto de pesquisa francês, contexto costumeiramente provinciano nas suas referências intelectuais, Ehrenberg também não dialoga muito com os sociólogos anglófonos da “modernização reflexiva” (Giddens), da “segunda modernidade” (Beck) ou da “modernidade líquida” (Bauman) que tão influentes foram nos anos de 1990. Isto dito, a despeito das diferenças nada desprezíveis entre as respectivas orientações analíticas dos citados, todos eles rastreiam a dependência que o funcionamento sistêmico do capitalismo atual possui em relação a um modelo de subjetividade ativa e empreendedora, subjetividade que o próprio sistema se organiza para engendrar através de meios diversos. 

Com base no retrato do “novo espírito do capitalismo” pintado por Luc Boltanski e Ève Chiapello, procurei, em outro texto, analisar as várias facetas contidas no imperativo da atividade como critério decisivo de valorização social do indivíduo na contemporaneidade. No mundo do trabalho, por exemplo, tais facetas incluem: a adaptabilidade como disposição contínua a reestruturar as próprias competências frente a um mercado em constante transformação; uma atitude “autônoma”, “corajosa” e “aventureira” diante de ambientes carregados de incerteza e risco; e o “conexionismo” (Boltanski e Chiapello, 2007: 461) próprio do trabalho em rede, em função do qual o indivíduo vende aos seus empregadores não somente um conjunto de habilidades profissionais stricto sensu, mas toda uma “personalidade” (ou, pelo menos, uma persona) cujos atributos de bom humor, leveza, solicitude, paciência etc. possam beneficiá-lo (p.ex., na forma de avaliações com cinco estrelas e suas consequências pecuniárias) (Vandenberghe, 2008). 

O imaginário do esporte no empreendedorismo de si

O processo de individualização na modernidade tardia não possui, portanto, apenas uma face “destrutiva”, como a que inclui a dissolução do estado de bem-estar e de garantias trabalhistas, mas também uma face “afirmativa”: os diversos dispositivos que as sociedades moderno-tardias passam a disponibilizar, embora de modo marcadamente desigual, aos indivíduos engajados na construção de si em resposta às suas condições de existência. A linguagem foucaultiana do “dispositivo” é útil para sublinhar a pluralidade de formas assumidas por aqueles suportes sociais da autorrealização individual, os quais vão da literatura de autoajuda até aplicativos digitais de administração do tempo, de um imaginário empreendedor que se alimenta de representações do esporte e da aventura até o suporte de psicofármacos como compensações para o “fracasso” de nossas competências naturais (p.ex., da capacidade de manter-se acordado ou de despertar a própria excitação sexual).  

Em O culto da performance ([1995] 2010), obra anterior ao livro que ele devotaria inteiramente à depressão, Ehrenberg se debruça primeiramente sobre as representações imaginárias mobilizadas na transformação dos indivíduos em “empreendedores de si” no capitalismo tardio. Ainda que o estofo empírico do seu trabalho seja pesadamente francês, vários de seus insights são transponíveis, a meu ver, para outras configurações sociais da modernidade líquida ou tardia. Como Bauman ou Beck, Ehrenberg pinta o retrato de uma “sociedade individualizada” (Bauman, 2001) na qual os indivíduos são crescentemente pressionados a desenvolver soluções biográficas para problemas sistêmicos (Beck, 1992: 137; Ehrenberg, 2010b: 74). Exemplos de tal conjuntura seriam o sucesso ou o fracasso em encontrar uma posição no mundo do trabalho em um contexto no qual o pleno emprego constitui uma impossibilidade estrutural. Conquanto o próprio mercado de trabalho inviabilize sistemicamente a distribuição de postos profissionais a todos os indivíduos em condição de trabalhar, o fracasso em alcançar um daqueles postos tende a ser lançado, mais ou menos exclusivamente, sobre os ombros dos indivíduos – o que explica por que o desempregado sofre não somente com a privação material de um salário, mas também com os estigmas simbólicos associados à sua “inutilidade” social . Dentre os empregados (no momento), a flexibilização da economia e do trabalho exerce, por seu turno, uma pressão individualizante em que a exploração desde fora dá lugar crescentemente a modalidades de “autoexploração” (Han, 2010), como na subordinação autogerenciada típica do emprego uberizado.  

Não se trata de dizer, por óbvio, que os indivíduos não percebem quaisquer similaridades nas suas aflições biográficas. Ao contrário, um olhar sobre matérias jornalísticas de aconselhamento pessoal e profissional ou sobre best-sellers de autoajuda é suficiente para trazer a lume quão semelhantes em natureza (ainda que brutalmente desiguais em intensidade) são os problemas enfrentados por indivíduos contemporâneos: como lidar com a escassez de tempo frente a tantas demandas profissionais e familiares, como administrar a energia física e psíquica necessária para tais jornadas, como recuperar o ânimo diante de sentimentos cotidianos de desmotivação etc. Não obstante, o próprio elenco desses problemas, como também a linguagem psicologizante na qual os apresentei, dão testemunho de que os modos dominantes de discuti-los e enfrentá-los não consistem na formação de coletivos voltados a enfrentar suas fontes sistêmicas no domínio político (p.ex., mediante legislação protetiva do tempo de lazer dos trabalhadores ou uma política de renda básica desvinculada do emprego). Aqueles modos reforçam, ao contrário, uma mensagem individualizante que, quando muito, mostra para indivíduos solitários e autorresponsáveis como outros indivíduos solitários e autorresponsáveis, vários dos quais competidores efetivos ou potenciais, se desincumbem de suas tarefas.  

Pois bem. Na medida em que os indivíduos que pretendam vender a si próprios no mercado de trabalho são instados a investir no desenvolvimento de suas competências, cientes de que estão em um ambiente de competição com tantos outros indivíduos fazendo o mesmo, o mundo profissional, juntamente com outras esferas da vida social, passa a ser profundamente influenciado por um imaginário do “esporte”. Se as práticas esportivas em sentido estrito cresceram de fato, em conexão estreita com modelos de subjetividade bem-sucedida que valorizam a “boa aparência” e a saúde física, ainda mais importante é a ascensão do esporte a inspiração ideológico-cultural de um “estilo de vida” e um “estado de espírito” (Ibid.: 17) – ascensão cuja manifestação mais recente é, aliás, a popularização dos “coaches” e do “coaching” no mercado do “desenvolvimento pessoal”.  Frente à necessidade de aquisição e refinamento contínuo das próprias competências em cenários altamente competitivos, não surpreende que muitos indivíduos procurem inspiração nos saberes associados ao treinamento esportivo, ainda que a transposição desses saberes à literatura de autoajuda misture, com frequência, um punhado de insights reais a um montão de crenças ilusórias. Assim, por exemplo, achados genuínos que advêm da análise científica de competências esportivas excepcionais (Ericsson, 1994), como o peso decisivo dos fatores “adquiridos” (nurture) em relação aos fatores “inatos” (nature) na sua aquisição, são comumente unidos, de maneira espúria, a ficções econômicas e políticas ultraliberais, como a ideia de que qualquer um pode ter sucesso caso se esforce o suficiente[i].

A “aventura” da sobrevivência

O esporte é explorado, antes de tudo, como fonte de forças motivacionais tidas como indispensáveis ao sucesso, tais quais a coragem para assumir riscos e a resiliência para “se levantar e tentar de novo” após fracassos e derrotas. Quando entrelaçado ao imaginário da aventura, tal discurso motivacional se orienta para transformar a crônica insegurança no capitalismo tardio em desafio desejável, a ser enfrentado com excitação por indivíduos imbuídos do espírito aventureiro. A depender da conjuntura, entretanto, o discurso róseo da aventura pode se transmutar no discurso sombrio do “sobrevivente”.  O componente crítico desse discurso, bem entendido, não envolve o ataque à lógica sistêmica da competição capitalista entre os indivíduos, mas a tentativa de desvencilhar-se de quaisquer ilusões sentimentais que impeçam um reconhecimento do mundo “como ele realmente é”, em sua brutalidade hobbesiana (Fisher, 2009: 16) . Embora Ehrenberg não o diga com essas palavras, há um continuum, no imaginário da aventura empreendedora, que vai da suposta justificação da meritocracia (“que vença o melhor!”) até uma cruenta “dramaturgia do sobrevivente” (2010: 41) cuja psicologia foi classicamente perfilada por Elias Canetti (2019): o prazer da sobrevivência (literal ou metafórica) não é somente o alívio de não ter “morrido” como vários outros, mas o gozo no orgulho da própria “força”, i.e., na sensação de que se é melhor do que aqueles na “pilha de cadáveres” (literal ou metafórica) em que se “pisa” (literal ou metaforicamente). O sucesso da série sul-coreana Round 6 (The squid game), produzida pela plataforma Netflix, não está, me parece, conectado apenas à sua alegoria da competitividade brutal no mundo do trabalho neoliberal, mas também no fato menos inocente de que o divertimento de quem assiste é, ao menos em parte, oferecido justamente pela identificação psíquica com personagens que vão sobrevivendo enquanto os outros sucumbem. A série, nesse sentido, não é apenas crítica social alegórica, mas também sintoma do próprio fenômeno que critica.

Rumo à sociedade do dopping

Quanto mais intensa e brutal é a competição, maior se torna a tentação – ou, em diversos casos, a necessidade vivida como incontornável – de recorrer a substâncias de apoio. Menos preocupado com “a oposição jurídica…entre produtos lícitos e ilícitos” do que com a “significação das práticas” (2010: 134) de utilização de drogas, Ehrenberg nota que, a partir dos anos de 1990, a cultura do individualismo empreendedorista em condições de alta competição se associou a uma significativa transformação nos propósitos que ditam o recurso aos psicotrópicos. O autor encontra, aqui, o que Kramer (1994: 246-249), alhures, denominou “neurofarmacologia cosmética”: um uso de psicotrópicos regulado não pela intenção de tratar uma síndrome ou “doença”, mas, sim, de otimizar as próprias capacidades frente aos desafios do mundo, capacidades tais como o controle da ansiedade na sociabilidade com colegas de trabalho ou a manutenção da concentração durante tarefas prolongadas. 

Nos anos de 1970 e 1980, fosse na associação estigmatizante com populações marginais (p.ex., moradores de rua), fosse como gesto político de ruptura com um mundo rejeitado em bases morais (p.ex., em comunidades do movimento hippie), as drogas tendiam a ser representadas e experimentadas, diz Ehrenberg, como meios de evasão da realidade sócio-histórica. Tal evasão podia ser negativamente pensada como alienação ou fuga frente a um real vivido como insuportável (p.ex., no caso do indivíduo que não consegue largar o vício a despeito da destruição que ele acarreta nas várias dimensões de sua existência) ou positivamente retratada como transporte para uma experiência iluminada de si e do mundo (p.ex., no caso de usuários de LSD em uma comunidade contracultural). Os dois casos contrastam juntos, ainda assim, com uma conjuntura na qual os psicotrópicos são mobilizados não como ferramentas de escape às circunstâncias sociais em que o sujeito se vê imerso, mas, ao contrário, de adequação intensificada às suas demandas. A ritalina consumida por uma pesquisadora com tempo limitado para enviar seu paper a uma publicação prestigiosa; o rebite consumido por um motorista de caminhão que enfrentará horas de estrada; o ansiolítico não soporífero consumido pela empresária que fará uma apresentação importante aos seus chefes; a fluoxetina que restitui ao indivíduo seu ânimo para trabalhar, após um período de depressão severa no qual mesmo levantar da cama se tornara um esforço hercúleo – em todos esses casos, as drogas não servem para promover uma fuga à dura realidade (p.ex., a concorrência brutal com competidores intensamente motivados), mas para fortalecer o indivíduo em sua disposição e capacidade de enfrentá-la. A droga funciona como dopping (2010: 134-135).

 Ao diferenciar os dois regimes de funcionamento da droga – um voltado à fuga do real, outro a uma integração mais eficaz a ele -, Ehrenberg se vale da fórmula “Do ópio do povo à sociedade dopada”[ii] (Ibid.: 135; tradução brasileira). A primeira expressão, obviamente derivada da crítica marxiana ao papel alienante da religião, aponta para as drogas como frequentes “substitutos seculares” do anseio por uma transcendência em relação aos sofrimentos enfrentados “neste” mundo, transcendência oferecida por alguma espécie de transporte experiencial, mesmo que efêmero, a uma realidade alternativa. Quanto à segunda expressão, relativa ao regime de uso de psicotrópicos característico do capitalismo empreendedorista, talvez fosse melhor vertê-la, diferentemente do que fez a tradução brasileira do texto de Ehrenberg, por “sociedade do dopping”. Ao passo que a ideia de “dopado” ainda pode remeter a imagens do sujeito anestesiado ou grogue devido a uma substância, a referência ao dopping, oriunda do universo esportivo, tem uma conotação imediata: a droga como incremento das próprias capacidades em cenários altamente competitivos (Ibid.: 139).

O leque de motivações que levam a uso de psicotrópicos, como dispositivos perfectibilistas em um mundo competitivo, poderia se desdobrar em diferentes sentidos. O primeiro deles consiste, nas palavras de Ehrenberg, em recorrer a “um meio artificial quando…o ‘natural’ fracassa” (Ibid.: 134). Tendo decidido engajar-se na competição desassistido por esses meios artificiais, o indivíduo experimenta “fracassos” provocados pelo funcionamento corporal em sua “naturalidade”: a atenção se desconcentra; a motivação é corroída; o corpo não acorda a contento quando necessário, nem imerge no sono em momento devotado ao descanso etc. Ele conclui, então, que só poderá competir realisticamente caso auxiliado por instrumentos farmacológicos, como aqueles que o imbuem de doses extras de concentração e ânimo motivacional ou o levam a versões mais rápidas, eficazes e intensas do acordar e do dormir[iii]. Poder-se-ia imaginar um segundo caso em que os fracassos do corpo desassistido pelo dopping (lato sensu) não são diretamente vividos, mas antecipados e “prevenidos” de antemão. Faz parte da própria natureza das pressões societais por um desempenho melhorado por psicotrópicos que o primeiro caso citado tenda frequentemente a se dissolver, do ponto de vista empírico, no segundo. Afinal, quantas noites não ou mal dormidas são necessárias para levar o sujeito à conclusão de que se trata de um problema médico que reclama uma solução farmacológica (p.ex., Rivotril, Frontal, Patz)? Mutatis mutandis, a pergunta poderia ser feita a outras ocasiões em que “o ‘natural’ fracassa”, como em dificuldades de atingir a ereção no sexo ou de concentrar-se em uma tarefa cognitivamente desafiadora. Em suma:

O caráter massivo do consumo de medicamentos psicotrópicos, a multiplicidade de problemas aos quais se supõe que ela responda pelos indivíduos sugerem que uma lógica de modificação de estados de consciência, ao mesmo tempo muito disseminada e nova, esteja em ação na sociedade. Muito disseminada, pois alcança populações estatisticamente sem comparação com aquelas envolvidas com usos de estupeficantes e alucinógenos; nova, na medida em que rompe com o imaginário do desvio e da insegurança que organiza a percepção social das outras drogas. Se as drogas tradicionais nos permitem fugir para a irrealidade, os medicamentos psicotrópicos estão aí para nos fazer enfrentar a realidade. O romantismo da droga não é o da fuga da realidade, mas sobretudo, de agora em diante, o dos meios para se colocar em pé de igualdade com o outro na concorrência. Os estimulantes da sociedade concorrencial são drogas de integração social e relacional. Os medicamentos psicotrópicos são assimiláveis a práticas de modificação de estados de consciência de indivíduos impelidos a ser inteiramente responsáveis por seus destinos[iv]. (…) Do mesmo modo que com as dopagens esportivas, eles são um meio de reforçar as capacidades corporais e psicológicas a fim de melhor enfrentar a competição. (…) A dificuldade de alcançar a autonomia é então simultaneamente esvaziada pelos meios artificiais e disfarçada pelo cuidado de oferecer a imagem da autonomia, do dinamismo ou do autocontrole” (2010: 142-143).

Sucesso com filtros

O comentário final é relevante, pois sublinha o entrelaçamento da performance efetiva do alto desempenho com a persona teatralizada do performer de alto desempenho: “a dopagem depende também, no mesmo título que a estética corporal, de uma antropologia da aparência” (Ibid.: 168).  Segundo o modelo apresentado em seriados e filmes, além de encarnado por celebridades, o atributo de “bem-sucedido” envolve a aparência de “bem-sucedido”: realizações impressionantes tendem a se tornar signos de sucesso apenas quando seus preços não aparecem ostensivamente na face dos realizadores (p.ex., na forma de uma fisionomia maltratada pela hiperexigência), mas, ao contrário, coexistem com atributos de “jovialidade”, “beleza” e “leveza”. Os selves deliberadamente apresentados nos perfis das redes sociais emergem como mais uma faceta dessa “administração da impressão” (Goffman) tornada inseparável do empreendedorismo de si – da rica celebridade no Instagram até o indivíduo atualmente desempregado que, interessado em ser contratado por chefes prospectivos, posta no LikedIn uma carta elogiosa sobre o seu antigo chefe (o mesmo que o demitiu).  Juntamente com esses outros meios artificiais, os psicotrópicos auxiliam no trabalho de manutenção das aparências que é crucial para que o desempenho não seja manchado, aos olhos dos outros, pela embaraçosa exposição dos seus custos à vida do indivíduo – por exemplo, ao tomar o remédio para dores oriundas da gastrite antes e durante o trabalho, o indivíduo oculta, dos colegas e dos chefes, que sua gastrite é, em boa medida, um efeito daquele mesmo trabalho. 

Conclusão

Supor que as reflexões de Ehrenberg sobre a sociedade do dopping desemboquem em uma condenação moralista do recurso individual a quaisquer substâncias de apoio, condenação amparada em alguma espécie de metafísica gratiluz do “natural”, é perder de vista o essencial. Na medida em que esses mecanismos de individualização competitiva possuem uma fonte sistêmica, eles só podem ser propriamente discutidos e manejados em um âmbito também sistêmico e, portanto, político. Eis uma dimensão em que Ehrenberg pode ser posto em diálogo com outros observadores da individualidade contemporânea, como Jonathan Crary e Mark Fisher.

Mas isto é assunto para outro post.  

Notas

[i] É oportuno o lembrete de Silvio Almeida (2021) quanto ao viés ideológico inerente à cobertura de conquistas olímpicas na mídia brasileira. Em vez da lição óbvia a extrair do quadro geral de medalhas, os quais evidenciam as bases coletivas do sucesso esportivo de países como China e Estados Unidos, muito da cobertura midiática se orienta para o reforço da crença de que o triunfo olímpico resulta de iniciativas individuais que, se forem suficientemente intensas, superarão quaisquer adversidades: “Chama a atenção o esforço para que cada medalha olímpica seja celebrada como uma conquista da superação individual. A medalha parece se tornar ainda mais saborosa quando o pescoço que a carrega for de alguém que não teve apoio, patrocínio ou que treinou em condições precárias. No fim das contas, esse atleta serve como pretexto para a defesa de que nada é mais decisivo para o bom resultado de um atleta do que o esforço individual. (…) São trajetórias singulares e que muito nos orgulham, mas que, diante do que o país oferece à maioria dos atletas, confirmam a exceção, e não a regra. Basta ver o quadro geral de medalhas. Os líderes China e EUA investem pesadamente na formação de atletas. Por trás das inúmeras medalhas desses países há políticas de Estado que orientam a articulação entre os setores público e privado, tanto na formação dos atletas como no desenvolvimento de tecnologias esportivas” (Almeida, 2021).

[ii] Embora embalem sua sagacidade “sociológica” em prosa demagógica, defensores de um manifesto anônimo publicado em defesa do dopping bem compreenderam a passagem sócio-histórica da “percepção tradicional da toxicomania” ao “consumo de medicamentos psicotrópicos” (Ehrenberg, 2010b: 144). Em vez de pintarem esse contraste como uma mudança coletiva na relação com as drogas, entretanto, os autores anônimos do “Guia dos 300 medicamentos para se superar física e intelectualmente” buscam fixá-lo em uma distinção semântica que opõe a “droga” rejeitada ao “dopping” entusiasticamente abraçado: “Dopar-se não é se drogar. Drogar-se significa uma rejeição, uma recusa do mundo real, uma busca suicida, uma fuga insana nos limbos imaginários da despersonalização. Dopar-se, no mundo moderno, representa um processo de integração às vezes indispensável, uma arma para enfrentar o real” (apud Ehrenberg, 2010b: 144).   

[iii] Não posso desenvolver este ponto aqui, mas a referência ao “acordar e dormir”, cuja tradução farmacológica se encontra nos indivíduos que alternam entre os estimulantes para a vigília e os ansiolíticos para o sono, já sugeriria, a meu ver, que os dois regimes de uso de drogas esquadrinhados por Ehrenberg conformam menos uma sequência histórica do que um espaço de coexistência e, por vezes, até de complementaridade: o “dopping de realidade” não impede o recurso também frequente a fármacos voltados à evasão da realidade e ao “desaparecer de si” (Le Breton, 2018).

[iv] O sabor existencialista da fórmula é irônico, considerando-se o quanto a extraordinária energia intelectual de Sartre deveu, sabemos hoje, a auxílios neuroquímicos como a anfetamina (Cohen-Solal, 1986).

Referências

ALMEIDA, S. “Olimpíadas, superação e vida precária. Fantasia da superação serve para justificar um país que abandona os pobres”. Folha de São Paulo, 5 ago 2021. [https://www1.folha.uol.com.br/colunas/silvio-almeida/2021/08/olimpiadas-superacao-e-vida-precaria.shtml ]. 

BOLTANSKI, L; CHIAPELLO, È. The new spirit of capitalism. London: Verso, 2007.

CANETTI, E. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. 

COHEN-SOLAL, A. Sartre: uma biografia. São Paulo: L & PM, 1986.

EHRENBERG, A. The weariness of the self: diagnosing the history of depression in the contemporary age. Montreal: McGill-Queen’s University Press, 2010a.

________O culto da performance. Organização e tradução de Pedro F. Bendassolli. Aparecida: Ideias & Letras, 2010b.

ERICSSON, A. Expert performance: its structure and acquisition. American Psychologist, v.49, n.8, p. 725-747, 1994. 

FISHER, M. Capitalist realism. Winchester: Zero Books, 2009

HAN, B.C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. 

KRAMER, P. Listening to Prozac. New York: Viking, 1994.

LE BRETON, D. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018.

ROSE, N. Governing the Soul. London: Free Association Books, 1999.

ROSE, N. “Neurochemical selves”. Society, p.1-14, 2003.

VANDENBERGHE, F. “Deleuzian capitalism”. Philosophy and social criticism, v. 34, n. 8, p. 877-903, 2008.  

Como citar este artigo: PETERS, Gabriel. Droga de realidade: Alain Ehrenberg e a sociedade do dopping. Blog do Labemus, 2022 [publicado em 22 de junho de 2022]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2022/06/21/drogaderealidade/ 

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