Por Gabriel Peters
Capitalismo bipolar (e socialismo para bancos em depressão)
Em um ensaio de 2005 publicado nesse blog, ensaio cujos trechos fundamentais reapareceriam no livro Realismo capitalista [2009], o crítico cultural Mark Fisher tratou dos vínculos entre capitalismo e transtorno bipolar. Assim falou Fisher:
“O capitalismo é caracterizado por uma oscilação entre a mania hiperestimulada (a exuberância irracional do ‘pensamento de bolha’) e a queda depressiva. (O termo ‘depressão econômica’ não é um acidente). Em um grau sem precedentes em qualquer outro sistema social…, o capitalismo tanto se alimenta dos humores das populações quanto os reproduz. Sem delírio e confiança, o capital não poderia funcionar. [O economista] Christian [Mazzari] confirmou estar…trabalhando com pessoas que haviam sido ‘psicologicamente esmagadas’ pelo capitalismo, muitas das quais, como acabou se revelando, tinham efetivamente desenvolvido transtorno bipolar. Dificilmente seria negável que há um relacionamento isomórfico entre os transtornos sociais e individuais do capitalismo”
O intervalo que foi do ensaio fisheriano de 2005 ao seu livro de 2009 incluiu, por óbvio, a catástrofe econômica de 2008, alimentada pelo ímpeto “maníaco” do mercado financeiro nos anos anteriores. Uma ideia profética desse ímpeto também já aparecia, em 2007, na obra Bipolar expeditions (Expedições bipolares), livro em que a antropóloga estadunidense Emily Martin mapeava representações da mania e da depressão na cultura estadunidense (2007). Devido ao alcance global das orientações ideológicas e sistemas de práticas vigentes nos Estados Unidos, as considerações da autora se aplicavam, creio eu, a diversas outras sociedades capitalistas do globo.
Isto se estendia à descrição de como atributos comumente associados pela psiquiatria ao estado maníaco do transtorno bipolar (Jamison, 1996; 2009) eram encorajados e celebrados em domínios societais como o mercado financeiro e o sistema político: do “dinamismo” excepcional por trás do carisma de líderes políticos ou de homens e mulheres de negócios até a suposta conexão entre loucura e criatividade artística genial. As marcações diferenciais de classe, raça, gênero etc. inerentes a tais classificações não escaparam à autora. Como já vimos em discussão sobre a dinâmica do preconceito, o que é visto como “virtude” em uma categoria privilegiada pode se transmutar em “vício” quando percebido em um grupo estigmatizado. Assim, por exemplo, os mesmos comportamentos que, no bilionário, são admirados e recompensados como “excentricidades disruptivas” se transformam, quando identificados no pobre da esquina, em “maluquice” e “bagunça” a serem combatidas com repressão.
Seja como for, tanto Martin quanto Fisher nos convidaram a alargar analogicamente o transtorno bipolar para uma escala civilizacional – e não apenas pelo fato de que os próprios economistas deram a catástrofes econômicas o nome sintomático de “depressão”. Como o indivíduo que, ao mergulhar no estado depressivo, descobre que acumulou uma enorme dívida pela contração “maníaca” de empréstimos, os efeitos devastadores da crise de 2008 podem ser lidos como a “conta” civilizacional da valorização ideológica da “mania” financeira que acompanhou tanto da irresponsabilidade capitalista nos anos pregressos.
Aqui, porém, emerge um contraste tragicamente importante: diferentemente do indivíduo que arca com os custos de sua (ir)responsabilidade financeira, as soluções sistêmicas à crise do capitalismo, como o auxílio do estado a bancos quebrados que haviam quebrado milhões de pessoas junto com eles, tenderam a premiar seus causadores, socializando o pagamento daquela conta para os comuns dentre os mortais.
Como é estar em mania? Esboço de fenomenologia
Pensada do ponto de vista fenomenológico[i], a oposição entre mania e depressão pode ser aproximada a uma versão psicológica da relação entre agência e estrutura; mais especificamente, à relação sentida que o indivíduo mantém com as possibilidades e limites de ação que seu mundo circundante parece lhe oferecer. Já se sublinhou que a ambiguidade da noção de “sujeito” possui um significado antropológico. O sujeito humano é ativo e passivo: um “sujeito de”, na medida em que é um agente capaz de produzir efeitos na realidade mediante suas ações, mas também “sujeito a” todo um conjunto de influências que essa mesma realidade lhe impõe, inclusive contra a sua vontade.
É provável que alguma dose de ilusão sobre os graus precisos em que se é “agente” e “paciente”, nas próprias circunstâncias de vida, seja um componente universal da condição humana. Podemos errar na estimação de nossas possibilidades, de nossos limites ou de ambos (por exemplo, a depender dos graus variáveis de autoconfiança que demonstramos em diferentes esferas da vida). Ainda assim, é útil compreender certas psicopatologias em termos de como elas distorcem, para além de parâmetros “normais”, a apreciação que o indivíduo faz das suas próprias capacidades e restrições na relação com o mundo. Nas experiências psicóticas que designei como formas vividas de “objetivismo” e “subjetivismo”, por exemplo, a relação entre as dimensões ativa e passiva da subjetividade é empurrada para dois extremos antípodas: o “objetivismo vivido” envolve o senso de uma perda absoluta ou quase absoluta da própria agência, como nos sintomas psicóticos em que o sujeito sente que suas ações, pensamentos e sentimentos não derivam dele, mas de alguma outra entidade (p.ex., “a máquina influenciadora” [Tausk, 1992]); o “subjetivismo vivido” implica a distorção reversa, com o senso da própria agência sendo ampliado a ponto, por exemplo, de tornar a existência do universo inteiro, segundo a concepção delirante do indivíduo em psicose, dependente dos seus pensamentos.
Pode-se compreender a depressão e a mania como versões respectivas de tais distorções na relação passiva e ativa do sujeito com o mundo que o circunda – distorções menos extremas, no mais das vezes, do que as formas anteriormente citadas de psicose. Na depressão, o senso de si como um agente capaz de produzir efeitos na realidade é diminuído e crescentemente substituído por uma concepção do mundo como fonte exclusiva de dificuldades e impedimentos à própria iniciativa. No estado de mania, por outro lado, a percepção de limites inerentes à inserção humana no real é que tende a ser sobrepujada por uma concepção inflada da própria capacidade de iniciativa, bem como da abertura e da “maleabilidade” do mundo a tal capacidade.
Na depressão, os impulsos de ação e projeção de si no mundo, quando ocorrem, tendem a ser contrabalançados ou suprimidos por mecanismos psíquicos internos – à maneira daquele superego impiedoso que massacra o ego na psique melancólica segundo Freud (2010). Na condição maníaca, em contraste, a tradução dos impulsos ativos e expansivos em ação é tornada quase imediata, com a diminuição ou desaparição de escrúpulos deliberativos quanto às potenciais consequências negativas dessas condutas impulsivas e expansivas, movidas por uma espécie de “euforia vital” (Fuchs, 2019: 763) propensa a não levar riscos e limites suficientemente a sério.
Na intensidade mais grave da condição depressiva, a orientação ativa para o futuro é bloqueada, dando lugar a um confinamento existencial em um presente opressivo do qual não se tem esperança de sair. Na condição maníaca, por seu turno, o presente tende a ser vivido como insuficiente e incompleto, com o indivíduo projetando-se sempre no que ainda está por vir. Em vez da lentidão prática da depressão, a mania induz o sujeito à aceleração inquieta. Nas palavras do psiquiatra-fenomenólogo Thomas Fuchs: “o presente nunca é suficiente, mas virtualmente marcado pelo que ainda falta ou o que seria possível; o interesse é sempre distraído em favor da próxima coisa por vir” (Ibid.).
A orientação do indivíduo em mania para o futuro é agitada, pois marcada por uma impaciência em torná-lo presente o quanto antes – uma atitude que tende a atrapalhar objetivos de longo prazo. Tal como acontece com seus “projetos” ambiciosos, o interesse do sujeito por outras pessoas também pode ser despertado e, com a mesma velocidade, descartado e substituído por focos distintos. A propensão a voltar-se para possibilidades sempre novas também leva a uma relação descontínua com o passado, o qual se transmuta em desinteressante ou é esquecido tão logo novos estímulos provoquem a atração do indivíduo. Fuchs conclui que “tudo isso leva a uma vida momentânea, consistindo em ‘agoras’ isolados que não permitem o desenvolvimento sustentado e a conclusão de projetos” (Ibid.).
Mania civilizacional?
Várias das experiências e condutas que acompanham a mania no transtorno bipolar são favorecidas por características sistêmicas do atual capitalismo, as quais operam como influências sociais sobre as psiques individuais. Vejamos.
Em primeiro lugar, não se trata de deslizar para a sugestão absurda de que o mundo social contemporâneo empurraria todos os indivíduos para a mania em sentido clínico. Em segundo lugar, sustentar que a mania é influenciada por causas sociais também não significa supor que ela seja inteiramente provocada por tais causas, desconsiderando a possibilidade, por exemplo, de propensões genéticas ao desenvolvimento desse transtorno mental – embora o fator genético tenda a ser inflado, em detrimento da importância de fatores sociais, nas percepções hegemônicas dessa condição psíquica. O principal propósito aqui é, por enquanto, sublinhar que a fenomenologia da experiência maníaca possui semelhanças marcadas com modos de existência subjetiva característicos da modernidade tardia – semelhanças que sugerem uma influência social ou “sociogênica”.
Um exemplo está na superprodução de estímulos informacionais: da sucessão de notícias em canais de televisão à sequência veloz e potencialmente infinita de vídeos no Tik Tok. Essa “ecologia da atenção” (Citton, 2017) condiciona o indivíduo a uma experiência temporal em que o foco presente é rapidamente deslocado para o passado, devido ao estímulo futuro que está por vir. A rápida sucessão de conteúdos, como aquela da sequência de reels em uma plataforma como o Instagram, tem alguma similaridade com a alta velocidade com que o pensamento funciona na condição maníaca, saltando velozmente de um interesse para outro: “os objetos parecem se fundir, fluir uns para os outros. As formas mudam. Uma coisa ordinária pode se transformar em outra coisa e, daí, em alguma outra coisa” (Martin, 2007: 216).
Como vimos com Hartmut Rosa, o “presentismo” radical que chega ao paroxismo na mania é o mesmo que consiste, em intensidades menores, na modalidade dominante de vivência do tempo em um cenário social de transformação acelerada como o nosso: expectativas e competências adquiridas no passado se tornam rapidamente obsoletas no presente, ao passo que os contornos do futuro se mantêm em um horizonte de imprevisibilidade radical – a não ser nas intimações do apocalipse.
O imperativo da atividade contínua, constitutivo das formas de subjetividade empreendedorista encorajadas pelo capitalismo tardio, também encontra seu máximo de intensidade, assim como seus efeitos patentemente disfuncionais, na condição maníaca. As incontornáveis necessidades de sono e descanso do corpo tendem a ser minimizadas e ignoradas, em uma experiência da própria corporeidade que inflaciona suas possibilidades de ação (vigília, movimento etc.), enquanto subestima seus limites e vulnerabilidades.
A forma de subjetividade recompensada pelo capitalismo tardio encontra um de seus principais “capitais” na adaptabilidade. Na medida em que as condições de trabalho se transformam rápida e significativamente, a disposição camaleônica em modificar a si mesmo, em resposta ao ambiente, é altamente valorizada. Sob esse ponto de vista, a “instabilidade” dos interesses, entusiasmos e atividades que caracteriza a mania é uma espécie de radicalização, até o ponto da disfuncionalidade, desse traço socialmente apreciado como “capital profissional”. Junte-se a isso a redução ao mínimo das horas de sono, a inflação das ambições ou a propensão a pensar “fora da caixinha” (um componente da fenomenologia da mania assim como um slogan da ideologia da inovação capitalista).
O imperativo “conexionista” inerente aos modelos de individualidade hegemônicos no capitalismo tardio tende, em virtude do próprio caráter “flexível” desse sistema social, a favorecer a quantidade, a variedade e a “lucratividade” (em sentido amplo) das conexões e redes nas quais o indivíduo se insere. Na medida em que a flexibilidade da economia e do trabalho, assim como a “liquidez” (Bauman) que perpassa as demais esferas da vida, tendem a obstar compromissos de longo prazo em favor da sucessão de novos “projetos” com suas respectivas “equipes”, as conexões sociais tendem a ser tão mais valorizadas em virtude da sua extensão (p.ex., quantas pessoas podem ser ativadas), multiplicidade (p.ex., seu espraiamento por diferentes regiões ou por distintas esferas profissionais) e potencial de “capitalização” (lato sensu), relativo às vantagens materiais e imateriais propiciadas por aquelas conexões (p.ex., do acesso a dinheiro à multiplicação de seguidores).
Não é difícil intuir que, em um mundo atravessado por mudanças rápidas, o feitio desses relacionamentos amplos, variados e mutuamente vantajosos pode atuar como obstáculo à durabilidade e à profundidade dos laços entre as pessoas neles imersas. Nesse ponto, a mania intensifica uma tendência característica do espírito do tempo: “ainda que a pessoa maníaca constantemente aborde e procure [outras pessoas], ela rapidamente perde seu interesse…e nenhuma conexão afetiva profunda surge como resultado” (Fuchs, 2019: 763).
Conclusão (com um aceno a Byung-Chul Han): mania como “excesso de positividade”
Como os exemplos indicam, a intensificação maníaca de atributos da subjetividade “normal” encorajada pelo capitalismo ocorre em relação aos dois modelos de individualidade que discutimos em ensaio anterior sobre o chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH): o modelo perfectivo da autorrealização pelo “sucesso” e o modelo hedonista da autorrealização via riqueza e variedade de experiências. O imperativo da atividade que caracteriza o modelo “perfectivo” de autorrealização individual, baseado no melhoramento (enhancement) de si com vistas ao sucesso em múltiplas arenas, aparece na proliferação e sucessão maníaca de “projetos” ambiciosos (ainda que rapidamente abortados). A exortação “pós-neurótica” (Ehrenberg, 2000) ao “gozo” (Zizek, 1999) também encontra sua versão hiperintensa no comportamento maníaco, marcado por um hedonismo impulsivo que atropela preocupações com potenciais consequências negativas (p.ex., em relação ao uso de drogas, conduta sexual etc.).
Como vimos, Mark Fisher apontou que a experiência histórica do capitalismo, sobretudo a partir de sua crescente financeirização, é similar àquela do transtorno bipolar, na medida em que períodos de entusiasmo febril acompanhados de atividade intensa (e frequentemente irresponsável) dão lugar, mais cedo ou mais tarde, a períodos de “depressão” no qual o sistema econômico tem de lidar com as penosas consequências da “mania” anterior. Sem entrar em detalhes quanto à interação entre fatores genéticos e ambientais na etiologia do transtorno bipolar, podemos até reconhecer que uma oscilação biopsíquica “autônoma” entre mania e depressão é constitutiva dessa condição, desde que acrescentemos que tal oscilação nunca se dá em um vácuo experiencial (isto é, social e biográfico). Sob esse aspecto, o sofrimento depressivo que se segue à fase maníaca no transtorno bipolar é ainda mais similar aos ciclos históricos diagnosticados por Fisher. Por quê? Porque a depressão do indivíduo bipolar, mesmo quando desencadeada por uma dinâmica “interna”, é terrivelmente intensificada pelo fato de que ele agora tem de lidar com os efeitos negativos de suas ações na mania, como relacionamentos destruídos, empregos perdidos e dívidas financeiras contraídas em meio à expansividade eufórica.
Dito isto, é importante não ignorar, uma vez mais, os tantos traços de comportamento maníaco que, descritos em abstrato, soam não apenas “normais” como positivos: entusiasmo, ambição, criatividade, responsividade à mudança etc. Ao reservar a noção de “mania” aos casos em que tais traços ultrapassam o limiar do socialmente aceitável, o discurso psiquiátrico deixa de notar as continuidades entre os modelos capitalistas de subjetivação e o modelo psiquiátrico da subjetividade maníaca: o fato de que a diferença entre esta e aqueles não é de natureza, mas de grau. Um traço de comportamento pode ser benéfico (segundo algum critério) até certo ponto, quando então começa a se tornar prejudicial, à maneira de uma curva em “U” invertido:
A relação entre subjetividade empreendedora e subjetividade maníaca pode se encaixar nesse modelo – por exemplo, a capacidade e a disposição em saltar de um novo projeto para outro ou de um novo relacionamento para outro, quando se torna demasiado rápida até mesmo para um sistema que já está hiperacelerado, deixa de ser um capital para se tornar uma desvantagem, como no caso do indivíduo que não permanece tempo suficiente em qualquer projeto para levá-lo a efeito (Cavalcanti, 2023).
Nesse sentido, a mania se encaixaria naquilo que Byung-Chul Han caracterizou como “patologias do excesso de positividade”: cair na mania não acontece como um “desvio” em relação às subjetividades empreendedoristas e hedonistas (perfectivas e consumistas) que somos exortados a ser, mas, ao contrário, como uma radicalização de tais orientações (inclusive até o ponto em que elas se tornam excessivas e, portanto, disfuncionais). Finalmente, ainda que tenhamos deixado de lado uma discussão crítica mais detalhada sobre rótulos, não devemos desconsiderar a indulgência com que comportamentos maníacos são tratados quando advêm de certos personagens e grupos – como Elon Musk ou a turma do submersível do Titanic.
Nas palavras do psiquiatra Peter Whybrow recuperadas por Emily Martin (2007: 2017):
“É apenas quando passamos dos limites e criamos um tipo de…self socialmente destrutivo que todo mundo…e diz ‘Ah, isso é terrível’, daí vem a estigmatização. (…) isto distingue o transtorno bipolar daquele comportamento exatamente idêntico, mas que não chega às mesmas intensidades por alguma razão. Minha própria sensação é a de que há uma parte da cultura que alimenta…a escalada [da mania]” (Ibid.: 217).
Feitas todas as ressalvas anteriores, é minha sensação também, como era a de Mark Fisher.
Notas
[i] O termo “fenomenologia” se tornou comum até mesmo no discurso da neurociência e da psiquiatria, ainda que certamente fora de qualquer conexão estrita com as perspectivas filosóficas historicamente associadas à palavra – de Edmund Husserl até Simone de Beauvoir, passando por Martin Heidegger, Jean-Paul Sartre e Maurice Merleau-Ponty. Em vez de um uso filosófico técnico, a palavra é frequentemente mobilizada, no linguajar neurocientífico e psiquiátrico, como sinônima de “experiência vivida” – por exemplo, em referências à “fenomenologia da experiência psicodélica” ou à fenomenologia da esquizofrenia (no estranhamento de si, no estranhamento do mundo ou na escuta de vozes, digamos). Isto dito, também já existe um campo bem consolidado de “psicopatologia fenomenológica” no sentido mais técnico da expressão (Peters, 2017; Stanghellini et al., 2019). Ela é entendida não como fidelidade ortodoxa a um ou outro programa fenomenológico “autoral” (p.ex., o do Heidegger de Ser e tempo ou o do Sartre de O ser e o nada), mas como uma aplicação sistemática de insights filosóficos oriundos da tradição fenomenológica, em suas diversas manifestações, na elucidação da(s) psicopatologia(s) como experiência(s) vivida(s). Um dos traços em que a análise fenomenológica das psicopatologias dá continuidade às suas fontes filosóficas é a preocupação com as estruturas básicas da experiência consciente e, por conseguinte, com os modos pelos quais elas são afetadas em vivências psicopatológicas: corporeidade, temporalidade, espacialidade, autoidentidade, intersubjetividade e assim por diante.
*Agradeço a Maria Sávia Nascimento, Moisés Mendes e Victor Pimentel por seus comentários a uma primeira versão deste ensaio.
Referências
CAVALCANTI, Pedro Chalegre. “A mania na corda-bamba: entre a subjetivação neoliberal maníaca e a condição de sofrimento psíquico”. Trabalho final na disciplina “Leituras sociológicas sobre o sofrimento psíquico na contemporaneidade”. Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco, 2023.
CYTTON, Yves. The ecology of attention. London: Polity Press, 2017.
EHRENBERG, Alain. La fatigue d’être soi: dépression et société. Paris: Odile Jacob, 2000.
FREUD, Sigmund. “Luto e melancolia”. In: Obras completas. Volume 12. Tradução de Paulo César Sousa. São Paulo: Martins Fontes, 2010, pp.170-194.
FUCHS, Thomas. “Phenomenology of mania”. In G. Stanghellini & M. B. Smith (Eds.), The Oxford handbook of phenomenological psychopathology (pp. 762-771). Oxford University Press, 2019.
JAMISON, Kay Redfield. Touched with fire: Manic-depressive illness and the artistic temperament. Free Press, 1996.
________Uma mente inquieta. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
LUNA, Letícia Maria. “Entre a euforia e a melancolia: pessoas com transtorno bipolar e o mundo do trabalho”. Trabalho de Conclusão de Curso. Graduação em Ciências Sociais na UFPE, 2022.
MARTIN, Emily. Bipolar expeditions: mania and depression in American culture. Princeton, NJ: Princeton University Press, 2007.
PETERS, Gabriel. A ordem social como problema psíquico: do existencialismo sociológico à epistemologia insana. São Paulo: Annablume, 2017.
STANGHELLINI, Giovanni ET AL. The Oxford handbook of phenomenological psychopathology. Oxford: Oxford University Press, 2019.
TAUSK, Victor. “On the origin of the ‘influencing machine’ in schizophrenia”. The Journal of Psychotherapy Practice and Research, v.1, n.2, p. 185-206, 1992.
ZIZEK, Slavoj. “You may!”. London Review of Books, 21 (6), 3-6, 1999.



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